As Ricas Horas do Duque de Berry

As Ricas Horas do Duque de Berry
As Ricas Horas do Duque de Berry. Produção dos irmãos Limbourg - séc. XV. Mês de julho

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

70 anos do Zé carioca: Walt Disney e a Política da Boa Vizinhança.

 Em 30 de setembro de 1937, explodia nos jornais brasileiros a notícia de uma nova tentativa de golpe dos comunistas, como se dizia na época "muito pior que o anterior", sendo que a nova tentativa teria sido planejada na Rússia por um comunista de nome Cohen.

 O “plano” previa assassinatos de líderes políticos importantes, o fim da propriedade privada e a imposição do ateísmo. O documento teria sido “descoberto” pelo General Olímpio Mourão Filho, membro do  Partido Integralista, que o entregara ao chefe do Estado Maior do Exército, o general Goes Monteiro, responsável pela divulgação alarmista na imprensa. Veja um trecho deste famoso documento:


"... O comitê dos incêndios tem como missão fazer propagar incêndios em pontos desencontrados da cidade, em uma ação tecnicamente combinada e dirigida, a fim de aumentar a confusão necessária ao movimento, dividir o Corpo de Bombeiros e outros contingentes militares que os governos das cidades serão obrigados a utilizar para acudir aos focos de incêndios ateados [....]
     O comitê central organizará o plano de incêndios tendo em conta a seguinte regra:
a) em cada rua principal do bairro deverá ser ateado fogo a um prédio no mínimo;
b) sempre que possível de preferência uma repartição pública, federal, estadual ou municipal, existente em rua que não seja guardada por policial;
[...] nos bairros elegantes e plutocratas- as massas deverão ser conduzidas aos saques e às depredações, nada poupando para aumentar cada vez mais sua excitação, que deve ser conduzida a um sentido nitidamente sexual, a fim de atraí-las com facilidade; convencidas de que todo aquele luxo que as rodeia - prédios elegantes, carros de luxo, mulheres etc - constituem um insulto à sua sordidez e falta de conforto, e que chegou a hora de tudo aquilo lhes pertencer sem que haja o fantasma do Estado para lhes tomar conta ...”   

SILVA, Hélio. A ameaça vermelha - O plano Cohen. Porto Alegre: L&PM

 Diante da “ameaça vermelha”, o Congresso concedeu ao governo o Estado de Guerra, criando-se condições para um golpe de Estado. Em novembro de 1937 o candidato Armando de Sales Oliveira apelou pela manutenção da legalidade, mas foi inútil. O golpe já estava consumado e Francisco Campos, futuro ministro da justiça, já fora encarregado de redigir a nova Constituição, a chamada "Polaca", pois fora inspirada na Carta fascista da Polônia e desde então, existia um flerte de Getúlio com o fascismo.


O presidente Vargas passou a governar e legislar através de decretos-leis, uma vez que o Legislativo, então, era composto pelo presidente e por parlamentares eleitos indiretamente. Instituiu-se ainda o Estado de Emergência, que permitia ao presidente, a “autoridade suprema do Estado”, suspender direitos individuais, prender, exilar e invadir domicílios. Restaurou-se a pena de morte, abolida ainda no final do Segundo Reinado, e o mandato presidencial foi estendido para seis anos.

            Dentre as principais criações do Estado Novo que possibilitaram ao governo controlar a população e perseguir opositores, destacam-se:
DIP - Departamento de Imprensa e Propaganda - Era encarregado de realizar o controle ideológico e censurar os meios de comunicação (imprensa, rádio, cinema). Além disso, trabalhava na propaganda pessoal do presidente, fazendo uma imagem sempre positiva de Vargas. Para isso, eram escritas nos jornais matérias favoráveis ao governo, foram espalhados cartazes, produzidas cartilhas e até foi criado um horário no qual todas as rádios eram obrigadas a retransmitir um programa produzido pelo próprio governo. Assim nasceu a Hora do Brasil. Em pouco tempo, Vargas já era conhecido como o “pai dos pobres”.

DASP - Departamento Administrativo do Serviço Público - Criado em 1938 com a finalidade de dar ao Estado um aparato burocrático racionalizador da administração pública. Resumindo, estava encarregado de modernizar a burocracia. Também deveria fiscalizar os interventores nos Estados.

