As Ricas Horas do Duque de Berry

As Ricas Horas do Duque de Berry
As Ricas Horas do Duque de Berry. Produção dos irmãos Limbourg - séc. XV. Mês de julho

quinta-feira, 11 de abril de 2013

Egito revela porto com os 40 papiros mais antigos já encontrados


Uma equipe de arqueólogos descobriu no Egito um porto histórico no litoral do Mar Vermelho com os papiros mais antigos já encontrados até hoje, informou nesta quinta-feira (10) o Ministério de Estado para as Antiguidades em comunicado.
O porto, que remonta à época do faraó Keops, o segundo rei da 4ª dinastia que reinou há mais de 4.500 anos, fica na zona de Wadi al Gurf, a 180 quilômetros ao sul da cidade de Suez, no leste do Egito.



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Uma equipe internacional de arqueólogos descobriu no Egito um porto que remonta à época do faraó Keops, o segundo rei da 4ª dinastia que reinou há mais de 4.500 anos. No local, que fica a 180 quilômetros da cidade de Suez, o grupo achou ainda 40 papiros com hieróglifos que documentam a vida cotidiana dos egípcios, alguns datados do ano 27 do reinado de Keops, que são os mais antigos já encontrados até agora Efe

Nele, estão 40 papiros com hieróglifos que documentam a vida cotidiana dos egípcios, alguns datados do ano 27 do reinado de Keops. 
O ministro egípcio para as Antiguidades, Mohammed Ibrahim, explicou que esses textos incluem registros mensais com o número de trabalhadores no porto e oferecem detalhes sobre suas vidas. Os documentos foram levados ao Museu de Suez para que sejam estudados.
O arqueólogo francês Pierre Tallet, diretor da equipe francesa que ajudou nas escavações, acrescentou que nos papiros se reflete o estilo de vida dos cidadãos na antiguidade, seus direitos e suas obrigações.
O porto, aonde chegavam embarcações com bronze e metais procedentes da Península do Sinai, tem um píer onde foram descobertas várias âncoras de pedra.
Além disso, há restos de quartos nas quais se alojavam os trabalhadores do porto e 30 cavernas escavadas na rocha, junto a blocos de pedra empregados para fechá-las com o nome de Keops escrito em tinta vermelha.
Também foram encontradas cordas de embarcações e ferramentas usadas para cortá-las. 

quarta-feira, 3 de abril de 2013

Para pensar e combater o autoritarismo, sempre defendendo a democracia e a liberdade.

No Caminho, com Maiakóvski


Eduardo Alves da Costa(*)


(*) Este poema teve uma controvérsia quanto à atribuição de sua autoria, pois já fora entendido como trabalho do alemão Bertoldt Brecht (1898-1956) ou mesmo do russo Vladmir Maikóvski (1893-1930), sendo que durante o Movimento Diretas Já!, em 1984, teria sido copiado e recitado como de Brecht, porém hoje segundo estudiosos da produção modernista, é comprovada a autoria do brasileiro Eduardo Alves da Costa.
Ver CITELLI, Adílson. "O poeta e o equívoco"Revista ECA Vol. XI, No. 3 (2006)


Assim como a criança
humildemente afaga
a imagem do herói,
assim me aproximo de ti, Maiakóvski.
Não importa o que me possa acontecer
por andar ombro a ombro
com um poeta soviético.
Lendo teus versos,
aprendi a ter coragem.


Tu sabes,
conheces melhor do que eu
a velha história.
Na primeira noite eles se aproximam
e roubam uma flor
do nosso jardim.
E não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem:
pisam as flores,
matam nosso cão,
e não dizemos nada.
Até que um dia,
o mais frágil deles
entra sozinho em nossa casa,
rouba-nos a luz, e,
conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
E já não podemos dizer nada.


Nos dias que correm
a ninguém é dado
repousar a cabeça
alheia ao terror.
Os humildes baixam a cerviz;
e nós, que não temos pacto algum
com os senhores do mundo,
por temor nos calamos.
No silêncio de me quarto
a ousadia me afogueia as faces
e eu fantasio um levante;
mas manhã,
diante do juiz,
talvez meus lábios
calem a verdade
como um foco de germes
capaz de me destruir.


Olho ao redor
e o que vejo
e acabo por repetir
são mentiras.
Mal sabe a criança dizer mãe
e a propaganda lhe destrói a consciência.
A mim, quase me arrastam
pela gola do paletó
à porta do templo
e me pedem que aguarde
até que a Democracia
se digne aparecer no balcão.
Mas eu sei,
porque não estou amedrontado
a ponto de cegar, que ela tem uma espada
a lhe espetar as costelas
e o riso que nos mostra
é uma tênue cortina
lançada sobre os arsenais.


Vamos ao campo
e não os vemos ao nosso lado,
no plantio.
Mas ao tempo da colheita
lá estão
e acabam por nos roubar
até o último grão de trigo.
Dizem-nos que de nós emana o poder
mas sempre o temos contra nós.
Dizem-nos que é preciso
defender nossos lares
mas se nos rebelamos contra a opressão
é sobre nós que marcham os soldados.

