Chico Buarque - Augusto Boal - 1976 Para a peça Mulheres de Atenas de Augusto Boal
Mirem-se no exemplo daquelas mulheres de Atenas
Vivem pros seus maridos, orgulho e raça de Atenas
Quando amadas, se perfumam
Se banham com leite, se arrumam
Suas melenas
Quando fustigadas não choram
Se ajoelham, pedem, imploram
Mais duras penas
Cadenas
Mirem-se no exemplo daquelas mulheres de Atenas
Sofrem por seus maridos, poder e força de Atenas
Quando eles embarcam, soldados
Elas tecem longos bordados
Mil quarentenas
E quando eles voltam sedentos
Querem arrancar violentos
Carícias plenas
Obscenas
Mirem-se no exemplo daquelas mulheres de Atenas
Despem-se pros maridos, bravos guerreiros de Atenas
Quando eles se entopem de vinho
Costumam buscar o carinho
De outras falenas
Mas no fim da noite, aos pedaços
Quase sempre voltam pros braços
De suas pequenas
Helenas
Mirem-se no exemplo daquelas mulheres de Atenas
Geram pros seus maridos os novos filhos de Atenas
Elas não têm gosto ou vontade
Nem defeito nem qualidade
Têm medo apenas
Não têm sonhos, só têm presságios
O seu homem, mares, naufrágios
Lindas sirenas
Morenas
Mirem-se no exemplo daquelas mulheres de Atenas
Temem por seus maridos, heróis e amantes de Atenas
As jovens viúvas marcadas
E as gestantes abandonadas
Não fazem cenas
Vestem-se de negro, se encolhem
Se conformam e se recolhem
Às suas novenas
Serenas
Mirem-se no exemplo daquelas mulheres de Atenas
Secam por seus maridos, orgulho e raça de Atenas
O texto abaixo, nos é apresentado por Platão (428-348 a.C.) no Livro VII de A república, como um diálogo metafórico entre Sócrates (filósofo) e Glauco (discípulo), onde o primeiro apresenta a "alegoria da caverna" ao segundo, fazendo uma discussão sobre os conceitos de aparência e essência, respectivamente, citados como "mundo sensível" e "mundo das inteligível" na discussão do pensamento platônico.
Sócrates: Imagina homens que vivem numa espécie de morada subterrânea, em forma de caverna, que possui uma entrada que se abre em toda a largura da caverna para a luz; no interior dessa morada eles estão, desde a infância, acorrentados pelas pernas e pelo pescoço, de modo a ficarem imobilizados no mesmo lugar, só vendo o que se passa na sua frente, incapazes, em virtude das cadeias, de virar a cabeça. Quanto à luz, ela lhes vem de um fogo aceso numa elevação ao longe, atrás deles. Ora, entre esse fogo e os prisioneiros, imagina um caminho elevado ao longo do qual se ergue um pequeno muro, semelhante ao tapume que os exibidores de fantoches colocam à sua frente e por cima dos quais exibem seus fantoches ao público.
– Estou vendo, disse.
Sócrates:– Figura, agora, ao longo desse pequeno muro e ultrapassando-o, homens que transportam objetos de todos os tipos como estatuetas de homens ou animais de pedra, de madeira, modelados em todos os tipos de matéria; dentre esses condutores, naturalmente, existem aqueles que falam e aqueles
que se calam.
– Fazes de tudo isso uma estranha descrição, disse, e teus prisioneiros são muito estranhos!
Sócrates:– É a nós que eles se assemelham, retruquei.Com efeito, podes crer que homens em sua situação tenham anteriormente visto algo de si e dos outros,afora as sombras que o fogo projeta na parede situada à sua frente?
–Evidentemente!
Sócrates:–Se, portanto, conseguissem conversar entre si, não achas que tomariam por objetos reais as sombras que avistassem?
–Forçosamente.
Sócrates:–E se, por outro lado, houvesse eco na prisão, proveniente da parede que lhes é fronteira, não achas que, cada vez que falassem um daqueles que passam ao longo do pequeno muro, eles poderiam julgar que os sons proviriam das sombras projetadas?
–Não, por Zeus, disse ele.
