As Ricas Horas do Duque de Berry

As Ricas Horas do Duque de Berry
As Ricas Horas do Duque de Berry. Produção dos irmãos Limbourg - séc. XV. Mês de julho

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Descendentes de vítimas do Holocausto repetem tatuagens de Auschwitz

Fonte: Portal iG - BBC Brasil 

Como outros israelenses, Doron Diamant gravou em seu braço a mesma tatuagem à qual seu pai foi submetido à força quando chegou a campo de concentração.

BBC
A tatuagem de Doron Diamant, que imita a do pai

O israelense Doron Diamant, de 40 anos, gravou em seu braço uma tatuagem com o número 157622 - a mesma tatuagem à qual seu pai, Yosef, foi submetido à força quando chegou ao campo de concentração de Auschwitz em 1942.
"Fiz essa tatuagem para expressar o quanto me identifico com meu pai e quero preservar sua memória", disse Diamant à BBC Brasil. "E para que o Holocausto não seja esquecido."
Diamant, que é marceneiro, diz que as pessoas que encontra no seu dia a dia sempre perguntam o que significa o número tatuado em seu braço. "Pelo menos duas vezes por dia eu conto sobre meu pai e o que ele sofreu em Auschwitz, se não tivesse a tatuagem isso não aconteceria", disse. "Além do número também gravei o desenho de um diamante, que representa o nome da nossa familia - Diamant", acrescentou.
História
O pai de Doron, Yosef Diamant, que nasceu na aldeia de Mishkov, na Polônia, tinha 16 anos quando foi preso e levado a Auschwitz - o maior campo de extermínio nazista. Dos seis milhões de judeus que foram exterminados durante a Segunda Guerra Mundial, um milhão foram assassinados em Auschwitz.
"Desde que nasci minha vida foi sempre à sombra do Holocausto por causa da história do meu pai, ele foi o único que sobreviveu de toda a sua família, além de um primo distante", afirmou.
Quando Yosef Diamant foi libertado do campo de concentração, em 1945, ao final da guerra, ele procurou sua família porém não achou ninguém. Em 1948 imigrou para Israel, onde se casou e teve cinco filhos e 22 netos. Durante a maior parte de sua vida trabalhou como motorista de ambulância.
"Ele se orgulhava muito de ter ajudado no parto de 89 mulheres que levou na ambulância", acrescentou o filho. Mais quatro membros da família Diamant fizeram a mesma tatuagem - a irmã de Doron e três de seus sobrinhos.
Outros jovens israelenses tomaram a mesma decisão, sem conhecer a família Diamant, e também movidos pelo desejo de homenagear seus avós e manter viva a memória do Holocausto.
'Falta de reflexão'
No entanto, para o historiador Avraham Milgram, a repetição da tatuagem de Auschwitz "demonstra uma falta de reflexão". Milgram, que trabalha no Museu Yad Vashem, em Jerusalém, disse à BBC Brasil que, ao fazerem a tatuagem, a motivação desses jovens "não é negativa, o jovem quer se identificar com o avô, mas acaba homenageando os nazistas e não o avô".
De acordo com o historiador, a tatuagem dos prisioneiros em Auschwitz foi um ato de desumanização. Cerca de 400 mil pessoas foram tatuadas com números ao passarem pela "fila da seleção" no campo de concentração.
Geralmente a tatuagem era executada em prisioneiros destinados a trabalhos forçados. A grande maioria dos idosos e das crianças não foi tatuada. Essas pessoas, que não tinham condições de trabalhar, eram mandadas diretamente para as câmaras de gás, onde morriam asfixiadas.
"Por que não lembrar o avô como ser humano e não como número?", questiona Milgram, "por que repetir o ato dos nazistas?". A tatuagem, por jovens judeus, com os números do campo de concentração é "mais uma expressão do trauma que o povo judeu sofreu no Holocausto", afirmou.
Segundo Milgram, o Holocausto deixou um trauma psicológico profundo, que afeta não só a geração das pessoas que sofreram diretamente com o nazismo, mas também "várias gerações de descendentes".
"Nesse ato da tatuagem há uma certa ironia, uma ironia triste, existem tantas formas humanas de lembrar, adotar justamente um simbolo desumano é um absurdo", concluiu o historiador.

