As Ricas Horas do Duque de Berry

As Ricas Horas do Duque de Berry
As Ricas Horas do Duque de Berry. Produção dos irmãos Limbourg - séc. XV. Mês de julho

segunda-feira, 23 de março de 2015

As civilizações orientais: Egito (Parte I)

O EGITO ANTIGO

O território do Egito está situado na região nordeste do norte da África, sendo uma área estratégica para o acesso da Ásia ou mesmo da Europa. Nas palavras do historiador grego Heródoto (séc. V a.C.), "o Egito é uma dádiva do Nilo", pois, ao longo da porção norte de suas margens, desenvolveu-se uma sofisticada civilização por mais de 4.000 anos, que aproveitou as constantes cheias do rio para o desenvolvimento da agricultura, seja pela fertilização das margens realizada pelas cheias, seja pelos canais de irrigação para as regiões mais secas .



Inicialmente, formaram-se núcleos de povoamento às margens do Rio Nilo, que se transformaram em duas unidades maiores, os reinos do Alto Egito e Baixo Egito, e  foram unificados em 3200 a.C. por Menés, estabelecendo a capital em Tinis.




A sociedade egípcia - Os egípcios tinham uma sociedade fortemente hierarquizada e de difícil mobilidade. No topo desta estrutura, encontrava-se o soberano, conhecido como faraó, indivíduo que controlava toda a hierarquia e era visto como um deus vivo. Relacionados diretamente com o faraó estava a nobreza, ou seja, seus parentes mais próximos (rainha, outras esposas e filhos), os sacerdotes (responsáveis pela relação entre os homens e os deuses), os altos funcionários e generais. A população restante constituía-se de agricultores, pastores artesãos e escravos (prisioneiros de guerra).



Economia - A economia egípcia tinha por base a agricultura, que estava diretamente relacionada com as cheias do Nilo, que eram responsáveis pela fertilização do solo das margens em virtude da cobertura de lodo remanescente quando as águas voltavam ao seu limite natural.
A posse das terras era do Estado e atribuída ao faraó, que ordenava a realização de diferentes formas de trabalho: as atividades agrícolas, as obras dos canais de irrigação e a construção de palácios, templos e tumbas.




Entre os principais produtos da agricultura, destacavam-se o trigo, a cevada, o papiro, as frutas e as leguminosas. Além da agricultura, o pastoreio tinha um papel importante, com a criação de bovinos, caprinos e ovinos. Quanto às atividades comerciais, os egípcios comercializavam com diversos povos, comprando madeira, marfim, perfumes e pedras preciosas e vendendo papiro, óleos vegetais, grãos e vinho. O artesanato egípcio era muito sofisticado nas mais diferentes áreas, como escultura, mobiliário, pintura e ourivesaria.

Ourives, marceneiros, joalheiros e gravadores trabalhando em artefatos para o comércio – Tumba de Nebamun e Ipuky: 18ª Dinastia


A política - A trajetória política do Egito Antigo é dividida em três períodos principais: Antigo Império, Médio Império e Novo Império. Durante o primeiro, ocorreu a unificação dos dois reinos (Alto e Baixo) por Menés (também chamado de Narmer) em 3200 a.C.. Outro acontecimento importante foi a construção das pirâmides de Quéops, Quéfren e Miquerinos, entre 2700 e 2600 a.C.. O final do período foi marcado pelo fortalecimento da nobreza em detrimento do faraó.
No Médio Império, o poder voltou a ser centralizado pelos faraós e ocorreu a expansão para a Palestina e a Núbia. Foi por volta de 1800 e 1700 a.C. que os hebreus chegaram ao Egito e, na mesma época, ocorreu a invasão dos hicsos, povo das regiões planálticas da Ásia que introduziu o uso do carro de guerra.

Pintura da tumba de Tutankhamon 


A expulsão dos hicsos assinalou o início do Novo Império, um período marcado por grandes faraós, como Tutmés III, que ampliou o império conquistando a Síria e alcançando o Rio Eufrates. Talvez um dos mais importantes acontecimentos deste período tenha ocorrido durante o reinado do faraó Amenófis IV, que suprimiu o politeísmo e o culto ao deus Amon-Rá, impondo a crença no deus único Aton (cujo nome foi alterado para Akhenaton). Seu sucessor, Tutankhamon, restaurou o politeísmo, bem como o prestígio dos sacerdotes, os quais foram responsáveis por uma forte influência no governo daquele que ficou conhecido como “faraó menino”, pois reinou dos 10 aos 18 ou 19 anos aproximadamente.

