As Ricas Horas do Duque de Berry

As Ricas Horas do Duque de Berry
As Ricas Horas do Duque de Berry. Produção dos irmãos Limbourg - séc. XV. Mês de julho

terça-feira, 17 de junho de 2014

Parte I - Renascimento: a transição do mundo medieval para o mundo moderno

Uma série de fatores proporcionou a ocorrência do Renascimento a partir da Baixa Idade Média. Inicialmente, houve o renascimento comercial, isto é, a generalização do comércio pela Europa, fenômeno que se tornou irreversível desde a abertura do Mediterrâneo. Isso tudo foi acompanhado pelo renascimento urbano, que implicou o surgimento de novas cidades e uma série de funções para elas; a cultura renascentista foi essencialmente urbana.

"Mercador e sua esposa", Quentin de Metsys, c. 1514 - Museu do Louvre, Paris - França


Ocorreu também o surgimento e a ascensão dos mercadores, ligados principalmente ao comércio marítimo. Para que isso acontecesse, foi necessária a centralização do poder em algumas partes da Europa, o que favoreceu a redução do poder da Igreja e das ideias que condenavam o comércio de maneira geral. Tais mercadores, enriquecidos, passaram a viver em palácios tentando igualar-se à nobreza de sangue. Passaram, então, a praticar o mecenato, ou seja, a abrigar, financiar e incentivar artistas, tornando-se protetores das artes. Estes artistas entraram em contato com a herança do Império Romano presente em esculturas, pinturas, obras arquitetônicas e literárias espalhadas por toda a Península Itálica.

Outro fator impulsionou o Renascimento foi que, com a queda de Constantinopla, que passava às mãos dos turcos, muitos sábios bizantinos fugiram para o Ocidente, encontrando refúgio nos palácios dos burgueses e dos nobres italianos. Não se pode esquecer de que, em Constantinopla, se consolidou a presença de centros de estudo, assim, os textos clássicos ainda eram lidos, e o latim e o grego eram línguas correntes entre poetas e literatos.

Aos burgueses interessava duplamente financiar os artistas da época, pois, ao mesmo tempo em que ascendiam socialmente dentro da Itália, divulgavam seus nomes e sua grandeza até mesmo nos países distantes. O patrocínio dado às artes favorecia a distinção e prestígio da burguesia, a qual era bastante ansiosa em se igualar à nobreza, porém esta última não se sentia muito feliz com esta aproximação.

O RENASCIMENTO E O CONTEXTO HISTÓRICO

Durante a Baixa Idade Média ocorreu o renascimento comercial e urbano, o qual favoreceu em especial algumas regiões da Europa como a Flandres (região que hoje compreende Bélgica e Holanda) e o norte da Itália em virtude da intensa atividade comercial. Neste momento , começou o fortalecimento do poder monárquico em detrimento da nobreza, mas tanto na Itália não se formou uma monarquia nacional centralizada, uma vez que constituíam regiões dominadas por pequenos Estados sob o controle da burguesia (as Repúblicas de Florença,Gênova, Lucca, Siena e Veneza);da nobreza (os Ducados de Milão, Módena, Ferrara, Savóia) e da Igreja (região central da Itália). A região de Flandres era uma possessão dos Duques de Borgonha (passando no final do século XV para o domínio dos Habsburgo) e era dotada também de intensa atividade comercial, tendo porém uma burguesia desinteressada em nobilitar-se como era o caso da italiana, valorizando portanto, sua posição de mercadores e comerciantes.

Lorenzo di Medici, "il Magnifico", governante de Florença entre 1469 e1492.


O enriquecimento das cidades italianas fez com que as famílias burguesas que controlassem o governo das comunas a partir do podestá (líder político) que tinha sob seu controle um exército de mercenários liderados pelo condottieri (chefe de armas ou capitão de guerra). Em Veneza , porém, havia a figura do doge (chefe da República) apoiado pelo senado e pelo temível Conselho dos Dez (órgão sigiloso, com poderes de vida e morte sobre os cidadãos, composto por membros da aristocracia veneziana).

