As Ricas Horas do Duque de Berry

As Ricas Horas do Duque de Berry
As Ricas Horas do Duque de Berry. Produção dos irmãos Limbourg - séc. XV. Mês de outubro

quarta-feira, 11 de maio de 2016

Bela, recatada e do lar - a misoginia contemporânea

A gritaria em virtude do ENEM 2015 ter usado uma questão envolvendo uma citação de Simone de Beauvoir (um trecho do livro "O segundo sexo" de 1949) e o tema da redação ter sido sobre a violência contra mulher foi apenas o primeiro uivo coletivo do velho e carcomido modo de pensar do patriarcado brasileiro.


Simone de Beauvoir (1908-86)


É saber sabido da ancestral reverência da sociedade brasileira à defesa da "moral e dos bons costumes" e isso significa deter e reverter um processo de ruptura que tem como ponto de partida o empoderamento feminino, a crítica aberta ao machismo e suas nuances, absorvidas por homens e mulheres que exaltam a importância da família e da tradição.

Neste escopo perverso está a postura misógina que os segmentos conservadores assumiram contra a presidenta da República Dilma Roussef, apontando justificativas para a atual crise no fato dela, sendo mulher estar descontrolada (vide a assombrosa matéria da "Revista Isto é" de 02/04/2016) ou ainda sua vida privada (Revista Época de 28/08/2015, leia aqui) e isso me fez lembrar os estudos sobre a loucura no fim do século XIX, antes dos avanços de Freud, que diagnosticou as alterações temperamentais da mulher como histeria, sendo que em grego "hister" significa útero. Portanto, por esta lógica, toda mulher é histérica, já que toda mulher possui um útero e "tal mal" não acometeria aos homens, os senhores da racionalidade.


A imagem original à esquerda e a mesma imagem recortada na capa da "Revista Isto é"


Na edição de 18/04/2016, a Revista Veja deu um passo além. Para construir uma clara figura de quais são os valores que se deve esperar de uma "mulher de família", apresentou a quase primeira-dama (sic), Marcela Temer, como "bela, recatada e do lar". Um discurso patriarcal direto para mostrar qual é o papel da mulher na política: enfeite, troféu para exibição, já que o mando é dos homens e desafiar isso é inquestionável na visão patriarcal. Bela (branca, magra e loira); recatada (roupas sóbrias sem decotes ousados ou saias curtas) e do lar (mãe e esposa dedicada sem aspirações além da família).


Porém, o discurso pode satisfazer certos segmentos que usam a bandeira da moralidade para preservar seus espaços e no entanto, o discurso moralista não pode ser modulado numa única e exclusiva perspectiva: nada contra mulheres que espontaneamente se sentem bem nos parâmetros do "bela, recatada e do lar", o problema está na imposição deste "modelo" em detrimento de outros e do livre arbítrio.

O cenário atual me lembrou a dicotomia presente no universo machista: durante as Guerras Mundiais (1914-18 e 1939-45), mulheres foram imprescindíveis ao esforço de guerra e depois disso, havia o interesse de restaurá-las ao "sagrado lar" ou ainda retardar-lhes o direito ao voto, o quanto fosse possível.

(Nós podemos fazer isso !)
Cartaz de J. Howard Miller, de 1943, para a Westinghouse Eletric Corporation


Daí a importância do movimento sufragista feminino (sufrágio significa voto) a partir de 1897 na Grã-Bretanha e gradativamente se espalhou por vários países, mas sendo necessária uma luta brutal para que houvesse algum espaço: 1906 na Finlândia, 1915 na Dinamarca e Islândia, 1918 na Alemanha, 1921 na Suécia e nos EUA, 1928 na Grã-Bretanha, 1934 no Brasil, 1945 na França.

Votar não seria a última causa, dali para diante, buscariam o espaço para pleitear na política um papel mais amplo do que companhia em eventos ou organização de bailes e festas de caridade: sim, as mulheres buscaram um espaço, se candidatando para exercer funções públicas. 

No Ocidente, a primeira mulher eleita para a condição de Chefe de Governo foi Margaret Thatcher em 1979, pelo partido conservador e fora reeleita por mais dois mandatos, mas a derrubaram numa cruel rasteira dentro de seu próprio partido, que não aceitava mais seus "desmandos" e assim, obrigaram-na a renunciar em 1990, usando os mecanismos previstos na estrutura política inglesa. 
Vale lembrar que ela estava com uma popularidade baixa entre os segmentos mais pobres da Grã-Bretanha em virtude dos cortes de investimentos nos setores sociais, das privatizações e da abertura de espaço à iniciativa privada, buscando fortalecer a economia britânica a partir do modelo neoliberal, o qual favoreceu os mais abastados, tornando-os mais ricos ainda e preservando a significativa desigualdade da sociedade. 


Baronesa Margaret Thatcher (1925-2013)


Nesse ponto, pôde-se dizer que, guardadas as devidas proporções, Dilma passou pelo mesmo processo seja dentro do PT (movimento Volta Lula 2013-14) e de seus pseudo-aliados que debandaram antes da sessão que admitiu o impeachment na Câmara dos Deputados. 

Daí, uma contradição evidente: a ostentação de elevados padrões de moralidade e conservadorismo na boca daqueles que praticam tudo o que seu discurso condena no melhor estilo do "faça o que eu mando e não faça o que eu faço."

Bem, aparentemente, o Brasil parecia estar buscando seu lugar no futuro, mas foi atropelado pelos golpistas de "elevada" moral. Agora é só aguardar a continuação do show de horrores enunciado pela Câmara dos Deputados em 17/04/2016 e hoje, em 11/05/2016 pelo Senado Federal.


Gostaria que o atual momento fosse um desses "filmes classe Z" em que o monstro morre no final, mas ao que parece, isso não é uma certeza, muito pelo contrário...

Dicas do Gabinete:

As sufragistas. Direção de Sarah Gravon, 2015, 106 min.

No início do século XX, após décadas de manifestações pacíficas, as mulheres ainda não possuiam o direito de voto no Reino Unido. Um grupo militante decidiu coordenar atos de insubordinação, quebrando vidraças e explodindo caixas de correio, para chamar a atenção dos políticos locais à causa. Maud Watts (Carey Mulligan), sem formação política, descobriu o movimento e passou a cooperar com as novas feministas. Ela enfrentou grande pressão da polícia e dos familiares para voltar ao lar e se sujeitar à opressão masculina, mas decidiu que o combate pela igualdade de direitos merecia alguns sacrifícios.


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