Sócrates:–Portanto, prossegui, o homens que estão nesta condição só poderão ter por verdadeiro as sombras projetadas pelos objetos fabricados.
–É inteiramente necessário.
Sócrates:–Considera agora o que naturalmente lhes sobreviria se fossem libertos das cadeias e da ilusão
em que se encontram. Se um desses homens fosse libertado e imediatamente forçado a se levantar, a
voltar o pescoço, a caminhar, a olhar para a luz; ao fazer tudo isso ele sofreria e, em virtude do
ofuscamento, não poderia distinguir os objetos cujas sombras visualizara até então. Que achas que ele
responderia se lhe fosse dito que tudo quanto vira até então até então não passara de quimeras, mas que, presentemente, mas perto da realidade e voltado para objetos mais reais, estaria vendo de maneira mais
justa? E se, ao se lhe designar cada um dos objetos que passam ao longo do muro, fosse forçado a responder às perguntas que se lhe fizesse sobre o que é cada um deles, não achas que ele se perturbaria?
Não achas que ele consideraria mais verdadeiras as coisas que vira outrora do que aquelas que agora lhe eram designadas?
–Sim, disse ele, muito mais verdadeiras!
Sócrates:–E se, por outro lado, ele fosse obrigado a fitar a própria luz, não achas que seus olhos se
ressentiriam e que, voltando-lhe as costas, fugiria para junto daquelas coisas que é capaz de olhar e que
lhes atribuiria uma realidade maior do que as outras que lhe são mostradas?
–Exato, disse ele.
Sócrates:–Supõe agora, prossegui, que ele fosse arrancado à força de sua caverna e compelido a escalar a rude e escarpada encosta e que não fosse solto antes de ser trazido até o sol; não achas que ele
se afligiria e se irritaria por ter sido arrastado dessa maneira? E que, uma vez chegado à plena luz e
completamente ofuscado, achas que poderia distinguir uma só das coisas que agora chamamos
verdadeiras?
–Não poderia fazê-lo, disse ele, pelo menos de imediato.
Sócrates:–Penso que teria necessidade de hábito para chegar a ver as coisas na região superior. De início, distinguiria as sombras mais facilmente, em seguida, a imagem dos homens e dos outros seres refletidos nas águas; mais tarde, distinguiria os próprios seres.
A partir dessas experiências, poderia, durante a noite, contemplar os corpos celestes e o próprio céu, a luz dos astros e da lua, muito mais facilmente do que o sol e a sua luz, durante o dia.
–Não poderia se de outro modo.
Sócrates:–Penso que finalmente ele seria capaz de fitar o sol, não mais refletido na superfície da água, ou sua aparência num lugar em que não se encontra, mas o próprio sol no lugar que é o seu; em suma, viria a contemplá-lo tal como é.
–Necessariamente, disse ele.
Sócrates: –Após isso, raciocinando a respeito do sol, concluiria que ele produz as estações e os anos, que governa todas as coisas que existem em lugar visível e que num certo sentido, também é a causa de tudo que ele e seus companheiros viam na caverna.
– É claro, disse ele, que chegaria a tal conclusão.
Sócrates:–Ora, não achas que, ao se lembrar de sua primeira morada, da sabedoria que lá se processa, e
dos seus antigos companheiros de prisão, ele não se rejubilaria com a mudança e lastimaria estes últimos?
–Sim, creio.
Sócrates:–E se eles, então, se concedessem honras e louvores entre si, se outorgassem recompensas àquele que captasse com olhar mais vivo a passagem das sombras, que tivesse melhor memória das que
costumavam vir em primeiro lugar ou em último, ou concomitantemente, e que, por isso, fosse o mais
capaz de fazer conjecturas, a partir dessas observações, sobre o que deveria acontecer, achas
que esse homem liberto sentiria ciúmes dessas distinções e alimentaria inveja dos que, entre os
prisioneiros, fossem honrados e poderosos? Ou então, como o herói de Homero, não preferiria muito
mais “ser apenas um servente de charrua a serviço de um pobre lavrador”, e sofrer tudo no mundo no
mundo a voltar a suas antigas ilusões, a pensar como pensava, a viver como vivia?
