As Ricas Horas do Duque de Berry

As Ricas Horas do Duque de Berry
As Ricas Horas do Duque de Berry. Produção dos irmãos Limbourg - séc. XV. Mês de julho

quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

06 de janeiro: a Epifania de Nosso Senhor

Na cristandade ocidental, o Dia da Epifania comemora-se tradicionalmente doze dias após o Natal, no Dia de Reis em 06 de janeiro. Com a reforma do calendário litúrgico, em muitos países a data celebra-se no domingo entre o dia 2 e o dia 8 de janeiro (dois domingos após o Natal).
A Epifania do Senhor é a manifestação do Filho de Deus no corpo de Jesus Cristo, o momento de revelação de Jesus ao mundo. Esta celebração centra-se na adoração dos três Reis Magos ao Menino Jesus, um símbolo do reconhecimento de Cristo como salvador da humanidade.
Para além deste momento, a Igreja celebra mais duas epifanias. Com especial incidência na primeira, celebram-se três epifanias do Senhor ao longo do ano litúrgico:
  • A epifania aos Reis Magos, pelo nascimento,
  • A epifania a São João Batista no rio Jordão, pelo batismo;
  • A epifania aos discípulos com a boda de Canã, pelo início da vida pública.
Na tradição católico ortodoxa, o dia 6 de janeiro celebra-se a festa da Epifania ou da Teofania. Originalmente, era a única festa cristã da manifestação de Deus ao mundo na pessoa de Jesus de Nazaré. Incluía a celebração do Nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo, a adoração dos Rei Magos e todos os acontecimentos da infância de Jesus como a Circuncisão, a Apresentação no Templo, assim como o seu Batismo por São João no Rio Jordão. É quase certo que esta festa, como a Páscoa da Ressurreição e Pentecostes se entendia como o cumprimento de uma festa judaica, neste caso, a Festa das Luzes (Chanucá).
O tema da Encarnação de Jesus, o qual se desenvolve no vitral central da fachada ocidental  da Catedral de Notre-Dame de Chartres, localizada na região do Eure-Loir, na França. Este vitral é conhecido como a Vida de Cristo. Há provavelmente uma significativa influência dos temas iconográficos ali desenvolvidos com os textos dos Evangelhos de Mateus e de Lucas, uma vez que alguns temas referentes ao nascimento de Jesus não se encontram nos textos de Marcos e  de João.
A dimensão teológica presente neste episódio se dá pela metáfora da luz como o Cristo e nele a salvação, desse modo, a estrela que brilhou excepcionalmente reitera a importância do menino que representa a esperança na Vida Eterna, portanto, a busca dos "reis magos" do Oriente Belquior (ou Mélquior, oriundo da Caldeia, na Mesopotâmia), Baltasar (tido como o mouro, vindo da Arábia) e Gaspar (procedente da Pérsia) representaria o reconhecimento de Jesus como o Messias, e ali identificado como o "rei dos reis". 

A Vida de Cristo - séc. XII
Crédito: Elias Feitosa
Esquema de organização do vitral

Ao observarmos esta baia no sentido ascendente, encontramos nas três primeiras cenas o início do desenvolvimento da Encarnação, apresentando a Anunciação, a Visitação e a Natividade(respectivamente na imagem abaixo da esquerda para a direita), momentos em que a figura de Maria está em evidência devido ao papel que teria de cumprir, tornando-se a mãe de Jesus. O desenvolvimento das cenas segue um ritmo crescente, com o início na Anunciação:
E, estando Isabel no sexto mês, foi enviado por Deus o anjo Gabriel a uma cidade da Galiléia, chamada Nazaré, a uma virgem desposada com um varão que se chamava José, da casa de Davi; e o nome da virgem era Maria. E entrando, pois o anjo onde ela estava, disse-lhe: Salve, cheia de graça, o Senhor está contigo! Ela ficou intrigada com essa palavra e pôs-se a pensar qual o significado da saudação. O Anjo, porém, acrescentou: Não temas, Maria! Achas-te, pois a graça diante de Deus! Eis que conceberás no teu ventre e darás à luz um filho e tu lhe darás o nome de Jesus. Ele será grande, será chamado Filho do Altíssimo, e o Senhor Deus lhe dará o trono de Davi, seu pai; ele reinará na casa de Jacób para sempre e o seu reinado não terá fim. Maria, porém, disse ao anjo: Como se fará isso se eu não conheço homem algum? O anjo lhe respondeu: O Espírito Santo descerá sobre ti e a virtude do Altíssimo vai te cobrir com sua sombra; por isso o Santo que há de nascer de ti será chamado Filho de Deus”.[1]
Detalhe da base do vitral "A Vida de Cristo - séc. XII"
Crédito: Elias Feitosa

