As Ricas Horas do Duque de Berry

As Ricas Horas do Duque de Berry
As Ricas Horas do Duque de Berry. Produção dos irmãos Limbourg - séc. XV. Mês de julho

sábado, 28 de setembro de 2013

A crise na Síria: heranças de uma geopolítica da Guerra Fria





A situação da Síria tem trazido grande apreensão para a comunidade internacional na atualidade, especialmente desde 21 de agosto, quando um ataque às forças rebeldes com armas químicas ( gás sarín, mostarda e RX) provocou a morte de 1500 pessoas, sendo 400 crianças, mostrando uma faceta ainda mais sórdida do regime ditatorial controlado pela família Assad, desde 1970.



Bashar Al-Assad (despoticamente no poder desde 2000)

Respeito aos Direitos Humanos nunca foi algo importante aos Assad há décadas e assim, sua sangrenta ditadura foi tolerada pela mesma comunidade internacional que , agora, a julga e isso já tem mais de 40 anos, mesmo a França, antiga controladora da região entre 1918 e 1948, não foi tão dura contra o pai de Bashar, o general Hafez Al-Assad, que com um golpe de Estado, assumiu o controle da Síria em 1970, abrindo caminho para a radicalização contra Israel e por sua vez, uma forte oposição aos EUA no Oriente Médio.



Hafez Al-Assad (foto acima) foi apoiado pela URSS, especialmente, com a venda de armamentos, empréstimos e " consultoria" e assim, podemos entender na atualidade, a relação controversa da atual Rússia com o regime dos Assad, ainda mais que foram estes últimos os responsáveis pela autorização para os russos construírem uma base militar em Tartus, uma região portuária arrendada desde 1972 pelos russos e assim constitui uma sensível ameaça à logística de defesa ocidental no Mar Mediterrâneo, que até então, era uma área de maciça presença dos EUA, Grã-Bretanha e França.



O partido Baath, que significa " renascimento " foi uma importante força política responsável por uma aproximação com o socialismo durante a Guerra Fria, mas assim como no bloco comunista, ao se estabelecer no poder, cunhou uma estrutura autoritária e personalista, não conseguindo oferecer uma melhora na condição de vida da população e colaborou para a estagnação das forças populares, já que estas não detinham nenhuma expressão na essência do partido.


Nasser: a voz do mundo árabe

O Baath colaborou para construir uma força de união entre os árabes, possibilitando por exemplo, em 1º de fevereiro de 1958, a formação da República Árabe Unida, fusão temporária com o Egito de Gamal Abdul Nasser, no entanto, os atritos entre este último e a elite política síria favoreceram a instabilidade precoce da recém nascida república, especialmente pelo centralismo de Nasser como o principal agente daquilo que era o pan-arabismo, a ideia de uma integração plena entre os países árabes, fortalecendo-se perante Israel e seus aliados ocidentais, em destaque, os EUA.

Brasão da República Árabe Unida


Em 28 de setembro de 1961, um golpe de Estado tirou a Síria da RAU e levou à brutalização do já bastante autoritário regime sírio. Em 1967, a Síria voltou a apoiar o Egito na chamada Guerra dos Seis Dias contra Israel, sendo que este último saiu vencedor, tomando a Península do Sinai do Egito e as colinas de Golã da Síria e em 1970, sobe ao poder, o general Hafez Al-Assad, um militar alauíta (facção xiita minoritária que representa 10% da população síria).




Podemos comparar a composição religiosa da Síria ao seu característico artesanato de marchetaria com motivos geométricos encaixados, formando desenhos abstratos e geometrizados. Observe o mapa abaixo:


O predomínio populacional é dos Sunitas, sendo os alauítas (xiitas), e pelo fato do clã Assad ser dessa denominação, sua condição e poder estão assegurados, diferentemente dos cristãos ortodoxos e drusos e os curdos, as principais manifestações religiosas, mas que estão dispersas pelo território, desprovidas de uma maior representação política e que buscavam uma convivência pacífica dentro de uma sociedade síria significativamente tolerante.

Na atual brutalidade dos fatos, com mais de 100.000 mortos, pelo menos o sêxtuplo disso em refugiados se espalhando pela região ou buscando refúgio em outros países na Europa e Américas, o regime de Bashar Al-Assad se conserva numa sobrevida bastante particular, a qual se manifesta na inoperância da ONU, já que seu Conselho de Segurança está dividido pela adoção de sanções punitivas e nesse caso, o aval é dado pela China e Rússia, enquanto EUA, França e Grã-Bretanha, defendem uma ação maior, inclusive a intervenção armada, mas como os aliados e interlocutores de Assad (China e Rússia) já manifestaram seu veto às sanções, fica bastante limitada a possibilidade de uma intervenção militar ocidental ou mesmo, um plano de ação que pudesse dar conta da liquidação das armas químicas e a transição política que tirasse os Assad, abrindo caminho para um reestruturação política da Síria, mas nesse caso, os radicais islâmicos almejam entrar em ação, quem sabe estabelecendo um regime guiado pela Sharia (a lei islâmica), fato que agradaria o aliado regional Irã e preocupa os países ocidentais, além de Israel.