–Como tu, acho que ele preferiria sofrer tudo a viver dessa maneira.
Sócrates:–Supõe que este homem retornasse à caverna e se sentasse em seu antigo lugar; não teria ele os olhos cegados pelas trevas, ao vir subitamente do pleno sol?
–Seguramente, disse ele.
Sócrates: –E se, para julgar essas sombras, tivesse de entrar de novo em competição com os prisioneiros que não abandonaram as correntes, no momento em que ainda estivesse com a vista confusa e antes que se tivessem reacostumado, não provocaria risos? Não diriam eles que sua ascensão lhe causara a ruína da vista e que, portanto, não valeria a pena tentar subir até lá? E se alguém tentasse liberta-los e conduzi-los até o alto, não achas que eles pudessem pega-lo e mata-lo, não o fariam?
–Incontestavelmente, disse ele.
Sócrates: –Essa imagem, caro Glauco, terá de ser inteiramente aplicada ao que dissemos mais acima,
comparando o que a vista nos revela com a morada da prisão e, por outro lado, a luz do fogo que ilumina o interior da prisão com a ação do sol; em seguida, se admitires que a ascensão para o alto e a sua a contemplação do que lá existe representam o caminho da alma em sua ascensão ao inteligível, não te enganarás sobre o objeto de minha esperança, visto que tens vontade de te instruíres nesse assunto. E, sem dúvida, se ele é verdadeiro! Eis, em todo caso, como a evidência disto se me apresenta: na região do cognoscível, a idéia do Bem é a que se vê por último e a muito custo, mas que, uma vez
contemplada, se apresenta ao raciocínio como sendo, em definitivo, a causa universal de toda a retidão e de toda a beleza; no mundo visível, ela é a geradora da luz e do soberano da luz, sendo ela própria soberana, no inteligível, dispensadora de verdade e inteligência; ao que eu acrescentaria ser necessário vê-la se se quer reagir com sabedoria tanto na vida privada quanto na pública.
Sugestão do Gabinete:
Matrix Direção: Lana Wachowisk &Lilly Wachowski, 1999, 135 min.
Em um futuro próximo, Thomas Anderson (Keanu Reeves), um jovem programador de computador que mora em um cubículo escuro, é atormentado por estranhos pesadelos nos quais encontra-se conectado por cabos e contra sua vontade, em um imenso sistema de computadores do futuro. Em todas essas ocasiões, acorda gritando no exato momento em que os eletrodos estão para penetrar em seu cérebro. À medida que o sonho se repete, Anderson começa a ter dúvidas sobre a realidade. Por meio do encontro com os misteriosos Morpheus (Laurence Fishburne) e Trinity (Carrie-Anne Moss), Thomas descobre que é, assim como outras pessoas, vítima do Matrix, um sistema inteligente e artificial que manipula a mente das pessoas, criando a ilusão de um mundo real enquanto usa os cérebros e corpos dos indivíduos para produzir energia. Morpheus, entretanto, está convencido de que Thomas é Neo, o aguardado messias capaz de enfrentar o Matrix e conduzir as pessoas de volta à realidade e à liberdade.
O governo João Goulart foi o marco da crise do populismo
brasileiro. Os complicados anos 60, entremeados com movimentos sociais,
revoluções no comportamento, guerras e mobilizações estudantis, polarizaram a
sociedade brasileira. Nesse sentido, o trabalhismo, que nos anos 30 e 40 era
visto como estratégia para conter o crescimento dos comunistas, agora era visto
como tão perigoso quanto. Assim, apesar de não possuir o perfil de líder
comunista, Jango se aproximou da esquerda, amedrontando cada vez mais os
empresários e militares.
O período
parlamentarista foi instável, pois não havia uma base partidária sólida de
sustentação do chanceler. Os quatro primeiros-ministros dessa fase foram,
respectivamente, Tancredo Neves, Moura Andrade, Francisco de Paula Brochado da
Rocha e Hermes Lima.