O texto bíblico nos oferece a principal referência sobre o tema da Anunciação, um momento em que o cumprimento das profecias do Velho Testamento, em especial de Isaías, iriam se cumprir. O evento é uma ligação entre o plano terrestre (Maria) e o plano espiritual (Deus) através de um mensageiro (o anjo) e a realização do poder divino através da concepção sem pecado. A aparição do anjo segue o padrão de algumas manifestações do Velho Testamento, no momento em que Deus teria algo a dizer aos homens e ao invés de fazê-lo diretamente, envia um mensageiro.
Sendo uma epifania, Maria vê o anjo e se assusta, fazendo com que o anjo lhe tranqüilize sobre aquilo que ali ocorria. Esta circunstância influenciou significativamente as representações do tema da Anunciação e no vitral, vemos nos gestos de ambos (de Gabriel e de Maria) a manifestação dos sentimentos de paz e medo, apesar da saudação inicial “Salve, cheia de graça, o Senhor está contigo!”.
A composição da cena num plano simétrico detém uma unidade através do olhar de ambos que se encontram, onde a ação é controlada pelo anjo que porta um cetro na mão esquerda (semelhante a um cetro real) e com a direita faz o sinal de benção. Maria, por sua vez, retraí o corpo, recuando para perto de um móvel (algo que se parece com uma cadeira) e tem um livro na mão esquerda, enquanto corresponde a saudação com a mão direita. Outras epifanias aparecem na baia, no anúncio aos pastores (cena 4), falando com os Reis Magos (cena 10) e com José para retornar do Egito (cena18). Os anjos ainda aparecem no alto da baia (cenas 25 e 26) reverenciando Maria e Jesus.
Detalhe do vitral "A Vida de Cristo" - séc. XII
Crédito: Elias Feitosa

O episódio da Visitação também ressalta a importância do papel de Maria, qual foi saudada por sua prima Isabel como a “mãe do seu Senhor”, sendo que Isabel também trazia em seu ventre uma criança, João que foi chamado posteriormente de João Batista, primo de Jesus, profeta responsável pelo próprio batismo de Jesus (cena 21).
Maria se encontra presente em vários medalhões e ocupa um papel de destaque na parte superior da baia, onde aparece junto de Jesus enquanto menino, numa posição solene, entronizados no interior da mandorla e ao seu redor anjos simetricamente dispostos.
A posição de Maria e de Jesus no ápice da baia (cena 29 e 30) determina o amplo destaque da figura da Virgem na trajetória de Jesus e, portanto, do próprio cristianismo, pois compõe um conjunto formado inicialmente pela Visitação (cena 2), seguido pela adoração dos Magos (cena 8), depois pela apresentação no Templo (cena 14), posteriormente pelo batismo (cena 21). Toda essa série organiza a parte central da baia e orienta sua composição em direção ao alto, no eixo vertical, sendo que todas as cenas citadas se encontram no interior de círculos perolados de fundo azul.
A composição cromática merece uma atenção especial, pois o tom azul dos círculos se harmoniza com as vestes de Maria em todas as cenas e faz o contraste no espaço dos anjos, que também se encontram vestidos de azul num espaço de fundo vermelho (cenas 25, 26, 27 e 28).
Se o azul aparece nas vestes de Maria e dos Anjos, o mesmo ocorre nas vestes do Cristo, seja na manjedoura, seja na entrada em Jerusalém e por sua vez “revestido” do Espírito Santo pelas também azuis águas do Jordão.  Apesar de chamar a atenção por sua abundância, o azul aparece em outros personagens, muitos anônimos e outros conhecidos como os Reis Magos ou mesmo Herodes.
A Vida de Cristo - séc. XII
Crédito: Elias Feitosa


Nesse caso, a composição formal (alternância de quadrados e círculos) também sai favorecida pela composição cromática que caracteriza as duas figuras geométricas em quase toda a baia (da cena 1 até a 24), tendo seu ritmo alterado pelo ápice que forma um arco ogival e comporta a mandorla em seu centro, como se vê abaixo.

