As Ricas Horas do Duque de Berry

As Ricas Horas do Duque de Berry
As Ricas Horas do Duque de Berry. Produção dos irmãos Limbourg - séc. XV. Mês de outubro

quinta-feira, 17 de março de 2016

Brasil - uma crise da democracia e dos valores republicanos



República, palavra que significa o “bem de todos”. Democracia, palavra que significa o “governo do povo”. No entanto, ambas correm perigo. Porque ?

Em primeiro lugar, existe um processo de tentativa de golpe em curso que usa o argumento do combate à corrupção para justificar seu autoritarismo e tal ação visa depor um governo democraticamente eleito, ameaça os direitos vigentes no Estado de Direito e coloca uma sombra sobre o exercício imparcial da justiça para todos os cidadãos.

No entanto, o interesse que tem prevalecido é um vale-tudo do poder pelo poder: decisões parciais visando coagir o governo, abuso de autoridade, desrespeito à Constituição, uso indevido da autoridade para coagir cidadãos. Há também a "indignação coletiva", como por exemplo em São Paulo: escândalo de corrupção no Metro e CPTM, severa crise de abastecimento de água, roubo de merenda escolar, fechamento de escolas e nada disso é capaz de movimentar a sociedade paulista e levá-la em massa para as ruas. Porém, se for para protestar contra o Governo Federal, lá vão os "paulistanos patriotas" contra a "ditadura comunista".

Os estudantes da rede pública do estado de São Paulo foram duramente massacrados pela PM por "obstruir as ruas" entre novembro/dezembro de 2015, mas hoje (17/03/2016) a Av. Paulista amanheceu fechada por uma concentração de manifestantes contra o Governo Federal na frente da FIESP e tudo bem: as duas pistas da avenida foram fechadas, a PM isolou e apenas ficou observando os manifestantes. Tudo muito imparcial... Mas e se fosse o contrário?

Grupos pró e contra o Governo se enfrentam, exaltando ódio entre ambos, ora provocado de um lado, ora de outro. Porém, as intimidações já são sentidas nas ruas: pessoas que se recusaram a gritar contra o governo foram agredidas verbal, física e psicologicamente. Onde estão as liberdades: de ir e vir, de pensar, de se manifestar?

Em segundo lugar, há uma mentira multiplicada pela mídia e pelos setores interessados: "basta o atual governo cair e tudo melhorará" - queda da inflação, baixa do dólar e do desemprego, pois o “mercado” espera isso. A lógica economicista não pode superar os interesses do bem comum e usar os argumentos da “melhora dos indicadores” é inaceitável! Não foram as agências estadunidenses que avaliam os países que elegeram nosso governo ! O Mercado é o resultado das transações econômicas e quem o controla são os grupos dominantes detentores dos meios e bens de produção, que só querem lucro e a qualquer preço. Quanto aos assalariados, agradeçam aos céus por terem seus empregos e salários. O que querem é obediência cega, consumo e muito lucro!

Mas tudo isso não passa de uma armadilha, porque não se trata de defender o PT ou suas lideranças, seja Dilma ou Lula, mas trata-se de defender a democracia e sua legitimidade, afinal, esta crise pode abrir um vácuo que infelizmente terá proporções catastróficas, já que nossa República tem uma infeliz tradição autoritária de golpes de Estado (1889, 1930, 1937, 1945, 1961 e 1964), portanto, nada impede que um outro aconteça, porém desta vez, parece estar totalmente conduzido pelas mãos dos civis. Pode acontecer aqui o que ocorreu em 2009 com Manuel Zelaya, presidente de Honduras ou com Fernando Lugo em 2012 , presidente do Paraguai, portanto, dois recentes exemplos de golpes de Estado articulados pelos civis.

Quem perde? A sociedade como um todo, porque nossa escassa noção de cidadania não permite uma ação mais contundente, escapando da manipulação midiática e dos grandes grupos controladores do mercado, assim sendo, seremos reféns da carcomida elite “BBB”, quer dizer, “Bíblia, Boi e Bala” acompanhada da tradicional cegueira da classe média (ascendente, emergente, decadente, etc.) e dá-lhe mais retrocesso. Uma republiqueta depravada de privilegiados. Obviamente, os grandes grupos midiáticos continuarão lucrando, porque o "Pão e Circo" não pode parar!

Vejo alguns colegas e amigos perplexos com o atual momento e, entre uma brincadeira e outra, alguns falando: “Como os historiadores vão explicar isso no futuro ?” Simples: com a análise das fontes, embasamento teórico e metodológico. Prever o futuro ninguém pode, mas analisar o passado, isto é muito plausível e quanto ao presente, pode-se fazer uma análise de conjuntura, tal qual esta que proponho, porque do contrário, se endossarmos o coro de que isso será inexplicável no futuro, assumimos uma preciosa e muito providencial fala autoritária, que tem nojo de análises e prega a obediência inquestionável.

Em tempos tão cinzentos como estes que vivemos, conhecer a História se tornou tão necessário quanto o ar que respiramos. Precisamos de luz, respeito e de racionalidade, elementos que as Ciências Humanas podem colaborar em muito com este processo. O cientista político italiano Norberto Bobbio (1909-2004) explica claramente que o argumento do "combate à corrupção" foi usado pelo fascismo para ascender ao poder e infelizmente, sabemos que o resultado é muito perigoso, pois a corrupção não desapareceu, ficou apenas escondida e sem qualquer vigilância.


Como disse Freud: "O conhecimento traz o poder !" e com ele superaremos este cenário tão tenso e preocupante, porque a democracia está esmorecendo lenta e dolorosamente, colocando todos em risco.

Se alguém cometeu um crime deve ser julgado e ter amplo direito de defesa. Se a Justiça condenar, que se cumpra a lei e a punição seja aplicada. Não importa qual seja o partido ou cargo. No entanto, vejo denúncias transformadas em "fatos", vejo parcialidade na divulgação das informações e pré-julgamentos sendo apresentados como verdades absolutas. Dessa forma, vejo cada vez mais o autoritarismo ganhar espaço e assim, interpreto esse conjunto de ações como um golpe contra a democracia e sua legitimidade. Isso eu não apoio de modo algum! As manipulações sobre os fatos querem conduzir o Brasil para um caminho perigoso: democracia não é um regime de adesão e assim, se algo está errado, eu não posso mudar as regras com o jogo andando só porque é conveniente ao grupo que eu faço parte e assim meus inimigos são prejudicados e neste ponto temos o processo do impeachment que foi reestruturado pelo STF, tentando manter a constitucionalidade e um projeto de mudança de sistema político no Senado, visando trazer de volta o parlamentarismo.






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