Polícia Especial (PE) - Sua função era perseguir os opositores do regime, especializando-se em práticas violentas, como sequestros, torturas, assassinatos e deportações, sendo chefiada por Filinto Müller.
            Outras medidas foram a criação do Instituto do Açúcar e do Álcool e a substituição do “mil- réis” por uma nova moeda: o Cruzeiro. O Brasil passou a ser um Estado unitário, ficando proibidos os símbolos e as bandeiras dos Estados. Foram proibidos também todos os partidos políticos, reuniões, agremiações símbolos etc.

            Os integralistas, apesar de terem colaborado para o sucesso do golpe, também foram atingidos por essas medidas e, sentindo-se traídos, rebelaram-se e tentaram tomar o poder em 1938. Chegaram a invadir o Palácio do Catete (sede do governo), mas foram cercados e acabaram massacrados no episódio que ganhou o nome de Putsch Integralista. Com os integralistas batidos pelas tropas do governo, Plínio Salgado foi obrigado a exilar-se em Portugal.

            O ufanismo nacionalista provocou, de certa forma, a concentração do desenvolvimento no eixo Sul/ Sudeste. Com o advento da Segunda Guerra Mundial, a indústria brasileira sofreu um pequeno crescimento devido à substituição das importações. Porém, a guerra pressionou o governo Vargas a tomar uma posição. Afinal, o regime era muito próximo do fascismo europeu, mas o Brasil sempre pertencera à área de influência dos Estados Unidos. Com a eclosão do conflito, Getúlio declarou neutralidade em relação ao embate, mas tal posição era vista pelos estadunidenses como um apoio envergonhado ao regime fascista.

            A posição brasileira só foi definida em 1941, quando bancos estadunidenses dispuseram-se a financiar a construção da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN) e da Companhia Vale do Rio Doce, possibilitando ao País produzir aço em grande escala. Após esse empréstimo, o rompimento com o Eixo tornou-se inevitável. Neste contexto, foi se constituindo a política da "Boa Vizinhança" em substituição à política do "Big Stick", ou seja, do grande porrete, marcada pela intervenção militar dos EUA na América Latina. Foi justamente em 1941, que Walt Disney passou pelo Rio de Janeiro e no ano seguinte, lançava um novo personagem: o Zé Carioca, um papagaio que deveria ser uma representação do Brasil e de sua cultura pelo mundo afora.

Com chapéu de palha, paletó, gravata, guarda-chuva e charuto, o papagaio absorvia a identidade social do "malandro", ente presente no mundo do samba e do submundo, que de trambique em trambique, ia gozando a vida, com muita ginga e esperteza, elemento este que se conecta com a velha tese do "jeitinho brasileiro".

Em 1943, Getúlio e Roosevelt se encontraram em Natal (RN), visando estreitar ainda mais os laços de apoio do Brasil no esforço de guerra para os Aliados. Abaixo, também de paletó e chapéu, está o nosso ditador, junto da comitiva de Roosevelt, mas num clima não tão descontraído




Nesse momento, Vargas autorizou o estabelecimento de uma base militar dos EUA em Natal para servir de apoio logístico para a patrulha e defesa do Oceano Atlântico contra as forças do Eixo.

A entrada do Brasil na guerra e o envio de soldados foram provocados pelo afundamento de navios brasileiros, que teriam sido, segundo fontes oficiais, 36 embarcações foram atacadas por submarinos alemães e italianos no litoral nordestino, fato que causou grande tensão e comoção na opinião pública, pois o saldo de mortos chegou a 1080 mortos, entre tripulantes e passageiros. Dessa forma, a população apoiou a ida de soldados para a Europa.

Deem uma olhada na animação "Aquarela do Brasil" ( http://www.youtube.com/watch?v=_mQHr8bAojU ) que mostra o célebre encontro entre o Zé Carioca e o Pato Donald, que de certa forma, pode ser uma boa leitura de como se construía esta "Boa Vizinhança".