Neste complexo tabuleiro, apesar de alguns xeques, o "rei Assad" continua se movendo e o lance final está longe de ocorrer e de um lado, temos um regime autoritário protegido pela ajuda russo-chinesa e de outro, uma facção rebelde que tem recebido dinheiro e armas leves do Ocidente, mas está bem desorganizada para obter o "xeque mate". Empate?
Enquanto isso, o sangue escorre pela Síria....
















quinta-feira, 19 de setembro de 2013

Papa Francisco critica obsessão da Igreja com aborto e casamento gay

Fonte: Portal iG by  Reuters  








Em uma entrevista franca concedida à Civilta Cattolica, publicação mensal dos jesuítas italianos, Francisco não apontou a perspectiva de nenhuma mudança em tais ensinamentos, mas pareceu tentar mudar o tom da Igreja sobre os temas, passando da condenação à compaixão.

Francisco, o primeiro papa não-europeu em 1.300 anos e o primeiro da América Latina, disse que os 1,2 milhão de membros da Igreja se "trancaram em pequenas coisas, em normas mesquinhas".

A Igreja, segundo o pontífice, deveria ser como um "hospital de campanha depois de uma batalha", que tenta curar as maiores feridas da sociedade, e não ficar "obcecada com a transmissão de uma incoerente infinidade de doutrinas a ser insistentemente impostas".

A longa entrevista foi realizada em três sessões, em agosto, e divulgada simultaneamente nesta quinta-feira em publicações dos jesuítas em todo o mundo, traduzida para vários idiomas.

"Não podemos insistir somente em questões relacionadas a aborto, casamento gay e uso de métodos contraceptivos. Isso não é possível. Não tenho falado muito sobre essas coisas, e eu fui repreendido por isso", declarou.

"Mas, quando nós falamos sobre essas coisas, temos de falar delas em um contexto. O ensinamento da Igreja nessa questão é claro e eu sou um filho da Igreja, mas não é necessário falar todo o tempo desses assuntos."

Falando especificamente sobre os homossexuais, ele disse: "Na vida, Deus acompanha as pessoas, e temos de acompanhá-las, a começar dessa situação. É necessário acompanhá-las com compaixão."
O papa também abordou o papel das mulheres na Igreja, dizendo que as "profundas questões delas precisam ser enfocadas".

"Nós temos, portanto, de investigar mais o papel das mulheres na Igreja. Temos de trabalhar duro para desenvolver uma profunda teologia da mulher. Somente com esse passo será possível refletir melhor na sua função dentro da Igreja", disse.

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

11 de setembro de 1973: o golpe de Pinochet

Ter, na América Latina, um governo socialista além de Cuba, era uma ousadia tremenda naqueles tempos quentes da dita "Guerra Fria" e nesse caso, a eleição da coalizão de esquerda que democraticamente levou Salvador Allende ao poder no Chile em 1970, se configurou como uma ameaça à zona de influência dos EUA.


A tradição política chilena, ao longo do pós-45, fora de uma constante valorização da direita conservadora, ciosa pelos valores cristãos e pelo resguardo das posturas liberais ( economia de mercado e propriedade privada), fazendo com que os clamores por melhoras no âmbito social fossem postos de lado, já que a valorização da iniciativa privada e do capital eram a via tida por " segura" naqueles tempos polarizados.


Allende aparecera num tour de force que vinha da violenta pressão sobre a Cuba de Fidel Castro, desde 1961 e a execução do guerrilheiro argentino Che Guevara, nas montanhas da Bolívia em 1969.


O Cone Sul estava infestado de regimes autoritários, as eleições daquele ano de 1970 bastante disputadas e acompanhadas com muita atenção pelos EUA , governados por Richard Nixon, através de seus agentes da CIA, que estavam articulados com os segmentos conservadores, buscando atingir Allende.
A figura de Allende era bastante forte na política nacional (desde 1945 era senador, sendo que de 1939 a 1942 fora ministro da Saúde),  sendo que já tinha sido derrotado anteriormente em 3 eleições ( 1952, 1958 e 1964).




Manifestações de apoio a Allende 1970.

Allende se elegera com 36,2% dos votos pela União Popular, derrotando o conservador Jorge Aleksandri com 34,9% dos votos na candidatura que representava os setores da direita.

A oposição a Allende tinha grande apoio de segmentos da mídia e com isso, uma franca campanha de desestabilização foi iniciada, provocando o acirramento das diferentes correntes pró e contra Allende.

A nacionalização dos bancos e das minas de cobre , de reforma agrária , gerara apreensão no setor privado, a classe média encontrava-se pressionada pela estagnação da economia, perda do poder de consumo, alta da inflação e desemprego e ainda se sentiam aterrorizados pelas ações do grupo terrorista " Pátria y Libertad", grupo radical de direita que contava com apoio dos EUA.

Demonstrar que a instabilidade crescente era fruto da incompetência de Allende e da chamada " via chilena ao socialismo" foi o objetivo principal dos setores conservadores, especialmente a elite, a Igreja chilena, os industriais, agro-exportadores e começava a minar a lealdade das Forças Armadas.