Destacaram-se como importantes membros da burguesia italiana os Médicis em Florença, os Baglioni em Perúgia e os Bentivoglio em Bolonha; em algumas cidades os próprios condottieri controlavam o poder como os Sforza em Milão.



ITÁLIA: O "BERÇO DO RENASCIMENTO"

O Renascimento tem como seu "berço" a Península Itálica devido a um conjunto de fatores que favoreceram sua formação. Em primeiro lugar, o fato de ter sido o centro do Império Romano e guardar milhares de ruínas e resquícios da cultura greco-romana, como templos, estátuas, prédios públicos e dessa forma, os italianos tinham uma convivência muito próxima com seu "glorioso passado". Em segundo lugar, o enriquecimento proveniente do comércio mediterrâneo que permitiu aos burgueses o investimento nas artes, sendo denominados mecenas, com o objetivo de legitimar sua posição na sociedade e buscar uma visão de mundo que se relacionasse com seu modo de vida, rompendo portanto, coma visão de mundo medieval, na qual eram simples trabalhadores inferiorizados pela nobreza e clero. O mecenato, no entanto, não ficou restrito aos burgueses, pois nobres, papas e príncipes também o fizeram.

Um fator muito importante foi a sobrevivência de muitos textos clássicos através da sua conservação em bibliotecas de mosteiros e abadias que foram copiados e traduzidos por monges copistas, do intercâmbio entre sábios bizantinos e também pela ação dos árabes na tradução e divulgação de vários textos, como por exemplo o estudo de Aristóteles realizado em Córdova por Ibn Rushd (conhecido no Ocidente como Averróis que viveu entre 1126 e 1198).

Averróis num detalhe do afresco "Escola de Atenas" de Rafael Sanzio, Museus do Vaticano.


A sobrevivência dos elementos da cultura clássica pode ser relacionado com sua redescoberta a partir do interesse dos intelectuais pelos studia humanitatis (estudos humanos que incluíam filosofia, poesia, história, matemática , eloqüência e o perfeito domino do latim e do grego) , pois não se buscou a mera repetição dos modelos antigos, mas sua reinterpretação à luz de sua época e dessa forma constituiu-se o humanismo.

Neste contexto, destaca-se a obra de Dante Alighieri (1265-1321) A Divina Comédia, poema épico composto por três partes (Purgatório, Inferno e Paraíso), escrito em tercetos com versos decassílabos, totalizando 100 cantos e totalmente escrito em dialeto toscano, o qual futuramente daria origem a língua italiana. Apesar de inovadora, a Divina Comédia ainda trazia vários elementos da cultura e visão de mundo medieval, representados pela hierarquia, linearidade e imobilidade, tendo porém, uma perspectiva que ressalta o valor humano, pois a passagem de Dante pelo Inferno e pelo Purgatório não deturpa seu caráter, ao contrário, reafirma-o.

Afresco de Domenico de Michellino, c.1465, Catedral de Santa Maria dei Fiore - Florença, Itália.


O CONCEITO DE RENASCIMENTO

O conceito de Renascimento vem da palavra italiana renascitá, pois se acreditava que o período anterior, a Idade Média, fora uma "espessa e longa noite gótica" imersa nas trevas e desprovida de cultura. Para os homens deste período, a "verdadeira" cultura encontrava-se na Antiguidade, a qual foi banida e em seu lugar a Igreja Católica estabeleceu o teocentrismo. O saber, portanto, encontrava-se nas artes e nos escritos clássicos.

Dessa forma, os artistas e intelectuais buscavam uma concepção de cultura diferente da medieval e que tinha suas raízes no mundo greco-romano. A proposta central era afastar-se do teocentrismo, buscando o antropocentrismo, ou seja, o homem como medida de todas as coisas.

Ao pensarmos o conceito de Renascimento, a questão mais importante é pensa-lo como uma releitura de um pensamento que aparentemente teria desaparecido e seria recuperado pelos estudiosos. Tal idéia tinha força, porque os homens da época entendiam por arte os modelos da cultura clássica, os quais desapareceram durante o medievo e portanto precisavam ser recuperados, segundo Giorgio Vasari (1511-1574) e Leon Battista Alberti (1404-1472), ambos artistas renascentistas e importantes personagens na criação dos conceitos renascimento e homem universal (l’uomo universale), respectivamente.