E por temor eu me calo,
por temor aceito a condição
de falso democrata
e rotulo meus gestos
com a palavra liberdade,
procurando, num sorriso,
esconder minha dor
diante de meus superiores.
Mas dentro de mim,
com a potência de um milhão de vozes,
o coração grita - MENTIRA!

terça-feira, 2 de abril de 2013

Os documentos nos arquivos do Regime Militar (1964-85)


Fonte; Portal G1


Acervo recém-aberto mostra artistas e presidentes fichados após ditadura




Roney Domingos e Paulo Toledo PizaReprodução da ficha do piloto Ayrton Senna no órgão (Foto: Reprodução)Do G1 São Paulo



Presidentes da República, artistas, atletas e religiosos continuaram sob monitoramento no Brasil mesmo após o fim oficial da ditadura militar (1964-1985).  É o que revela consulta ao acervo digitalizado do Departamento de Comunicação Social (DCS), criado em 1983, após a extinção do Departamento Estadual de Ordem Política e Social de São Paulo (Deops).
Os dados do DCS, fechado em 1999,  e do Deops, podem ser consultados no site  Memória Política e Resistência  do acervo do Arquivo Público do Estado de São Paulo. Ao todo, foram digitalizados cerca de 1 milhão de páginas de documentação pela Associação dos Amigos do Arquivo Público de São Paulo em parceria com o projeto Marcas da Memória da Comissão de Anistia do Ministério da Justiça.

José Sarney, presidente entre 1985 e 1990, é citado como ex-presidente e tem sua movimentação acompanhada em recortes de jornais recolhidos entre 1987 e 1993. Eles tratam de reações de Sarney sobre o início do seu governo e a morte de Tancredo Neves.
O DCS monitorou também o governo Collor (1990-1992). A ficha que identifica Fernando Collor de Mello como presidente da República relata um recorte de jornal de 22 de maio de 1991 em que Collor afirma que greve tem motivação política e não será geral.  O último item da mesma ficha relata em 9 de setembro de 1992 um recorte de jornal sobre a missa no Rio que reuniu mil pessoas em apoio ao então presidente. O DCS aponta também um plebiscito  organizado pela União Municipal dos Estudantes em 13 escolas de Santo Andre, no ABC, em julho de 1992 sobre a permanência ou não de Collor no poder.  A partir de setembro de 1992 uma ficha exclusiva passa a acompanhar o impeachment do presidente, que renunciou em 29 de dezembro.
O cantor e compositor Tom Zé é citado em ficha de 1985. Nela, o DCS cita reportagem do "Jornal da Tarde" que afirma que o cantor iria dar apoio e estaria presente  em evento do PC do B.  Na ocasião, o partido organizava um ato "pela legalidade" em São Paulo.
Tom Jobim é citado em ficha datada de 1992.  Nela é citada reportagem do "Jornal do Brasil" que mostra que o presidente da Ordem dos Advogados do Brasil Sérgio Zveiter questionava o compositor pela declaração de que "todo advogado é ladrão". Em anotação posterior, o DCS registrou que Tom Jobim tinha afirmado que tudo não passava de um mal-entendido.
Página com documentos do Deops entrou no ar nesta segunda-feira (Foto: Reprodução/Arquivo Público de SP)Página com documentos do Deops entrou no ar
nesta segunda-feira (Foto: Reprodução/Arquivo
Público de SP)
Quem também é citado é o cartunista Laerte Coutinho, em registros do ano de 1983 e 1984. À época, ele foi citado por ilustrar uma publicação do Sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo.

Atletas
O nome do piloto de F1 Ayrton Senna também aparece nos documentos. Na ficha, que acrescenta ao paulistano a qualificadora da "Bi-campeão de Fórmula 1", o órgão faz anotações sobre duas notícias de jornais sobre o atleta.

Ao citar "O Estado de S.Paulo" e "Folha de S. Paulo", o DCS anota que a família de Senna vivia clima de tensão após ter sido ameaçado de sequestro pelo "bando Comando Vermelho". À época, Senna tinha proteção da polícia Civil e Militar por causa das ameaças, segundo o órgão. Nas anotações, não há referências a manifestações políticas ou envolvimento partidário.

Sócrates
O ex-jogador Sócrates, que morreu em dezembro de 2011, é citado uma vez em janeiro de 1988. O DCS cita reportagem do jornal “Folha de S.Paulo” que afirma que o ídolo corintiano era cotado para entrar para a política em Ribeirão Preto, no interior paulista. “O nominado está tão integrado à vida local que tem seu nome cogitado pelo PT para se candidatar à Prefeitura”, diz o documento.
O atleta participou da campanha pelas Diretas Já e, em 1984, foi um dos principais idealizadores da Democracia Corintiana, que reivindicava para os jogadores mais liberdade e mais influência nas decisões administrativas do clube.
Reprodução da ficha do rabino Henry Sobel no órgão (Foto: Reprodução)Reprodução da ficha do rabino Henry Sobel
no órgão (Foto: Reprodução)
Rabino Sobel
Em 1983, o rabino Henry Sobel aparece em sua primeira ficha no DCS. Até o ano de 1992, há quatro anotações sobre o líder religioso. Primeiro, o órgão da repressão decidiu anotar a participação dele em um acampamento no Largo de São Francisco contra a fome e o desemprego. A participação de Sobel, em 1984, em um debate sobre a tortura também foi registrado.
Jair Bolsonaro
O deputado federal Jair Bolsonaro (PP-RJ), famoso por suas declarações polêmicas contra homossexuais, foi monitorado no início de sua carreira política, no fim da década de 1980, até 1993. Em novembro de 1988, o Departamento de Comunicação Social mostrava preocupação com a relação do então recém-eleito vereador na Câmara do Rio e os militares.
O órgão cita reportagem que afirma que o político, por ser capitão da reserva do Exército, é considerado “um representante da ‘família militar’ na Câmara” carioca. Cita ainda suposta declaração, feita em junho de 1993, em que ele defende “o fechamento do Congresso e a volta da Ditadura Militar”.