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

A tecnologia e seus dilemas

Em Eclesiastes 1, 1-2, segundo a Vulgata  de São Jerônimo, está escrito: "Vanitas vanitatum, et omnia vanitas", quer dizer, "Vaidade das vaidades, tudo é vaidade" e com certeza, podemos transpor esta citação do mundo antigo para o nosso tão tecnológico e digital mundo contemporâneo, especialmente, quando pensamos o consumismo e a obsoletização  programada, a qual enreda os ávidos consumidores com os "cantos de sereia da modernidade e atualização", impingindo um valor maior para um determinado produto em detrimento de outro.

No anos 80, quem tinha um carro usado ficava sendo ridicularizado por não conseguir um carro novo e naquela época, nem todos tinham carro, trocá-lo anualmente era para uma elite e ter um usado significava algum conforto, mas ao mesmo tempo, poderia trazer muitas dores de cabeça, principalmente se a manutenção ficasse a desejar. Recordo-me desta época de uma expressão usada para carros mais velhos: "poisé", que era, uma alusão a expressão "pois é", ao iniciar a lista de explicações de qual era o motivo de mais uma quebra entre tantas outras já incontáveis.

Nos anos 90, o advento da telefonia celular trouxe aos bem-aventurados daquele contexto, uma ideia de "status e prestígio" daquele "tijolo digital", citado de forma pomposa até em letra de pagode. Com o avançar dos anos eles ficaram cada vez menores, chegando a caber na palma da mão. Porém, o tempo sempre é capaz de surpresas....

Na virada o milênio, a expansão da Internet, a ampliação da sua velocidade e das tecnologias sem fio promoveram um revolução conservadora: os celulares voltaram a crescer, tendo grandes telas e teclados, assumindo a condição de um computador de bolso, coisa que só fora vislumbrada em textos de ficção científica como "Jornadas nas Estrelas", mas ainda nos falta a benção do "tele-transporte"...

Já depois de uma década, hoje vemos proliferar o dito "smartphone" com sua tela sensível ao toque e tudo se revela como um passe de mágica e dessa forma, os celulares de tela e tecla aparentemente ganharam o status de "contemporâneos dos dinossauros"...

A reportagem abaixo mostra como o "Império" lida com esse drama transcendental do consumismo: a vergonha de não ter um aparelho de pelo menos 7 polegadas de tela touch screen e todas as vantagens da internet digital 3G ou 4G.

Bem, usando um expressão antiga, um dia a ficha vai cair...



Nos EUA, celulares BlackBerry se tornam motivo de vergonha para seus donos

NICOLE PERLROTH
DO "NEW YORK TIMES" Fonte: Portal UOL 

Rachel Crosby fala sobre seu celular BlackBerry da mesma maneira que alguém poderia falar sobre um parente que causa embaraços.
"Tenho vergonha dele", disse Crosby, representante de vendas em Los Angeles, que conta não mostrar mais seu BlackBerry quando participa de jantares e conferências de negócios. Em reuniões, ela diz esconder o BlackBerry por sob seu iPad, por medo de que os clientes formem opinião negativa sobre ela caso o vejam.

O BlackBerry costumava ser ostentado pela elite e pelos poderosos, mas as pessoas que ainda têm um deles dizem que o aparelho se tornou motivo de zombaria e desdém da parte das pessoas equipadas com o iPhone e os mais recentes celulares Android.


Divulgação
Smartphone BlackBerry, da canadense RIM: uso de celulares da marca vem perdendo o prestígio de outrora
A Research in Motion (RIM) talvez continue a encontrar sucesso com a venda do BlackBerry em países como a Indonésia e a Índia, mas nos Estados Unidos ela se vê reduzida a menos de 5% do mercado de celulares inteligentes --ante dominantes 50% apenas três anos atrás. O futuro da companhia depende de uma nova família de modelos cujo lançamento foi postergado diversas vezes e agora devem chegar ao mercado no ano que vem.

Enquanto isso, a RIM registrou prejuízo líquido de US$ 753 milhões no primeiro semestre deste ano, ante lucro de mais de US$ 1 bilhão no período em 2011.
Entre os mais recentes sinais de perda de prestígio: quando Marissa Mayer assumiu como presidente-executiva do Yahoo, um dos seus primeiros passos para reconstruir a imagem antiquada da companhia foi substituir os BlackBerrys dos funcionários por iPhones e celulares Android. O BlackBerry talvez persista em Washington, Wall Street e entre os profissionais de Direito, mas no Vale do Silício eles são tão raros quanto gravatas.