João Goulart bateu-se contra o parlamentarismo até conseguir
sua extinção em 1963, antecipando o plebiscito através da Emenda Capanema e de
uma enorme movimentação nacional que ficou conhecida como “Campanha da
Legalidade”. Em janeiro de 1963, com 9,5 milhões de votos entre 12 milhões de
eleitores, o presidencialismo venceu, mas a oposição contra Jango, apesar de
não ser numerosa, abrangia os setores mais influentes da sociedade.
Em 1963, o
ministro do Planejamento, Celso Furtado, anunciava o Plano Trienal, com objetivo de reduzir a taxa de inflação e
estimular o crescimento econômico, mas tal projeto não recebeu apoio dos
organismos internacionais nem da burguesia nacional.Jango, então, anunciou as "Reformas de Base",
atendendo às reivindicações de vários setores reformistas da sociedade
brasileira. Tudo isso ocorria sob a vigilância das Forças Armadas, da burguesia
conservadora e dos Estados Unidos.
No dia 13
de março de 1964, Jango convocou um comício na Central do Brasil, no Rio
de Janeiro, no qual anunciou a nacionalização das empresas de petróleo e a
assinatura do primeiro decreto de reformaagrária. O projeto previa a
utilização das terras improdutivas que estivessem próximas à ferrovias e
rodovias, ou seja, não havia a intenção de desapropriar os tradicionais
latifúndios. Mas tal medida foi o suficiente para que João Goulart passasse a
ser considerado um “perigoso comunista”. Para piorar, ele discursou diante de 2
mil sargentos manifestando apoio a um motim de marinheiros, o que desagradou os
altos escalões das Forças Armadas.
Em
represália ao comício, a classe média paulistana protestou, realizando uma
grande manifestação em 19 de março com o nome de "Marcha da Família com Deus
pela Liberdade",que reuniu mais de 100 mil mulheres na capital, e
exigiu que o exército depusesse o presidente.
Na noite de
31 de março de 1964, iniciou-se um
levante militar em Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo que culminou com a deposição
de
Jango. O golpe teve o apoio logístico da CIA e das Forças Armadas dos
EUA, num evento que foi chamado de “Operação
Brother Sam”.
No intuito de evitar um derramamento
de sangue, Jango voou de Brasília para Porto Alegre na noite de 1º de abril,
enquanto o presidente do Senado, Auro de Moura Andrade declarou vago o cargo da
Presidência da República, sendo que o cargo foi assumido interinamente pelo
presidente da Câmara dos Deputados Ranieri Mazzilli.
A operação "Brother Sam"
"Documentos do Departamento de Estado norte-americano,
recentemente revelados à opinião pública, evidenciam o grau de participação e
de envolvimento dos EUA na conspiração e execução do golpe de abril de 1964.
Examinemos aqui apenas o caso da chamada "operação Brother Sam". No
dia 31 de março aprovou-se, numa reunião do Departamento de Estado um plano
militar que consistia no envio às costas brasileiras um porta-aviões de ataque
pesado (o Forrestal), destróieres de apoio, petroleiros bélicos, navios de
munições e navios de mantimentos; aviões transportando armas e munições (110
toneladas), aviões de caça, aviões tanques e um posto de comando-transportado
deveriam se deslocar para o Rio de Janeiro. O objetivo de toda esta aparatosa
operação era a de fornecer "apoio logístico, material e militar" aos
golpistas.[...]
Três dias após o golpe, Carlos Lacerda ouviria de Mr. Gordon
(embaixador norte-americano no Brasil) a seguinte declaração: "Vocês
fizeram uma coisa formidável !Essa
revolução sem sangue e tão rápida ! E com isso pouparam uma situação que seria
profundamente triste, desagradável e com consequências imprevisíveis no futuro
de nossas relações: vocês evitaram que tivéssemos que intervir no
conflito".
TOLEDO, Caio Navarro. O Governo Goulart e o Golpe de 64.São
Paulo: Ed. Brasiliense,1993, p.52.