Fichas na ditadura: Hebe Camargo e Pelé
A atriz e apresentadora Hebe Camargo, que morreu em 2012 aos 83 anos, foi monitorada pelos órgãos de repressão em São Paulo desde o fim da década de 1940. O primeiro registro é por ela ter assinado um manifesto contra a "cassação de mandatos" em 1947.
Hebe é citada ainda por organizar uma festa de aniversário do dramaturgo Oduvaldo Viana, além de ter sido citada por ter participado de atos de apoio a greve de radialistas.
O nome da apresentadora também aparece citada em uma reunião para fundação de uma liga, cuja denominação apontada nos arquivos do Deops era LUCI - Legionárias Unidas Conclamam Idealistas. Para a repressão, a liga tinha interesse em combater "toda iniciativa anti-patriótica" de nossas autoridades.
Há ainda uma anotação feita a partir do depoimento de uma testemunha que afirma que Hebe era consumidora do "pó do sonho", um dos apelidos à época para a cocaína.

O jogador do Santos e astro da seleção, Edson Arantes do Nascimento, Pelé, também aparece em ficha do Deops datada de 1973. O  prontuário de Pelé menciona que o atleta recebeu pedido de indulto de presos políticos e comprou ações de uma rádio.
10% do total
O presidente da Comissão da Verdade Estadual, Adriano Diogo (PT) afirma que embora  apenas 10% dos documentos do acervo de papel estejam digitalizados, há muita coisa para ver.

"O problema é que papel não fala. Tem que ter gente especializada para fazer a leitura crítica desses documentos"afirmou. Segundo o deputado, ainda não estão dispoíveis arquivos do Instituto Médico-Legal (IML) e referentes às valas clandestinas de Perus, por exemplo.

Histórico
O Deops foi criado em 1924 e funcionou até 1983. O órgão tinha como objetivo prevenir e reprimir delitos considerados de ordem política e social contra a segurança do Estado. Para isso, monitorava as atividades de pessoas e grupos considerados potencialmente perigosos à ordem vigente.
O Deops foi criado na década de 1920 em função de mobilizações políticas no Brasil, como greves trabalhistas, a formação do Partido Comunista do Brasil (PCB) e o movimento tenentista. O órgão, entretanto, ganhou maior visibilidade durante a ditadura militar.
Sala com os arquivos do extinto Departamento Estadual de Ordem Política e Social (DEOPS) de São Paulo que serão digitalizados e disponibilizados em site lançado hoje com a presença do presidente da Comissão de Anistia e Secretário Nacional de Justiça, Pau (Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil)Sala com os arquivos do extinto Departamento Estadual de Ordem Política e Social (Deops) (Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil)

segunda-feira, 1 de abril de 2013

Moisés : um personagem real?

Fonte: Portal G1 Reinaldo José Lopes
Do G1, em São Paulo
Escavações e inscrições mostram que povo de Israel se originou dentro da Palestina.
História sobre libertação do Egito teria influência de interesses políticos posteriores.

A saga de Moisés, o profeta que teria arrancado seu povo da escravidão no Egito e fundado a nação de Israel, tem bases muito tênues na realidade, segundo as pesquisas arqueológicas mais recentes. É praticamente certo que, em sua maioria, os israelitas tenham se originado dentro da própria Palestina, e não fugido do Egito. O próprio Moisés tem chances de ser um personagem fictício, ou tão alterado pelas lendas que se acumularam ao redor de seu nome que hoje é quase impossível saber qual foi seu papel histórico original.


É verdade que as opiniões dos pesquisadores divergem sobre os detalhes específicos do Êxodo (o livro bíblico que relata a libertação dos israelitas do Egito) que podem ter tido uma origem em acontecimentos reais. Para quase todos, no entanto, a narrativa bíblica, mesmo quando reflete fatos históricos, exagera um bocado, apresentando um cenário grandioso para ressaltar seus objetivos teológicos e políticos.

Airton José da Silva, professor de Antigo Testamento do Centro de Estudos da Arquidiocese de Ribeirão Preto (SP), resume a situação: "O Moisés da Bíblia é
claramente 'construído'. Pode até ter existido um Moisés lá no passado que inspirou o dos textos, mas nada sabemos dele com segurança. Nas minhas aulas de história de Israel, começo com geografia e passo para as origens de Israel em Canaã [antigo nome da Palestina], não trato mais de patriarcas e nem do Êxodo".

 Data-limite
Os pesquisadores dispõem há muitos anos do que parece ser a data-limite para o fim do Êxodo. Trata-se de uma estela (uma espécie de coluna de pedra) erigida pelo faraó Merneptah pouco antes do ano 1200 a.C. A chamada estela de Merneptah registra uma série de supostas vitórias do soberano egípcio sobre territórios vizinhos, entre eles os de Canaã. E o povo de Moisés é mencionado laconicamente: "Israel está destruído, sua semente não existe mais". Não se diz quem liderava Israel nem que regiões eram abrangidas por seu território. Trata-se da mais antiga menção aos ancestrais dos judeus fora da Bíblia. 