A lista de amigos que no passado costumavam se comunicar regularmente pelo serviço de mensagens instantâneas do BlackBerry, o BBM, não para de encolher, e os proprietários do aparelho não economizam palavras sobre o que gostariam de fazer com seus celulares.

IRA
"Gostaria de destrui-lo com um bastão de beisebol", diz Crosby, depois de esperar três minutos pelo carregamento do navegador em seu BlackBerry, e aí perder a conexão porque acabou a bateria. "Não se pode fazer nada com ele. Teoricamente seria possível, mas é tudo uma grande enganação".
A animosidade cultural entre os devotos do BlackBerry e todo mundo mais só se agravou ao longo dos últimos 12 meses, quando empresas que anteriormente forneciam BlackBerrys --e nenhum outro celular-- aos seus funcionários começaram a ceder aos pedidos de seu pessoal e substituir os modelos antigos por iPhones e celulares Android.
O Goldman Sachs recentemente ofereceu ao seu pessoal a opção de trocar o BlackBerry por um iPhone. O importante escritório de advocacia Covington & Burling fez o mesmo por insistência dos advogados mais jovens. Até mesmo a Casa Branca, que usava o BlackBerry por motivos de segurança, recentemente começou a permitir o uso do iPhone.
(Alguns membros da equipe do presidente suspeitam que a decisão tenha sido influenciada por Obama, que prefere usar o iPad em seus briefings de segurança nacional. Consultado, um porta-voz da Casa Branca não quis comentar.)
REJEIÇÃO
Lá fora, no mundo, os insultos continuam. Victoria Gossage, 28, que trabalha no departamento de marketing de um fundo de hedge, participou de um retiro empresarial no Piping Rock Club, um country club fino em Locust Valley, Nova York, e pediu um carregador de celular ao recepcionista. "Primeiro ele respondeu que sim, mas ao ver meu celular falou: 'mas não para isso'".
"Você termina se acostumando a esse tipo de rejeição", disse.
"Os usuários do BlackBerry são como os do MySpace", desdenha Craig Robert Smith, músico em Los Angeles. "Devem usar o AOL Instant Messenger para seus chats".

Os condenados ao BlackBerry dizem que sofrem vergonha e humilhação pública ao verem seus colegas usando aplicativos de redes sociais que não estão disponíveis para seus aparelhos, tirarem fotos com resolução mais alta e navegarem com sucesso pelas ruas --e pela internet-- com browsers superiores e um sistema de GPS mais eficiente.
Novas indignidades surgem porque eles precisam terceirizar tarefas como procurar endereços, comprar passagens, fazer reservas em restaurantes ou procurar placares de esportes, recorrendo a namorados, amigos ou colegas equipados com iPhones e celulares Android, que atendem esse tipo de pedido a contragosto.

'SINTO-ME INÚTIL'


"Sinto-me completamente inútil", diz Gossage. "Você vê as pessoas fazendo tudo isso com seus celulares e tudo que tenho a alegar em resposta é que posso conversar com minha família em nosso grupo no BBM".

Ryan Hutto, diretor de uma companhia de informações de saúde em San Francisco, diz que frequentemente precisa recorrer a outras pessoas, usualmente sua mulher, para ouvir música, procurar informações de navegação e descobrir placares de jogos. "Depois de duas ou três perguntas, as pessoas começam a se irritar", diz.

Peter DaSilva/The New York Times
Shannon Hutto usa seu iPhone ao lado de seu marido, Ryan, usuário de BlackBerry
Shannon Hutto usa seu iPhone ao lado de seu marido, Ryan, usuário de BlackBerry



Sua mulher, Shannon Hutto, diz, com um suspiro: "Sempre que saímos juntos, preciso procurar o mapa com meu celular. Se estamos procurando um restaurante, eu é que tenho o aplicativo do Yelp. Se precisamos de reserva, eu é que recorro ao Open Table. Parece que sou a secretária dele".