Sugestão do Gabinete:
"O dia que durou 21 anos". Direção: Camilo Tavares, 2013, 67 min:
Enquanto alguns documentários históricos desejam informar ou persuadir, preocupando-se mais com a pedagogia do que com a estética,O Dia que Durou 21 Anoschama a atenção pelo próprio uso da linguagem cinematográfica. O emprego de fotografias de arquivo animadas, de trilha sonora pulsante durante as imagens de manifestação, ou ainda a montagem acelerada sugerem uma preocupação em seduzir o espectador, entretê-lo. Este é um dos raros filmes sobre a ditadura que oferece ao público mais do que exige dele.
Por um lado, esta escolha traz suas vantagens. Com a curta duração de 77 minutos, o ritmo da produção é acelerado, envolvente. A sugestão de que um filme deveria ser exibido nas salas de aula costuma equivaler a uma insinuação depreciativa por parte da crítica, como se a obra fosse limitada ao didatismo e às boas intenções, mas neste caso, as instituições de ensino poderiam fazer bom uso da exposição empolgante deste episódio central do passado brasileiro. Poucas vezes a História foi tão agradável de assistir, não devendo nada a grandes ficções americanas em termos de suspense e requinte de produção.
Logo após a proclamação da independência, reuniu-se uma
Assembleia Nacional Constituinte, composta por 90 deputados, em sua maioria
grandes proprietários rurais influenciados pelo Liberalismo francês e que eram
genericamente chamados de Partido Brasileiro. Havia outro
grupo político: era o Partido Português, defensor do
retorno do Brasil à condição de colônia e que incentivava as tendências
absolutistas do monarca.
D. Pedro I, Henrique José da Silva, c. 1825
Fonte: Wikipédia
Mas, no
início dos trabalhos da Constituinte, começaram também os choques como Imperador, de formação absolutista, e que
pretendia fazer valer sua preponderância sobre os súditos, fossem fazendeiros,
funcionários públicos, militares. É bom lembrar que, no biênio 1822/ 1823, o
país ainda enfrentava as guerras de
independência, causando um certo sentimento de xenofobia em relação aos
lusos.
Foi nesse
ambiente que Antônio Carlos de Andrada apresentou um projeto que recebeu a
alcunha de Constituição da Mandioca, isso pelo seguinte: o
processo eleitoral seria censitário e a participação na vida política, restrita
à minoria da população. Tanto eleitor quanto candidato deveriam submeter-se
à comprovação de renda anual, que era medida através da comparação com o valor
de alqueires plantados com mandioca. Era necessário possuir uma renda
semelhante a 150 alqueires de mandioca para ser um simples eleitor; 500
alqueires para ser deputado e o dobro para pleitear o cargo de senador.
O projeto
foi rejeitado pelo imperador, mas a razão de tal atitude estava longe de ser
uma manifestação favorável a uma verdadeira democracia.A proposta da Assembleia Constituinte também
propunha a subordinação do Executivo, no caso o imperador, ao Legislativo, e
este último também controlaria as Forças Armadas. Em outras palavras,
pretendia-se transformar o Brasil em uma monarquia parlamentar, assim como se
via na Europa liberal.
O monarca
não aceitou a proposta e as palavras pronunciadas por ele durante o início dos
trabalhos, “Quero uma Constituição digna do Brasil e de mim”, ainda ecoavam nos
ouvidos dos parlamentares. Uma vez que a Assembleia recusou-se a conceder-lhe o
poder de veto, Dom Pedro I determinou a dissolução da Constituinte.
Tais
desencontros culminaram na Noite da Agonia (de 11 para 12 de
novembro de 1823), quando os constituintes declararam-se em assembleia
permanente, recusando-se a dispersar conforme ordem do Imperador. A reação de
D. Pedro I foi enérgica: ordenou a suas tropas que invadissem o recinto da
Constituinte e dispersassem à força os deputados.