No intuito de estrangular a economia chilena, os EUA incitaram suas empresas a deixarem de negociar com o Chile e se possível, aquelas que ainda tivessem representação lá, deixassem o país, colaborando em muito para o desabastecimento, favorecendo a alta inflacionária e o descredito em relação a Allende.

Salvador Allende em discurso durante a campanha eleitoral

A extrema esquerda, por sua vez, tinha o grupo "MIR" (Movimento de Esquerda Revolucionário) que buscava se colocar como uma defesa ao projeto de Allende e nesse contexto, os enfrentamentos foram crescentes com os críticos ao governo.

Nixon fora taxativo: "Salvem o Chile!". Dessa forma, o processo de estrangulamento econômico, acompanhado da injeção de recursos para a oposição visava construir o caos.

A primeira tentativa de golpe contra Allende foi detida em 29 de junho de 1973, quando um grupo de tanques dirigia-se ao Palácio de La Moneda e fora detido pelo general Carlos Prats, que sufocando o golpe, buscara Allende para que fosse feita a declaração de Estado de Sítio, que fora solicitada ao Congresso, mas negada, já que Allende não tinha a maioria ali e Allende discursara dizendo que não fecharia o Congresso por sua própria conta

Desde 1972, o general Augusto Pinochet, tornara-se general-chefe do Exército, fazia parte do gabinete militar de Allende, parecia ser apolítico e completamente leal ao governo, portanto, naquela altura trata-se de " lobo em pele de cordeiro".



Dessa forma, pela tensão e polarização interna do Chile, atingido pela escassez de alimentos, alta dos preços e um riquíssimo " mercado negro" que não parava de enriquecer uma minoria de privilegiados, colocava a população nas ruas, clamando a favor e contra o governo, somando as pressões da imprensa controlada pela oposição e as ações subterrâneas da CIA, com o total aval de Nixon, um golpe de Estado era questão de tempo.


Na manhã de 11 de setembro de 1973, começou o levante contra Allende que estava na sede do governo e precisara ali se defender do cerco feito. O general Carlos Prats preservara sua lealdade a Allende, uma minoria tivera a mesma posição, mas o grosso das Forças Armadas se encontrava sob a liderança de Pinochet, o qual ordenara o bombardeio aéreo do Palácio de La Moneda, já cercado pelas tropas golpistas.



Allende tentou resistir, mas perante sua inevitável prisão ou possível execução, suicidou-se por volta das 14:15, sendo assim, uma junta militar assumiu o poder, liderada por Pinochet e ali começou o processo repressivo:  prisões dos opositores, execução dos resistentes, censura com direito a queima de livros, além da reorganização de todas as instituições (privadas ou públicas) que tiveram qualquer atitude de apoio a Allende.

A ditadura de Pinochet se estendeu até 1989 e estima-se que tenha deixado cerca de 50.000 mortos, sendo aí computados chilenos e estrangeiros considerados subversivos.

Pinochet e a Junta Militar golpista de 1973


O general Pinochet , pela defesa de seus ideais, ingressou na seleta lista de " criminosos contra a Humanidade", pois seu governo promovera inúmeras ações de perseguição e extermínio como as " Caravanas da morte", responsáveis pela execução de milhares de opositores, muitos por exemplo no famoso Estádio Nacional de Santiago, além de colaborar com as outras ditaduras do Cone Sul na famosa " Operação Condor", que integrou os serviços de inteligência dos regimes militares do Brasil, Argentina, Uruguai, Paraguai e Chile, para a troca de informações sobre subversivos em seus respectivos territórios, bem como a comum autorização para ações de sequestro e execução dos mesmos, como por exemplo, a morte do general Prats, exilado em Buenos Aires, num atentado à bomba em 30 de setembro de 1974.

Apesar da tentativa do juiz espanhol Baltazar Garzon no ano de 1998,  em expedir um mandato internacional de prisão, visando extraditá-lo da Inglaterra para a Espanha, para julgá-lo pela morte de cinco cidadãos espanhóis no Chile durante seu governo, Pinochet, em virtude de seu estado de saúde debilitado, conseguiu escapar do julgamento, mas ficara detido em prisão domiciliar por 503 dias na Inglaterra. Pinochet teve que abdicar do mandato de senador vitalício em virtude da sua declaração de "insanidade" pelo seu advogado de defesa.
Morreu em 2006, ironicamente no dia 10 de dezembro que é dedicado pela ONU como o Dia Internacional para os Direitos Humanos e dos Povos Indígenas.
Pinochet

Sugestões de filmes:

 
Machuca. Direção: Andrés Wood, 2004: um poético depoimento cinematográfico sobre a perda da inocência de um jovem pré-adolescente que vê sua vida, família e país mudarem naqueles conturbados momentos de 1973, onde Gonzalo Infante, aluno do prestigiado colégio St-Patrick começa aprender sobre a convivência e as diferenças entre os modos de vida de sua família e de um novo colega Pedro Machuca, um espelho das tensões do seu pais.