Apesar desta repulsa à Idade Média, é importante perceber que as transformações sofridas durante o Renascimento foram resultados de um processo de continuidade que perpassou o medievo e atingiu seu esplendor no momento seguinte, portanto, não se pode considerar a Renascença como uma ruptura total, mas a mudança de largo processo de experimentação e transformação. 




A partir da reabertura do Mediterrâneo após as Cruzadas (séc. XI-XIII), a Europa assistiu uma intensa transformação das relações sociais e do modo de vida, pois as cidades voltaram a crescer e se tornaram o centro das atividades comerciais através da atuação dos burgueses. A burguesia era um grupo oriundo da ordem dos trabalhadores e portanto, não possuía a legitimidade como a nobreza ou o clero, os quais controlavam a vida dos demais .

No que diz respeito a prosperidade italiana, esta era relacionada com o monopólio do comércio de especiarias com o Oriente, tendo se destacado as cidades de Gênova, Veneza, Florença e Pisa. Estas cidades controlavam a venda de especiarias dentro da Europa e também a sua compra com os árabes e turcos no Mediterrâneo.

Visão de Florença no séc. XV

Visão de Veneza séc. XVI

Visão de Gênova séc. XV



sexta-feira, 13 de junho de 2014

Dia dos Namorados X Copa do Mundo

O Dia dos Namorados é mais uma data de caráter comercial que, como as outras, tem um grande apelo emocional já bastante estabelecido, afinal, entre o "Dia das Mães" e o "Dia dos Pais", não havia nenhuma grande data para o comércio fazer girar os seus lucros e dessa forma, aproveitando a tradição portuguesa da Festa de Santo Antônio no Dia 13 de junho, foi ali estabelecido o Dia dos Namorados no Brasil.

Vale lembrar que, no hemisfério norte, a data é 14 de fevereiro, dia do martírio de São Valetim, um bispo cristão que continuava a realizar casamentos apesar de uma proibição imposta pelo imperador Cláudio II(268-270) aos cidadãos romanos naquele período de guerras, pois o imperador entendia que, solteiros lutavam com mais empenho dedicação que os casados. Com a cristianização do Império Romano, a Igreja estabeleceu a festa de São Valentim no dia 14, aproveitando também, o fato de noa dia 15 de fevereiro existirem as "Lupercais", festas dedicadas a Juno, esposa de Júpiter, deusa associada ao casamento e a fertilidade. 

Vitral da Igreja de Terni, ao norte de Roma, onde foi sepultado São Valentim

No caso brasileiro, a véspera do dia de Santo Antônio é acompanhada dentro da cultura popular de uma série de rituais, conhecidos como "simpatias", cujo objetivo é obter o nome do "futuro amado(a)" ou então, através da "ajuda" de Santo Antônio, fazer com que determinada pessoa se "apaixone" pelo solicitante e nesse processo, tem-se o costume de submeter uma imagem de Santo Antônio a uma série de "tormentos": colocá-la de cabeça para baixo num copo com água, amarrar a estátua com cordas ou ainda, "esconder o Menino Jesus" do santo, já que em algumas imagens , o Menino Jesus carregado pelo Santo é móvel. Portanto, a imagem do santo é submetida à "tortura, extorsão e sequestro" e na crença popular, espera-se que em virtude de tudo isso, o santo "atenda" a solicitação do fiel.


Muito bem, nessa mistura toda, unindo a cultura popular aos diversos elementos pagãos, somando a tudo isso, a devoção ao "Santo casamenteiro", pois Antônio durante suas pregações sempre exaltou a importância do Amor e daí, o apelo do fiéis por sua intercessão, a data acabou se consolidando e desse modo, os namorados, noivos, casados e "outras" inúmeras categorias de relacionamentos amorosos ficaram felizes, bem como, os comerciantes.

Mas, ao falarmos de fé no Brasil, existe o dogma do futebol. Uma devoção intensa e que ao longo do século XX, se estabeleceu como traço da identidade cultural e chegou ao status de "manifestação do patriotismo". Parar tudo para assistir a Seleção Brasileira ganhou a dimensão de culto, algo tão sagrado como outros eventos da fé, seja o Natal, a Páscoa ou o dia de Yemanjá ou então a lavagem das escadarias da Igreja de Nosso Senhor do Bonfim.