Foto: Reprodução
Inscrição em hieróglifos feita sob ordem do faraó Merneptah pouco antes de 1200 a.C. Esse trecho do texto diz: "Israel está destruído, sua semente não existe mais" (Foto: Reprodução)

Se a saída dos israelitas do Egito ocorreu, ela precisaria ter acontecido antes disso. A Bíblia relata que, cerca de 400 anos antes de Moisés, os ancestrais do povo de Israel, liderados pelo patriarca Jacó, deixaram seu lar na Palestina e se estabeleceram no norte do Egito, junto à parte leste da foz do rio Nilo. Os egípcios teriam permitido esse assentamento porque, na época, o mais importante funcionário do faraó era José, filho de Jacó. Décadas mais tarde, um novo faraó teria ficado insatisfeito com o crescimento populacional dos descendentes do patriarca e os transformado em escravos. 

Por algum tempo, arqueólogos e historiadores acharam que haviam identificado evidências em favor dos elementos básicos dessa trama. É que, por volta do ano 1700 a.C., a região da foz do Nilo foi dominada pelos chamados hicsos, uma dinastia de soberanos originários de Canaã e de etnia semita, tal como os israelitas. (O nome "Jacó", muito comum na época, está até registrado entre nobres hicsos.)

Pouco mais de um século mais tarde, os egípcios expulsaram a dinastia estrangeira de suas terras. Isso mataria dois coelhos com uma cajadada só. Explicaria a ascensão meteórica de José na burocracia egípcia, graças à proximidade étnica com os hicsos, e também por que seus descendentes foram escravizados -- eles teriam sido associados à ocupação estrangeira no Egito.

O problema com a idéia, no entanto, é que não há nenhuma menção aos israelitas ou a José e sua família em documentos egípcios ou de outros reinos do Oriente Médio nessa época. Pior ainda, até hoje não foi encontrado nenhum sítio arqueológico no Sinai que pudesse ser associado aos 40 anos que os israelitas teriam passado no deserto depois de deixar o Egito.  

Os textos egípcios também não falam em nenhum momento da fuga liderada por Moisés, se é que ela ocorreu. "Isso é um problema grave. O argumento de que os egípcios não registravam derrotas é falso: a saída de um pequeno grupo nem era um revés, e eles relatavam derrotas sim, mesmo quando diziam que tinha sido um empate", afirma Airton José da Silva.  

 Apiru = hebreus?


Para Milton Schwantes, professor da  Faculdade de Filosofia e Ciências da Religião da Universidade Metodista de São Paulo, outro problema com a ligação entre os israelitas e os hicsos é dar ao Êxodo uma dimensão muito mais grandiosa do que seria razoável esperar do evento. "É uma cena de pequeno porte -- estamos falando de grupos minoritários, de 150 pessoas fugindo pelo deserto. Em vez do exército egípcio inteiro perseguindo essa meia dúzia de pobres e sendo engolido pelo mar, o que houve foram uns três cavalos afundando na lama", brinca Schwantes.

Ele é menos pessimista em relação aos possíveis elementos de verdade histórica na narrativa do Êxodo. Os israelitas são freqüentemente chamados de "hebreus" nesse livro da Bíblia, uma mistura de nomenclaturas que deixou os estudiosos com a pulga atrás da orelha. Documentos do Oriente Médio datados (grosso modo) entre 2000 a.C. e 1200 a.C., porém, falam dos habiruou apiru -- grupos que parecem ter vivido às margens da sociedade, atuando como trabalhadores migrantes, escravos, mercenários ou guerrilheiros.

"Ou seja, os hebreus talvez não fossem um grupo étnico, mas uma categoria social, de pessoas que muitas vezes eram forçadas a participar de grandes construções no Egito, sem receber o necessário para o seu sustento", afirma Schwantes. Ele também vê sinais de memórias históricas antigas nos nomes de algumas cidades egípcias mencionadas na narrativa do Êxodo -- lugares que foram ocupados por um período relativamente curto de tempo, por volta de 1200 a.C.

"O próprio nome de Moisés é um nome egípcio que os israelitas não entenderam", diz Schwantes. Parece ser a terminação "-mses" presente em nomes de faraós como Ramsés e quer dizer "nascido de" algum deus -- no caso de Ramsés, "nascido do deus Rá". No caso do líder dos israelitas, falta a parte do nome referente ao deus.

 Mar: Vermelho ou de Caniços?


O momento mais famoso da saída dos israelitas do Egito é o confronto entre Moisés e o exército egípcio no Mar Vermelho, quando, por ordem de Deus, o profeta abre as águas para seu povo passar e as fecha para engolir os homens do faraó. No entanto, é possível que a história original tenha se referido não a águas oceânicas, mas a um pântano.

Explica-se: o sentido original do hebraico Yam Suph, normalmente traduzido como "Mar Vermelho", parece ser "Mar de Caniços", ou seja, uma área cheia dessas plantas típicas de regiões lacustres. Assim, nas versões originais da lenda, afirmam estudiosos do texto bíblico, os "carros e cavaleiros" do Egito teriam ficado presos na lama de um grande pântano, enquanto os fugitivos conseguiam escapar. Conforme a tradição oral sobre o evento se expandia, os acontecimentos milagrosos envolvendo a abertura de um mar de verdade foram sendo adicionados à história.

