As Ricas Horas do Duque de Berry

As Ricas Horas do Duque de Berry
As Ricas Horas do Duque de Berry. Produção dos irmãos Limbourg - séc. XV. Mês de julho

domingo, 3 de agosto de 2014

Revolução de 1924: da "revolução esquecida" à crise que levaria ao movimento de 1930

A participação brasileira na Primeira Guerra Mundial (1914-18), embora pequena, pois inicialmente o Brasil declarou-se neutro, mas em 1917, o governo de Venceslau Brás (1914-18) declarou guerra ao Império Alemão em virtude do afundamento de 2 navios mercantes brasileiros (o Tijuca em 22/05/1917 e o Paraná em 25/10/1917), demonstrou o atraso da tecnologia militar brasileira frente às novas armas utilizadas no conflito. 
Venceslau Brás


Com o fim da guerra, chegou ao País uma missão militar francesa incumbida de instruir a oficialidade brasileira quanto ao manejo das armas modernas. Os alunos da missão francesa eram os jovens oficiais do Exército que, entre outras coisas, acabaram influenciados pelas ideias positivistas e passaram a defender a participação dos militares na política, como forma de impor a moralização dos costumes. Estes foram os personagens que ficariam conhecidos como tenentes, e já davam seus primeiros passos como movimento durante o governo de Epitácio Pessoa (1918-1922).

Epitácio Pessoa

O Tenentismo é comumente definido como uma reação da jovem oficialidade, representante das camadas médias urbanas que estavam marginalizadas da política desde a época da proclamação da República e que almejavam, de alguma forma, participar mais ativamente. A principal característica do movimento era o desejo quase utópico de moralizar o País, mas não havia propostas concretas de como fazê-lo nem um programa de governo definido. Acreditavam que a alta oficialidade estava a serviço das elites e que, com a implantação do voto secreto, seriam eliminados os vícios que permitiam aos oligarcas se manterem no poder.

Durante as eleições para a sucessão de Epitácio Pessoa, houve uma articulação entre os Estados do Rio Grande do Sul, Bahia e Pernambuco, conhecida como Reação Republicana, no sentido de lançar Nilo Peçanha para a presidência e impedir a vitória de Arthur Bernardes, candidato da aliança Minas-São Paulo. Este último foi acusado de ser o protagonista do episódio das “cartas falsas”, publicadas no jornal Correio da Manhã e que continham uma série de afirmações ofensivas ao Exército. Apesar do clima de tensão que cercou o pleito, a vitória coube a Arthur Bernardes (1922-1926). Seu governo foi realizado quase que integralmente sob estado de sítio.

Arthur Bernardes

O primeiro ato dos tenentes, como reação à vitória de Bernardes, foi a tomada do Forte de Copacabana em 5 de julho de 1922, seguida de ataques ao quartel general do Exército. Cercados pelas forças leais ao governo, os rebeldes não concordaram em se render e, preferindo morrer, marcharam pela praia e enfrentaram os tiros contra eles disparados. Desse episódio, que ficou conhecido como a Revolta dos 18 do Forte, houve apenas dois sobreviventes: os tenentes Siqueira Campos e Eduardo Gomes. Embora tenha sido sufocada, a Revolta do Forte de Copacabana tornou-se um símbolo das lutas armadas que marcaram a década de 1920.

"Os 17 militares e 01 civil" do 18 do Forte de Copacabana em 1922. 