No final do Novo Império, o Egito sofreu várias invasões, como a dos assírios no século VII a.C. e a dos persas no século VI a.C.. A decadência se ampliou, culminando com a dominação de Alexandre Magno (século IV a.C.) e dos romanos no século I a.C .

Cultura e religião - Os egípcios eram politeístas, ou seja, acreditavam em vários deuses, os quais se relacionavam com elementos da natureza: Rá, o Sol, senhor dos deuses; Hórus, o Falcão relacionado com o céu e também com o sol; Anúbis, o Chacal, protetor dos embalsamadores; Osíris, deus da ressurreição humana; Ísis, a deusa mãe de todas as coisas; Hator, deusa da alegria. Também eram cultuados alguns animais como Khnum, o carneiro; Sobec, o crocodilo; Basteth, a gata. Alguns deuses eram antropozoomórficos, ou seja, formados por uma parte humana e outra parte animal. Anúbis, por exemplo, tinha a cabeça de um chacal e o corpo de um homem.



Dentro da religião egípcia, acreditava-se na vida após a morte, sendo prioritária a conservação do corpo do morto através da mumificação, pois o espírito retornaria para reconhecer sua antiga morada e levar todos os pertences deixados no túmulo para a outra vida, no além.



A sofisticação da cultura egípcia é verificada pelas construções arquitetônicas remanescentes, repleta de esculturas e pinturas, que são uma das principais fontes de estudo sobre esta civilização. Os egípcios tinham notáveis conhecimentos em matemática, astronomia e medicina.


Sua escrita, os hieróglifos, representa um complexo conjunto de sinais que significavam sons e, juntos, constituíam as palavras. A escrita, no entanto, era diretamente controlada pelo Estado, sendo os escribas "os olhos e ouvidos do faraó", pois apenas este seleto grupo de funcionários detinha tal conhecimento - em virtude de seu caráter sagrado. Os escribas estavam presentes nos templos, palácios e túmulos. Além dos hieróglifos, existiam outros dois tipos de escrita mais simplificados: o hierático e o demótico (mais popular).

A pedra de Roseta, chave da tradução dos hieróglifos usada por François Champollion em 1822. Hoje exposta no British Museum de Londres. Sua inscrição registra um decreto de 196 a.C., na cidade de Mênfis.

domingo, 15 de março de 2015

Um pouco mais da tal "Pré-História"

O Período Paleolítico: Idade da Pedra Lascada

O Paleolítico vai de 500.000 a.C. a 10.000 a.C., sendo que as primeiras atividades humanas eram relacionadas com a caça e coleta, em virtude da vida nômade e precária dos primeiros seres humanos. Inicialmente, não dispunham de utensílios e artefatos que lhes garantissem grande eficiência em suas atividades, sendo obrigados a consumir alguns vegetais (raízes e frutos) e carne de carcaças de animais abatidos por outros carnívoros. 

Mas, ao longo do Paleolítico, o homem começou a desenvolver os primeiros artefatos de caça à base de pedra, ossos e madeira. Outro fator relevante foi o desenvolvimento da massa cerebral dentro do processo de evolução biológica, permitindo maior adaptação às intempéries e também o desenvolvimento do andar ereto. Este homem foi denominado Homem de Neanderthal (região oeste da Alemanha, junto ao vale do rio Reno, onde foram encontrados seus vestígios).

Até 2010, os paleontólogos, biólogos, antropólogos tem discutido e publicado muitos trabalhos que falam da possibilidade do Homo sapiens ser descendente do homem de Neanderthal. Estudos de uma equipe de pesquisadores suecos concluiu após o mapeamento do genoma do homem de Neanderthal  e o comparou com o genoma do Homo sapiens , identificando o parentesco entre ambos, num encontro que deve ter ocorrido no intervalo de 80.000 e 50.000 a.C., na região do Oriente Médio.

No período entre 40.000 e 10.000 a.C., o homem alcançou um desenvolvimento mais amplo, dotado de manifestações culturais mais complexas e uma grande habilidade de criar artefatos em sílex. Posteriormente, este homem foi denominado Homem de Cro-Magnon (região sudoeste da França onde foram encontrados seus vestígios), o qual pode ser considerado pertencente à nossa espécie Homo sapiens sapiens. Somos o "Homem sábio, muito sábio" em nossa gigantesca modéstia classificatória...