Foi durante o século XX que o futebol foi deixando de ser um esporte de elite, que se atribui para nós a influência possivelmente trazida pelos ingleses (football) ou pela ação de um brasileiro, Charles Miller, que o trouxera para cá nos fins do século XIX e daí para cá, foram surgindo os clubes, os jogos de caráter semi-profissional até que ganhou uma dimensão bastante marcante, de norte a sul do Brasil, os campeonatos estaduais e nacionais deram fôlego para a formação de times, de jogadores, de federações estaduais e disso, surgiu a CBD (Confederação Brasileira de Desportos) em 1914 e mais tarde, em 1979, transformou-se na CBF (Confederação Brasileira de Futebol).

Ontem, tecnicamente foi o "Dia dos Namorados", mas em virtude do início da Copa do Mundo de 2014, sediada no Brasil, o conflito comercial foi inevitável. A devoção pela "Seleção" e seus "craques" foi bastante intensa no tingir as ruas de verde-amarelo, seja nas roupas de muitos, seja nas decorações de casas, ruas e fachadas. Com certeza, devem ter ocorrido as tradicionais comemorações, mas não era um clima de "o amor está no ar".

A fé demostrada nos jogadores e na busca do hexacampeonato, somado à declaração de feriado municipal, fizeram da quinta um domingo: sol, com bares lotados, casas preparadas para receber os convidados na célebre forma churrasco e cerveja, além de outras possibilidades, obviamente, muitos fogos e buzinas, no melhor exemplo da "Pátria de Chuteiras".

Seja nas gerações mais velhas(que já tinham visto outros títulos), seja nas gerações mais novas (ansiosas no desejo de presenciar a vitória no Mundial), buscava-se a renovação da fé e esperança no atual time dirigido por Luís Felipe Scolari e assim, quem sabe ver, aqui na "Pátria Mãe gentil" a conquista de mais um título.

No entanto, do outro lado, estavam os céticos e hereges que ainda ousaram questionar o evento debaixo do grito de guerra (Não vai ter Copa!): protestos em São Paulo, Rio de Janeiro e Porto Alegre, sendo assim, na defesa do evento e "da ortodoxia" no cumprimento do ritual sagrado futebolístico, as forças de segurança foram para cima, debelando os manifestantes com todo seu aparato de repressão não-letal (bombas de feito moral, gás lacrimogêneo, spray de pimenta, escudos, cassetetes e muita força), mas mesmo assim, repórteres da imprensa local e internacional saíram feridos.

Vale lembrar que, apesar da truculência na repressão, os manifestantes estavam longe de uma conduta pacífica, pois os famosos blackblocks entraram em ação, somados a alguns outros tantos oportunistas que causaram danos ao patrimônio particular (carros de reportagem, fachadas de lojas e bancos) e de bem públicos, como placas de ruas e outras sinalizações. Em suma, um show de violência gratuita travestida de "defesa" da educação, saúde, moradia e outras coisas necessárias, mas que se tornaram esquecidas face aos horrores praticados.

Lembremo-nos que Pelé pediu que as pessoas separassem a política do futebol e da Seleção e Ronaldo Fenômeno declarou que baderneiro merece mesmo é tomar porrada. Dessa forma, se fosse preservada a nossa santa alienação e tudo corresse dentro da "ordem", não haveriam problemas ou melhor ainda, eles seriam esquecidos pelas glórias alcançadas pela Seleção Canarinho, dentro do melhor estilo do "Panis et circensis", ou seja, o Pão e Circo da antiga Roma. Isso me lembra 1970...

O capitão da Seleção de 1970 Carlos Alberto e o Presidente General Emílio Médici


Charge do cartunista Jaguar - 1970


A famosa "Pra frente Brasil"

Talvez, este quadro não fosse o mais desejado pelas autoridades brasileiras, seleções, mídia e patrocinadores, mas sinaliza que tudo é passível de mudança e no caso, de fato, comparado com as edições anteriores realizadas no estrangeiro, o frenesi do "Pra frente Brasil, salve a seleção!" ficou de lado, dado espaço em alguma medida para um questionamento e crítica que, com certeza, está muito longe de acabar com o impacto do futebol na sociedade brasileira.