Em 1924, rebeldes tomaram a cidade de São Paulo, dando início a outro levante tenentista: a Revolução de 1924. Exigiam reformas eleitorais, a convocação de uma Assembleia Constituinte e o voto secreto. Sob o comando de Isidoro Dias Lopes e Miguel Costa, os tenentes conseguiram dominar a capital paulista por 23 dias, pois o presidente do Estado (governador) Carlos de Campos foi obrigado a fugir às pressas da capital, evitando assim sua prisão pelos tenentes.  
O presidente Arthur Bernardes declarou estado de sítio e enviou tropas para conter os rebeldes, que tentavam expandir seu controle para outras cidades. O tenente Juarez Távora tentou ocupar a cidade de Três Lagoas, mas foi derrotado com a concentração de tropas do governo federal em Bauru. 
A cidade de São Paulo não resistiu muito tempo aos bombardeios e ao fogo de artilharia, que atingiram os bairros do Brás, Mooca e Perdizes, além de outras partes da cidade como o centro: uma bala de canhão atingiu o claustro do Mosteiro de São Bento.

Destruição causada por bombardeio das forças federais contra os rebeldes na Av. Tiradentes em São Paulo.

Bombardeio das forças federais na Rua João Teodoro, centro de São Paulo.


A dificuldade da manutenção das posições ocupadas, os poucos recursos militares e o cerco das tropas federais foi crucial para a derrota do movimento que teve 509 mortos e cerca de 5000 feridos, sendo então  desalojados pelo Exército em 02 de agosto de 1924, favorecendo o retorno de Carlos de Campos para o palácio dos Campos Elísios, sede da Presidência do Estado, no centro da capital. 
Em 1925, nas proximidades de Foz do Iguaçu, os paulistas juntaram-se a outra coluna revolucionária que vinha do Rio Grande do Sul com o intuito de tomar a capital, Rio de Janeiro, e que também lutava contra o governo de Arthur Bernardes. Desse encontro, nasceu a Coluna Prestes.



Luís Carlos Prestes (LCP) é o "número 2"




Sob a liderança de Miguel Costa e Luís Carlos Prestes, conhecido como “o Cavaleiro da Esperança", os rebeldes percorreram 25 mil km em todo o território nacional, tentando sublevar as populações do interior contra o governo federal. Porém, a tentativa de conscientizar as massas populares contra a exploração das oligarquias não obteve sucesso. Os membros da Coluna acabaram  por asilar-se na Bolívia, cansados, sem munição e sem armas em 1927. A luta para levantar o Brasil contra a imoralidade fracassara, mas a República Velha também já dava sinais de intensa agonia.

Durante o mandato de Washington Luís (1926-1930), a crise econômica já se implantara e o governo se debatia, tentando contornar seus efeitos. A esse carioca que fez carreira política em São Paulo são atribuídas as frases "Governar é abrir estradas" e "A questão social é um caso de polícia", que demonstram a óptica das oligarquias cafeeiras.

Washington Luís

Com o Crash da Bolsa de Nova York em 1929, a cafeicultura brasileira entrou em crise e o governo viu-se "obrigado" a comprar toda a produção, que acabou sendo destruída por falta de local para armazenagem, e provocou questionamento por todo o País, além de ocasionar estragos na aliança política entre mineiros e paulistas.

Washington Luís, representante da oligarquia paulista, decidiu romper com Minas Gerais, lançando a candidatura de seu ministro Júlio Prestes, outro paulista, para a presidência. A cisão das oligarquias fez que os mineiros, liderados pelo frustrado governador Antônio Carlos, se unissem ao Rio Grande do Sul e a alguns políticos nordestinos, formando a Aliança Liberal, que lançou como candidato de oposição o gaúcho Getúlio Dorneles Vargas, ex-ministro de Washington Luís.

A máquina eleitoral funcionou mais uma vez, dando a vitória ao candidato situacionista, que recebeu cerca de um milhão de votos, 200 mil a mais do que Vargas, tudo isso sob intensas acusações de fraude. Mas a oposição não se deu por vencida e ensaiava uma reação para a derrota.
Pouco depois das eleições, ocorreu o assassinato de João Pessoa, governador da Paraíba e candidato a vice-presidente na chapa de Vargas. O crime, que teve como autor certo João Dantas, estava ligado a questões passionais e problemas da política local da Paraíba, mas acabou servindo como pretexto para os opositores, que culparam políticos de São Paulo pelo crime.