Como o homem chegou ao continente americano? O processo de ocupação do continente americano pelo homem ocorreu por fluxos migratórios de origens e datações variadas. De acordo com as provas encontradas (pinturas rupestres, restos de excrementos e fogueiras, objetos e ossos), considera-se que os mais antigos exemplares de nossa espécie tenham chegado ao continente americano entre 40 000 e 20.000 a. C.




Uma das hipóteses é o fluxo migratório oriundo da Ásia pela travessia do atual estreito de Bering, que estaria congelado e, assim, unia os dois continentes, bem como outros efeitos da glaciação como a redução do nível dos mares em 140 metros abaixo do atual.




Fonte: Folha.com 07/05/2010





Há também uma hipótese que propõe um fluxo migratório cujo ponto de partida estaria no sudeste asiático e daí teria ocupado áreas na Oceania, depois as ilhas no Oceano Pacífico e, por fim, chegado à América.



Os ancestrais da atual população indígena do Brasil têm o formato do crânio e a face muito semelhante ao dos asiáticos (mongóis, chineses e japoneses), enquanto o crânio da “Luzia”, nosso exemplar mais antigo, encontrado na região de Lagoa Santa, em Minas Gerais, datado entre 11 500 e 11 000 a.C., se aproxima muito mais dos australianos e africanos atuais.

A nossa Luzia




O Período Neolítico: A Idade da Pedra Polida

Este período é marcado pelo fim da última era glacial, em que ocorreram transformações climáticas que se aproximam das características atuais. O aumento das temperaturas favoreceu o crescimento das florestas em regiões temperadas na Europa central; o norte da África ficou ressequido e o Saara transformou-se num deserto. Dessa forma, os primeiros contingentes humanos começaram a se fixar nas margens dos rios, desenvolvendo a agricultura e a criação de animais em pastoreio. A partir deste período, o homem deixa a vida nômade e adota a sedentária.

A fixação das populações às margens dos rios propiciou o surgimento das primeiras “civilizações” no Oriente Próximo (Nilo, Tigre, Eufrates, Jordão), no Extremo Oriente (Ganges, Indo, Amarelo, Azul) e nas Américas. Esse processo foi denominado "Revolução Agrícola".

Observa-se aqui uma distinção: os povos do Crescente Fértil e do Extremo Oriente podem ser considerados uma espécie de “vanguarda tecnológica”, pois viveram a Revolução Agrícola antes e mais intensamente – seu  processo gradativo de agricultura, domesticação, fundição e urbanização foi nitidamente diferente do das populações das Américas, da África sub-saariana e da Oceania.

Enquanto na Oceania e nas Américas – com exceção da Mesoamérica e do Altiplano andino – a agricultura se desenvolveu lentamente e a domesticação de animais foi mais limitada (cão, lhama, cobaia e algumas aves), a chamada encruzilhada do mundo, o Crescente Fértil, tinha plantações grandes e variadas – trigo, cevada, lentilha, ervilha e oliva – e criação de cavalos, cabras, bois, carneiros, galinhas, gansos, abelhas e camelos –, e o Extremo Oriente cultivava arroz, painço, soja, inhame, banana e criava cavalos, bois, búfalos d’água, galinhas, iaques e gansos.



Talvez a explicação seja pela diversidade climática que perpassa o continente que se estende de um polo a outro, enquanto a Europa, o Oriente Médio e o Extremo Oriente estão dentro de uma mesma faixa climática; além disso, o primeiro milho colhido não podia sustentar populações urbanas, mas o primeiro trigo colhido, sim, e, segundo alguns cientistas, essa diferença teria criado um abismo de aproximadamente mil anos entre os povos dos dois lados do Atlântico, em termos do avanço tecnológico.



Esta é a tese do biólogo Alfred Crosby, que propõe o desenvolvimento de uma “bomba biológica” resultante do isolamento geográfico entre os contingentes humanos que viviam no Velho e no posteriormente denominado Novo Mundo, que passaram por processos de produção alimentar e organização social distintos, o que teria criado campos de problemas e experiências também diferentes: aqueles conheceram inúmeras técnicas de que chegaram a sobreviver por séculos, e estes começaram a esboçar um percurso semelhante, mas sem o mesmo tempo para aprender com ele.