TECLADO EFICIENTE


Mas alguns usuários do BlackBerry afirmam que não abandonarão o aparelho, principalmente por conta de seu eficiente teclado físico. "Uso meu BlackBerry por escolha", diz Lance Fenton, 32, investidor que viaja frequentemente e precisa enviar e-mails em viagem. "Não consigo digitar meus e-mails em um telefone com tela de toque".

Fenton diz que não consegue compreender a febre do iPhone. "Pergunto constantemente às pessoas o que ele tem de tão espetacular, e as respostas são sempre tolas", diz. "Alguém me disse que estou perdendo o app que mapeia percursos de esqui. Esquio quatro dias por ano. Não preciso de um app de esqui".

Os mais recentes esforços da RIM para reter a fidelidade de seus usuários, e a dos programadores de que precisa para criar aplicativos destinados à sua nova geração de aparelhos, a ser lançada no ano que vem, despertaram repulsa universal. Em um recente vídeo promocional, Alec Saunders, vice-presidente de relacionamento com criadores de software na RIM, é visto cantando um rock intitulado "Devs, BlackBerry Is Going to Keep on Loving You", baseado na balada "Keep On Loving You", do Reo Speedwagon.
"Isso sinaliza uma companhia desesperada", diz Nick Mindel, 26, analista de investimento. "Poxa, BlackBerry. Sempre tive fé em vocês, mas acabam de perder um cliente. E francamente não acho que possam perder muitos mais".

Depois de oito anos usando o BlackBerry, Mindel se inscreveu na lista de espera de um iPhone 5. Quando o novo celular chegar, diz, "estou pensando em tirar a bateria do BlackBerry, encher o vão de cimento e usá-lo como peso de papel".
Tradução de Paulo Migliacci

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Eric Hobsbawm: o legado de um historiador

Eric J. Hobsbawm (1917-2012)

Para todos os historiadores que atuaram e atuam ainda, seja na docência, seja na pesquisa, é praticamente impossível não ter passado nos últimos setenta anos, sem ter lido, falado ou discutido algum trabalho do britânico Eric J. Hobsbawm, falecido nesta manhã em Londres, aos 95 anos.

Sua produção historiográfica percorreu a chamada "História Contemporânea", varrendo da Revolução Francesa ao século XX, com a famosa quadrilogia das "Eras" e ainda escreveu sobre nacionalismo, banditismo, globalização, jazz, entre outros temas.

Numa espécie de auto-biografia recente, intitulada "Tempos interessantes", Hobsbawm mostra como sua vida ao longo do século XX foi se impactando mais ou menos com as inúmeras transformações históricas, socioeconômicas e culturais que ele presenciou.

Enquanto ativista do comunismo, teve uma postura firme e ao mesmo tempo, questionável por muitos, pelo seu apreço e apoio às ações do regime soviético, sem se posicionar de modo revisionista ou realizando concessões. Segundo ele próprio, sua permanência no partido comunista britânico (que ele ajudara a fundar) foi até o contexto da invasão soviética à Hungria em 1956, mas em linhas gerais, não abandonou o marxismo e suas discussões teóricas sobre o mundo, questionando o capitalismo e seus problemas.

Em sua última publicação "Como mudar o mundo",  Hobsbawm retoma o pensamento marxista, buscando corajosamente uma análise rica e fecunda destes tempos tão difíceis e complexos que vivemos e de certa forma, nos oferece um legado precioso: a necessidade de buscarmos uma sociedade mais justa, atendendo melhor nossos semelhantes, independentemente de suas crenças, origens socioeconômicas.

Ao "camarada" Eric Hobsbawm, devemos um muito obrigado pelo apaixonado combate que ele teve pela vida e pela História, legando a nós, historiadores de várias partes do planeta, uma visão plural e rica da disciplina e de seu papel perante à sociedade.

Sugestão bibliográfica:


  • A Era das Revoluções
  • Era do Capital
  • A Era dos Impérios
  • Era dos Extremos
  • Sobre História
  • Globalização, Democracia e Terrorismo
  • Da Revolução Industrial Inglesa ao Imperialismo
  • História Social do Jazz
  • Pessoas Extraordinárias: Resistência, Rebelião e Jazz
  • Nações e Nacionalismo desde 1780
  • Tempos Interessantes (autobiografia)
  • Os Trabalhadores: Estudos Sobre a História do Operariado
  • Mundos do Trabalho: Novos Estudos Sobre a História Operária
  • Revolucionários: Ensaios Contemporâneos
  • Estratégias para uma Esquerda Racional
  • Ecos da Marselhesa : dois séculos reveem a Revolução Francesa 
  • As Origens da Revolução Industrial
  • Como mudar o mundo





quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Jesus, um homem casado?