terça-feira, 13 de novembro de 2012

Túmulo de Arafat aberto para investigação sobre as causas da morte


Fonte: Portal Yahoo by  

A fonte informou que o trabalho continuará pelos próximos 15 dias

Funcionários palestinos começaram a abrir o túmulo do dirigente palestino Yasser Arafat com o objetivo de obter elementos para a investigação sobre as causas da morte do líder palestino, informou uma fonte ligada à família.
"Hoje começaram a tirar o cimento e as pedras do mausoléu de Arafat. O trabalho continuará durante pelo menos 15 dias", declarou à AFP a fonte, que pediu anonimato.
"As operações continuarão até chegar à camada de terra que cobre o corpo, que será removida na chegada dos juízes franceses, especialistas suíços e dos investigadores russos envolvidos", completou.
O mausoléu de Arafat estava oculto por grandes toldos, assim como a entrada da Muqata, a sede da presidência da Autoridade Palestina.
O cadáver de Arafat deve ser exumado em 26 de novembro para que os juízes franceses responsáveis pela investigação sobre um possível assassinato e os especialistas suíços que detectaram quantidades anormais de polônio nos bens pessoais de Arafat retirem mostras.


sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Arqueólogos búlgaros descobrem cidade pré-histórica mais antiga da Europa

Fonte: Portal iG by AFP 



Arqueólogos anunciaram a descoberta da cidade pré-histórica mais antiga da Europa no leste da Bulgária, onde foi encontrada também uma arcaica produção de sal, que teria sido a origem de grandes riquezas descobertas no local.
Escavações feitas no sítio, próximo à cidade moderna de Provadia, até agora revelaram os vestígios de um assentamento de casas de dois pavimentos, uma série de buracos no chão usados em rituais, assim como pedaços de um portão, estruturas de uma fortaleza e três muros de fortificação posteriores, todos com datação de carbono referente aos períodos Calcolítico (Idade do Cobre) médio e tardio, entre 4.700 e 4.200 anos antes de Cristo.
"Não estamos falando de uma cidade como as cidades-estado gregas, assentamentos antigos romanos ou medievais, mas do que arqueólogos concordam que tenha sido uma cidade no quinto milênio antes de Cristo", afirmou Vasil Nikolov, pesquisador do Instituto Nacional de Arqueologia da Bulgária, após anunciar as descobertas no começo do mês.
Nikolov e sua equipe trabalham desde 2005 em escavações do assentamento Provadia-Solnitsata, situado perto do resort de Varna, no Mar Negro.
Uma pequena necrópole também foi encontrada, mas ainda precisa ser estudada mais a fundo e poderá manter os cientistas ocupados por gerações.
Esqueletos de um adulto e duas crianças encontrados no cemitério da cidade pré-histórica descoberta na Bulgária
O arqueólogo Krum Bachvarov, do Instituto Nacional de Arqueologia, afirmou que sua última descoberta é "extremamente interessante" devido às posições peculiares de sepultamento e dos objetos descobertos nas sepulturas, que são diferentes dos de outras sepulturas neolíticas encontradas na Bulgária.
"Os enormes muros no entorno do assentamento, que foram construídos muito altos e com blocos de pedra, também são algo que até agora não tinha sido visto em escavações de sítios pré-históricos no sul da Europa", acrescentou Bachvarov. 
Bem fortificada, com um centro religioso e, mais importante, um grande centro de produção para uma commodity específica que foi comercializada por toda parte, o assentamento de cerca de 350 pessoas encontrou todas as condições para ser considerada a mais antiga "cidade pré-histórica" conhecida na Europa, afirmou a equipe.
"Em uma época em que não se conhecia a roda e a carroça, estas pessoas arrastaram enormes rochas para construir muros enormes. Por quê? O que escondiam atrás deles?", questionou Nikolov. 