Embora não haja uma explicação definitiva para esse descompasso tão evidente, provavelmente foi um dos fatores do êxito da dominação europeia sobre as terras do Novo Mundo, além da superioridade militar e das inúmeras doenças que dizimaram rapidamente milhares de indígenas e de aborígines do continente australiano e das ilhas.

Outro fator que deve ser levado em conta na análise das diferenças culturais é o conhecimento da tecnologia de fundição. Os povos da América ainda usavam metais fundidos (ouro e prata) para a fabricação de adornos e objetos de culto, e os europeus que já conheciam técnicas mais sofisticadas de trabalho com metais e produziam inúmeros objetos de ferro e de aço, como por exemplo as armas brancas, armaduras e armas de fogo.

Na fase final do período, houve o desenvolvimento da técnica de fundição de metais: inicialmente, o cobre, depois estanho e, na soma destes dois, o bronze. No Egito e na Mesopotâmia, começou-se a produzir bronze por volta de 3000 a.C. e, cerca de 2500 a.C. em Creta, Grécia e Península Ibérica. A produção de ferro foi mais tardia, por volta de 1500 a.C. na Ásia Menor.

terça-feira, 10 de março de 2015

Reflexões sobre a História


A História enquanto ciência se pauta na construção de discursos sobre os atos humanos no passado e para tanto necessita de fontes, as quais serão analisadas e a partir disso, surgirão as bases para a produção de conhecimento histórico.


Na origem, a palavra histor significa "narrador" em grego, portanto, a história ganha a dimensão da narração. Mas narração do que ?


Se formos pelo senso comum, a narração "dos fatos e acontecimentos", mas sabemos que hoje a História se constrói muito mais pela análise processual do que factual, afinal, os fatos não mudam, mas análise das fontes históricas, sim.


Cada geração busca se apropriar do passado, fazendo sua releitura, mas as bases são as mesmas: entender como, onde e porque ocorreu determinado processo histórico? Quais foram as permanências e mudanças dentro do processo ?


Até a primeira metade do século XX, existiu um predomínio das fontes escritas sobre outras possibilidades que hoje trabalhamos. Por exemplo, é dessa visão que surgiu o conceito de que a História passou a existir depois da invenção da escrita e todo o gigantesco período anterior foi rotulado de "Pré-História" e ainda, acompanhado de um juízo de valor bastante negativo: época do homem primitivo inferior ao homem civilizado, que só passou a existir depois da escrita, que assinalaria o conceito de civilização.


Hoje ainda utilizamos o conceito de "Pré-História", mas acompanhado das devidas ressalvas e reflexões que o questionam, bem como, a divisão herdada dos positivistas (História Antiga, Medieval, Moderna e Contemporânea). Para nós, brasileiros, até muito pouco tempo atrás, ainda ensinavam nas escolas que nossa história começava com o "descobrimento" liderado por Cabral em 22 de abril de 1500, portanto, os povos indígenas não tinham uma história.

Paredão com pinturas rupestres - Serra da Capivara (PI) cerca de 23.000-17000 a.C.

Urna funerária antropomórfica - Cerâmica Maracá - sul do Amapá . c. 1000 d.C. Museu Nacional UFRJ 



Avançando neste processo, já nos libertamos da imposição factual e passamos a explorar outros territórios: a oralidade, a cultura material e imaterial, os discursos presentes nas diferentes artes e sempre tendo em mente que o objeto é o homem ou suas diferentes sociedades no tempo passado e que nesta busca, não há uma visão única, mas visões que mesmo diversas ajudam a compreensão da História e não invalidam seu status de ciência, pois desse modo, escapamos da visão doutrinária que impõe "Verdades", sabendo que o questionamento e crítica dos saberes estabelecidos são uma constante para o avanço do conhecimento e não heresias.


A imposição de uma "História oficial" geralmente resulta de uma perspectiva autoritária, que se recusa a permitir uma reflexão ou debate sobre o passado, legitimando quem naquele contexto exerce o poder sobre os homens ou sobre suas almas.

É justamente a diversidade de aportes teóricos e metodológicos que favoreceram o estabelecimento de diversas correntes historiográficas e disso, temos distintas linhas de pesquisa e áreas de atuação para se pensar o fazer histórico, que se amplifica e se enriquece com o contraditório.

A História, pensada através de uma perspectiva que valoriza a pluralidade cultural, pode favorecer a desconstrução das ideias que sustentam a exclusão e o preconceito. Afinal, a História não é "mera guardiã do passado", mas um poderoso instrumento de conhecimento e valorização do ser humano. 