Ápice do vitral "A Vida de Cristo" - séc. XII
Crédito: Elias Feitosa

Ao observarmos a perspectiva axial de organização da baia e a presença da Virgem nessa orientação, podemos apontar o reforço de sua imagem como a Theotókos (Mãe de deus em grego). Tal situação é compreensível se analisarmos o encadeamento de eventos iniciados pelo episódio da Visitação (cena 2) na base do eixo, quando Isabel saúda sua prima Maria e o filho de Isabel, sente como a mãe, a força do Verbo que se fez carne no ventre de Maria. 
Num segundo momento, enquanto os Reis Magos reverenciam o Cristo, este se encontra nos braços da Virgem entronizada, na condição de sua Mãe e guardiã. O papel de Mãe é reforçado durante a apresentação no Templo no cumprimento do costume judaico.
Maria, portanto, aparece como início e o fim da temática iconográfica deste vitral, mas sempre numa condição cristológica que aponta as atenções para Cristo que é o elemento central, reforçando por sua vez a dimensão de Maria como metáfora da "Mater Ecclesiae", a "Mãe Igreja" que protege seu filho e intercede junto a Ele, levando os pedidos e súplicas dos homens.



[1] Bíblia de Jerusalém - Lc 1: 26-35

domingo, 1 de janeiro de 2017

Por que o ano começa no dia 1 de janeiro?

Relógio Astronômico de Praga construído em 1410 por Nikolaus de Kadem na torre da Prefeitura.
Crédito: Elias Feitosa



O ano novo chinês é comemorado em uma data variável entre os meses de fevereiro e março do nosso calendário gregoriano. O ano novo nos países orientados pelo calendário islâmico começa no mês de Muharram, também em data variável, que em 2016 caiu em 1o. de outubro, quando teve início o ano de 1438 da era da Hégira. Na Índia, o ano novo também foi comemorado em novembro passado, na primeira lua nova do mês de Kartika, embora, como no caso dos judeus, entre outros, o mês em que se festeja o ano novo não seja necessariamente o mesmo em que começa oficialmente o calendário, o que mostra que a os povos levam em consideração como passagem de ano é um fenômeno cultural relativamente independente das definições oficiais ou dos ajustes astronômicos que possam existir por trás delas. Apesar da predominância global do calendário gregoriano, adotado inclusive na China desde 1912, continuam a ser muito diferentes as datas e as maneiras como as diversas sociedades encaram o fim e o início de seu ciclo anual. O 1 de janeiro é apenas uma das alternativas.

Para que hoje tenha se tornado possível comemorar o ano novo em 1 de janeiro, teve de existir, antes, o próprio mês de janeiro, que, segundo Plutarco, foi acrescentado ao calendário de Rômulo por seu sucessor, Numa Pompilio, no século VIII antes de Cristo. O calendário utilizado em Roma até então tinha 10 meses lunares e começava na primavera, na lua cheia mais próxima do equinócio de março (os idos de março). Esses 10 meses marcavam um ritmo dificilmente ajustável ao das estações e do ciclo solar, que tinham uma importância evidente para a atividade no campo e haviam sido adotados anteriormente pelos egípcios. Para que houvesse um ajuste melhor, Numa acrescentou o décimo-primeiro mês, ianarius, e o décimo-segundo, februarius. O mês de fevereiro recebeu seu nome das festas de preparação da primavera, chamadas Februa (limpeza, purificação), que, com o tempo, passaram a fazer parte das celebrações das Lupercales. O mês de janeiro, no entanto, diante da ausência de uma referência concreta, foi dedicado ao deus Jano, cujo culto foi ativamente incentivado por Numa. Ainda assim, apesar de ter doze meses, o ano romano continuou a começar na primavera até 153 a. C, um século antes da reforma do Calendário Juliano.