A resposta é o sal.
Precioso como ouro 
A área é rica em grandes depósitos de sal rochoso, uns dos maiores no sul da Europa e o único a ser explorado até o sexto milênio antes de Cristo, disse Nikolov.
Isto é o que faz de Provadia-Solnitsata um local tão importante.
Atualmente, o sal ainda é extraído no local, mas 7.000 anos atrás, tinha uma importância completamente diferente.
"O sal foi uma commodity extremamente valorizada em épocas antigas, por ser necessário tanto para as vidas das pessoas e como um método de comércio e moeda a partir do sexto milênio a.C. até o ano 600 a.C.", explicou o cientista.
A extração de sal no local começou em 5.500 anos a.C., quando as pessoas começaram a ferver salmoura de uma fonte vizinha em estufas encontradas dentro do assentamento, disse Nikolov, citando os resultados de datação de carbono de um laboratório britânico em Glasgow, Escócia.
"Esta é a primeira vez no sul da Europa e no oeste de Anatólia que os arqueólogos encontraram traços de produção de sal em uma época tão remota, o fim do sexto milênio a.C., e conseguiram prová-la com dados arqueológicos e científicos", confirmou Bachvarov.
A produção de sal saiu do assentamento por volta do fim do sexto milênio e a produtividade aumentou gradualmente. Após ser fervido, o sal era cozido para formar pequenos tijolos.
Nikolov disse que a produção cresceu de forma permanente a partir de 5.500 a.C., quando uma carga das estufas de Provadia-Solnitsata rendia cerca de 25 quilos de sal seco. Por volta de 4.700 a 4.500 a.C., este volume tinha aumentado para 4.000 a 5.000 quilos de sal.
"Em uma época em que o sal era tão precioso quanto o ouro, você imagina o que isto significou", afirmou.
O comércio de sal deu à população local grande poder econômico, o que poderia explicar os bens em ouro encontrados em seputuras da Necrópole de Varna e que remontam a 4.300 a.C., sugeriu Nikolov.



    quarta-feira, 24 de outubro de 2012

    Descendentes de vítimas do Holocausto repetem tatuagens de Auschwitz

    Fonte: Portal iG - BBC Brasil 

    Como outros israelenses, Doron Diamant gravou em seu braço a mesma tatuagem à qual seu pai foi submetido à força quando chegou a campo de concentração.

    BBC
    A tatuagem de Doron Diamant, que imita a do pai

    O israelense Doron Diamant, de 40 anos, gravou em seu braço uma tatuagem com o número 157622 - a mesma tatuagem à qual seu pai, Yosef, foi submetido à força quando chegou ao campo de concentração de Auschwitz em 1942.
    "Fiz essa tatuagem para expressar o quanto me identifico com meu pai e quero preservar sua memória", disse Diamant à BBC Brasil. "E para que o Holocausto não seja esquecido."
    Diamant, que é marceneiro, diz que as pessoas que encontra no seu dia a dia sempre perguntam o que significa o número tatuado em seu braço. "Pelo menos duas vezes por dia eu conto sobre meu pai e o que ele sofreu em Auschwitz, se não tivesse a tatuagem isso não aconteceria", disse. "Além do número também gravei o desenho de um diamante, que representa o nome da nossa familia - Diamant", acrescentou.
    História
    O pai de Doron, Yosef Diamant, que nasceu na aldeia de Mishkov, na Polônia, tinha 16 anos quando foi preso e levado a Auschwitz - o maior campo de extermínio nazista. Dos seis milhões de judeus que foram exterminados durante a Segunda Guerra Mundial, um milhão foram assassinados em Auschwitz.
    "Desde que nasci minha vida foi sempre à sombra do Holocausto por causa da história do meu pai, ele foi o único que sobreviveu de toda a sua família, além de um primo distante", afirmou.
    Quando Yosef Diamant foi libertado do campo de concentração, em 1945, ao final da guerra, ele procurou sua família porém não achou ninguém. Em 1948 imigrou para Israel, onde se casou e teve cinco filhos e 22 netos. Durante a maior parte de sua vida trabalhou como motorista de ambulância.
    "Ele se orgulhava muito de ter ajudado no parto de 89 mulheres que levou na ambulância", acrescentou o filho. Mais quatro membros da família Diamant fizeram a mesma tatuagem - a irmã de Doron e três de seus sobrinhos.
    Outros jovens israelenses tomaram a mesma decisão, sem conhecer a família Diamant, e também movidos pelo desejo de homenagear seus avós e manter viva a memória do Holocausto.
    'Falta de reflexão'
    No entanto, para o historiador Avraham Milgram, a repetição da tatuagem de Auschwitz "demonstra uma falta de reflexão". Milgram, que trabalha no Museu Yad Vashem, em Jerusalém, disse à BBC Brasil que, ao fazerem a tatuagem, a motivação desses jovens "não é negativa, o jovem quer se identificar com o avô, mas acaba homenageando os nazistas e não o avô".
    De acordo com o historiador, a tatuagem dos prisioneiros em Auschwitz foi um ato de desumanização. Cerca de 400 mil pessoas foram tatuadas com números ao passarem pela "fila da seleção" no campo de concentração.
    Geralmente a tatuagem era executada em prisioneiros destinados a trabalhos forçados. A grande maioria dos idosos e das crianças não foi tatuada. Essas pessoas, que não tinham condições de trabalhar, eram mandadas diretamente para as câmaras de gás, onde morriam asfixiadas.
    "Por que não lembrar o avô como ser humano e não como número?", questiona Milgram, "por que repetir o ato dos nazistas?". A tatuagem, por jovens judeus, com os números do campo de concentração é "mais uma expressão do trauma que o povo judeu sofreu no Holocausto", afirmou.
    Segundo Milgram, o Holocausto deixou um trauma psicológico profundo, que afeta não só a geração das pessoas que sofreram diretamente com o nazismo, mas também "várias gerações de descendentes".
    "Nesse ato da tatuagem há uma certa ironia, uma ironia triste, existem tantas formas humanas de lembrar, adotar justamente um simbolo desumano é um absurdo", concluiu o historiador.