Luís Carlos Prestes, que estava exilado na Argentina, foi convidado para comandar o movimento revolucionário, mas ele já não mais compartilhava os ideais do tenentismo, passando a defender o movimento comunista, ao qual se filiara, recebendo orientações diretas do regime soviético. A Aliança Liberal transformou-se, assim, no comando revolucionário e o golpe estava em marcha.

A Revolução de 1930, que irrompeu em 3 de outubro, foi liderada pelos Estados de Minas Gerais, Rio Grande do Sul e Paraíba, que receberam o auxílio dos tenentes refugiados na Bolívia.
Num movimento articulado, as regiões do Brasil foram, aos poucos, caindo nas mãos dos rebeldes. Depois do Rio Grande do Sul, Paraná e Santa Catarina também aderiram, indo em direção a São Paulo, reduto dos donos do poder.

No Nordeste, Juarez Távora tomou o Recife com apoio da população local e, pouco tempo depois, todos os Estados nordestinos estavam sob o controle dos revolucionários. Em Minas Gerais, houve forte resistência por parte de grupos fiéis ao presidente, mas os rebeldes dominaram a situação.
Em São Paulo, talvez pudesse oferecer uma resistência maior e daí poderiam ocorrer  combates mais violentos. Na região de Itararé, divisa com o Paraná, começavam os primeiros tiroteios, quando, em 24 de outubro, chegou a notícia de que o alto comando das Forças Armadas havia deposto o presidente Washington Luís, o que abreviou os possíveis conflitos.

O presidente Washington Luís (de chapéu) no momento de sua deposição pelos militares.


O governo foi entregue a Getúlio Vargas e a Constituição de 1891 foi abolida. A economia sofreria modificações, a agricultura seria diversificada e a indústria passaria a ser incentivada. Porém, essas modificações pouco alteraram a relação de forças que governavam o País, uma vez que o operariado continuou a ser explorado enquanto as camadas dominantes ainda estavam intimamente ligadas ao capital externo.

Vitorioso no golpe de Estado, Getúlio Vargas foi empossado presidente pelos militares.

segunda-feira, 28 de julho de 2014

28 de julho de 1914: há um século explodia a I Guerra Mundial



A Primeira Guerra Mundial assinalou o fim de uma época de grande efervescência cultural, a chamada Belle Époque. O conflito iniciado em 1914 ainda trazia elementos de um mundo romântico, mas já demonstrava a forte presença da industrialização, como por exemplo o contraste entre o uso da cavalaria e o surgimento da infantaria blindada pelos tanques de guerra.
O conflito pode ser dividido em três fases: a guerra de movimento (1914-1915); a guerra de trincheiras (1915-1917) e o desfecho do conflito entre 1917 e 1918.

A primeira fase da guerra foi marcada pelo rápido deslocamento das tropas alemãs em direção da França através do território belga, cumprindo o plano Schlieffen (idealizado pelo general Alfred von Schlieffen, chefe do Estado-Maior do Império Alemão entre 1892 e 1906), pois visavam vencer a França para depois atacar a Rússia. Tanto a Tríplice Aliança quanto a Tríplice Entente acreditavam num rápido desfecho da guerra, ocasionando uma visão maniqueísta (luta entre um lado que representaria o "Bem" e outro que encarnaria o "Mal") e romântica. Essa visão pode ser exemplificada pelo episódio do dia de Natal de 1914, quando alemães e franceses interromperam os combates, realizando um almoço de confraternização com direto a troca de presentes entre si. No entanto, o conflito não foi tão rápido quanto se acreditava. O processo de avanço dos exércitos tornou-se mais difícil, e a partir daí, a guerra entrou numa nova fase, talvez sua fase mais cruel: a guerra de trincheiras.