Até 153 a. C., os cônsules romanos eram nomeados anualmente pelo Senado nos idos de março, o começo do ano. No entanto, em meio à eclosão da segunda guerra celtibera e declarada a guerra à cidade de Segeda, o General Quinto Fulvio Nobilior pediu ao Senado que se antecipasse a data das nomeações. A fim de poder antecipar o transporte das tropas e preparar a campanha militar para a primavera. A população de Roma continuou a comemorar os idos de março da mesma forma, entre outros motivos pela abundância de atividades religiosas concentradas nessas datas. No entanto, o Senado atendeu ao pedido dos cônsules e, pela primeira vez, o começo do ano foi oficialmente transferido para o período de janeiro (na primeira lua nova do mês), quando os cônsules tomaram posse de seus cargos, dando início, desde então, à contagem do ano. Daí a lenda de se atribuir aos celtiberos (ou aos hispânicos de maneira geral) o mérito de terem alterado o calendário mais importante de sua época e determinante, também, para os calendários que se sucederiam. Com janeiro abrindo o ano (em vez de ser o décimo-primeiro mês), reformou-se o calendário de Roma, que deu lugar, em 46 a. C. ao calendário Juliano, organizado pelo sábio Sosígenes de Alexandria e que deve o seu nome a uma homenagem a Julio Cesar. Esse calendário seria adotado em alguns países da Europa até o começo do século XX, especialmente entre aqueles de maioria religiosa Ortodoxa. Na Rússia, por exemplo, ele só foi substituído após a Revolução de 1917; na Grécia, último país a abandoná-lo e a adotar o calendário civil atual (Gregoriano), ele foi usado até 1923.

No entanto, apesar da importância de Roma e de sua cultura em toda a Europa, em boa parte do continente a preferência na hora de comemorar o começo do ano recaía sobre outras datas. Se em Roma e no Mediterrâneo, o Ano Novo se comemorava na primavera, os povos do norte preferiam fazê-lo no inverno. Ao compararmos as duas latitudes, cabe lembrar que a diferença de estações entre o sul temperado da Europa e o Norte frio impunha uma diferença muito grande no modo de vida, a começar pelo ritmo do trabalho no campo, mas também na caça e no pastoreio. Dessas diferenças, surge uma experiência muito diversa do ciclo anual. Um exemplo disso é o fato de que no norte, inclusive depois da adoção generalizada do calendário Juliano imposta por Carlos Magno no século VIII, o ano continuou sendo dividido principalmente em duas estações, a de Skammdegi (dias curtos) e a de Náttlevsi (dias sem noite), como a elas se referiam os islandeses. Nesse contexto, era comum que o início do ano coincidisse com as celebrações do inverno e, em particular, o Samain (1 de novembro), o início da estação escura, porque os ancestrais se recompunham sob a neve e voltavam na escuridão. E esse acontecimento devia ser marcado com os festejos e rituais adequados.

Apesar da mudança formal do ano de 153 a. C., posteriormente consolidada pela reforma juliana, não só os romanos mantiveram os festejos da primavera como também, na Roma já cristã e, posteriormente, na Europa medieval (e também cada vez mais cristã), ainda houve resistência a se comemorar o começo do ano no primeiro dia de um mês dedicado a um deus pagão. Houve quem tenha tentado mudar os nomes dos meses, como Carlos Magno, que propôs uma versão juliana com os nomes germânicos, baseados principalmente em fenômenos climáticos ou em atividades do campo. No entanto, os filhos cristãos dos antigos pagãos europeus, ao norte e ao sul, continuaram a dar uma importância fundamental para as questões religiosas na hora de saudar o começo do ano; assim, raramente a preferência geral para o ano novo era o 1 de janeiro. A cristandade estabeleceu vários critérios que foram utilizados às escondidas, discretamente, por diversos reinos e populações.

