As Ricas Horas do Duque de Berry

As Ricas Horas do Duque de Berry
As Ricas Horas do Duque de Berry. Produção dos irmãos Limbourg - séc. XV. Mês de julho

quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

Liberdade de imprensa: Paris sangra com o ataque a Revista Charlie Hebdo

O atentado terrorista, ocorrido hoje (07/01) em Paris, aponta mais uma vez para a crescente tensão entre o radicalismo islâmico e os chamados valores ocidentais. Tal oposição entre "Ocidente" e "Oriente" remonta às Cruzadas e se intensificou em diferentes momentos, sendo que a expansão capitalista entre os séculos XIX e XX, responsável pelo colonização da África, Ásia e Oceania, comprometeu ainda mais o processo.

Os franceses, como os demais colonizadores, impuseram seu modelo de "civilização" através da língua, costumes e valores sem levar em conta a cultura local, que aliás, era vista como sinônimo de atraso e ignorância.


O final da Segunda Guerra Mundial refletiu também nos vastos impérios coloniais que alguns países possuíam, como era o caso da Inglaterra, França, Bélgica e Portugal. Com a nova conjuntura internacional (o mundo bipolar), a manutenção de colônias tornava-se muito difícil, principalmente depois da Declaração Universal dos Direitos do Homem em 1948 pela ONU, que condenava a dominação e a exploração estrangeiras.

Outra conseqüência da guerra foi o desenvolvimento de manifestações nacionalistas em favor da independência, pois muitas colônias haviam participado diretamente da guerra e achavam mais do que justo receber de suas metrópoles a independência. No entanto, as elites coloniais preferiram realizar um longo processo de transição, ainda mantendo o controle sobre suas possessões.

O enfraquecimento das potências européias e a ascensão dos Estados Unidos e da URSS como superpotências transformou os movimentos de emancipação em uma grande disputa de áreas de influência por ambos os lados.

O processo de descolonização ocorreu em geral sob duas formas: a negociação pacífica da independência ou então a guerra com as metrópoles. No primeiro caso, as elites coloniais passaram por intensas negociações com as metrópoles, realizando portanto a transmissão do poder sobre os territórios para as elites locais. No segundo caso, a guerra de independência foi a movimentação de grupos nacionalistas que pretendiam obter a autonomia à força, mas a união durante a guerra não representava um mesmo conjunto de interesses.

As colônias francesas passaram por vários conflitos de independência, como a Indochina em 1954 e a Argélia em 1956, devido à intensificação dos movimentos nacionalistas que pretendiam uma rápida emancipação. As respectivas elites coloniais (chamadas de pieds-noirs, pés negros em francês) ainda procuravam manter o controle sobre as regiões mais ricas da colônia, obtendo apoio dos setores conservadores da metrópole. O restante das possessões africanas passaram por um lento processo de emancipação até 1977, quando todas tornaram-se independentes.

No século XX, a imigração de contingentes vindos das colônias e pós-1960, a manutenção deste processo, mesmo com a emancipação destas colônias, preservou a dificuldade de integração destas populações na ex-metrópole (por mais que estivessem já estabelecidas, trabalhando e com filhos nascidos na França, portanto, franceses), tornando-as vítimas da exclusão socioeconômica, bem como do racismo e da xenofobia. A sociedade francesa sempre se orgulhou de seu Estado laico e da defesa das liberdades e da democracia. 

As palavras "Liberdade, Igualdade e Fraternidade" são um lema de ouro na França e estruturaram o pensamento ocidental nos últimos dois séculos. Desse modo, o atentado ocorrido seria na visão francesa, um modo de restringir a liberdade de imprensa e a democracia como um todo. Mas aos olhos islâmicos, representa a defesa dos valores de sua fé, já que a pessoa do Profeta ou a doutrina islâmica não devem ser criticados ou satirizados, soando como blasfêmia e assim, se tornariam passíveis de punição.


A força da expansão islâmica (religiosa e militar) pode ser entendida pela palavra jihad, palavra árabe cujo significado é esforço, empenho e implica ação pacífica, mas doutrinatória das populações não islâmicas, que deveriam se converter, entregando-se a Allah, após sincera reflexão moral e espiritual, pois não se tratava apenas de uma opção religiosa, mas da aceitação de um modo de vida que, acompanhado da fé em Allah, conduziria o convertido ao Paraíso.