Dawson, ilha 10. Direção: Miguel Littin, 2012: No início do golpe, os ministros e autoridades depostas tornam-se presos políticos dos militares e são levados para a gelada ilha Dawson, no extremo sul do país, utilizada como campo de concentração da ditadura chilena. Os presos políticos foram submetidos a violentos interrogatórios, trabalhos forçados, constantes torturas ísicas e psicológicas.


Salvador Allende, Direção: Patrício Guzman, 2004: Em 11 de setembro de 1973, um golpe militar de Estado abate a revolução do Chile eliminando o presidente eleito Salvador Allende. O diretor Patricio Guzmán ressuscita o presidente deposto, figura carismática levada ao suicídio e cuja ditadura tratou de apagar a memória. Como é recordado nos primeiros momentos do filme, já não ''resta nada, ou quase nada, de Salvador Allende''. Somente um pedaço de óculos quebrado e alguns papéis encontrados sobre seu corpo sem vida. Em uma homenagem emocionante, Guzmán rende a esta personalidade farol do século 20 uma homenagem ao mesmo tempo íntima e distante, propondo uma reflexão sincera sobre certo ideal político.

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

A figura da bruxa e sua perseguição

De acordo com o senso comum, magia e bruxaria poderiam ser vistos como algo que tivessem mais ou menos, numa relação de semelhança, embora possa-se pensar que magia assinale algo mais elevado, mais nobre e por outro lado, a bruxaria representasse algo mais perigoso e terrível.
Porém, popularmente, a magia "natural" e mesmo a magia "cerimonial" não têm nada a ver com a bruxaria. O discurso é diferente se usamos outras distinções, na verdade menos antigas e autorizadas, mas infelizmente difundidas hoje em dia: da "magia branca" e "magia negra", por exemplo, que nasce de muitos equívocos; ou aquela - muito empírica – da "alta magia" e da "baixa magia" ("baixa" seja no sentido de vulgar, material ou de terrena e mesmo demoníaca.)

"O sabá das feiticeiras", xilogravura anônima, séc. XV.

Na verdade, todas estas distinções têm uma raiz nobre. Trata-se do De Civitate Dei (A Cidade de Deus) ou do Divinatione Daemonium (A adoração ao demônio) de Santo Agostinho, obras nas quais - com forte sentido polêmico contra os gnósticos - ele discute a distinção gnóstica entre duas formas de invocar os espíritos e de dominar, através de sua sabedoria, a natureza, ou de conhecer o futuro com a sua ajuda. Estas duas formas são, em grego, a teurgia ("arte de atuar com os deuses") e a goeteia ("arte de atuar com as coisas da terra, da matéria"). Atuando em teurgia, diziam os gnósticos, nos referimos apenas a espíritos bons, puros, superiores, com cerimônias puras e em situações sempre boas; atuando em goeteia (o que permanecia, ao nível teórico, coisa vergonhosa e perigosa, pois proibida), entramos em contato com espíritos maus, inquietos, infelizes, que buscam sacrifícios impuros para manifestarem-se e sempre gozam com o sangue e outras coisas sujas. Com esses espíritos só se atua quando se quer fazer o mal.
Gravura "Feiticeiras", Albrecht Dürer, 1491.

A resposta de Santo Agostinho aos gnósticos sobre esse ponto coincide com a fundação da demonologia cristã. Esclarecendo que a goeteia é, sem dúvida, ciência diabólica, Agostinho demonstra que a teurgia também o é, porque os únicos espíritos que querem entrar em contato com os homens, sem a ordem de Deus, são espíritos maus.
Podemos, de toda maneira, aceitar a visão comum, que faz coincidir "baixa magia" e "bruxaria"?
A resposta a essa pergunta, se quer ser correta, tem que ser colocada em dois níveis distintos: histórico e antropológico. No histórico o saber mágico apresenta-se como um conjunto complexo de fatores, uma "visão do mundo" orgânica, que também permite a ação prática nas coisas. Há, sem dúvida, na fenomenologia do ato mágico, rituais que se podem aproximar da feitiçaria ou da bruxaria, mas a distinção está, seja no método, seja no plano da sabedoria e do conhecimento. O mago age porque e na medida em que conhece as relações entre as coisas; a bruxa só conhece, e de forma mecânica, alguns atos que determinam alguns efeitos nas relações de causa e efeito.


Gravura presente no Martelo das Feiticeiras (Malleus Maleficarum), 1484.

O espanhol bruja e o português bruxa são palavras usadas no mesmo sentido em que se usaram strega em italiano, sorcière em francês, witch em inglês, Hexe em alemão, e todas estas palavras traduzem o que nos documentos latinos, a partir do século 13, se entendia por palavras como incantatrix ou malefica (as palavras strix ou striga se afirmaram, no sentido que nos interessa, só mais tarde. Menos freqüentemente se usou também lamia e arlia ).
Nossa cultura europeia tem duas raízes: a primeira é bíblica, a segunda greco-romana. Atrás de ambas há uma ampla história de encontros, de relações, de misturas. Nós, aqui, não podemos falar disso. Limitamo-nos, então, à Bíblia e aos gregos e romanos. A Bíblia proíbe o que, em sua tradução latina, é carmina, incantationes, maleficia; ela condena os arioli e os incantatores. Ela proíbe, também, toda forma de investigação do futuro e de interrogação dos mortos, como se vê no episódio do rei Saul e da pithonissa de Endor.