Foi, então,
nomeada pelo Imperador uma comissão de dez “notáveis” para elaborar uma
Constituição "ainda mais liberal", mas a redação final coube a
Carneiro de Campos, que era conhecido por estar ligado à corte portuguesa. A Constituição
Outorgada ficou pronta e foi jurada em 25 de março de 1824 e as principais características
dela foram:
·O voto era censitário, ou seja, limitação da
participação dos eleitores pela renda que possuíam;
·Os senadores eram vitalícios;
·Igreja vinculada ao Estado: pelo regime do Padroado, delegava ao Estado a nomeação e a
remoção de padres e bispos, e, através do beneplácito, qualquer instrução
vinda de Roma precisaria da concordância do monarca;
· Existiam quatro poderes:
Executivo:exercido peloImperador e por ministros de Estado escolhidos pelo monarca;
Legislativo: composto por deputados eleitos por voto
censitário e indireto e senadores vitalícios;
Judiciário: exercido por juízes e
magistrados, todos nomeados pelo imperador;
Moderador: exclusivo do Imperador. O
monarcatinha direito de dissolver a
Câmara, escolher senadores a partir de uma lista tríplice e cassar
parlamentares e juízes.
Pode-se notar que o Brasil iniciou sua história independente
de forma elitista e centralizadora, muito embora tentasse divulgar uma imagem
progressista.
"Édipo e a Esfinge" - Jean-Auguste-Dominique Ingres, c. 1827, Museu do Louvre, Paris, França.
Fonte: Wikipédia
A escolha desta famosa interpretação de Ingres sobre o mítico Édipo foi bastante intencional e oportuna: estamos numa encruzilhada e a Educação se constitui um enigma complexo, em especial, pelos interesses ameaçadores dos seguimentos conservadores no Executivo e Legislativo que parecem tentar "devorar" a soberania e a democracia no Brasil.
A sociedade brasileira atravessa um momento bastante complicado e no caso, eu não estou me referindo à economia. Minha referência é a crescente deslegitimação que as Ciências Humanas vêm sofrendo: carga horária reduzida, tentativas de exclusão do currículo do Ensino Médio, falsas acusações de doutrinação ideológica com viés marxista, fora os cortes de verbas para pesquisa, contratação de professores e compra de recursos nas Universidades.
Por outro lado, aparece um discurso autoritário e conservador que busca um "ensino imparcial" como pregam os defensores do projeto "Escola Sem Partido", mas na verdade, trata-se de doutrinação e neste caso, ao contrário, à direita e acompanhada muitas vezes do ensinamento religioso cristão, desconsiderando outras crenças ou mesmo a não-crença.
No Brasil de hoje, se uma pessoa consulta um médico ou um engenheiro e obtém um diagnóstico ou laudo, ela acata sem discutir. Porém, se um cientista das Humanidades apresenta uma análise de conjuntura ou explica um determinado fenômeno, rapidamente é contestado: "Não concordo com isso. É minha opinião!"
O exótico da situação é que esta "opinião" não se sustenta numa argumentação sólida. Alias, os debates sobre educação no Brasil são conduzidos e as decisões tomadas por pessoas que não são especialistas da área(políticos que nunca exerceram a docência ou sem qualquer formação acadêmica relacionada à pedagogia), fazendo da educação uma espécie de "terra de ninguém" e daí, qualquer um pode falar e fazer qualquer coisa.
Eis a minha questão: qual a legitimidade das Ciências Humanas na atual sociedade brasileira?
Durante o Regime Militar (1964-85), História e Geografia foram plasmadas numa disciplina chamada "Estudos Sociais" e obviamente todas as questões que envolvessem debate ou crítica foram amputadas, transformando seu ensino num vasto processo de memorização factual. Filosofia e Sociologia foram retiradas e no lugar ficaram "Educação Moral e Cívica" e "Organização Social e Política Brasileira".
A primeira deveria ensinar como o "cidadão brasileiro" deveria se comportar perante sua família e sociedade, enquanto a segunda mostrava como o Regime Militar estava sendo "bom para o Brasil". Em suma, o projeto da "Escola sem Partido" deseja algo semelhante, afinal, na visão de muitos, o papel da escola é preparar o cidadão para o mercado de trabalho, para que seja obediente e sem posicionamento político ou intelectual.
O que não se percebe é a riqueza existente no aprendizado a partir do contraditório, da diversidade e das diferenças dentro de uma sociedade.