Na era cristã, instituída por Dionísio o Exíguo, o ano novo podia começar em 25 de dezembro, 25 de março ou no domingo da Ressurreição, dependendo de como essas datas coincidiriam a cada ano, pois é uma data variável que depende da definição da Páscoa de acordo com o calendário judaico. Em Veneza, o ano também podia começar em 1 de março, seguindo a tradição romana mais antiga, e nas regiões do Império Bizantino o início do ano se comemorava em 1 de setembro. E como se não bastasse, houve também quem quisesse comemorá-lo em 1 de janeiro, como os francos preferiam fazer até o século VIII, sob o reinado dos merovíngios. Essa data, herdeira do calendário romano, foi cristianizada como o dia da Circuncisão e santificada como começo do ano cristão também pelos reinos cristãos do norte da Península Ibérica. No século XIII, porém, no reino de Navarra se adotava a data do Domingo da Ressurreição. Com o tempo, parece que tanto Aragón quanto Castilla começaram a usar como início do ano o dia da Anunciação, o 25 de março, data antes mais conhecida como da Encarnação. Sabemos, porém, que, em 1350, Pedro IV de Aragón proibiu esse uso e definiu o dia do Natal, 25 de dezembro, como o ano novo oficial. E o mesmo foi adotado em Castilla entre os séculos XIV e XV. Por fim, e em parte devido ao êxito de sua expansão para a Europa desde o século XII, no século XVI o reino da Espanha adotou o dia da Circuncisão como a data do início do ano. Desde então, comemoramos o ano novo no dia 1 de janeiro.

Todas as culturas reconhecem uns ou outros ciclos. Em diferentes lugares do planeta, a natureza tem ciclos diversos. Nós, seres humanos, temos os nossos e, é claro, o sistema solar também tem os seus. Talvez a visão dos astrônomos, dos mais antigos aos mais modernos, tenha tendido a valorizar principalmente os ajustes de calendário relacionados à lua, ao sol, ao zodíaco e a efemérides como os eclipses. No entanto, as comemorações populares foram variando com uma certa autonomia em relação às definições mais formais e especializadas estabelecidas por astrônomos e sábios. Do ponto de vista da cultura popular, o próprio ato de festejar, assim como o comportamento ritualístico, os mitos e os símbolos que o acompanham também apresentam o seu próprio caráter cíclico e explicações específicas para o início e o fim das coisas. A história de cada povo, as crenças religiosas, os eventos políticos e a memória coletiva conformam as texturas características que enriquecem a uniformidade astronômica com o repertório criativo da diversidade humana.

Fonte: Jornal El País. Edição de 01/01/2016 - Mônica Cornejo Valle é professora de antropologia das religiões na Universidade Complutense de Madri.

sábado, 26 de novembro de 2016

domingo, 6 de novembro de 2016

VII Encontro Internacional "A imagem medieval : Teoria e História"



Os Encontros Internacionais A Imagem Medieval: História e Teoria pretendem contribuir para a estruturação de um espaço de debate sobre a imagem medieval no Brasil. O assunto ainda é pouco estudado na academia brasileira, ao menos em parte como herança da época, não tão remota, em que a circulação de informações e, sobretudo, de fontes ainda era bastante difícil. Ora, com a revolução silenciosa dos bancos de imagens digitais e de livre acesso na internet e com os recentes e renovados investimentos nas bibliotecas públicas brasileiras, a possibilidade de trabalhar com imagens medievais no Brasil se torna mais próxima. Essa nova situação permite recuperar as imagens medievais no contexto do projeto sempre atual dos primeiros historiadores da chamada “Escola dos Annales”, para quem tudo o que foi produzido pelo passado é potencialmente documento para o historiador. No caso da imagem medieval, há, ademais, toda uma rica e variegada tradição de estudos realizados por historiadores da arte, ainda pouco conhecido pelos historiadores. Na linhagem dessas experiências, os encontros procuram destacar a importância do estudo das imagens medievais como um espaço de reflexão teórica, entendendo que esse campo de investigações pode contribuir não apenas produzindo conhecimento específico sobre realidades históricas particulares a partir da análise de fontes insuficientemente exploradas, mas também como uma atividade produtora de conceitos que podem integrar o arsenal teórico das ciências humanas e sociais. 