O dado mais importante sobre a dimensão real do Êxodo, no entanto, talvez venha da Palestina. Israel Finkelstein, arqueólogo da Universidade de Tel-Aviv, em Israel, conta que uma série de novos assentamentos associados às antigas cidades israelitas aparecem na Palestina por volta da mesma época em que a estela de Merneptah foi erigida. Acontece que a cultura material -- o tipo de construções, utensílios de cerâmica etc. -- desses "israelitas" é idêntica à que já existia em Canaã antes de esses assentamentos surgirem. Tudo indica, portanto, que eles seriam colonos nativos da região, e não vindos de fora.

Para Finkelstein, isso significa que a história do Êxodo foi redigida bem mais tarde, por volta do século 7 a.C. O confronto com o Egito teria sido usado como forma de marcar a independência dos israelitas em relação aos vizinhos, que estavam tentando restabelecer seu domínio na Palestina. A figura de Moisés, talvez um herói quase mítico já nessa época, teria sido incorporada a essa versão da origem da nação.


sábado, 30 de março de 2013

Tensão no Oriente: a Guerra da Coreia (1950-53)



Na última semana fomos assustados com uma notícia que saiu de 60 anos atrás: a eclosão de uma guerra na península da Coreia, envolvendo potencias nucleares e um resultado sem precedentes para a região e o mundo.

No entanto, os fatos envolvem o momento atual e o delicado equilíbrio na região do Extremo Oriente, pois o recém empossado líder supremo da República Democrática Popular da Coreia do Norte, Kim Jong-un declarou “estado de guerra” à Coreia do sul e aos EUA. Kim Jong-un é filho de Kim Jong-il (1994-2011) e neto do fundador Kim il Sung (1949-1994) e assim, ao que parece, está dando continuidade à dinastia socialista, amparada por um corpo de militares e pelo Partido dos Trabalhadores  da Coreia.

A existência das duas Coreias e deste estado de tensão é um fruto direto da II Guerra Mundial (1939-1945) e por sua vez, da Guerra Fria(1945-1991).



Antes, voltemos ao contexto de ascensão do Império do Japão e como os desdobramentos de uma política de centralização do poder no imperador abriu caminho para a formação de um império militarista e conquistador num curto espaço de tempo.

Até 1868, o governo japonês era descentralizado, sendo o imperador uma figura enfraquecida e os senhores locais (shoguns) muito bem estruturados num processo "semelhante" ao da Europa feudal, durante a chamada formação das monarquias nacionais entre os séculos XV e XVI.
Em 1868 ocorreu a chamada Revolução Meiji ou Era Meiji , que significa “Era das Luzes ou Era Iluminada” quando o imperador Mutsu-Ito centralizou o poder em detrimento do shogunato, cuja exercício do poder de fato estava calcado na ação dos exércitos de samurais (elite de militares treinados em diferentes formas de combate, dotados de um código de honra, o Bushidô, que os tornava semelhantes, em termos de comparação, aos cavaleiros da Europa medieval).

Após a substituição do poder samurai por um exército organizado aos moldes ocidentais, submisso diretamente ao poder imperial, foi responsável por um processo de abertura e ocidentalização do Japão, fator prioritário para lançar as bases da industrialização e o incentivo ao comércio e agricultura, por conseguinte, abrir caminho para o fortalecimento do poder japonês no Extremo Oriente: em 1904 a anexação das ilhas Sacalina e da península da Coréia, depois de derrotar a Rússia e a posterior expansão em direção ao território chinês, tomando a Manchúria e depois, expandido em direção ao litoral chinês ao longo da década de 1930, processo que foi ampliado com a eclosão da II Guerra Mundial em 1939.

Desde 1937, o Japão havia começado um processo de expansão sobre o Extremo Oriente, tomando vastos territórios pertencentes à China, além de atacar Indochina francesa,  as regiões britânicas (Birmânia e Malásia), Indonésia holandesa e Filipinas. O expansionismo japonês ameaçava a Austrália e o arquipélago do Havaí, o qual foi atacado em 7 de dezembro de 1941 pela aviação japonesa na base militar Pearl Harbor – portanto, um ataque direto ao território dos EUA, que provocou sua entrada na Guerra ao lado dos Aliados.

Com a derrota japonesa em 1945, a região transformou-se em dois países: a República Popular da Coreia do Norte, de orientação comunista e área de influência da URSS, e a Coreia do Sul, país capitalista e área de influência dos EUA.

O processo de divisão das chamadas “zonas de influência” começou a ser pensado na Conferência de Potsdam, em julho de 1945, nos arredores de Berlim, pelos dirigentes dos EUA (Harry Truman),  da Grã-Bretanha (Winston Churchill) e da URSS (Josef Stálin), criando o ambiente que marcaria a Guerra Fria em todo o mundo e esta situação se complicou com a ruptura de relações entre EUA e URSS, após pesadas críticas de Truman a Stálin, quando se lança uma ofensiva econômica com o “Plano Marshall”, e a consolidação de uma oposição concreta pelo que ficou conhecido como “Doutrina Truman” e neste contexto, o senador Joseph McCarthy, encabeçou a luta contra o “perigo vermelho” aos perseguir todo envolvido ou suspeito de relação com o Comunismo, um episódio que ficou conhecido como a “caça às Bruxas”: intelectuais, artistas, educadores, sindicalistas foram demitidos ou tiveram seus nomes em “listas negras” que dificultavam a obtenção de um emprego, num claro desrespeito à liberdade de expressão, além de ocorrem prisões e interrogatórios que buscavam “deter a ameaça do comunismo”.