    quinta-feira, 18 de outubro de 2012

    A tecnologia e seus dilemas

    Em Eclesiastes 1, 1-2, segundo a Vulgata  de São Jerônimo, está escrito: "Vanitas vanitatum, et omnia vanitas", quer dizer, "Vaidade das vaidades, tudo é vaidade" e com certeza, podemos transpor esta citação do mundo antigo para o nosso tão tecnológico e digital mundo contemporâneo, especialmente, quando pensamos o consumismo e a obsoletização  programada, a qual enreda os ávidos consumidores com os "cantos de sereia da modernidade e atualização", impingindo um valor maior para um determinado produto em detrimento de outro.

    No anos 80, quem tinha um carro usado ficava sendo ridicularizado por não conseguir um carro novo e naquela época, nem todos tinham carro, trocá-lo anualmente era para uma elite e ter um usado significava algum conforto, mas ao mesmo tempo, poderia trazer muitas dores de cabeça, principalmente se a manutenção ficasse a desejar. Recordo-me desta época de uma expressão usada para carros mais velhos: "poisé", que era, uma alusão a expressão "pois é", ao iniciar a lista de explicações de qual era o motivo de mais uma quebra entre tantas outras já incontáveis.

    Nos anos 90, o advento da telefonia celular trouxe aos bem-aventurados daquele contexto, uma ideia de "status e prestígio" daquele "tijolo digital", citado de forma pomposa até em letra de pagode. Com o avançar dos anos eles ficaram cada vez menores, chegando a caber na palma da mão. Porém, o tempo sempre é capaz de surpresas....

    Na virada o milênio, a expansão da Internet, a ampliação da sua velocidade e das tecnologias sem fio promoveram um revolução conservadora: os celulares voltaram a crescer, tendo grandes telas e teclados, assumindo a condição de um computador de bolso, coisa que só fora vislumbrada em textos de ficção científica como "Jornadas nas Estrelas", mas ainda nos falta a benção do "tele-transporte"...

    Já depois de uma década, hoje vemos proliferar o dito "smartphone" com sua tela sensível ao toque e tudo se revela como um passe de mágica e dessa forma, os celulares de tela e tecla aparentemente ganharam o status de "contemporâneos dos dinossauros"...

    A reportagem abaixo mostra como o "Império" lida com esse drama transcendental do consumismo: a vergonha de não ter um aparelho de pelo menos 7 polegadas de tela touch screen e todas as vantagens da internet digital 3G ou 4G.

    Bem, usando um expressão antiga, um dia a ficha vai cair...



    Nos EUA, celulares BlackBerry se tornam motivo de vergonha para seus donos

    NICOLE PERLROTH
    DO "NEW YORK TIMES" Fonte: Portal UOL 

    Rachel Crosby fala sobre seu celular BlackBerry da mesma maneira que alguém poderia falar sobre um parente que causa embaraços.
    "Tenho vergonha dele", disse Crosby, representante de vendas em Los Angeles, que conta não mostrar mais seu BlackBerry quando participa de jantares e conferências de negócios. Em reuniões, ela diz esconder o BlackBerry por sob seu iPad, por medo de que os clientes formem opinião negativa sobre ela caso o vejam.

    O BlackBerry costumava ser ostentado pela elite e pelos poderosos, mas as pessoas que ainda têm um deles dizem que o aparelho se tornou motivo de zombaria e desdém da parte das pessoas equipadas com o iPhone e os mais recentes celulares Android.