Gregos e romanos têm uma atitude diferente. Sem dúvida há homens, e sobretudo mulheres, que fazem prodígios, até trazer a lua do céu e fazer com que a corrente dos rios corra ao contrário, subindo da foz à fonte; mulheres que podem, também, controlar a metamorfose de seres humanos em animais e dar ordens aos mortos. Desde as divinas Circe e Medéia, filhas do sol, até as incantatrices - algumas repugnantes - das quais nos falam Virgílio, Ovídio, Horácio, Lucano, Stacio e Apuleio, a cultura clássica nos oferece um quadro fenomenológico completo da bruxaria. Mas tudo isso é chamado carmen ou então cantus, ou seja, "fórmula mágica", ou simplesmente maleficium, isto é - eufemisticamente -"mal feito", "crime".

A cultura medieval, muito antes do Renascimento, se enche de literatura latina. Os poetas latinos são inclusive auctoritates, ou seja, é difícil recusar o que eles apresentam como fatos seguros e verdadeiros. Santo Agostinho será obrigado a construir uma completa - e complexa - teoria teológica e demonológica para demonstrar que os prodígios mágicos são somente enganos demoníacos. Frente aos prodígios e rituais dos magos, entretanto, o papel da incantatrix torna-se ao mesmo tempo mais simples mas também mais obscuro, mais mau. O magus conhece as leis ocultas do universo, lê o caminho das estrelas, sabe quais são as relações entre os planetas, as pedras preciosas e a alma humana: é um sábio. A incantatrix não sabe ou não tem o cuidado de conhecer as coisas que emprega para atuar, e atuar de maneira má. A incantatrix é maléfica, porque faz o mal (feiticeira de "fazer" ?). 

Ela atua, sobretudo, em três direções:

1. A metamorfose. A incantatrix pode transformar-se em animal (frequentemente uma ave de rapina noturna, como um morcego ou uma coruja) e nessa forma perturbar sobretudo as crianças, sugando-lhes o sangue até a morte. Na origem, esta crença era estruturada ao contrário: havia gênios maus que à noite tomavam forma de pássaros sugadores de sangue e de dia a de velhas mulheres. A incantatrix pode também transformar os outros em animais.

2. A incantatrix atua como xamã: viaja ao país dos mortos, fala com eles e graças a eles prediz o futuro.

3. A incantatrix também faz, com seu carmen, seu cantus, rituais e ervas que ela conhece, maleficia que dão ou tiram amor, que matam as crianças no próprio seio materno, que podem chegar até à morte.
Essas são as características das incantatrix, que a antiguidade e a Idade Média nunca esqueceram, mas que ao longo de muitos séculos ficaram no fundo das crenças comuns. Com a Idade Média, entraram em contato com a cultura cristã - que permanecia bíblica e romana e não admitia a realidade dos poderes mágicos - e também com crenças novas de origem céltica, germânica, inclusive, mais tarde, eslava e báltica. As crenças em sua expressão folclórica muitas vezes se assemelham: mas a Igreja não parecia preocupar-se com todas aquelas coisas que ela chamava superstitiones, vanitates.

Gravura “Feiticeiras” Hans Baldung Grien, 1514.

Entre o século IX e o século XI, por exemplo, em algumas regiões alemãs, muitas mulheres confessavam aos curas que, à noite, enquanto seus corpos jaziam ao lado do marido na cama, seus espíritos voavam em cortejo atrás da deusa Diana. Segundo os curas que relatavam estas confissões, os bispos reagiam rindo e respondiam que tudo isso eram apenas sonhos de pobres mulheres insatisfeitas.

A crise do século XIV, que começou com uma série de anormalidades agrícolas muito desfavoráveis, e teve seu ápice da Peste Negra entre 1348 e 1350, criou uma situação muito ruim, que continuou até a metade do século XVII, caracterizada por epidemias, carestias, fome e mortalidade, sobretudo de crianças. No nível religioso, aconteceu que, nestes mesmos séculos, a Igreja teve que fazer frente a muitas heresias e, depois, sofrer a Reforma Protestante, que a cortou em duas. No nível político, estes séculos - desde o XIV  até o XVII - foram os mesmos em que se tentou criar os Estados modernos, que não admitiam que ninguém nem nada pudesse fugir do seu controle.

Na luta pela manutenção da supremacia, a Igreja perseguia as velhas superstições: desastres climáticos, econômicos e sociais para os quais era necessário encontrar um "bode expiatório" a quem atribuir responsabilidade, coincidindo também com o novo e duro controle da sociedade pelo estado absolutista. Estas três circunstâncias, atuando ao mesmo tempo, foram a origem da caça às bruxas como da perseguição de outros marginais, como os leprosos e os judeus.

Num primeiro momento, como se vê muito bem nos tratados inquisitoriais de Bernardo Gui e de Nicholas Eymerich - que são, os dois, do século XIV, o problema era ver se as bruxas (mas havia bruxos também) podiam ser consideradas heréticas, analisando suas ações e o desdobramento delas, que podia gerar o “abandono da fé verdadeira” e assim, seus seguidores buscavam adorar Satã.