         A conferência de Potsdam: o mundo repartido entre os vencedores

Em julho de 1950, tropas norte-coreanas invadiram a Coreia do Sul, cuja resistência foi fortalecida com o envio de tropas e armas estadunidenses e com o apoio da ONU. A Coreia do Norte foi apoiada pela União Soviética e pela China, as quais também enviaram tropas e armas.

Depois de três anos de conflito e quase cinco milhões de mortos, os ataques foram suspensos por um armistício assinado em 27 de julho de 1953 entre as duas Coreias, criando-se uma zona desmilitarizada entre as fronteiras de ambos os países, tendo por referência o paralelo 38, com 238km de extensão e 4km de largura. A zona desmilitarizada teve a fiscalização inicial de forças armadas de países neutros como a Suíça e Suécia.



Em tese, as duas Coreias estão em guerra desde 1953, mas o armistício assegurou o fim das ações militares, apesar de eventuais atritos, entre ambos os lados, nestas seis décadas, a tensão não voltava para um patamar tão elevado e a dinâmica das ações envolve um novo cenário: os EUA continuam usando Japão e Coreia do Sul como ponto de pressão contra a Coreia do Norte e seus aliados (Rússia e China) na região, mas tudo seria muito diferente se não fosse o intenso investimento da Coreia do Norte num projeto nuclear não-pacifista, que tem tido progressos, especialmente depois dos 3 testes nucleares realizados com sucesso, sendo o último realizado em fevereiro deste ano.

Outro ponto é o desenvolvimento de tecnologia para o lançamento de foguetes para o espaço e mísseis intercontinentais e desse modo, poderiam atingir por exemplo, bases dos EUA ou mesmo o continente americano.

A postura belicista e hostil da Coreia do Norte tem se transformado numa espécie de “círculo vicioso de chantagens”, onde o regime comunista tenta amedrontar o ocidente e seus interesses, bem como pressionar seus aliados locais (China e Rússia) para a obtenção de recursos em alimentos e combustíveis e da suspensão de sanções impostas pela ONU e União Europeia.

Na opinião de muitos analistas ocidentais, aparentemente, ainda seria muito prematuro para a Coreia do Norte ter reais condições de atingir os EUA ou suas bases no Pacífico, e o grosso do arsenal norte-coreano, seria uma herança da Guerra Fria, com armamentos que estariam obsoletos, como os velhos mísseis terra-ar Scud, que foram as “vedetes” de Saddam Hussein na 1a Guerra do Golfo(1990-91), quando sua maioria foi interceptada, evitando o bombardeio do território de Israel, mas mesmo assim, ocorreram algumas mortes.

Diz a sabedoria popular que “Cão que ladra, não morde”, mas que a atenção do mundo está focada nos desdobramentos do Oriente, não há duvidas, inclusive pela postura cautelosa que a China e a Rússia tem tratado a questão, afinal, ambos tem exortado o diálogo e a solução diplomática, enquanto os EUA demonstram força ao enviar seus “bombardeiros invisíveis” B-2 e também não interromperam os exercícios militares no mar da Coreia.


Sugestões de Filmes:

Dr. Fantástico (Direção: Stanley Kubrick), 1964, 95min. : Um general americano acredita que os soviéticos estão sabotando os reservatórios de água dos Estados Unidos e resolve fazer um ataque anticomunista, bombardeando a União Soviética para se livrar dos "vermelhos". Com as comunicações interrompidas, ele é o único que possui os códigos para parar as bombas e evitar o que provavelmente seria o início da Terceira Guerra Mundial.

Jogos de Guerra (Direção: John Badham), 1983, 114min. : Um jovem (Matthew Broderick) aficcionado por informática conecta seu micro acidentalmente ao sistema de defesa americano, controlado por um computador ultrasofisticado. O acidente provoca um estado de alerta, que pode acabar causando a Terceira Guerra Mundial.

O Dia seguinte (Direção: Nicholas Meyer), 1983, 127min. : Década de 80. Em Lawrence, uma pequena cidade próxima a Kansas City, Russell Oakes (Jason Robards) está ocupado com seus afazeres como chefe de cirurgia do hospital local e a família Dahlberg cuida dos preparativos para o casamento da filha mais velha. Paralelamente o exército russo invade Berlim Oriental, o que cria uma crise entre a União Soviética e os Estados Unidos. Logo ambos os lados enviam seus mísseis nucleares, na intenção de vencer a guerra. Nos Estados Unidos um dos alvos é Kansas City, onde estão armazenados dezenas de mísseis nucleares.