No entanto, há um desdobramento que significou entender jihad como “guerra santa”, que segundo a explicação do historiador Christian Karam, “teria um caráter violento e armado, seria de defesa ou ataque. Esta espécie de jihad, que não se confunde com a jihad-esforço, dizia respeito à luta armada contra os inimigos do Islã ou uma sociedade muçulmana rival, ou até contra a própria ordem islâmica constituída. 

A guerra santa de ataque ou defesa era o único combate permitido pela lei islâmica (Charia) que a mantinha sob estrito controle. Ela deveria ser precedida de um chamamento de adesão ao Islã ou de um tratado de paz, a fim de tentar evitar o conflito, que, mesmo deflagrado, era conclamado publicamente e declarado pela autoridade competente, mas sem atacar nem envolver pessoas que não fossem combatentes. Por outro lado, a guerra santa de ataque seria declarada como última e extrema opção diante do fracasso de uma política de entendimento ou aceitação do Islã por meio da jihad-esforço.


É importante que lembremos de como, em diferentes momentos históricos, a apropriação do discurso religioso pode se tornar uma arma poderosa para a defesa de interesses menos nobres, especialmente nas mãos dos extremistas, fato que ocorreu no Islã e noutras culturas também.



Lembremos que entre os vários nomes ou títulos dados a Allah dentro do Islã, encontramos Paz: de salam, da qual temos tanto a origem para Islã, como a formação da tradicional saudação árabe, Salam Maleikoum, que significa “a Paz esteja convosco” e é retribuída com Al Aleik Salam, isto é “A Paz esteja contigo”.

As recentes participações da França reprimindo extremistas muçulmanos no Mali(2013-14), bem como, o engajamento contra o Exército Islâmico no Iraque, além do apoio aos EUA no Afeganistão, colocam a França na linha de frente do foco de tensão que não se reduzirá de modo tão fácil e rápido e tal processo, pode por exemplo, projetar com maior intensidade os projetos políticos da extrema-direita francesa, num horizonte em que a sobrinha de Jean-Marie Le Pen, fundador da Frente Nacional Francesa, Marine Le Pen se projete como a "salvadora da França" , numa espécie de "nova Joana D'Arc", vestida com o manto da xenofobia e radicalismo.

Vale lembrar que a islamofobia cresce, acompanhada de intolerância e violência.

Tempos sombrios se colocam no horizonte, mas na noite de hoje, junto-me àqueles que defendem a democracia, a liberdade de expressão e consciência, bem como a defesa da tolerância, igualdade, paz e justiça.

"Je suis Charlie": eu sou Charlie, homenagem aos mortos na redação da Charlie Hebdo em Paris

Segue o link para a entrevista de Maud Chirio, uma colega e amiga historiadora, professora de História do Brasil Contemporâneo na França:

http://blogdomariomagalhaes.blogosfera.uol.com.br/2015/01/09/historiadora-francesa-teme-que-obsessao-racista-tome-conta-da-sociedade/

quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

Feliz 2015 !!!

Como abertura deste novo ano, deixo um poema. A autoria é controversa, a qual é reivindicada pelo escritor brasileiro Sérgio Jockymann, publicada em 1978 no Jornal "Folha da Tarde", em Porto Alegre,  e que muitas vezes, o texto já foi atribuído ao famoso francês Victor Hugo. 

Procurei, rapidamente pelo original francês, mas não o encontrei.
Então, pode ser que tenha ocorrido alguma confusão ao vincular este texto à produção de Hugo.

A dúvida persiste. Apesar da "controvérsia", as palavras são significativas e apropriadas para as esperanças que nos cercam neste momento de recomeço.

Boa leitura e um excelente Ano Novo para todos!

Victor Hugo (1802-1885)

Sérgio Jochyman (1930-)


"Desejo, primeiro, que você ame,e que, amando, também seja amado. E que se não for, seja breve em esquecer e esquecendo não guarde mágoa. Desejo, pois, que não seja assim, mas se for, saiba ser sem desesperar. 