                                   “A negação da Fé” xilogravura anônima, séc. XV.

Mas, em muitíssimos casos, a insistência das denúncias, inclusive, ou melhor, sobretudo populares, de acontecimentos de bruxaria, obrigou os inquisidores a considerá-las. As acusações mais frequentes eram de assassinato de crianças, de feitiçarias feitas, também, com o uso de coisas provenientes desses assassinatos (por exemplo, toucinho de crianças pequenas), de profanação de hóstias consagradas. Mais ou menos desde a metade do século quatorze começaram também as acusações de "encontros mágicos"  em que as bruxas chegavam transformadas em animais mágicos (sobretudo bodes), e onde se cozinhavam e se comiam carnes infantis e se mantinham relações sexuais promíscuas, inclusive com o próprio diabo. Essa prática presumida acabou denominando-se "sabá", desenvolvimento do "vôo mágico", do qual, no século XI, haviam apontado como "pouco provável" pelos bispos da Alemanha.

                                           

                           "Linda maestra "Gravura da série "Los Caprichos",  de Francisco Goya,1799.

Uma grande quantidade de superstições até então dispersas convergiu para esta nova imagem das bruxas, que era a imagem de uma mulher má, aliada do diabo e enlaçada a ele através de um pacto, cuja tarefa era a derrubada da cristandade. Foram os teólogos do século quinze que aperfeiçoaram os elementos que ainda faltavam à imagem "definitiva" da bruxa: o pacto com o diabo e a realidade dos poderes mágicos. Foi uma revolução teológica e jurídica que inaugurou a "caça às bruxas".

Quero que me permitam acentuar o caráter disperso - como acabo de dizer - dos elementos que começam a compor a imagem da bruxa. Estes elementos se refletem nas palavras vulgares que compreendem o que os textos latinos continuam chamando incantatrix, maleficia, lamia. No italiano a striga e a strighiera, ou mesmo, a ideia de strix se refere à ideia de metamorfose e de vampirismo; na língua francesa temos a sorcière, que vem de sortes e indica, antes de tudo, uma técnica de conhecimento do futuro; já no espanhol bruja, o português bruxa e o alemão Hexe referem-se ao caráter sagrado de antigas mulheres sábias, pagãs, que habitavam os bosques, e provêm de etimologias que indicam a madeira e as árvores; em inglês witch indica a sábia germânica, a Wicca (que no alemão significa wissen, "saber", "conhecer").
                                         
                                          "O beijo obsceno", xilogravura anônima, séc. XV

Características comuns da bruxa nos finais da Idade Média, como as que se veem no Malleus Maleficarum dos frades dominicanos, Kramer e Sprenger (1484), são o voo mágico, o pacto com o diabo, o assassinato das crianças, a destruição de farinha e de colheitas, a metamorfose animal. É a construção de um perfeito "bode expiatório", ao qual, até a metade do século dezessete, serão atribuídas as responsabilidades por toda a má sorte do Ocidente. O que não significa que não existiam bruxas, no sentido de que não existissem mulheres que afirmavam - também espontaneamente, para ganhar dinheiro - serem bruxas. Mas, em última instância, o que era a bruxaria? Uma ficção, uma burla, uma mentira feita para enganar os ingênuos? Uma ilusão criada, inclusive pelas próprias bruxas, quando sob o efeito de substâncias alucinógenas ou de sonhos ou de loucura?



Talvez um misto de todas estas coisas. Quem estuda a bruxaria tem que lembrar que limitar-se à fenomenologia é mais prudente do que tentar uma tipologia; e que nunca será possível estudar as bruxas em si mesmas porque sua voz livre nunca chegou até nós, obrigados a estudá-las através dos documentos de teólogos e inquisidores. Indiretamente. O que vale, por fim, é que os clientes das bruxas são muito mais interessantes que as próprias bruxas. Porque as bruxas são, antes de mais nada, consolatrices afflictorum, vendedoras de sonhos e de ilusões de potência, de triunfo, de vitória, de vingança. E são bodes expiatórios dos maus pensamentos de uma sociedade cheia de desejos e de medo, de vícios e de impotência. A bruxaria triunfa quando não há esperança de outra redenção, nem social nem cultural.