Fonte: Revista Veja


A Copa está acontecendo, com todo um aparato de segurança e de mídia que não há como ser detido e nesse universo, encontramos o peso da informação, as mobilizações e ao mesmo tempo, como os patrocinadores estavam/estão apreensivos com os resultados face a esta gama complicada de problemas, mas acima de tudo, a ideia é faturar e nisso, por exemplo, a AMBEV controladora da marca Brahma teve a brilhante sacada de "mudar" o Dia dos Namorados para o dia 11/06 e nesse caso, não dá ainda para saber o quanto de adesão isso teve, se valeu a pena financeiramente, mas na sua propaganda, eivada do já tradicionalíssimo chavão do uso da mulher bonita e cerveja, perpassando pelo estereótipo, que futebol é coisa de homem e mulher nada entende e só atrapalha, surgiu então, a brilhante ideia de propor a mudança da data.

Na verdade, a mudança da data não é nenhuma heresia, afinal, é só a mera troca de uma data comercial por outra. A grande questão é o argumento: preconceituoso e machista, reitera a desvalorização da mulher, mas isso aparentemente não é nada dentro da cultura patriarcal que ainda se encontra muito bem estabelecida no Brasil, sendo defendida inclusive pelos segmentos conservadores da sociedade ao rechaçarem eventuais mudanças nos códigos de sociabilidade como, por exemplo, a união civil entre homossexuais e o aborto.

A posição da "bancada evangélica" na Câmara dos Deputados





Se o Brasil vai vencer, não dá para saber. Se o clima vai piorar ou melhorar também não.

Então, nos resta acompanhar os fatos, mas quem sabe, pensar nas possibilidades de mudança para nossa conduta e nossa identidade, quem sabe, por um Brasil mais justo, melhor e menos desigual e de preferência menos rude, como sugere a peça publicitária.

Abaixo, segue o polêmico comercial da Brahma, lembrando que deles e de ninguém recebo para escrever o que aqui divulgo.


Agora, uma réplica ao frenesi da Copa, obviamente não veiculado pela grande mídia:



sexta-feira, 6 de junho de 2014

70 anos do "Dia D": o desfecho da II Guerra Mundial

A História, enquanto forma de discurso, geralmente no caso dos conflitos é contada pelo vencedor e dessa forma, se constrói uma "versão oficial" que vai se difundindo e se consolidando no imaginário coletivo da sociedade. 

Nós, brasileiros, lutamos junto dos Aliados contra as forças do Eixo e depois do fim da II Guerra Mundial, passamos a "orbitar" a área de influência dos EUA nas Américas, absorvendo com bastante intensidade, a perspectiva estadunidense do conflito: a guerra "teria sido decidida no Dia D". No entanto,  sabemos que o processo que favoreceu a vitória dos Aliados começou bem antes, a partir da quebra do mito da invencibilidade nazista através do contra-ataque soviético.



A partir de 1942 os exércitos do Eixo (Alemanha, Itália e Japão) começaram a sentir os primeiros grandes reveses, quando contra-atacados firmemente na União Soviética, África e Pacífico: derrota na batalha de Stalingrado marcou o fim da expansão alemã em território soviético, pois neste momento iniciou-se a expulsão dos alemães. Ao mesmo tempo, ocorria a derrota germânica no norte da África pelas forças anglo-americanas na batalha de El-Alamein (culminando com a conquista da Líbia e Tunísia), e no Oceano Pacífico as forças estadunidenses começaram a retomar territórios invadidos pelos japoneses, derrotando-os nas batalhas de Midway, Mar de Coral, Guadalcanal e Ywo Jima.

O controle do norte da África pelos Aliados favoreceu a preparação do ataque à Itália em 1943 com a invasão da Sicília, fato que gerou a deposição de Mussolini e a formação de um governo a favor dos Aliados, causando a invasão da Itália pelos alemães. A abertura de uma frente de ataque no sul da Europa marcou o início da queda dos alemães na Europa Ocidental, a qual seria ampliada com a "Operação Overlord", em 06 de junho de 1944 conhecido como "Dia D"; isto é, a abertura de uma terceira frente de ataque aliado (tropas inglesas, francesas e norte-americanas) cujo objetivo seria atingir a costa da Normandia no norte da França.