Desejo também que você tenha amigos que, mesmo maus e inconsequentes,sejam corajosos e fiéis, e que pelo menos em um deles você possa confiar sem duvidar. 

E porque a vida é assim,desejo ainda que você tenha inimigos,nem muitos, nem poucos,mas na medida exata para que, algumas vezes, você se interpele a respeito de suas próprias certezas.

E que, entre eles, haja pelo menos um que seja justo, para que você não se sinta demasiado seguro. Desejo, depois, que você seja útil,mas não insubstituível.

E que nos maus momentos, quando não restar mais nada, essa utilidade seja suficiente para manter você de pé. 

Desejo ainda que você seja tolerante,não com os que erram pouco, porque isso é fácil ,mas com os que erram muito e irremediavelmente,e que fazendo bom uso dessa tolerância, você sirva de exemplo aos outros. 

Desejo que você, sendo jovem, não amadureça depressa demais,e que, sendo maduro, não insista em rejuvenescer,e que, sendo velho, não se dedique ao desespero. Porque cada idade tem o seu prazer e a sua dor e é preciso deixar que eles escorram por entre nós. 

Desejo por sinal que você seja triste. Não o ano todo, mas apenas um dia. Mas que nesse dia descubra que o riso diário é bom, o riso habitual é insosso e o riso constante é insano. 

Desejo que você descubra, com a máxima urgência, acima e a despeito de tudo, que existem oprimidos, injustiçados e infelizes, e que estão à sua volta. 

Desejo ainda que você afague um gato,alimente um cuco e ouça o joão-de-barro erguer triunfante o seu canto matinal, porque, assim, você se sentirá bem por nada. Desejo também que você plante uma semente, por mais minúscula que seja, e acompanhe o seu crescimento, para que você saiba de quantas muitas vidas é feita uma árvore.

Desejo, outrossim, que você tenha dinheiro, porque é preciso ser prático. E que pelo menos uma vez por ano coloque um pouco dele na sua frente e diga "isso é meu", só para que fique bem claro quem é o dono de quem. Desejo também que nenhum de seus afetos morra, por ele e por você,mas que se morrer, você possa chorar sem se lamentar, sofrer e sem se culpar. 

Desejo por fim que você, sendo um homem, tenha uma boa mulher, e que, sendo uma mulher, tenha um bom homem e que se amem hoje, amanhã e no dia seguinte, e quando estiverem exaustos e sorridentes, ainda haja amor para recomeçar. E se tudo isso acontecer, não tenho mais a te desejar.”

segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

EUA e Cuba: relações de tensão e distensão

A ilha de Cuba obteve a independência da Espanha em 1898, contando com apoio norte-americano na guerra. Cuba tornou-se uma república e área de influência estadunidense, principalmente depois de 1901 com a inclusão da Emenda Platt. Esta emenda à Constituição cubana feita pelo Congresso dos EUA tornava legítima a intervenção militar na ilha em casos de desordem pública e econômica, fato que consagrou Cuba como o "bordel" dos Estados Unidos.

O ditador Fulgencio Batista


Até a década de 50, a ilha de Cuba foi governada por políticos vinculados à elite agrícola do açúcar e do tabaco. De  1952 até 1959, o coronel Fulgencio Batista implantara uma ditadura em Cuba. A pesada repressão aos opositores e a crise que assolava a sociedade cubana favoreceu o surgimento de um movimento de guerrilha que a partir da Sierra Maestra (cadeia montanhosa do centro da ilha) começou a luta pela tomada do poder, obtida em 01 de janeiro de 1959, sob a liderança de Fidel Castro e de Ernesto “Che” Guevara.

Inicialmente, o governo de Fidel Castro teve um caráter nacionalista, realizando um processo de reforma agrária e de nacionalização das indústrias estadunidenses na ilha. Em 1961, os Estados Unidos patrocinam uma tentativa de contra-golpe (que ficou conhecida como "episódio da Baía dos Porcos": um esquadrão de cubanos anticastristas treinados pela CIA) para derrubar Fidel do poder, o qual foi duramente rechaçado pelas forças castristas. Em janeiro de 1962, Cuba foi expulsa da OEA (Organização dos Estados Americanos). Fidel declarou em 1º de maio de 1962 a República Socialista de Cuba.