                                                  “A visão do Inferno”, anônimo, séc. XVIII

Documento histórico: 
Bula Summis desiderantes (1484)
Inocêncio VIII (1484-1492)
Inocêncio, Bispo, Servo dos servos de Deus, memória eterna
Ansiamos por com a mais profunda ansiedade, como exigido pelo nosso apostolado, que a fé católica para crescer e florescer em todos os lugares, especialmente em nossos dias, e que toda depravação herética ser removidos os limites e fronteiras dos fiéis, e com grande alegria e até mesmo proclamar restaura os meios e os métodos através dos quais o nosso desejo piedoso para obter o efeito desejado, porque, quando todos os erros foram Mostrar arrancadas pelo trabalho diligente, ajudados pela enxada de um providente agricultor zelo, para a nossa Santa Fé e observância regular que irá imprimir mais fortemente nos corações dos fiéis.
De fato, nos últimos tempos veio aos nossos ouvidos, mas não aflito com amarga tristeza, a notícia de que em algumas partes do norte da Alemanha e nas províncias, municípios, territórios, distritos e dioceses Mungúcia, Colônia, Trier, Salzburgo e Bremen, muitas pessoas de ambos os sexos, sem se importar com sua salvação e removido da fé católica, foram abandonados a demônios, íncubos e súcubos, e pelos seus encantamentos, feitiços, encantamentos e feitiços outros execráveis e artefatos, enorme e crimes horríveis, mataram os filhos que ainda estavam no útero, que também fez a prole de gado, que arruinou os produtos da terra, as uvas da vinha, os frutos das árvores ainda mais, para mulheres e homens, animais de carga, rebanhos e animais de outras espécies, vinhas, pomares, prados, pastagens, trigo, cevada, e qualquer outro cereal; esses infelizes também perseguir e atormentar homens e mulheres, bestas de carga, rebanhos e animais de outras espécies, com dores terríveis e dolorosas condições, tanto internos como externos; impedir os homens de ter relações sexuais e mulheres engravidar, de modo que o casal não pode conhecer as suas mulheres, ou aqueles que recebem.

Além disso, como blasfema a renunciar sua fé é deles pelo Sacramento do Batismo, e por instigação do Inimigo da Humanidade não é abrigo de cometer e perpetrar os mais horríveis abominações e excessos mais sujo, com o perigo moral de sua alma , que ultrajaram a Majestade Divina e são causa de escândalo e perigo para muitos. E embora nosso amado filhos Heinrich Kramer e James Sprenger, professores de teologia da Ordem dos Frades Pregadores, foram nomeados, por Cartas Apostólicas inquisidores para investigar as práticas dessas depravações heréticas, e ainda são, o primeiro nas regiões citadas no norte da Alemanha, incluindo os municípios acima mencionados, distritos, dioceses e outros locais específicos, e o segundo em determinados territórios que se estendem ao longo das margens do Reno.  Devem descobrir mais coisas que lhes dizem respeito, e como já mencionado nas cartas de delegação expressa sem mencionar nomes específicos destas províncias, cidades, dioceses e distritos, e dado que os dois delegados e abominações que eles terão de enfrentar não são designados em detalhes e especiais, essas pessoas não têm vergonha de afirmar, com a máxima desfaçatez, que essas atrocidades não são praticados nas províncias.

Inquisidores não têm o direito legal de exercer os seus poderes inquisitoriais nas províncias, cidades, dioceses, distritos e territórios referidos acima, e não pode continuar punindo e corrigindo os criminosos presos condenados por crimes hediondos e os a muitos males foram expostos. Portanto, no referido províncias, cidades, dioceses e distritos, as abominações e atrocidades em questão continuam a doença de altura, não sem perigo aparente para a alma de muitos e ameaça a condenação eterna.
Porque nós, como é nosso dever, nós profundamente ansiosos para remover todos os impedimentos e obstáculos que podem atrasar e dificultar o bom trabalho dos inquisidores, e aplicar remédios poderosos para prevenir a doença de heresia e infâmia outros dão a sua destruição ritmo veneno de muitas almas inocentes, e como o nosso zelo pela fé nos inspira a fazer em particular, e para estas províncias, cidades, dioceses, distritos e Alemanha, já especificadas, não estão privados dos benefícios do Santo Ofício que lhes são atribuídas pelo tenor destes presentes, e em virtude de Nossa. Autoridade apostólica Nós decretamos e ordenamos que os inquisidores citada poderes para proceder à sua correção, prisão e punição de qualquer povo justo, sem impedimento ou obstáculo em todos os sentidos, como se as províncias, cidades, dioceses, distritos, territórios, e até mesmo os indivíduos e seus crimes, tinham sido especificamente nomeados e particularmente designados em Nossas cartas. Além disso, nós dizemos, e para a segurança estender essas cartas, a delegação dessa autoridade, de modo que eles atinjam as províncias acima mencionadas, cidades, dioceses, distritos e territórios, pessoas e crime agora referido, e dar permissão para os inquisidores citada cada um deles separadamente ou ambos, bem como Gremper, Nosso amado filho, John, sacerdote da diocese de Constança, como seu escrivão, tabelião ou outros para estar junto com eles, ou com um deles, temporariamente delegada às províncias, cidades, dioceses, distritos e territórios referidos, a fim de proceder, de acordo com as regras da Inquisição, contra qualquer pessoa, independentemente do status posição ou riqueza, e para corrigir, tudo bem, prender e merecem punição como seus crimes, que foram considerados culpados, a pena adaptar o grau da ofensa. Além disso, dizemos que apreciar a total e completa autoridade para expor e pregar a palavra de Deus aos fiéis, como muitas vezes como a oportunidade se apresenta como lhes parecer adequada em todas as igrejas paroquiais destas províncias e podem celebrar livremente e legalmente quaisquer ritos ou realizar quaisquer atos que parece aconselhável nos casos mencionados. Por Nossa autoridade suprema, nós garantimos o poder total e completa novamente.
Ao mesmo tempo, e Cartas Apostólicas, pedimos aos nossos irmão venerável bispo de Estrasburgo * que se anuncia ou através de outros fazem anunciar o conteúdo da nossa
Bula, quando solenemente publicar e sempre que necessário, ou quando ambos ou um deles inquisidores pediu para fazê-lo. Também assegurar que, em obediência ao nosso mandato não é para molestar ou impedir por qualquer autoridade, mas todos os que ameaçam tentar irritar ou assustar os inquisidores, todos os que se opõem a eles, esses rebeldes, independentemente da sua classificação , fortuna, posição, destaque dignidade, ou condição, o. , O que quer que os privilégios de isenção podem reivindicar, com a excomunhão, suspensão, interdição e penalidades, censuras e castigos ainda mais terríveis, e sem direito a recurso, e que, como desejado por Nossa autoridade pode acentuar e renovar estas penalidades, como muitas vezes como que acha conveniente, e chamada de sua ajuda, se assim o desejar, ao braço secular da justiça.
Portanto, ninguém. Mas se alguém presumir fazer tal coisa, Deus me livre. deixá-lo saber que ele vai cair sobre a ira de Deus Todo-Poderoso, e os Santos Apóstolos Pedro e Paulo.
Dada em Roma, junto de São Pedro no dia 9, Ano da Encarnação de Nosso Senhor 1448, no primeiro ano do nosso pontificado.