A impossibilidade de avanços fez com que os exércitos de ambos os lados cavassem profundas trincheiras com uma vasta rede de túneis interligado-as. O objetivo era defender as posições conquistadas. Para tanto, os recursos utilizados eram largas extensões de arame farpado, campos minados e ações de avanço e recuo entre ambos os lados em combate. O ataque consistia inicialmente num intenso bombardeio com a artilharia pesada, sendo ao término desse ataque dada a ordem de avanço para a infantaria; ou seja, para que os soldados fossem em direção à linha inimiga. O avanço, no entanto, era dificultado pela defesa através do uso das metralhadoras.

Esta forma de guerra tornava-se uma grande máquina de extermínio em proporções inigualáveis, pois milhares de vidas eram ceifadas para conquistar um ou dois quilômetros de território. Enquanto aguardavam as ordens de ataque ou se defendiam, os soldados eram submetidos a uma situação hedionda: frio, lama, piolhos, ratos e corpos em decomposição lhes fazendo companhia. Um exemplo deste morticínio foram as batalhas de Somme e Verdun, na frente ocidental em 1916, as quais consumiram 800.000 soldados alemães e 900.000 soldados ingleses e franceses. Este período também foi marcado pela utilização de armas químicas, como os gases cloro e mostarda por ambos os lados.



Durante a guerra de trincheiras ocorreu uma alteração nas alianças, pois a Itália, até então aliada dos alemães, tornou-se aliada dos ingleses, contribuindo para o desequilíbrio de forças naquele momento (esta mudança ocorreu pela promessa de possessões na África no caso da vitória franco-britânica). O conflito não sofreu grandes alterações até 1917, pois as possibilidades de avanço eram pequenas e a guerra se encaminharia para sua fase final com uma nova alteração das forças envolvidas.


A Rússia se retira em outubro de 1917 em virtude da Revolução Socialista que derrubou o czar (realizando o armistício de Brest-Litowsk formalmente em março de 1918); neste mesmo ano, os Estados Unidos entram na guerra ao lado da Entente para equilibrar as forças desta última, fazendo com que a pressão alemã fosse contida e o deslocamento dos exércitos alemães da frente oriental para a ocidental não causasse um desequilíbrio na região de conflito.

1917: o socialismo atinge o poder na Rússia.


O desfecho da guerra deu-se através do início de uma série de negociações diplomáticas entre ambas as partes. Uma das principais tendências era estabelecer a "paz sem vencedores", proposta defendida pelo presidente norte-americano Woodrow Wilson, que propôs um acordo conhecido como "Os 14 Pontos de Wilson", que foram impressos em panfletos e jogados por aviões para os soldados e civis alemães. No final de 1917 os alemães tentaram o último ataque contra os franceses, mas foram detidos recebendo um pesado contra-ataque. Os austríacos, demonstrando sinais de esgotamento, também pediram por um acordo de paz.

Devido à eclosão de uma grande greve nas indústrias alemãs e um motim em Kiel, bem como a irredutível posição do kaiser em manter a Alemanha em guerra, o Alto Comando do Exército Alemão  (encabeçado pelos marechais Hindenburg e Ludendorf) forçou a abdicação de Guilherme II, que se exilou na Holanda e assim, teve início a República na Alemanha.

O tão esperado armistício foi assinado pelo novo governo em 11 de novembro de 1918, deixando um saldo de destruição e morte nunca antes visto: cerca de 18 milhões de mortos, que eram militares e também civis de várias regiões atingidas direta ou indiretamente pelo conflito, como por exemplo, o massacre de aproximadamente 1,2 milhão de armênios pelo exército turco em 1917.