Desde 2009, a partir de uma lei federal, Sociologia e Filosofia voltaram a ser obrigatórias nos currículos do ensino público e privado, porque desde a redemocratização em 1985, constavam mas em caráter facultativo. Obviamente, uma notícia importante, mas ainda existe um déficit significativo para suprir a demanda em todo Brasil, sem contar que, não há um planejamento efetivo sobre o que se espera daqueles que cursam licenciaturas e de como a docência pode ser melhorada, além da desgastada discussão salarial.
Já no fim de 2016, no funesto 13 de dezembro (foi em 13/12/1968 que foi imposto o AI-5), o Congresso Nacional aprovou a medida provisória que alterou o currículo do Ensino Médio e mais uma vez, a Educação no Brasil saiu em prejuízo, uma vez que foi feita de modo arbitrário, imposta sem debate com os docentes e estudantes e desmerecendo os formados e especialistas nas áreas, porque permitiu a contratação de "profissionais de notório saber" para lecionar, ao invés de um apoio maior às licenciaturas e melhores condições de trabalho aos docentes.
Nesse ínterim, vários alunos me perguntam se vale a pena cursar a área de Humanas, com tantas mudanças e más notícias. Ou ainda: há futuro sendo docente no Brasil?
Dificuldades, adversidades e tensões fazem parte de qualquer profissão em qualquer área e o que está em jogo é justamente o desdobramento de um processo que pode elitizar ainda mais o ensino no Brasil. Se os jovens não se interessarem pela docência, não buscarem as licenciaturas e fundamentalmente, investirem na sua formação para serem professores, de fato, o elitismo triunfará. No entanto, professores foram e são necessários, independentemente das dificuldades e o que se espera das futuras gerações docentes é o comprometimento com a Educação, defendendo a democratização do acesso ao conhecimento, independentemente das condições socioeconômicas dos estudantes.
Em minha modesta opinião, sim é válido o estudo e formação nas Humanidades e a docência não deve ser vista como um martírio, mas como uma forma de luta, de enfrentamento por um país melhor e uma sociedade mais plural e mais justa.
O homem saiu de sua menoridade ? Com esta pergunta, acompanhada de um texto de orientação e de um excerto de Immanuel Kant, o vestibular da Fuvest colocava as diretrizes para a sua redação. Pode ser que para alguns o tema fosse estranho ou distante da realidade do estudante do Ensino Médio no Brasil, porém, o caminho é outro.
O desenvolvimento da proposta presumia duas situações: a compreensão da relação que Kant estava ali fazendo entre os conceitos de menoridade e maioridade, cruzando-os com o contexto da produção, da sociedade e da visão de mundo que Kant apresentava.
Aufklärung é a palavra alemã usada por Kant para definir o "Esclarecimento" que pode também ser conhecido como "Ilustração" ou "Iluminismo" e daí a importância atribuída ao uso da Razão e quanto esta poderia transformar o modo de pensar e de viver dos homens, pois segundo Kant a emancipação da ignorância, das crenças, do dogmatismo poderia tirar o ser humano desta condição de menoridade, portanto, tutelado e dependente, sem autonomia e no muito das vezes acostumado a tal situação: o indivíduo não pensa por si porque tem quem pense por ele.
Para Kant, as luzes da Razão trariam condições para a independência do ser humano, pois usando o conhecimento, refletindo conscientemente, a ruptura desse aprisionamento seria um processo sem volta.
Já estamos no século XXI, Kant escreveu este texto em 1784 e pensando neste intervalo, na trajetória humana e sua história, voltamos a pergunta inicial: saímos da menoridade?
A atualidade da questão é imensa e intensa. Apesar de todas as inovações tecnológicas acumuladas e criadas até então, do conhecimento em diferentes campos e avanços obtidos justamente porque conseguimos produzir e multiplicar conhecimento, levando em conta a proposição de Kant, infelizmente, estamos longe da maioridade.
A chamada "Era da Informação" que se desenvolveu e se consolidou com a Informática e o estabelecimento da Internet que poderia fornecer um diferencial significativo na relação do homem com o conhecimento numa escala nunca antes vista, pensando-se acesso, rapidez e circulação de informações, também é responsável pela proliferação de radicalismos, crimes, exploração e desinformação numa escala muito maior.