Num país como o nosso, que padece de vários males, dentre eles uma "relativa amnésia" ou vergonha de seu passado, conhecer e compreender a História é um dos caminhos para o exercício da cidadania.



domingo, 1 de março de 2015

Império Assírio: a vítima da intolerância do Exército Islâmico no Iraque

A destruição provocada pelos integrantes do Exército Islâmico no Museu de Mosul e na sua Biblioteca Pública ainda repercutem no mundo inteiro. 

Mas de que contexto são os artefatos ali destruídos? 

Vamos falar então, da antiga Mesopotâmia, um dos berços daquilo que entendemos por civilização.

MESOPOTÂMIA


Região localizada entre os rios Tigre e Eufrates, cuja ocupação se iniciou no fim do período Paleolítico. Já no Neolítico, apresentava vários pequenos núcleos de povoamento, com a fundação de cidades, como Ur, por volta de 4000 a.C. Nesta região, desenvolveram-se vários povos -  babilônios, assírios e persas- que se aproveitaram da água dos rios para o plantio e a irrigação das regiões mais áridas. 

A organização política inicial destes povos se deu sob a forma de cidades-estado, administradas pelos sacerdotes em virtude da crença de que as terras pertenciam ao deus da cidade. Na Mesopotâmia, houve o desenvolvimento da escrita cuneiforme (aplicação de cunhas de madeira sobre tábuas de argila fresca) para registrar a produção agrícola dos camponeses, também servindo para o registro das leis, como o Código de Hamurabi, além de narrar a vida dos reis e outros eventos ligados à administração e religião.

Processo de organização dos povos da Mesopotâmia


Economia - De um modo geral, os povos mesopotâmicos desenvolveram a agricultura junto aos rios Tigre e Eufrates, utilizando, também, canais de irrigação para as regiões mais secas. O pastoreio de ovinos, bovinos e caprinos tinha grande importância. Quanto ao comércio, este se vinculava à extração de minérios (cobre, estanho, ferro, ouro), pedras preciosas, tijolos, mobiliário e ourivesaria, além de negociar o excedente de sua produção com regiões menos férteis e também terem o interesse pelo comércio de rebanhos de cavalos e camelos.

Cultura e religião - Os povos da Mesopotâmia eram politeístas, com a divinização de vários elementos da natureza, e tinham alguns deuses em comum (Shamash, deus do sol e da justiça; Ea, das águas; Anu, do céu; Ishtar, deusa do amor e da guerra). Havia também os deuses específicos de cada localidade: Marduck, dos babilônios; Assur, dos assírios. Todos estes povos tinham grande conhecimento em astrologia, matemática e arquitetura (construíram vários observatórios astronômicos, denominados zigurates, cuja precisão permitiu o acompanhamento de vários fenômenos naturais, tais como a passagem de cometas, eclipses e também a marcação dos ciclos lunares e solar).
Relato datado de 164 a.C. que registra a passagem do cometa Halley - Museu Britânico - Londres


Na área da literatura, destacam-se a existência de diversas bibliotecas, cujos textos se encontravam gravados em tábuas de argila com a escrita cuneiforme. Uma das obras mais importantes é a Epopeia de Gilgamesh, um herói que luta contra várias divindades em busca da imortalidade.

Fragmento de tábua de argila que traz o relato da Epopeia de Gilgamesh - Museu Britânico Londres



IMPÉRIO BABILÔNICO 

A cidade da Babilônia teve sua origem após a decadência do Império Acádio, que foi a primeira tentativa de unificação da Mesopotâmia sob a liderança do rei Sargão I, estabelecendo sua capital em Akkad. No Império Acádio, o poder estava centralizado na figura do rei, tornando-o divinizado. O sucesso de Sargão I estava relacionado com sua postura de não destruir a cultura dos povos dominados e pela utilização do arco e flecha no exército. No entanto, após a morte de Sargão, os povos dominados iniciaram várias revoltas. De 2050 a 1950 a.C., surgiu uma nova dinastia na cidade de Ur, reunificando a Mesopotâmia.