Tratados de Paz

Com o término dos conflitos, os países em guerra se reuniram no Palácio de Versalhes para a realização dos acordos de paz. Participavam como representantes dos países da Intente o primeiro-ministro inglês Lloyd George, o primeiro-ministro francês Clemenceau, o presidente norte-americano Wilson e representantes dos demais países envolvidos. Nesta conferência foi elaborado um acordo de paz mais radical visando enfraquecer os alemães (como um armistício alemão foi assinado num momento em que havia muitas de suas tropas em território francês, criou-se o mito da invencibilidade alemã, ou seja, o alto oficialato alemão dizia-se vencedor do conflito).

"Assinatura da Paz no Salão dos Espelhos"William Orpen, 1919, Imperial Museum of War, Londres, Grã-Bretanha. 
No mesmo Salão dos Espelhos, no Palácio de Versalhes, onde os alemães fundaram o II Reich humilhando os franceses em 1870, os vencedores da Tríplice Entente humilharam os alemães com a Paz dos Vencedores em 1918-19.


Da proposta de Wilson foram aproveitados dois pontos: a criação da liga das nações e a devolução da Alsácia e Lorena para a França. Dessa forma foi imposta aos alemães a "paz dos vencedores", com o Tratado de Versalhes de 1919: pagamento de uma indenização de 133 bilhões de libras-ouro para os países vencedores, redução do exército alemão a 10% do montante do início da guerra (100.000 homens), proibição de presença militar na região da Renânia, limitação da indústria bélica alemã, perda de 1/7 de seu território com a criação da Polônia e do corredor polonês com o porto livre de Dantzig.


A Conferência de Versalhes serviu para dar origem à Liga das Nações, uma instituição internacional que deveria zelar pelo equilíbrio dos países. No entanto, não participavam dela a Alemanha e a Rússia Socialista. Em 1919 foi assinado o Tratado de Saint-Germain, que fundava o Império Austríaco, criando a Áustria, a Hungria, a Tchecoslováquia e a Iugoslávia, e também passava para o controle italiano as regiões de Trieste, sul do Tirol, Trentino e Ístria. Em 1920 foi assinado o Tratado de Sèvres, que extinguia o Império Turco, reduzindo seu território e assim passava suas possessões na Mesopotâmia (Iraque e Síria) e Palestina para o controle franco-britânico.



quarta-feira, 23 de julho de 2014

Conflitos árabes-israelenses: do plano da ONU ao atual massacre

A Palestina estava sob o domínio do Império Turco-Otomano, que, ao ser derrotado na Primeira Guerra Mundial, em 1918, perdeu o controle da região para a Grã-Bretanha, na Declaração de Balfour, que se comprometeu a criar um “lar nacional” para os judeus na Palestina e abriu o acesso à imigração judaica articulada pelo movimento sionista, liderado, entre outros, pelo escritor e jornalista Theodor Herzl (1860-1904).

Em 1947, a ONU decidiu repartir a Palestina entre os 1 milhão e 300 mil palestinos que viviam na região e os 600 mil judeus emigrados da Europa. O plano previa a criação de dois Estados, um judeu e um palestino, com 57% e 43%, respectivamente. Os árabes recusaram a proposta de partilha aprovada pela ONU.



Quando, em 1948, acabou o mandato britânico na Palestina, assim que as tropas britânicas deixaram a região, Davi Ben-Guiron leu a Declaração de Independência em 14 de maio, encerrando a dominação estrangeira na região e criando formalmente o Estado de Israel. Em virtude do não reconhecimento do novo Estado pela Liga Árabe (Egito, Síria, Líbano, Transjordânia e Iraque), desencadeou-se a Primeira Guerra Árabe-Israelense (1948-1949), vencida por Israel, que expandiu seus domínios para 75% do território da Palestina. O resto foi anexado pelos países vizinhos: a Transjordânia anexou a Cisjordânia, e o Egito, a Faixa de Gaza.