Fonte: portal UOL 18/09/2012 by Reuters


Um fragmento de um antigo papiro escrito no antigo idioma copta, e até agora desconhecido, contém frases que sugerem que Jesus foi casado, numa descoberta que deve alimentar o acalorado debate sobre esse tema no mundo cristão. Nesse pedaço, leem-se as palavras: "Jesus disse a eles: minha mulher...".
Karen King, pesquisadora de Harvard, segura fragmento de papiro que sugere casamento de Jesus
Karen King, pesquisadora de Harvard, segura fragmento de papiro que sugere casamento de Jesus

A existência do fragmento da metade do século 2, não muito maior do que um cartão de visitas, foi revelada na terça-feira (18) em conferência em Roma por Karen King, professora da Escola de Teologia de Harvard, de Cambridge (Massachusetts). 
"A tradição cristã, por muito tempo, manteve que Jesus não foi casado, embora nenhuma evidência histórica confiável exista para amparar essa afirmação", disse Karen em nota divulgada por Harvard. "Esse novo Evangelho não prova que Jesus foi casado, mas nos diz que toda a questão só apareceu como parte dos inflamados debates sobre sexualidade e casamento."
Apesar da posição oficial da Igreja Católica de que Jesus nunca se casou, o tema reaparece regularmente - especialmente em 2003, quando a publicação do best-seller O Código da Vinci irritou muitos cristãos por se basear na ideia de que Jesus se casou e teve filhos com Maria Madalena.
A pesquisadora disse em Roma que o fragmento, apresentado no Décimo Congresso Internacional de Estudos Coptas, representa o primeiro indício de que os primeiros cristãos acreditavam que Jesus havia sido casado.
Roger Bagnall, diretor do Instituto para o Estudo do Mundo Antigo, em Nova York, disse acreditar que o fragmento, chamado por Karen de "O Evangelho da Esposa de Jesus", seja autêntico. Mas especialistas ainda irão analisar melhor o fragmento e submetê-lo a testes, com especial atenção para a composição química da tinta.
O fragmento, esfarrapado e amarelado, pertence a um colecionador privado anônimo, que contatou Karen para que o ajudasse a analisar e traduzir o material, que teria sido descoberto no Egito ou talvez na Síria.
King disse que, só por volta do ano 200, a afirmação de que Jesus era solteiro começou a aparecer, por meio de um teólogo conhecido como Clemente de Alexandria.
"Esse fragmento sugere que outros cristãos desse período estavam dizendo que ele foi casado", afirmou ela, ressaltando que o papiro não comprova a existência de uma esposa de Jesus. "A tradição cristã preservou apenas aquelas vozes que diziam que Jesus nunca se casou. O ‘Evangelho da Esposa de Jesus' agora mostra que alguns cristãos pensavam o contrário."
A análise deve ser publicada em janeiro de 2013 pela Harvard Theological Review, mas ela já divulgou um esboço do trabalho (em inglês) e imagens do fragmento no site da universidade.

sábado, 8 de setembro de 2012

A ditadura militar vista de fora

Caros leitores,

Abaixo segue a apresentação de um livro que foi escrito por uma amiga francesa, Doutora em história pela Sorbonne e sua tese analisa as relações entre o Exército e a Política durante o regime militar (1964-85).

Fonte: www.zahar.com.br


A política nos quartéis
Revoltas e protestos de oficiais na ditadura militar brasileira
SINOPSE

Capitães amotinados e coronéis conspiradores; generais que caíram em desgraça e políticos golpistas dissidentes. A historiadora francesa Maud Chirio revela um ponto de vista original sobre o regime militar brasileiro ao retratar a intensa vida política dentro das Forças Armadas durante o período. Seu foco são os oficiais de patentes médias ou inferiores, que foram a favor do golpe de 1964, mas terminaram sendo politicamente derrotados.