Programação

Quarta-feira 30/11/2016 

14h-14h20 – Muriel Araújo LIMA (USP). “O ornamental além da ornamentalidade em Oxford, St. John’s College MS 61” 

14h20-14h40 – Pamela Wanessa GODOI (UEL). “Elevação de corpo e alma: iluminuras de sermões sobre a Assunção da Virgem (séc. XI-XII)” 

14h40-15h – Karina Santos de OLIVEIRA (USP). "Os manuscritos iluminados judaicos no Ocidente Medieval" 

15h-15h20 – Gesner Las Casas BRITO Filho (U. Leeds). “Construindo o Céu e o Inferno: elementos arquitetônicos nas imagens do Genesis no manuscrito anglo-saxônico Junius 11 (Bodleian Library MS. Junius 11)” 

15h20-15h50 – Debate 

15h50-16h – Intervalo 

16h-18h – Lançamentos de livros e debate com as autoras: 

ÁSFORA, Wanessa. Apício. História da incorporação de um livro de cozinha na Alta Idade Média. São Paulo: Alameda, 2015. 

MAGALHÃES, Ana Paula Tavares. Os franciscanos e a Igreja na Idade Média. A Arbor vitae crucifixae Iesu de Ubertino de Casale. São Paulo: Intermeios, 2016. 

PEREIRA, Maria Cristina. Pensamento em imagens. Montagens topo-lógicas no claustro de Moissac. São Paulo: Intermeios, 2016. 

PEREIRA, Maria Cristina (Org.). Imagens medievais. Encontros do Laboratório de Teoria e História da Imagem e da Música Medievais da Universidade de São Paulo (LATHIMM, USP). Macapá/São Paulo: EdUNIFAP/LATHIMM-USP, 2016.

Quinta-feira 1/12/2016 

14h-14h20 – Rosângela Aparecida da CONCEIÇÃO (Unip/Unicamp). “Quemadmodum desiderat cervus, o Salmo 41 (42): interpretações artísticas e representações imagéticas” 

14h20-14h40 – Vinícius de Freitas MORAIS (UFF). “Os ciclos iconográficos do beato Simão de Trento e a difusão do culto ao menino mártir no final do século XV” 

14h40-15h – André Luiz Marcondes PELEGRINELLI (UEL). “‘Porque uma decoração excessivamente rica e abundante contradiz o princípio da pobreza’: instruções sobre o cuidado com igrejas e imagens no primeiro século franciscano através dos Statuta Capituli Generalis Narbonensis (1260)” 

15h-15h20 – Maria Izabel Escano Duarte de SOUZA (UFRJ). “Reinterpretando as cartas de Gregório Magno à luz da historiografia moderna” 

15h20-15h50 – Debate 

15h50-16h – Intervalo 

16h-17h30 – Conferência 1 – Profa. Dra. Camila Diogo de SOUZA (MAE-USP). “A Arte Geométrica grega entre 900 e 700 a.C.: reflexões sobre a análise de motivos iconográficos no estudo da cultura material” 

17h30-19h – Conferência 2 – Profa. Dra. Gabriela CAVALHEIRO (King’s College, Londres). “Objetos de Desejo: o toque como ferramenta de investigação e a etiqueta de trabalho do pesquisador”

Sexta-feira 2/12/2016 

14h-14h20 – Elias Feitosa de AMORIM Jr. (Unicamp). “Luz e imagens: reflexões teóricas sobre as imagens em vitrais” 

14h20-14h40 – Debora Gomes Pereira AMARAL (USP). “O ornamental e a ornamentalidade das/nas pinturas da antiga Igreja do Convento dos Capuchinhos da Paciência de Madri” 

14h40-15h – Mariana PINCINATO (USP). “As origens da iconografia do Juízo Final no mundo bizantino e ocidental” 

15h-15h20 – Renan Marques BIRRO (USP/UNIFAP). "Autoria, estilo e sintaxe: novas perspectivas para a análise das cruzes manx” 

15h20-15h50 – Debate 

15h50-16h – Intervalo 

16h-17h30 – Conferência 3 – Prof. Dr. Gabriel CASTANHO (UFRJ). “Precisamos falar do esquecimento medieval: entre o lembrar religioso e a judicialização da memória no Ocidente” 

17h30-19h – Conferência 4 – Prof. Dr. Eduardo Henrik AUBERT (U. Cambridge). “Marc Bloch e as conferências de Cambridge sobre o feudalismo (1938)” 

sábado, 5 de novembro de 2016

Boa Prova!!