A consequência imediata foi a expulsão de cerca de 900 mil palestinos, que ficaram dispersos nas regiões fronteiriças, onde se formaram campos de refugiados sem nenhuma infraestrutura.
A tensão continuou latente e levou a um novo enfrentamento, em 1956, a Segunda Guerra Árabe-Israelense, que ficou conhecida como Guerra de Suez. Vencida mais uma vez por Israel, que contou com o apoio da Grã-Bretanha e da França, implicou a derrota do Egito e a conquista da península do Sinai. A pressão conjunta da URSS e dos EUA obrigou Israel a recuar para a fronteira vigente em 1949, e o Sinai foi ocupado por um contingente militar da ONU, os “boinas azuis”.


Em 1964, organizou-se a OLP (Organização para a Libertação da Palestina), cujo objetivo era agir em sistema de guerrilha contra as forças israelenses, mas, em 1967, com a retirada das tropas da ONU, eclodiu um novo conflito, a Terceira Guerra Árabe-Israelense, ou Guerra dos Seis Dias, quando Israel enfrentou as tropas da Liga Árabe (Egito, Síria e Jordânia) e, contando com apoio estadunidense, mais uma vez venceu, ampliando ainda mais seu território. Dessa vez, ocupou a Faixa de Gaza, a península do Sinai, a Cisjordânia e as colinas de Golan, provocando um novo êxodo e elevando o número de refugiados a cerca de 1 milhão e 600 mil.



Numa nova ação militar, aproveitando o feriado religioso judaico do Yom Kippur (Dia do Perdão), os países árabes tentaram um ataque-surpresa na primavera de 1973, conhecida como Quarta Guerra Árabe-Israelense: Egito e Síria atacaram simultaneamente Israel, que reagiu imediatamente, rechaçando as forças árabes; ao mesmo tempo, a ONU começou intermediar um cessar-fogo.

Em 1977, o presidente egípcio Anwar al-Sadat fez uma visita oficial ao Estado de Israel e começou a articular um processo de apaziguamento que culminou com o acordo de paz de Camp David, assinado em 1979, com a intermediação do presidente estadunidense Jimmy Carter, firmado entre o Egito e Israel, representada pelo primeiro-ministro Menahen Begin, que devolveu a península do Sinai ao controle egípcio. Sadat, por sua vez, se tornou inimigo dos setores mais radicais do movimento palestino e foi assassinado em 1981 por militares das Forças Armadas do Egito.
Alguns palestinos no exílio adotaram a guerra terrorista como forma de luta. O líder do grupo Al-Fatah (a conquista), Yasser Arafat, tornou-se mais tarde líder da OLP, que pretendia a criação de um Estado laico na região, englobando judeus, cristãos e muçulmanos.

A partir de 1973, a OLP decidiu dar mais ênfase à luta no campo diplomático, discursando na ONU, onde foi reconhecida como representante do povo palestino. Mas isso não foi suficiente para reduzir os problemas, pois, em 1975, o Líbano foi palco de disputa entre as forças árabes e as tropas israelenses, que se associaram às falanges militares cristãs, formadas por libaneses que se opunham aos muçulmanos e à causa palestina.
Entre 1975 e 1990, o Líbano foi dilacerado por constantes ações militares. Forças militares israelenses ocuparam uma faixa ao sul da fronteira libanesa – uma “faixa de segurança” para deter ações de grupos palestinos – e, ao mesmo tempo, forças militares sírias ocuparam o resto do território, para conter o avanço de Israel.

Em 1992, com a intermediação do presidente estadunidense Bill Clinton, foram firmados os acordos de paz de Washington, entre o líder palestino Yasser Arafat e o primeiro-ministro israelense Yitzhak Rabin, em 13 de setembro de 1993, abrindo caminho para o reconhecimento da autoridade palestina, a qual assumiria o controle dos territórios palestinos, forjando-se o processo para a formação do Estado palestino. No entanto, a posição de Rabin desagradou os setores conservadores israelenses, e, em 1995, Yigal Amir, radical da extrema direita israelense o assassinou em 4 de novembro quando discursava sobre a importância da paz para a boa convivência entre judeus e árabes, na então Praça dos Reis, hoje Praça Yitzhak Rabin, em Tel Aviv.