Para escrever o livro, Chirio utilizou uma extensa bibliografia, além de realizar entrevistas inéditas com antigos participantes do regime militar, o que lhe possibilitou a leitura de documentos muitas vezes secretos ou pouco acessíveis.

O panorama que traçou revela uma fina compreensão sociológica da instituição militar. Um contexto que propiciou manifestos, pressões, panfletagem, protestos, revoltas e até atentados promovidos por oficiais. Influiu, ainda, diretamente sobre as escolhas políticas, econômicas e policiais do poder ao longo dos 21 anos da ditadura deflagrada com o golpe de 1964. A política nos quartéis é um marco na renovação dos estudos sobre o tema.


segunda-feira, 3 de setembro de 2012

30ª Bienal de São Paulo busca 'beleza e inteligência em tempo de incerteza'


Fonte: Portal G1 03/09/2012 13h13 - Atualizado em 03/09/2012 13h47

Evento é aberto ao público geral na sexta (7) até o dia 9 de dezembro. 
Abertura à imprensa foi nesta segunda (3), custo total é R$ 22,4 milhões.

Obras de Arthur Bispo do Rosário em exposição na 30ª Bienal. (Foto: Guilherme Tosetto/G1)Obras de Arthur Bispo do Rosário em exposição
na 30ª Bienal. (Foto: Guilherme Tosetto/G1)
A 30ª Bienal de São Paulo, que neste ano tem a temática "A iminência das poéticas", foi aberta para a imprensa nesta segunda (3), com entrevista coletiva dos responsáveis pelo evento. A abertura para convidados acontece na terça (4), e para o público na sexta (7), até o dia 9 de dezembro.
Pela primeira vez a Bienal de São Paulo tem um curador de fora do espectro das artes brasileiras, o venezuelano Luis Péres-Orama. Ele anunciou que falaria em "portunhol" durante a entrevista coletiva. O objetivo desta edição é "buscar no tempo iminente de nosso mundo, quano se desmoronam todas as certezas, uma via de sobrevivência para a inteligência e a beleza", segundo o curador. "Queremos uma Bienal clara, não transparente; inteligente, não bombástica. Evitar a postura messiância e o maneirismo da confrontação pela confrontação", acrescentou Péres-Orama.
Bienal na cidade
Além da exposição principal no Pavilhão da Bienal no Parque Ibirapuera, a 30ª Bienal também estará espalhada pela cidade de São Paulo. Haverá trabalhos em vias públicas como a Avenida Paulista e a Estação da Luz. As obras também estarão presentes no Museu da Cidade, Masp, Museu da Faap e Instituto Tomie Ohtake.
O evento deste ano conta com mais de 3 mil obras, criadas por 111 artistas. Os trabalhos são apresentados em forma de "constelações", mostrando artistas como estrelas e indicando as proximidades entre eles. "As obras não produzem sentido sozinhas, mas em relação com o mundo e outras obras. A obra de arte única é um mito. Elas funcionam sistemicamente", acredita. Este caráter relacional é uma das marcas atuais da arte latinoamericana, segundo Péres-Orama.

sábado, 1 de setembro de 2012

A vitória dos excluídos: a 1ª doutora quilombola do Brasil !

Fonte: Portal G1 - 01/09/2012 09h00 - Atualizado em 01/09/2012 09h00

Edimara Gonçalves Soares viveu em um quilombo no RS até os 15 anos.
Em tese, ela afirma que educação em comunidades quilombolas é ineficiente.



Edimara Gonçalves Soares diz que acesso à educação para crianças quilomobolas é repleto de obstáculos, alguns intransponíveis (Foto: Bibiana Dionísio/ G1 PR)
Edimara Gonçalves Soares diz que acesso à educação para crianças quilomobolas é repleto de obstáculos, alguns intransponíveis (Foto: Bibiana Dionísio/ G1 PR)