    Divulgação
    Smartphone BlackBerry, da canadense RIM: uso de celulares da marca vem perdendo o prestígio de outrora
    A Research in Motion (RIM) talvez continue a encontrar sucesso com a venda do BlackBerry em países como a Indonésia e a Índia, mas nos Estados Unidos ela se vê reduzida a menos de 5% do mercado de celulares inteligentes --ante dominantes 50% apenas três anos atrás. O futuro da companhia depende de uma nova família de modelos cujo lançamento foi postergado diversas vezes e agora devem chegar ao mercado no ano que vem.

    Enquanto isso, a RIM registrou prejuízo líquido de US$ 753 milhões no primeiro semestre deste ano, ante lucro de mais de US$ 1 bilhão no período em 2011.
    Entre os mais recentes sinais de perda de prestígio: quando Marissa Mayer assumiu como presidente-executiva do Yahoo, um dos seus primeiros passos para reconstruir a imagem antiquada da companhia foi substituir os BlackBerrys dos funcionários por iPhones e celulares Android. O BlackBerry talvez persista em Washington, Wall Street e entre os profissionais de Direito, mas no Vale do Silício eles são tão raros quanto gravatas.

    A lista de amigos que no passado costumavam se comunicar regularmente pelo serviço de mensagens instantâneas do BlackBerry, o BBM, não para de encolher, e os proprietários do aparelho não economizam palavras sobre o que gostariam de fazer com seus celulares.

    IRA
    "Gostaria de destrui-lo com um bastão de beisebol", diz Crosby, depois de esperar três minutos pelo carregamento do navegador em seu BlackBerry, e aí perder a conexão porque acabou a bateria. "Não se pode fazer nada com ele. Teoricamente seria possível, mas é tudo uma grande enganação".
    A animosidade cultural entre os devotos do BlackBerry e todo mundo mais só se agravou ao longo dos últimos 12 meses, quando empresas que anteriormente forneciam BlackBerrys --e nenhum outro celular-- aos seus funcionários começaram a ceder aos pedidos de seu pessoal e substituir os modelos antigos por iPhones e celulares Android.
    O Goldman Sachs recentemente ofereceu ao seu pessoal a opção de trocar o BlackBerry por um iPhone. O importante escritório de advocacia Covington & Burling fez o mesmo por insistência dos advogados mais jovens. Até mesmo a Casa Branca, que usava o BlackBerry por motivos de segurança, recentemente começou a permitir o uso do iPhone.
    (Alguns membros da equipe do presidente suspeitam que a decisão tenha sido influenciada por Obama, que prefere usar o iPad em seus briefings de segurança nacional. Consultado, um porta-voz da Casa Branca não quis comentar.)
    REJEIÇÃO
    Lá fora, no mundo, os insultos continuam. Victoria Gossage, 28, que trabalha no departamento de marketing de um fundo de hedge, participou de um retiro empresarial no Piping Rock Club, um country club fino em Locust Valley, Nova York, e pediu um carregador de celular ao recepcionista. "Primeiro ele respondeu que sim, mas ao ver meu celular falou: 'mas não para isso'".
    "Você termina se acostumando a esse tipo de rejeição", disse.
    "Os usuários do BlackBerry são como os do MySpace", desdenha Craig Robert Smith, músico em Los Angeles. "Devem usar o AOL Instant Messenger para seus chats".

    Os condenados ao BlackBerry dizem que sofrem vergonha e humilhação pública ao verem seus colegas usando aplicativos de redes sociais que não estão disponíveis para seus aparelhos, tirarem fotos com resolução mais alta e navegarem com sucesso pelas ruas --e pela internet-- com browsers superiores e um sistema de GPS mais eficiente.
    Novas indignidades surgem porque eles precisam terceirizar tarefas como procurar endereços, comprar passagens, fazer reservas em restaurantes ou procurar placares de esportes, recorrendo a namorados, amigos ou colegas equipados com iPhones e celulares Android, que atendem esse tipo de pedido a contragosto.

    'SINTO-ME INÚTIL'


    "Sinto-me completamente inútil", diz Gossage. "Você vê as pessoas fazendo tudo isso com seus celulares e tudo que tenho a alegar em resposta é que posso conversar com minha família em nosso grupo no BBM".