Moeda grega - Séc. II a.C. - " Vitória triunfante"

Na Eneida, Virgílio nos canta que "a sorte sorri para os audazes". Que neste fim de semana, haja muita alegria e satisfação, mas com o sabor merecido da Vitória.
Uma excelente prova para todos!

terça-feira, 1 de novembro de 2016

A festa de Todos os Santos


A festa do dia de Todos-os-Santos é celebrada em honra de todos os santos e mártires, conhecidos ou não. A Igreja Católica celebra a Festum omnium sanctorum a 1 de novembro seguido do dia dos fiéis defuntos a 2 de novembro.

Segundo o ensinamento da Igreja, a intenção catequética desta celebração que tem lugar em todo o mundo, ressalta o chamamento de Cristo a cada pessoa para o seguir e ser santo, à imagem de Deus, a imagem em que foi originalmente criada e para a qual deve continuar a caminhar em amor. Isto não só faz ver que existem santos vivos (não apenas os do passado) e que cada pessoa o pode ser, mas sobretudo faz entender que são inúmeros os potenciais santos que não são conhecidos, mas que da mesma forma que os canonizados igualmente vêem Deus face a face, têm plena felicidade e intercedem por nós. O Papa João Paulo II foi um grande impulsionador da "vocação universal à santidade", tema renovado com grande ênfase no Segundo Concílio do Vaticano.

"Todos os Santos" Fra Angélico c.1423-24, National Gallery, Londres, Reino Unido.
Fonte: Wikipédia 


Nesta celebração, o povo católico é conduzido à contemplação do que, por exemplo, dizia o Cardeal Beato John Henry Newman: não somos simplesmente pessoas imperfeitas em necessidade de melhoramentos, mas sim rebeldes pecadores que devem render-se, aceitando a vida com Deus, e realizar isso é a santidade aos olhos de Deus.

A comunhão com os santos: «Não é só por causa do seu exemplo que veneramos a memória dos bem-aventurados, mas ainda mais para que a união de toda a Igreja no Espírito aumente com o exercício da caridade fraterna. Pois, assim como a comunhão cristã entre os cristãos ainda peregrinos nos aproxima mais de Cristo, assim também a comunhão com os santos nos une a Cristo, de quem procedem, como de fonte e Cabeça, toda a graça e a própria vida do Povo de Deus»

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«A Cristo, nós O adoramos, porque Ele é o Filho de Deus;
quanto aos mártires, nós os amamos como a discípulos e imitadores do Senhor;
e isso é justo, por causa da sua devoção incomparável para com o seu Rei e Mestre.
Assim nós possamos também ser seus companheiros e condiscípulos!».
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                                   Martyrum sancti Polycarpi 17, 3: SC 10bis, 232 (FUNK 1, 336).


Quando a Igreja, no ciclo anual, faz memória dos mártires e dos outros santos, «proclama o mistério pascal» realizado naqueles homens e mulheres que «sofreram com Cristo e com Ele foram glorificados, propõe aos fiéis os seus exemplos, que a todos atraem ao Pai por Cristo, e implora, pelos seus méritos, os benefícios de Deus».

«Os cristãos, de qualquer estado ou ordem, são chamados à plenitude da vida cristã e à perfeição da caridade». Todos são chamados à santidade: «Sede perfeitos, como o vosso Pai celeste é perfeito» (Mt 5, 48):

«Para alcançar esta perfeição, empreguem os fiéis as forças recebidas segundo a medida em que Cristo as dá, a fim de que [...] obedecendo em tudo à vontade do Pai, se consagrem com toda a alma à glória do Senhor e ao serviço do próximo. Assim crescerá em frutos abundantes a santidade do povo de Deus, como patentemente se manifesta na história da Igreja, com a vida de tantos santos»


Fonte: http://www.catolicismoromano.com.br/content/view/577/29/

sexta-feira, 21 de outubro de 2016

Mais Paulo Freire, por favor!