Dessa forma, com o sucesso do "Dia D", foi no ano de 1944 que se iniciou o processo de libertação do leste europeu (Romênia, Bulgária, Tchecoslováquia e Hungria) pelo exército soviético. No oceano Pacífico, as tropas americanas haviam recuperado o controle sobre as ilhas Carolinas, Marshall, Marianas e Filipinas, chegando a invadir a ilha de Okinawa. Assim, deu-se início aos bombardeios maciços sobre o Japão.

Já no início de 1945 a guerra indicava a vitória aliada devido ao cerco das tropas alemãs em seu próprio território, graças à ação conjunta das frentes ocidental e oriental. Os soviéticos foram os primeiros a entrar em Berlim: encontrando a cúpula nazista morta no bunker subterrâneo, sendo que Hitler teria se suicidado entre 29 ou 30 de abril de 1945. O Alto-Comando do III Reich remanescente assinou a rendição incondicional imposta pelos Aliados, terminando com a guerra na Europa em 8 de maio de 1945.

A guerra, no entanto, ainda acontecia no Pacífico por causa da resistência japonesa, principalmente com a ação dos kamikases (expressão que significa “vento divino” em japonês e foi usada pelos pilotos que faziam ataques aéreos suicidas) contra a frota dos EUA.

A partir de uma decisão tomada pelo presidente dos Estados Unidos Harry Truman, (Franklin Roosevelt havia falecido em 12 de abril de 1945 e assim, o governo passara a seu vice-presidente) foram feitos dois ataques às cidades de Hiroshima e Nagasaki, respectivamente em 06 e 09 de agosto de 1945, com uma nova e aterrorizante arma: a bomba atômica. Ambas as cidades foram quase que totalmente arrasadas, contabilizando mais de 220.000 mortos e milhares de feridos, além de pessoas contaminadas com a radiação por várias gerações.


Em 2 de setembro de 1945, o Estado-Maior japonês capitulava definitivamente a bordo do porta-aviões norte-americano Missouri , encerrando a II Guerra Mundial, que deixara um saldo de aproximadamente 50 milhões de mortos.

Sugestão do Gabinete:

"O resgate do soldado Ryan". Direção de Steven Spielberg, 1998, 169 min.



Através dos olhos de um batalhão de soldados americanos, o filme começa com a histórica invasão do Dia D, na Segunda Guerra Mundial, e depois segue além da praia, conforme os homens embarcam em uma perigosa missão especial: a última grande invasão, na última grande guerra, o maior perigo para oito homens… era salvar um. O capitão John Miller (Tom Hanks) deve levar seus homens atrás das frentes inimigas para encontrar o soldado James Ryan (Matt Damon), que teve seus três irmãos mortos em combate. Enfrentando impossíveis obstáculos, os homens questionam suas ordens. Por que oito homens estão arriscando suas vidas para salvar apenas um? Cercados pela brutal realidade da guerra, cada homem procura sua própria resposta – e a força para triunfar em relação a um futuro incerto com honra, decência e coragem. 





quarta-feira, 4 de junho de 2014

25 anos do massacre da Praça da Paz Celestial em Pequim

A China foi uma monarquia até 1910, quando grupos nacionalistas republicanos liderados por Sun Yat-sen derrubaram o último imperador, Pu Yi e implantaram um regime republicano. No entanto, os grupos agrários, principalmente os grandes senhores de terra (chefes guerreiros locais) se opuseram à nova organização do Estado chinês, temendo a perda de poderes e fragmentando a recém-nascida república.
No ano de 1921, com a fundação do Partido Comunista Chinês tem-se o início de uma luta contra os "chefes guerreiros". Os comunistas juntaram-se ao Kuomintang, um partido de caráter nacionalista liderado por Chiang Kai-shek. Porém, em 1927 há uma ruptura entre os nacionalistas e comunistas e vários choques entre as facções, culminando com a morte de milhares de comunistas pelos nacionalistas.