Sob a névoa da Guerra (Direção: Errol Morris), 2003, 95 min. : Narra a história militar recente dos Estados Unidos do ponto de vista de Robert S. McNamara, ex-secretário de Defesa nos governos Kennedy e Johnson (1961-68). Um dos mais controvertidos políticos americanos, McNamara, que também já presidiu o Banco Mundial entre 1968 e 1981, tenta explicar o motivo do século 20 ter sido tão violento. 
Desde o bombardeio de centenas de milhares de civis em Tóquio, em 1945, passando pela Crise dos Mísseis, em Cuba, até os efeitos da guerra do Vietnã, o filme examina a combinação de fatores políticos, sociais e psicológicos que envolvem os conflitos armados. Com uma rica seleção de imagens de arquivo e gravações confidenciais da Casa Branca, também examina as justificativas do governo americano para uso militar da força.

quarta-feira, 27 de março de 2013

Restauração de templos tibetanos budistas causa polêmica no Nepal


Fonte: portal iG by New York Times  Por Edward Wong


Dezenas de pintores sentaram-se sobre andaimes perto do telhado de um antigo mosteiro. Com uma pincelada, eles trouxeram cor de volta ao Buda. Ouro para a pele. Preto para os olhos. Laranja para as roupas.
Eles trabalharam com luzes elétricas portáteis. Estátuas de divindades budistas tibetanas contemplavam seu trabalho. Através de alguns vãos no telhado, eixos de luz solar atingiam alguns dos 35 pilares de madeira na sala principal do Mosteiro Thubchen, o mesmo edifício que impressionou Michel Peissel, o explorador do Tibete, quando visitou o local há meio século.


Na foto ao lado, a restauração do mosteiro de Tubchen, Nepal.

"No Nepal, ninguém sabe como fazer isso, por isso temos de aprender", disse Tashi Gurung, 34, um pintor que fez parte de um dos mais ambiciosos projetos de arte tibetana no Himalaia.
Financiado pela Fundação Americana do Himalaia, o projeto visa a restaurar a arte de dois dos três principais mosteiros e templos em Lo Manthang, a capital murada do reino de Mustang. Fazendo fronteira com o Tibete no remoto deserto do Himalaia, Mustang é um importante enclave da cultura budista tibetana.
Líderes tibetanos, incluindo o dalai-lama , disseram que sua cultura está sob ataque nas vastas regiões tibetanas governadas pelo Partido Comunista Chinês, que ocupou o Tibete Central, em 1951. Isso, juntamente com o avanço da modernidade, significou que o ato de preservar ou revitalizar a arte tibetana é sem dúvida mais importante atualmente do que em qualquer momento desde a devastadora Revolução Cultural da China.
O projeto em Lo Manthang abriu espaço para debates. Alguns estudiosos de arte tibetana afirmaram que os pintores no local estão alterando importantes murais históricos e comprometendo seu valor acadêmico ao pintar novas imagens sobre seções de paredes nas quais as imagens originais foram destruídas. Os envolvidos no projeto argumentaram que os moradores querem obras completas em suas casas de culto.
O diretor do projeto é Luigi Fieni, 39, um italiano que começou a trabalhar em Lo Manthang depois de se formar em um programa de conservação de arte em Roma. Fieni e outros ocidentais têm treinado os moradores locais para trabalhar com a técnica, estabelecendo uma equipe de 35 membros, que inclui 20 mulheres e um monge (embora inicialmente tenha havido relutância dos homens locais em relação à participação feminina).
O projeto de arte começou em 1999 com a limpeza de murais no Mosteiro Thubchen após uma rodada inicial de reconstrução da arquitetura. Em seguida, os pintores foram para o Templo Jampa, onde a principal sala do local possui uma estátua imponente de Maitreya, o futuro Buda.
As paredes do primeiro andar são adornadas com mandalas extremamente detalhadas, uma forma de arte geométrica considerada uma representação do cosmos. Foi aí que Fieni decidiu desviar a abordagem inicial realizada em Thubchen. Ele queria que sua equipe, em vez de simplesmente restaurar as estruturas, pintasse trechos das paredes em que um mural original tivesse desaparecido ou sido destruído.
Houve desafios. Pintores de castas superiores inicialmente não queriam artistas de castas inferiores sentados nos andaimes acima deles. E também houve crenças religiosas que precisaram ser acomodadas. Nos edifícios, um abade usou um espelho para absorver os espíritos dos deuses nas estátuas e imagens antes de a pintura começar. Depois que o projeto estiver concluído, espera-se que o abade liberte os espíritos do espelho para que possam voltar.

A abordagem de Fieni para restaurar os templos e mosteiros tem sido contestada. Christian Luczanits, curador sênior do Museu Rubin de Arte de Nova York, que exibe arte do Himalaia, relata ter ficado perplexo com o que viu quando visitou Mustang, em 2010 e 2012.
Luczanits disse que as pinturas originais não receberam o tratamento que mereciam. Agora, por causa da nova pintura, qualquer estudioso que quiser estudar as obras originais deverá recorrer a fotografias em vez de confiar na arte presente no templo, disse. "Depois da restauração, o templo já não pode ser 
compreendido sem a documentação anterior", afirmou.