A primeira doutora quilombola do Brasil acaba de tirar o título, na área de Educação, na Universidade Federal do Paraná (UFPR). Edimara Gonçalves Soares, professora da rede estadual de ensino, defendeu a tese “Educação escolar quilombola: quando a política pública diferenciada é indiferente” na terça-feira (28). Formada em Geografia pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), no Rio Grande do Sul, Edimara Soares nasceu e viveu até os 15 anos em uma comunidade quilombola, criada pelos bisavós dela, em Formigueiro, a 68 quilômetros de Santa Maria. A comunidade não tem nome e é formada por, aproximadamente, 60 famílias que vivem do que plantam e criam.
Sempre crítica à escolarização dos remanescentes de quilombos, que são comunidades mais afastadas criadas por escravos que fugiram dos senhores de engenho, na época do Brasil Colonial, os sentimentos da nova doutora se confundem. “Eu tenho orgulho, sim. Mas é um orgulho que me faz refletir sobre o quanto a desigualdade, o preconceito, o racismo institucional são fenômenos perversos e que não são reconhecidos, dado o mito da democracia racial. Nós vivemos em um país da diversidade racial, que nós somos todos iguais... Só que nessas diversidades, as desigualdades não são reconhecidas, são dissolvidas”, refletiu Edimara Soares.
A desigualdade, o preconceito, o racismo institucional são fenômenos perversos e que não são reconhecidos, dado o mito da democracia racial"
Edimara Gonçalves Soares
Para a professora, o título tem valor simbólico e concreto para o grupo que ela pertence. “O fato de escrever uma tese sobre a educação escolar quilombola, a partir de alguém que é quilombola, que é sujeito desta história, tem um significado singular de representação. Não é um estrangeiro dizendo como que é um quilombola, o que ele tem que fazer, como ele deveria ser. Não é o sujeito de fora narrando os nativos. É alguém de dentro do grupo que conta a sua própria trajetória e ao contar essa história, conta também a trajetória de muitos estudantes de muitas pessoas quilombolas”, explicou entusiasmada.
Edimara acredita que a dificuldade que ela teve que enfrentar para ter acesso à escola é a mesma vivida pelas atuais crianças que vivem em quilombos. Ela lembrou que precisava acordar às 4h30, caminhava em torno de uma hora até o ponto onde pegava o ônibus.

Ela contou ainda que, em casa, precisava colher bambu e fazer uma fogueira para iluminar livros e cadernos. “A gente não tinha luz elétrica, eu estudava com fogo de chão. Não podia ficar gastando vela ou querosene dos lampiões, porque a gente não tinha também dinheiro para comprar. Toda a trajetória de estudo é marcada por muita luta, muito sacrifício, por muita garra e determinação”. Ela confessou que nas Exatas não ia muito bem e por isso precisava estudar mais. Por outro lado, nas Humanas “era tranquilo”. Foi com a ajuda de uma família de Santa Maria que conseguiu completar o Ensino Médio e ingressar na universidade.

Edimara recordou que foi uma visita do colégio onde estudava à feira de cursos da UFSM que a fez decidir que queria entrar na universidade.  "No segundo ano do Ensino Médio eu tinha um norte. Queria entrar ali".
Casa onde Edimara Soares nasceu e viveu até os 15 anos, no quilombo "sem nome" em Formigueiro (RS)  (Foto: Arquivo pessoal)Casa onde Edimara Soares nasceu e viveu até os 15 anos,
no quilombo "sem nome" em Formigueiro (RS)
(Foto: Arquivo pessoal)
Depois de desenvolver uma tese de doutorado, Edimara lamenta ao perceber que os obstáculos são praticamente os mesmos. “A minha história, quanto estudante negra quilombola, é semelhante e, em certas situações, idêntica à história de muitas crianças quilombolas que estão em fase escolar”, afirmou.

Segundo Edimara, as dificuldades são quase intransponíveis. “Às vezes não tem um número significativo [de alunos] para manter a escola, daí esta escola é fechada e essas crianças são enviadas para outro estabelecimento de ensino, distante da comunidade”, exemplificou. Para a professora, isso mostra que as nossas crianças quilombolas, até hoje, não tiveram ainda acesso a educação da forma que lhes é de direito. Ela pontuou ainda que normalmente essas crianças têm um período para estudar, porque chega um momento que deixam de ir ao colégio para trabalhar, para sobreviver.
Este e outros acontecimentos da rotina escolar das comunidades quilombolas do estado foram abordados e analisados na tese de Edimara, sob orientação da professora doutora Tânia Maria Baibich.
Ainda que o Paraná tenha sido pioneiro na aplicação de medidas específicas para este público, com o Departamento de Diversidade e o Núcleo de Educação das Relações Etnicorraciais e Afrodescendência (NEREA), ambos da Secretaria Estadual de Educação, a ação foi "inócua a despeito de todo o investimento e esforço que foi feito".