General Chiang Kai-shek, líder nacionalista chinês.


A partir deste momento, a China mergulhou numa longa guerra civil (1927-1949) entre as duas facções, havendo nesse ínterim a invasão japonesa à China em 1931. Os comunistas iniciaram uma marcha, saindo do sul do país em direção ao norte, onde fundaram a República Vermelha sob a liderança de Mao Tsé Tung. Com o fim da Segunda Guerra e a expulsão dos japoneses, a guerra civil prosseguiu e os comunistas obtiveram forte apoio popular e também auxílio da União Soviética, enquanto os nacionalistas foram ajudados pelos Estados Unidos. Em 1949, os comunistas vencem, e assim Chiag Kai-shek e suas tropas remanescentes refugiaram-se na ilha de Formosa, organizando um governo pró-ocidente.

O líder Mao e seu famoso "Livro Vermelho" num cartaz de propaganda oficial


Mao Tsé-Tung fundou a República Popular da China, implementando um governo socialista que aboliu todas as estruturas remanescentes da monarquia, fez ampla reforma agrária, tornou a educação obrigatória e a partir de uma aliança com a União Soviética começou a formar um grande parque industrial. Todavia, a Revolução Chinesa tinha uma forte presença do campesinato, e não se enquadrava em vários aspectos dentro do pensamento de Moscou, o que favoreceu a ruptura com os soviéticos em 1961.

Em 1966 ocorria na China a chamada "Revolução Cultural", um processo que deveria conter o revisionismo do partido, da população e do governo, criando-se os comitês revolucionários para garantir a manutenção da Revolução. Dessa forma, ocorreram vários expurgos dentro do partido, o qual foi reestruturado no IX Congresso, com a indicação do ministro da Defesa Lin Piao como sucessor de Mao. Neste momento, a personalidade de Mao tornou-se o centro do regime, tendo seu pensamento condensado no "livrinho vermelho".

Durante a década de 1970, a China havia iniciado uma aproximação com o Ocidente no intuito de reduzir as tensões entre o mundo capitalista e o socialista, principalmente com a expulsão de Taiwan da ONU e a entrada da China, como também a visita do presidente norte-americano Nixon em 1972.
A morte de Mao em 1976 fez com que o "grupo de Xangai" (aliados de Mao) fosse afastado do poder, e assim iniciou-se uma nova fase, com a eleição de Hua Kuo-Feng como presidente pelo comitê central do partido, um período marcado pela idéia de conciliação.

A partir de 1977, Deng Xiaoping conseguiu sua reabilitação política depois de ter sido vítima das perseguições promovidas por Mão, o cenário político foi gradativamente transformado através do conjunto de ações que ficaram conhecidas como “desmaoização”.
Deng articulou a criação das ZEE (Zonas Econômicas Especiais) que significaram a introdução de práticas capitalistas dentro da China, possibilitando a recepção de investimentos e também o incentivo à propriedade privada no campo, portanto, gradativamente foi se constituindo o modelo chamado de economia socialista de mercado. As mudanças foram consideráveis, pois os investimentos estrangeiros entre 1980 e 1995 superaram o valor de 170 bilhões de dólares, sendo que o PIB chinês em 1995 alcançou 2,8 trilhões de dólares, marcando uma taxa de crescimento de 10% ao ano.

Deng Xiaoping: o sucessor e transformador da China de Mao


Enquanto a abertura econômica caminhou rapidamente, o autoritarismo não permitiu a abertura política no mesmo contexto. Um grupo de ativistas começaram a se concentrar desde 20 de maio de 1989, na Praça da Paz Celestial, numa situação que foi sendo cada vez mais embaraçosa para o governo chinês: uma grande manifestação pela liberdade de expressão e de imprensa, buscando 
abrir caminho para a democratização do país: cada vez mais, milhares de estudantes, ativistas políticos e intelectuais tentaram romper com o regime chinês, num esforço tão intenso quanto o que ocorria no leste europeu no mesmo momento.

Ao centro, no fundo, uma estátua branca, representando a liberdade que segura com as duas mãos a "chama" que incendiava os corações destas milhares de pessoas a sua volta.