A partir de 1900 a.C., vários estados iniciaram uma intensa luta entre si, culminando no rei Hamurabi (1792-1750 a.C.), que foi responsável por um rígido código de leis (o Código de Hamurabi) baseado na pena do talião: "olho por olho, dente por dente", sendo que seus sucessores enfrentaram a invasão de vários povos asiáticos, como a dos hititas em 1137 a.C. A Babilônia só recuperou a independência com Nabucodonossor, mas, logo após sua morte, o império foi invadido pelos assírios.

O rei Hamurabi (em pé) recebe do deus Shamash o código. Logo abaixo, encontra-se esculpido em escrita cuneiforme. Museu do Louvre, Paris, França.

Detalhe ampliando o texto do Código de Hamurabi



Código de Hamurabi [fragmento traduzido]

Se um homem negligenciar a fortificação de seu dique, se ocorrer uma brecha e a seara inundar-se, o homem será condenado a restituir o trigo destruído por sua falta. Se não puder restituí-lo, será vendido, assim como seus bens, e as pessoas da área inundada repartirão entre si o produto da venda.
Se um homem der a um jardineiro um campo para ser transformado em pomar, se o jardineiro plantar o pomar e dele cuidar durante quatro anos, no quinto ano o pomar será repartido igualmente entre o proprietário e o jardineiro; o proprietário poderá escolher sua parte.
Se um homem alugar um boi ou um asno, e se nos campos o leão matar o gado, é o proprietário do gado que sofrerá a perda.
Se um homem bater em seu pai, terá as mãos cortadas. Se um homem furar o olho de um homem livre, ser-lhe-á furado o olho.
Se um médico tratar a ferida grave de um homem com punção de bronze e ele morrer, o médico terá suas mãos decepadas.
Se um arquiteto construir uma casa para outro e não a fizer bastante sólida, caso ela desabe e mate o dono, o arquiteto é condenado à morte. Se for o filho do dono da casa quem morrer, será morto o filho do arquiteto.

ISAAC, J.; Alba, A. Oriente e Grécia. São Paulo: Mestre Jou, 1964, p.77.


O IMPÉRIO ASSÍRIO

A decadência do Império Babilônico favoreceu a penetração dos assírios (povo de origem semita, cuja principal atividade era o pastoreio), que fundaram um pequeno Estado com capital em Assur. Notórios por sua belicosidade, os assírios gradativamente construíram um poderoso império, principalmente nos reinados de Sargão II (722-705 a.C.), responsável pela conquista da Síria e a destruição de Samaria, capital do reino de Israel, e de Senaquerib (705-681 a.C.), que superou seu pai, atacando a Ásia Menor (portos gregos, fenícios e destruição da Babilônia).



Os assírios tinham uma estrutura de poder centralizada nas mãos do rei, que era divinizado, sendo visto como o próprio deus Assur. A manutenção do império se dava pelo pagamento de pesados tributos (principalmente para o contentamento do exército) e também pela intensa violência aplicada sobre os povos  subjugados. A expansão prosseguiu no reinado de Assurbanipal (668-626 a.C.), com a invasão do Egito, de Elam e de Susa (capital da Média). Entretanto, o Império Assírio era mantido em constante pressão pelos povos vizinhos e, com a gradativa recusa dos povos dominados a pagarem tributos, a crise tomou conta do império, que teve seu exército desarticulado
e acabou ruindo.

Representação do poder real assírio, séc. VIII a.C. - Museu Britânico, Londres, Inglaterra. 



SEGUNDO IMPÉRIO BABILÔNICO


A desarticulação do Império Assírio favoreceu um dos povos que lhes era submetido, os caldeus, que, através de uma aliança com os medos, implantaram uma nova dinastia sob a liderança de Nabopassalar. A partir de 605 a.C., sob o reinado de Nabucodonossor II, a Babilônia recuperou seu poderio, pois iniciou a expansão pelo Elam, Palestina, Síria e a região oeste da Mesopotâmia. Foi durante o reinado de Nabucodonosor II que ocorreu a deportação dos hebreus para a Babilônia como escravos, o chamado “Cativeiro da Babilônia”. Este rei ficou conhecido por mandar construir a Torre de Babel e os Jardins Suspensos da Babilônia, porém não conseguiu fazer um sucessor que continuasse a grandiosidade de seu reinado, e, por volta de 539 a.C., o Império Babilônico foi tomado pelos persas.


Porta de Ishtar 14,30 m de altura. Retirada da Babilônia e hoje parte do Pergamon Museum em Berlim, Alemanha.

A expansão dos persas sob o comando de Ciro, o Grande.