    Ryan Hutto, diretor de uma companhia de informações de saúde em San Francisco, diz que frequentemente precisa recorrer a outras pessoas, usualmente sua mulher, para ouvir música, procurar informações de navegação e descobrir placares de jogos. "Depois de duas ou três perguntas, as pessoas começam a se irritar", diz.

    Peter DaSilva/The New York Times
    Shannon Hutto usa seu iPhone ao lado de seu marido, Ryan, usuário de BlackBerry
    Shannon Hutto usa seu iPhone ao lado de seu marido, Ryan, usuário de BlackBerry



    Sua mulher, Shannon Hutto, diz, com um suspiro: "Sempre que saímos juntos, preciso procurar o mapa com meu celular. Se estamos procurando um restaurante, eu é que tenho o aplicativo do Yelp. Se precisamos de reserva, eu é que recorro ao Open Table. Parece que sou a secretária dele".

    TECLADO EFICIENTE


    Mas alguns usuários do BlackBerry afirmam que não abandonarão o aparelho, principalmente por conta de seu eficiente teclado físico. "Uso meu BlackBerry por escolha", diz Lance Fenton, 32, investidor que viaja frequentemente e precisa enviar e-mails em viagem. "Não consigo digitar meus e-mails em um telefone com tela de toque".

    Fenton diz que não consegue compreender a febre do iPhone. "Pergunto constantemente às pessoas o que ele tem de tão espetacular, e as respostas são sempre tolas", diz. "Alguém me disse que estou perdendo o app que mapeia percursos de esqui. Esquio quatro dias por ano. Não preciso de um app de esqui".

    Os mais recentes esforços da RIM para reter a fidelidade de seus usuários, e a dos programadores de que precisa para criar aplicativos destinados à sua nova geração de aparelhos, a ser lançada no ano que vem, despertaram repulsa universal. Em um recente vídeo promocional, Alec Saunders, vice-presidente de relacionamento com criadores de software na RIM, é visto cantando um rock intitulado "Devs, BlackBerry Is Going to Keep on Loving You", baseado na balada "Keep On Loving You", do Reo Speedwagon.
    "Isso sinaliza uma companhia desesperada", diz Nick Mindel, 26, analista de investimento. "Poxa, BlackBerry. Sempre tive fé em vocês, mas acabam de perder um cliente. E francamente não acho que possam perder muitos mais".

    Depois de oito anos usando o BlackBerry, Mindel se inscreveu na lista de espera de um iPhone 5. Quando o novo celular chegar, diz, "estou pensando em tirar a bateria do BlackBerry, encher o vão de cimento e usá-lo como peso de papel".
    Tradução de Paulo Migliacci

    segunda-feira, 1 de outubro de 2012

    Eric Hobsbawm: o legado de um historiador

    Eric J. Hobsbawm (1917-2012)

    Para todos os historiadores que atuaram e atuam ainda, seja na docência, seja na pesquisa, é praticamente impossível não ter passado nos últimos setenta anos, sem ter lido, falado ou discutido algum trabalho do britânico Eric J. Hobsbawm, falecido nesta manhã em Londres, aos 95 anos.

    Sua produção historiográfica percorreu a chamada "História Contemporânea", varrendo da Revolução Francesa ao século XX, com a famosa quadrilogia das "Eras" e ainda escreveu sobre nacionalismo, banditismo, globalização, jazz, entre outros temas.

    Numa espécie de auto-biografia recente, intitulada "Tempos interessantes", Hobsbawm mostra como sua vida ao longo do século XX foi se impactando mais ou menos com as inúmeras transformações históricas, socioeconômicas e culturais que ele presenciou.

    Enquanto ativista do comunismo, teve uma postura firme e ao mesmo tempo, questionável por muitos, pelo seu apreço e apoio às ações do regime soviético, sem se posicionar de modo revisionista ou realizando concessões. Segundo ele próprio, sua permanência no partido comunista britânico (que ele ajudara a fundar) foi até o contexto da invasão soviética à Hungria em 1956, mas em linhas gerais, não abandonou o marxismo e suas discussões teóricas sobre o mundo, questionando o capitalismo e seus problemas.

    Em sua última publicação "Como mudar o mundo",  Hobsbawm retoma o pensamento marxista, buscando corajosamente uma análise rica e fecunda destes tempos tão difíceis e complexos que vivemos e de certa forma, nos oferece um legado precioso: a necessidade de buscarmos uma sociedade mais justa, atendendo melhor nossos semelhantes, independentemente de suas crenças, origens socioeconômicas.