A Autoridade Nacional Palestiniana surgiu como resultado dos Acordos de Oslo, assinados em setembro de 1993 por Israel e a Organização para a Libertação da Palestina. Nos termos estabelecidos, a autoridade deveria existir até maio de 1999. No fim deste período, esperava-se ter resolvido o estatuto final dos territórios da Faixa de Gaza e da Cisjordânia, ocupados por Israel após a vitória na Guerra dos Seis Dias de 1967. A Autoridade Nacional Palestiniana deveria administrar parte significativa destes territórios, assegurando através de forças policiais próprias a segurança dos territórios.
Em maio de 1994, Israel retirou-se de partes da Faixa de Gaza e da cidade de Jericó na Cisjordânia e em pouco tempo a autoridade entrou em funções. Os seus primeiros membros não foram eleitos, sendo membros da OLP. A autoridade assumiu o controlo da educação, da saúde, turismo e finanças.
Apesar da oposição a este processo, oriunda quer do lado palestiniano, quer do lado israelita, a 28 de setembro de 1995 Arafat e o primeiro-ministro israelense Rabin assinaram um acordo em Washington no qual se previa a expansão do controlo da ANP na Cisjordânia, assim como a realização de eleições para a presidência da ANP e para o Conselho Legislativo da Palestina. As cidades de Jenin, Nablus, Tulkarm, Belém, Qalqilyah e Ramallah, todas situadas na Cisjordânia, passaram para o controlo da ANP. Em outubro de 1995, Israel entregou pequenas aldeias da Cisjordânia à ANP.

Em janeiro de 1996, tiveram lugar as primeiras eleições para a presidência da Autoridade Nacional Palestiniana e para o Conselho Legislativo da Palestina. Yasser Arafat foi eleito presidente com 87,1% dos votos, ocupando o cargo até à sua morte em dezembro de 2004. O seu partido, o Fatah, ganhou 55 dos 88 lugares do conselho.
O cargo de primeiro-ministro da ANP foi criado em 2003 pelo Conselho Legislativo da Palestina, em larga medida por sugestão dos Estados Unidos, tendo sido Mahmoud Abbas (eleito presidente da ANP em janeiro de 2005) o primeiro a ocupar o cargo.
Em fevereiro de 2005, o primeiro-ministro de Israel Ariel Sharon e Mahmoud Abbas encontraram-se numa cimeira em Sharm al-Sheikh e declararam uma trégua que terminou com a Intifada de Al-Aqsa. Em setembro do mesmo ano, Israel deu por terminada a retirada dos seus colonatos da Faixa de Gaza e, a partir de então, a ANP passou a assumir o controlo daquele território.
Em janeiro de 2006, o Hamas, grupo considerado terrorista pelo governo de Israel, venceu as eleições parlamentares e formou governo com Ismail Haniya como primeiro-ministro. Analistas políticos consideraram a derrota do partido moderado Fatah nas eleições resultado da insatisfação da população palestina com a incompetência e corrupção do partido Fatah, que detinha o poder da Autoridade Palestina. Entre 2006 e 2010, Fatah e Hamas estiveram rompidos, porém, se reconciliaram em 2011, apesar dos protestos de Israel, sob o governo conservador do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, responsável por mais este conjunto de ações brutais(bombardeio aéreo e de artilharia terrestre, além de ações com blindados em território palestino), com uso desmedido de força, caracterizando basicamente terrorismo de Estado, se não for crime de guerra e contra a Humanidade, nestas últimas três semanas, tendo até o presente momento (26/07) mais de 1000 mortos e mais de 6000 feridos (segundo fontes de Gaza), grande partes civis, enquanto Israel acumula 42 mortos (40 soldados e 2 civis), fruto dos foguetes lançados pelo Hamas contra o território israelense.