Estátua tibetana é vista na entrada do Monastério de Thubchen, em Lo Manthang, Nepal (07/09/2012)



No ano passado, ele expressou sua opinião em uma reunião no palácio em Lo Manthang. Entre os presentes estavam Fieni, um abade, o príncipe do Mustang e representantes da Fundação Americana do Himalaia, que oferece apoio financeiro a muitos projetos de desenvolvimento em Mustang. (A presidente da fundação, Erica Stone, afirmou que o total a ser gasto com as obras de renovação do edifício em Lo Manthang é US$ 2,58 milhões. Um adicional de US$ 768 mil foram gastos para restaurar o muro da cidade e para construir a drenagem).
Houve um debate vigoroso, e a família real e o abade apoiaram Fieni. O príncipe cerimonial Jigme Singi Palbar Bista disse que os edifícios "foram renovados perfeitamente".
O tempo para pintar o Mosteiro Thubchen deve demorar ainda mais três ou quatro anos, mas o orçamento do projeto deve acabar neste ano. Fieni estimou que ainda há um total de cerca de 278 metros quadrados de parede para pintar.
Ele disse que pensava em mudar seu foco para projetos de restauração na Índia ou Mianmar com alguns dos pintores que havia treinado em Lo Manthang. Em 2006 e 2007, ele levou cinco deles para trabalhar em um mosteiro tibetano na Província de Sichuan, no oeste da China, um projeto que não chegou a ser concluído pelo fato de as autoridades chinesas terem fechado o acesso para a área depois de um levante tibetano em 2008.

sexta-feira, 15 de março de 2013

Um homem chamado Francisco

Nesta última quarta-feira, 13 de março de 2013, depois de 5 escrutínios, o Colégio dos Cardeais elegeu para assumir o "trono de São Pedro" o cardeal Jorge Mário Bergoglio: o 1º latino-americano eleito e num sinal de grande esperança face às tensões que a Igreja Católica tem vivido, escolheu como nome "Francisco".

Bergoglio é um jesuíta e nesta ordem há a figura ilustre de Francisco Xavier (1506-1552), um dos fundadores da Societas Jesu ou Companhia de Jesus, juntamente com Inácio de Loyola (1491-1556), ordem que teve um papel central na evangelização do Novo Mundo, sendo responsável pelos colégios e escolas que deveriam doutrinar e educar os indígenas, bem como os colonos e suas famílias, mantendo a forte presença da Igreja Católica Romana nas terras americanas como um contrapeso às tensos do continente europeu, que atravessou os séculos XVI e XVII em guerras religiosas que opuseram católicos e os chamados "protestantes", cristãos que romperam com Roma ao seguirem Lutero, Henrique VIII e João Calvino.

Francisco Xavier ficou conhecido como o "Evangelizador do Oriente", pois levou a mensagem cristão à Índia e ao Japão, mas seu sucesso não foi tão significativo no Oriente quanto o processo desempenhado por outros jesuítas nas Américas. 

Já a história de Francisco de Assis (1182-1226) apresenta um jovem que, dotado de todo o conforto material, rompe com tudo e se entrega a uma vida de pobreza, amor e caridade, tendo a sublime dedicação aos ensinamentos de Jesus Cristo.

 Afresco de Giotto di Bondone, Basílica de São Francisco, Assis, Itália

A imagem acima,pintada por Giotto entre 1297-99, mostra o momento que o jovem Giovanni (seu nome de batismo) renega a riqueza da família, tendo seu pai Pietro (vestindo amarelo) ficado em fúria, mas é detido por um outro homem de vestes vermelhas, que segura seu braço, evitando que Pietro agrida o filho, naquilo que seria "exercer o pátrio poder" e acabar com aquela vergonha para ele e a família.

O apelido "Francesco" deriva do período que o jovem Giovanni passou na França e das raízes francesas de sua mãe e assim, teremos o nome Francisco. Na imagem de Giotto, Francisco contempla a mão de Deus que aparece nos seus, aparentemente despreocupado com o que acontece na terra, mas ao mesmo tempo, tem sua "nudez" protegida pelo bispo, que o cobre com sua capa, porém é muito importante perceber que Francisco está com "os olhos direcionados para Deus" e "voltado de costas para o clero", simbolizado pelo bispo.

Neste contexto, começam a surgir as ordens mendicantes, irmandades religiosas que pregam a pobreza e condenam o luxo e a ostentação de Roma, destacando-se a Ordem dos Irmãos Menores, fundada por Francisco de Assis que abandonou todos seus bens, pregando voto de pobreza. 

Há o famoso episódio do sonho do papa Inocêncio III (1198-1216): : o sonho do Papa Inocêncio III. Este viu em sonhos que a Basílica de São João de Latrão, a igreja mãe de todas as igrejas, estava desmoronando e que um religioso pequeno e insignificante a escorava com os ombros, para que não caísse. É interessante notar, por um lado, que não é o Papa quem ajuda para que a Igreja não caia, mas um religioso pequeno e insignificante, que o Papa reconhece em Francisco quando este o visita.

 Afresco de Giotto di Bondone, Basílica de São Francisco, Assis, Itália



No intuito de trazê-las para o controle da Igreja, Inocêncio III reconheceu a Ordem dos Irmãos Menores em 1209, mas essa sorte não recaiu sobre outros movimentos que insistiam na contestação do poder e da riqueza da Igreja, que foram duramente perseguidos pela Inquisição. Francisco morreu em 1226 e foi canonizado dois anos depois.

A figura do pobre de Assis, com certeza, nos aponta um momento de esperança para estes tempos tão difíceis, mas em seu exemplo, o exercício da fé autêntica e da busca espiritual, nos colocam um pouco de luz para atravessarmos as dificuldades que cercam a construção de uma sociedade justa, plena em Paz e que possa aceitar as diferenças, fazendo com que haja respeito e união entre todos.