    Ao "camarada" Eric Hobsbawm, devemos um muito obrigado pelo apaixonado combate que ele teve pela vida e pela História, legando a nós, historiadores de várias partes do planeta, uma visão plural e rica da disciplina e de seu papel perante à sociedade.

    Sugestão bibliográfica:


    • A Era das Revoluções
    • Era do Capital
    • A Era dos Impérios
    • Era dos Extremos
    • Sobre História
    • Globalização, Democracia e Terrorismo
    • Da Revolução Industrial Inglesa ao Imperialismo
    • História Social do Jazz
    • Pessoas Extraordinárias: Resistência, Rebelião e Jazz
    • Nações e Nacionalismo desde 1780
    • Tempos Interessantes (autobiografia)
    • Os Trabalhadores: Estudos Sobre a História do Operariado
    • Mundos do Trabalho: Novos Estudos Sobre a História Operária
    • Revolucionários: Ensaios Contemporâneos
    • Estratégias para uma Esquerda Racional
    • Ecos da Marselhesa : dois séculos reveem a Revolução Francesa 
    • As Origens da Revolução Industrial
    • Como mudar o mundo





    quarta-feira, 19 de setembro de 2012

    Jesus, um homem casado?

    Fonte: portal UOL 18/09/2012 by Reuters


    Um fragmento de um antigo papiro escrito no antigo idioma copta, e até agora desconhecido, contém frases que sugerem que Jesus foi casado, numa descoberta que deve alimentar o acalorado debate sobre esse tema no mundo cristão. Nesse pedaço, leem-se as palavras: "Jesus disse a eles: minha mulher...".
    Karen King, pesquisadora de Harvard, segura fragmento de papiro que sugere casamento de Jesus
    Karen King, pesquisadora de Harvard, segura fragmento de papiro que sugere casamento de Jesus

    A existência do fragmento da metade do século 2, não muito maior do que um cartão de visitas, foi revelada na terça-feira (18) em conferência em Roma por Karen King, professora da Escola de Teologia de Harvard, de Cambridge (Massachusetts). 
    "A tradição cristã, por muito tempo, manteve que Jesus não foi casado, embora nenhuma evidência histórica confiável exista para amparar essa afirmação", disse Karen em nota divulgada por Harvard. "Esse novo Evangelho não prova que Jesus foi casado, mas nos diz que toda a questão só apareceu como parte dos inflamados debates sobre sexualidade e casamento."
    Apesar da posição oficial da Igreja Católica de que Jesus nunca se casou, o tema reaparece regularmente - especialmente em 2003, quando a publicação do best-seller O Código da Vinci irritou muitos cristãos por se basear na ideia de que Jesus se casou e teve filhos com Maria Madalena.
    A pesquisadora disse em Roma que o fragmento, apresentado no Décimo Congresso Internacional de Estudos Coptas, representa o primeiro indício de que os primeiros cristãos acreditavam que Jesus havia sido casado.
    Roger Bagnall, diretor do Instituto para o Estudo do Mundo Antigo, em Nova York, disse acreditar que o fragmento, chamado por Karen de "O Evangelho da Esposa de Jesus", seja autêntico. Mas especialistas ainda irão analisar melhor o fragmento e submetê-lo a testes, com especial atenção para a composição química da tinta.
    O fragmento, esfarrapado e amarelado, pertence a um colecionador privado anônimo, que contatou Karen para que o ajudasse a analisar e traduzir o material, que teria sido descoberto no Egito ou talvez na Síria.
    King disse que, só por volta do ano 200, a afirmação de que Jesus era solteiro começou a aparecer, por meio de um teólogo conhecido como Clemente de Alexandria.
    "Esse fragmento sugere que outros cristãos desse período estavam dizendo que ele foi casado", afirmou ela, ressaltando que o papiro não comprova a existência de uma esposa de Jesus. "A tradição cristã preservou apenas aquelas vozes que diziam que Jesus nunca se casou. O ‘Evangelho da Esposa de Jesus' agora mostra que alguns cristãos pensavam o contrário."
    A análise deve ser publicada em janeiro de 2013 pela Harvard Theological Review, mas ela já divulgou um esboço do trabalho (em inglês) e imagens do fragmento no site da universidade.