Desenho feito no piso do acesso ao Restaurante Universitário da Unicamp em Campinas. 
Crédito: Elias Feitosa


Fala dura e direta, sem eufemismos. No momento vivenciado pelo Brasil, torna-se imprescindível a tomada de posição, uma vez que o arremedo de Estado de Bem-Estar Social que estávamos ainda esboçando começou a ser desmontado por um governo ilegítimo, autoritário e totalmente descomprometido com a soberania nacional.
Para os não-iniciados na pedagogia freiriana pode parecer estranho uma proposição binária como esta sentença. No entanto, para quem vivenciou a Ditadura Militar no Brasil, o contexto da Guerra Fria e sonhou com um país mais justo e menos desigual, há de se perceber a natureza desta problemática, porque a fala de Paulo Freire (1921-97) deve ser lida a partir da dialética.
No entanto, existem várias nuances ao se conceber uma análise e quando se pensa a história da educação no Brasil, Freire não está nem um pouco enganado: ensino destinado aos bem-nascidos, ao passo que os demais, se às vezes alfabetizados, tinham que se contentar com o trabalho e dar-se por felizes. Apesar da boa vontade de alguns professores (religiosos e/ou leigos), a educação não era vista como um “direito”, mas sim como um privilégio, tal qual fora na Europa durante séculos.  
Exclusão de indígenas, de negros, de mestiços, de mulheres, de pobres, de trabalhadores. Parei a frase aqui, porque a lista é imensa! Por outro lado, valorizou-se uma certa hierarquia, um ranço torpe que desde os tempos do Império permitiu-se chamar qualquer graduado de “doutor”, que era sinônimo de boa origem e condição. Ainda hoje, quando um sujeito chega com trajes finos, em carro novo, de luxo ou nem tanto, com joias ou acessórios de marca, será “doutor”, sem mesmo nunca ter defendido uma tese.
Desse modo, nas palavras de um grande professor que tive na Universidade de São Paulo, o Dr. István Jancsó (1938-2010), “trata-se da reiteração ampliada de uma lógica excludente que propicia a manutenção das tensões da tessitura social para o longo dos séculos. No Brasil, manda quem pode e obedece quem tem juízo!”
Afinal, se o oprimido não se libertar da opressão, corre o risco de naturalizá-la e reproduzi-la. Ou ainda, desprovido de senso crítico, vai achar que projetos como "Escola Sem Partido" estão corretos: o indivíduo não deve criticar ou questionar e sim obedecer ou ainda acreditar que existe "100% de imparcialidade" e mais uma vez aceitar que estudar, ter uma formação e profissão “não é para si”, restando-lhe trabalhar e servir.
Sempre fazemos escolhas e no caso, quando se prega a "neutralidade" da educação, está em si, já é uma escolha. Nas palavras do arcebispo anglicano Desmond Tutu, um dos baluartes da luta contra o apartheid na África do Sul, “quando nos calamos perante a opressão, nos colocamos ao lado do opressor”.
Doutrinação nenhuma deve acontecer, seja à esquerda ou à direita, a escola deve ser livre, sobretudo dotada de crítica e de reflexão, do contrário , vira depósito de gente ou moedor de carne.
Vivemos tempos muito complexos. O mundo mudou? Bem, o mundo muda sempre. E o que dizer aos estudantes?
Minha insignificante contribuição é pensar que num país tão desigual como o Brasil, quando um jovem de origem humilde e precárias condições resolve estudar, em si ele já está cometendo um ato de rebeldia. Portanto, não há outro caminho se não o desta rebelião: deixar de lado o “coitadismo” reincidente e se apoderar dos instrumentos de saber, da formação e da erudição, determinando uma ruptura do stablishment oligárquico que mais uma vez, quer arrastar a Nação para as trevas, para a dependência estrangeira e disso, lucrar enormemente com as migalhas servidas pelos verdadeiros controladores do capital global, enquanto o caminho do fortalecimento da soberania nacional é deixado para trás, sem o menor pudor em detrimento de milhões de brasileiros.

Sugestão do Gabinete:

Another Brink in the wall - Pink Floyd -1979



Para saber da importância de Paulo Freire, segundo a UNESCO: