As Ricas Horas do Duque de Berry

As Ricas Horas do Duque de Berry
As Ricas Horas do Duque de Berry. Produção dos irmãos Limbourg - séc. XV. Mês de julho

quarta-feira, 10 de maio de 2017

Idade Média: Idade das trevas?

Vitrais da ábside da Abadia de Saint-Denis, norte de Paris.
Créditos: Elias Feitosa


Tomando como base as aulas desta semana sobre Filosofia medieval, gostaria de discutir o conceito de Idade Média e seu entendimento como a Idade das Trevas,
Essa visão é resultado de uma leitura que valoriza a Antiguidade clássica como a “Idade de Ouro”, rica em saberes e arte e detentora de um ambiente de relativa liberdade, que primava pela valorização da razão como a melhor e mais importante característica da Humanidade.
Tal pensamento era muito presente entre os letrados que buscavam com ansiedade localizar os antigos textos que se encontravam em bibliotecas de mosteiros e abadias ou nas universidades que se tornaram o polo da produção do conhecimento no período.

O conceito foi uma construção a posteriori, isto é, feito depois, e dessa forma aqueles que a viveram não se entendiam ou se chamavam de medievais, termo que deriva de médium aevum, médium aetas , daí, medievo.

Os letrados dos séculos XV e XVI chamavam a sua época de Moderna e reconheciam nela semelhanças com o mundo antigo, criando por oposição ao passado recente a ideia de tenebrae como, por exemplo, o poeta Francesco Petrarca (1304-74). Nascia assim a visão de um período de estagnação e de vazio, que foi reafirmada por outros pensadores: Giorgio Vasari (1511-74) foi responsável por popularizar o conceito de renascitá, renascimento em italiano. Mas se renasceu deveria estar morta, esquecida nos séculos, para novamente estar presente entre os homens. E quem seria o ilustre defunto? A cultura greco-romana.

A reafirmação desse conceito era fruto da mentalidade daquele momento, que, em diferentes campos do saber e por diferentes autores, teve seus contornos e pressupostos consolidados e difundidos. O pintor Rafael Sanzio (1483-1520) se referia à arte medieval como “gótica”, isto é, dos godos, bárbaros invasores que não tinham cultura, segundo a visão romana; François Rabelais (1483-1553) tratava o período medieval como a “espessa noite gótica”, dessa forma, podemos então extrair outra informação importante: o termo gótico, usado para a produção artística entre o fim do século XII e o século XV, foi uma construção posterior e pejorativa. Portanto, seus realizadores não tinham a dimensão de que “eram góticos ou produziam arte em estilo gótico”.
Se o conceito negativo da chamada Idade Média como “Idade das Trevas” nasceu entre os séculos XIV e XVI, a ampliação dessa visão e sua difusão foram desdobramentos de outros períodos históricos tais como: o Iluminismo no século XVIII (época de intensa valorização da razão e de um questionamento dos poderes absolutos do rei e do clero); o Cientificismo do século XIX (contexto de maior ampliação do racionalismo e de valorização da ciência em detrimento da fé), que por sua vez foi contemporâneo ao Romantismo (movimento artístico responsável por tentar resgatar e redefinir o período medieval).


Cabe pensarmos uma outra questão: existiria um grande abismo separando “os mil anos medievo” e o Renascimento? Muitos defenderam que isso seria verdadeiro, tentando reafirmar os elementos negativos do medievo e uma “ruptura, quebra ou distância” com o período de grande transformação que seria o Renascimento. Neste caso, podemos destacar o trabalho de Jacob Burckhardt (1818-1897), um renomado erudito suíço nascido em Basileia que se tornou uma das principais referências para o estudo do Renascimento, tendo entre outras obras o livro A cultura do Renascimento da Itália, obra publicada em 1860 que sustenta a tese da ruptura com o período medieval.

Atualmente a abordagem é distinta, procurando observar que as transformações sofridas durante o Renascimento foram resultados de um processo de continuidade que perpassou o medievo e atingiu seu esplendor no momento seguinte, guardadas as devidas proporções. No entanto, precisamos analisar a complexidade das transformações e das permanências dentro de seu próprio contexto, facilitando a identificação daquilo que de fato foi inovação ou que já era pensado pelas gerações anteriores.

Segue abaixo uma bibliografia, bastante sintética, que pode ajudar em muito a revisão desta concepção defasada e superada sobre a Idade Média, que apesar de existirem pelo menos 40 anos de pesquisas acumuladas, ainda existem "ecos" que repetem o preconceito contra o medievo, mas devemos lembrar que esta crítica não significa apoiar os abusos e violências praticados no contexto medieval ou noutro por qualquer instituição, seja o Estado, seja Igreja.

Boas leituras e muitas reflexões !!

Bibliografia introdutória sobre a Idade Média


BASCHET, Jérôme. A civilização feudal: Do ano mil à colonização da América. São Paulo: Editora Globo, 2006.

DUBY, Georges. História Artistica da Europa: A Idade Média, Vol. I e II,  Rio de Janeiro, Editora Paz e Terra, 2002, 2ª ed.

FRANCO JUNIOR, Hilário. Idade Média: O nascimento do Ocidente, São Paulo, Editora Brasiliense, 1986.

LE GOFF, Jacques. Os intelectuais na Idade Média. São Paulo, Editora Brasiliense, 1988.

LE GOFF, Jacques & SCHMITT, Jean-Claude. Dicionário Temático do Ocidente Medieval, Bauru/ EDUSC; São Paulo/Imprensa Oficial do Estado, 2002.

LE GOFF, Jacques. A Civilização do Ocidente Medieval. BauruEDUSC, 2002, 1ª edição.

RIBEIRO, Daniel Valle. A Igreja e o Estado na Idade Média. São Paulo: Editora Lê, 1995.

RIBEIRO, Daniel Valle. A Cristandade do Ocidente Medieval. São Paulo: Editora Atual, 1998.

VERGER, Jacques. Cultura, ensino e sociedade no Ocidente nos séculos XII-XIII. BauruEDUSC, 2001, 1ª edição.




domingo, 7 de maio de 2017

Mulheres de Atenas

Afrodite - séc. V a.C. - British Museum - Londres
Crédito: Elias Feitosa




Mulheres de Atenas
Chico Buarque - Augusto Boal - 1976 Para a peça Mulheres de Atenas de Augusto Boal


Mirem-se no exemplo daquelas mulheres de Atenas
Vivem pros seus maridos, orgulho e raça de Atenas
Quando amadas, se perfumam
Se banham com leite, se arrumam
Suas melenas
Quando fustigadas não choram
Se ajoelham, pedem, imploram
Mais duras penas
Cadenas

Mirem-se no exemplo daquelas mulheres de Atenas
Sofrem por seus maridos, poder e força de Atenas
Quando eles embarcam, soldados
Elas tecem longos bordados
Mil quarentenas
E quando eles voltam sedentos
Querem arrancar violentos
Carícias plenas
Obscenas

Mirem-se no exemplo daquelas mulheres de Atenas
Despem-se pros maridos, bravos guerreiros de Atenas
Quando eles se entopem de vinho
Costumam buscar o carinho
De outras falenas
Mas no fim da noite, aos pedaços
Quase sempre voltam pros braços
De suas pequenas
Helenas

Mirem-se no exemplo daquelas mulheres de Atenas
Geram pros seus maridos os novos filhos de Atenas
Elas não têm gosto ou vontade
Nem defeito nem qualidade
Têm medo apenas
Não têm sonhos, só têm presságios
O seu homem, mares, naufrágios
Lindas sirenas
Morenas

Mirem-se no exemplo daquelas mulheres de Atenas
Temem por seus maridos, heróis e amantes de Atenas
As jovens viúvas marcadas
E as gestantes abandonadas
Não fazem cenas
Vestem-se de negro, se encolhem
Se conformam e se recolhem
Às suas novenas
Serenas

Mirem-se no exemplo daquelas mulheres de Atenas
Secam por seus maridos, orgulho e raça de Atenas