Isso significa, como explicou a professora, que não se atingiu plenamente os objetivos inerentes à lei federal de 2003 que tornou obrigatório o ensino da História e Cultura Afro-Brasileira. Havia também o intuito de que os professores articulassem os conhecimentos tradicionais das comunidades quilombolas com o currículo escolar. “Esse é o princípio fundante da educação escolar quilombola”, destacou.
No estado, existem 42 escolas que atendem comunidades quilombolas, divididas em 11 municípios. Contudo, para que a lei fosse de fato cumprida, de acordo com Edimara, tópicos essenciais não foram considerados.

“Faltou uma articulação, efetiva, com as universidades, com as instituições formadoras. Faltou uma parceria com as comunidades quilombolas e também houve uma ausência de ações pedagógicas, de maneira sistemática e permanente, com os professores, no interior destas escolas. As ações foram pontuais, não foram ações sistemáticas”, explicou.  Para ela também faltaram investimentos em infraestrutura e em aspectos administrativos, inclusive, recursos financeiros. “É a fartura da falta. Faltam muitas coisas na dimensão de infraestrutura”, complementou.
Ninguém ensina, o que não sabe. (...) somos produtos de uma educação eurocêntrica, de um currículo monocultural,"
Edimara Gonçalves Soares
Edimara reforçou que a universidade não prepara os acadêmicos, futuros professores, para trabalhar questões etnicorraciais e de diversidade. A doutora é clara ao dizer que os docentes não podem ser culpados pela falha na aplicação da proposta da Secretaria de Educação.

“Ninguém ensina, o que não sabe. Eles, nós não tivemos acesso a esses conhecimentos na formação inicial, enquanto professores, porque somos produtos de uma educação eurocêntrica, de um currículo monocultural, e não foram dadas as condições necessárias”.

Para que se vislumbre um cenário mais adequado na educação quilombola, Edimara sugere a resolução das problemáticas identificadas e a necessidade de se reconhecer que existe o racismo. “Eu preciso reconhecer a existência deste fenômeno, criar mecanismo para combatê-lo, porque ele está presente de forma muito contundente nas escolas dentro das comunidades quilombolas e nas escolas fora”, assegurou. Ela cita ainda aumento de verbas para aquisição de material e para formação dos docentes.

“Não é algo que vai ser de hoje para amanhã, demanda todo um esforço, uma vontade política e de investimento financeiro”, destacou.
As ações afirmativas 
Edimara se diz favorável à lei sancionada na quarta-feira (29) pela presidente Dilma Rousseff que determina o sistema de cotas sociais nas universidades federais. De acordo com a lei, metade das vagas oferecidas é de ampla concorrência, já a outra metade será reservada por critério de cor, rede de ensino e renda familiar. As universidades terão quatro anos para se adaptarem. Atualmente, não existe cota social em 27 das 59 universidades federais. Além disso, apenas 25 delas possuem reserva de vagas ou sistema de bonificação para estudantes negros, pardos e indígenas.
“O fato de eu ser a primeira quilombola do país mostra o quanto nosso país precisa investir no combate às desigualdades sociais. Ainda existe um abismo, principalmente, nas questões relacionadas a educação, ainda que os governos estadual e federal venham investindo em políticas afirmativas e inclusivas”, afirmou.
Edimara acrescentou que esta desigualdade é histórica e acumulada, desde 1888 quando foi abolida a escravidão no Brasil. "A liberdade veio, porém, sem medidas para integrar a população negra, sem que possibilitasse acesso social e educacional", disse Edimara. Na avaliação dela, as cotas vêm para promover a igualdade de oportunidade.
“O objetivo maior da política afirmativa é combater e, possivelmente, eliminar o lastro de desigualdades sociais. Se tu fores fazer uma radiografia das pessoas que hoje estão nos cursos de mais prestigio na universidade, como Medicina, Arquitetura, Engenharia, Direito, dificilmente tu vais encontrar, na mesma proporção, negros e brancos”, argumentou.