O mesmo impacto que a imprensa teve no Ocidente no século XV com a impressão de livros, a Internet com portais, sites e as redes sociais também foi impactante no século XXI, mas não conseguiu romper com padrões e pseudo-conceitos oriundos do senso comum, que antes não tinham grande circulação pelo custo de se editar um livro ou revista, mas o acesso que a Internet promoveu àqueles que não tinham espaço e o obtiveram é impressionante, tanto do ponto positivo, quanto do negativo.
Então a saída é acabar com a liberdade na Internet? Imposição de controle? Censura? Kant vivenciou estes problemas na Prússia, hoje na China, Cuba, Irã, Coreia do Norte, Arábia Saudita, entre outros países, pratica-se a vigilância digital, mas ainda assim, existe a resistência, tal qual época de Kant, quando os iluministas perseguidos editavam e publicavam seus livros no exterior e depois os contrabandeavam para de mão em mão, fazer-se conhecer.
Por mais que alguns desejem, a censura e limitação não são o melhor caminho!
Se pensarmos no peso e impacto que a Imprensa (jornais, rádios, TV e Internet) assumiu na sociedade contemporânea, sendo citada como o "4o. poder" manipulando dados, destruindo reputações com rapidez(as reparações são lentíssimas), criando tendências e modismos que são produtos lucrativos aos impérios da comunicação, fábricas, lojas e assim, a frase de Andy Warhol "um dia todos terão direito a 15 minutos de fama" se transformou numa realidade inquestionável. Inclusive, empresas e pessoas vivem e enriquecem a partir da sua imagem, seja na publicidade ou na exibição das redes sociais, tudo vira sinônimo para venda e lucro, de produtos à escândalos, de ensaios profissionais a "nudes acidentais", tudo é produto: gostou? Dê um like!! Compartilhe!!
A mídia, seguindo sua função primordial, "meio de circulação" tem um papel vital na sociedade contemporânea, ao informar a sociedade, porém, o impacto e força foi percebido pelos seus controladores ou por outras forças, como os grupos religiosos, financeiros, políticos e empresariais que buscam divulgar suas crenças e atrair mais adeptos, fato que coloca o papel da comunicação no centro do debate: como é possível aceitar mentiras construídas por instituições privadas ou governamentais? Como, com tanta informação, é possível ser voluntariamente vítima de estelionato religioso que prometem milagres falsos? Como a palavra de blogger, youtuber, apresentador, atriz ou celebridade tem mais força que centenas de estudos de milhares de pesquisadores?
Um outro alemão, Joseph Göbbels, ministro da propaganda do regime nazista sentenciou muito bem: "uma mentira mil vezes repetida se torna uma verdade".
Na sociedade brasileira contemporânea vivemos um contexto bizarro que se incita a uma postura anti-intelectual, desvaloriza os saberes e seus detentores, prevalecendo o senso comum e um discurso incoerente. Exemplo: o Brasil se caracteriza e assume como um país de matriz predominantemente cristã (86,8% segundo o Censo de 2010 do IBGE) e ao mesmo tempo tem 57% de sua população defendendo a tese que "bandido bom é bandido morto", segundo pesquisa do Datafolha em novembro de 2016.
Existem avanços na construção de uma visão e modo de vida que valoriza a inclusão, o combate aos preconceitos, à intolerância de diferentes tipos, mas ainda assim, certas posições e visões não se alteram: as mesmas pessoas que vão às ruas protestarem contra a corrupção nas estruturas do Governo, criticando o enriquecimento ilícito e abuso de poder, são aqueles que compram favores, fraudam e sonegam impostos, colam em provas, compram trabalhos e vagas em concursos.
Em suma, pensando na proposição de Kant e na pergunta feita pela Fuvest, ainda estamos na menoridade, eu diria recém-nascidos num berçário e o risco de nos afastarmos da Razão, do conhecimento é grande como muito bem expôs o pintor e gravador espanhol Francisco Goya(1746-1828), numa das gravuras da série "Los caprichos", que se entitula "O sono da razão produz monstros" e estes tem crescido na forma do autoritarismo, do elitismo, do preconceito, violência entre outros perigos, dessa forma, todo cuidado é pouco. Busquemos a Luz, sempre!