A crise dos Mísseis de Cuba 1962

Khrushchev e Kennedy: o "braço de ferro" na Guerra Fria



No entanto, a crise entre Cuba e os Estados Unidos se agravou em outubro de 1962, com a descoberta de rampas de lançamento de mísseis pelo serviço de inteligência americano (CIA). Neste momento, o dirigente soviético Nikita Khrushchev pretendia instalar mísseis soviéticos em Cuba, deslocando um carregamento dos mesmos em direção a Cuba. O presidente dos EUA, o democrata John F. Kennedy, ordenou que a ilha fosse cercada pela marinha estadunidense e marcou o momento mais delicado da Guerra Fria, quando o "holocausto nuclear" pareceu iminente. Khrushchev deu a ordem de retorno dos mísseis a poucos quilômetros de entrar em choque com o bloqueio naval dos Estados Unidos, evitando portanto, o início da Terceira Guerra Mundial.



A partir de 1962, a ilha de Cuba foi vítima de inúmeras sanções da comunidade internacional, e principalmente de um pesado bloqueio comercial dos países capitalistas em 1964. Contando com apoio soviético, Cuba conseguiu manter-se e implementar um amplo processo de melhoria das condições de vida dos cubanos, alcançando elevados índices de qualidade nas áreas de saúde e educação.

No entanto, o regime monopartidário concentrado na liderança de Fidel Castro não permitiu espaço para a liberdade de expressão ou qualquer tipo de questionamento ao governo implantado pela Revolução de 59 e assim, os dissidentes são tratados com rigor, podendo ser presos (as prisões cubanas são apontadas como ambientes insalubres e não procuram garantir a integridade dos presos, submetendo-os à condições desumanas) ou até fuzilados, dependendo dos “crimes” que tenham cometido.




Fidel Castro governou até 2006, quando por motivos de saúde, foi afastado do poder e o comando da ilha foi transferido ao seu irmão Raul Castro, que já vinha desempenhando o papel de vice-presidente e comandante do exército. Apesar da debilidade de Fidel, o regime ainda se mantém, usando os mesmos instrumentos de coerção e se caracteriza como um dos últimos países, junto com a Coréia do Norte, que seguem a tradição socialista, oriunda da Guerra Fria.

Em 2008, Raul Castro foi "eleito" pelo Assembleia Nacional do Poder Popular como presidente de Cuba, numa eleição em que era o único candidato. Desde então, a visão tida sobre a ilha é de que talvez tivesse iniciado uma transição, buscando inicialmente a abertura econômica para a economia de mercado e posteriormente, a abertura política.

Fidel Castro (1959-2006)


A recuperação das relações diplomáticas entre os EUA e Cuba, a partir de 17 de dezembro de 2014, com a interlocução do papa Francisco coloca a questão cubana num ponto de significativa atenção sobre o "futuro da ilha". Barack Obama buscou concretizar uma de suas promessas de campanha, apesar de Guantánamo ainda estar servindo de colônia penal e sem contar o controverso debate sobre a "validade da tortura" quanto às ameaças terroristas e seus eventuais suspeitos.

Da esquerda para direita: Juan Bosque, Raul Castro e Fidel Castro.


Obama encontra-se agora dependente do Congresso dos EUA, no qual não tem situação muito tranquila e espera um debate "maduro" por parte dos congressistas, sendo que estes não pensam em ações de generosidade, caso isto lhes custe votos e portanto, seus cargos.

O encontro de Obama com o Papa Francisco, no Vaticano, em 27/03/2014

A ação de um papa latino-americano num problema tão complexo quanto a questão cubana foi decisiva e, nesse processo, o resultado foi positivo entre ambas as partes, pois os EUA e Cuba soltaram de ambos os lados, presos ligados à operações de espionagem e o próximo passo é a reabertura recíproca das embaixadas.

O futuro, como bem sabemos, é incerto. No entanto, o cenário que se desenha é bastante promissor e assim, uma página a mais se acrescenta nos escritos de Clio.

Aguardemos as seguintes!