Buscando recuperar a "ordem", em 04 de junho de 1989, a repressão foi intensa pelo governo chinês, gerando inúmeros mortos, feridos e presos que até hoje, ainda não temos a dimensão precisa. O controle sobre as manifestações políticas e ações sociais se manteve intenso, sem possibilitar uma participação mais efetiva da sociedade dentro do cenário político e assim, a cúpula do partido chinês controlava tudo, sendo a ordem imposta de cima para baixo.


Desconhecido até hoje, este jovem se impôs perante a violência e o autoritarismo, mesmo que ali ele estivesse em desvantagem, mas sem dúvida, tornou-se sem saber, um símbolo da luta pela liberdade.

Alguns dos civis mortos, em um das poucas fotos que conseguiram sair da China

Ao fim da década de 1990 ocorreu a transição do governo de Xiaoping para o controle de Jiang Zemin a partir do 15º Congresso do Partido Comunista Chinês e dali, a transição para a economia de mercado: inúmeras privatizações, atração maior de investimentos e a consequente ampliação da produção industrial chinesa que começaram a “inundar” os mercados nos cinco continentes. Estava consolidada a tese da china ser "1 país com dois sistemas: socialista na política e capitalista na economia", apesar do intenso processo repressivo que sustenta, reprimindo e censurando os cidadãos e lidando com ampla truculência com aqueles que tentem obstruir seus interesses.

O presidente Jiang Zemin e o primeiro-ministro Zhu Rongji, ambos ex-prefeitos da cidade de Xangai, lideraram a nação na década de 1990. Sob os dez anos de administração de Jiang e Zhu, o desempenho econômico do país retirou cerca de 150 milhões de camponeses da pobreza e manteve uma taxa média anual de crescimento do produto interno bruto (PIB) de 11,2%. O país aderiu formalmente à Organização Mundial do Comércio (OMC) em 2001.
No entanto, o rápido crescimento econômico que tornou a economia chinesa a segunda maior do mundo, também impactou severamente os recursos naturais e o meio ambiente do país. Outra preocupação é que os benefícios do crescimento da economia não foram distribuídos uniformemente entre a população, resultando em uma ampla lacuna de desenvolvimento entre as áreas urbanas e rurais. Como resultado, com o presidente Hu Jintao e o primeiro-ministro Wen Jiabao, o governo chinês iniciou políticas para abordar estas questões de distribuição equitativa de recursos, embora o resultado continue a ser observado. Mais de 40 milhões de agricultores foram deslocados de suas terras, em geral para o desenvolvimento econômico, contribuindo para as 87 mil manifestações e motins que aconteceram por toda a China apenas em 2005. 
Hu Jintao

Wen Jibao

Os padrões de vida melhoraram significativamente para alguns segmentos, mas os controles políticos se mantiveram estáveis. Embora a China tenha, em grande parte, conseguido manter a sua rápida taxa de crescimento econômico, apesar da recessão no final da década de 2000, sua taxa de crescimento começou a diminuir no início da década de 2010 e a economia continua excessivamente centrada no investimento fixo. Além disso, os preparativos para uma grande mudança de liderança no Partido Comunista no final de 2012 foram marcados por disputas entre facções e escândalos políticos. Durante a mudança da liderança da China em novembro de 2012, Hu Jintao e Wen Jiabao foram substituídos como presidente e primeiro-ministro por Xi Jinping e Li Keqiang, que assumem tais cargos em 2013.
O atual presidente Xi Jinping

Sugestões do Gabinete:

"O último imperador". Direção Bernardo Bertolucci, 1987, 145 min: 

A saga de Pu Yi (John Lone), o último imperador da China, que foi declarado imperador com apenas três anos e viveu enclausurado na Cidade Proibida até ser deposto pelo governo revolucionário, enfrentando então o mundo pela primeira vez quando tinha 24 anos. Neste período se tornou um playboy, mas logo teria um papel político quando se tornou um pseudo-imperador da Manchúria, quando esta foi invadida pelo Japão. Aprisionado pelos soviéticos, foi devolvido à China como prisioneiro político em 1950. É exatamente neste período que o filme começa, mas logo retorna a 1908, o ano em que se tornou imperador.