domingo, 11 de agosto de 2013

Hiroshima e Nagasaki: horror e vergonha para a Humanidade


No início de 1945 a guerra indicava a vitória aliada devido ao cerco das tropas alemãs em seu próprio território, graças à ação conjunta das frentes ocidental e oriental. Os soviéticos foram os primeiros a entrar em Berlim, tomando a cidade e encontrando Hitler e a cúpula nazista morta no quartel general do Führer após suicídio, terminando com a guerra na Europa em 8 de maio de 1945.

A guerra, no entanto, ainda acontecia no Pacífico por causa da resistência japonesa, principalmente com a ação dos camicases (expressão que significa “vento divino” em japonês e foi usada pelos pilotos que faziam ataques aéreos suicidas contra o exército dos EUA) contra a frota norte-americana.

A partir de uma decisão tomada pelo presidente dos Estados Unidos Harry Truman, (Franklin Roosevelt havia falecido em 12 de abril de 1945) foram feitos dois ataques às cidades de Hiroshima e Nagasaki, respectivamente em 06 e 09 de agosto de 1945, com uma nova e aterrorizante arma: a bomba atômica. Ambas as cidades foram quase que totalmente arrasadas, contabilizando mais de 150.000 mortos e milhares de feridos, além de pessoas contaminadas com a radiação por várias gerações.


Após a rendição incondicional, o Imperador Hirohito (1926-1989), foi à rádio e pela primeira vez, seu povo ouviu a voz daquele seria, segundo a tradição, um "ser divino que os governava", mas as notícias não eram nem um pouco agradáveis, pois Hirohito negou publicamente sua origem divina, afirmou que o exército imperial japonês fora derrotado e tinha se rendido incondicionalmente. A partir daí, o Japão se transformou numa monarquia parlamentar, cujo projeto de Constituição foi esboçado pelo General Douglas MacArthur, responsável pela ocupação militar do Japão de 1945 a 1952.



Tal notícia fora tão dura e profunda que, muitos seguiram uma outra tradição, uma vez que a derrota era entendida como desonra, só restava o suicídio.

Em 2 de setembro de 1945, o Estado-Maior japonês capitulava definitivamente a bordo do porta-aviões norte-americano Missouri , encerrando a II Guerra Mundial, que deixou um saldo de aproximadamente 50 milhões de mortos.

Já se passaram 68 anos dos ataques nucleares, mas ainda existem sequelas nos sobreviventes e uma marca indelével dos horrores cometidos pela Humanidade, que Vinícius de Moraes, registrou em versos na sua famosa Rosa de Hiroshima.

Rosa de Hiroshima
Vinícius de Moraes, 1973

Pensem nas crianças
Mudas telepáticas
Pensem nas meninas
Cegas inexatas
Pensem nas mulheres
Rotas alteradas
Pensem nas feridas
Como rosas cálidas
Mas, oh, não se esqueçam
Da rosa da rosa
Da rosa de Hiroshima
A rosa hereditária
A rosa radioativa
Estúpida e inválida
A rosa com cirrose
A anti-rosa atômica
Sem cor sem perfume
Sem rosa, sem nada

Sugestão:

O Sol. Direção: Aleksandr Sokúrov. Rússia/Itália/França/Suíça, 2005: Em 15 de agosto de 1945, os japoneses ouvem pela primeira vez a voz de seu imperador, que exorta seu exército e seu povo a pôr fim às hostilidades. Isso permite aos norte-americanos desembarcar nas ilhas japonesas sem encontrar resistência. O pedido do imperador ajuda a salvar muitas vidas, mas os vencedores exigem que Hirohito (Issei Ogata) compareça diante de um tribunal de guerra. O general MacArthur (Robert Dawson), comandante das tropas americanas no Pacífico sul, desaconselha o presidente Truman a converter Hirohito num criminoso de guerra.