As Ricas Horas do Duque de Berry

As Ricas Horas do Duque de Berry
As Ricas Horas do Duque de Berry. Produção dos irmãos Limbourg - séc. XV. Mês de outubro

domingo, 25 de dezembro de 2011

Freiras enclausuradas exibem presépio guardado há três séculos no Equador


Fonte: Folha de S.Paulo / DA EFE, EM QUITO

Guardado durante 306 anos entre os grossos muros do convento de clausura do Carmen Bajo de Quito, um presépio de cerca de 500 peças feitas no século 18 se transformou em uma das principais atrações na capital do Equador e pretexto para uma aproximação à vida contemplativa das carmelitas.


Presépio de cerca de 500 peças feitas no século 18 se transformou em uma das principais atrações na capital do Equador

As freiras carmelitas abriram as portas do convento ao público para que aprecie as figuras em uma sala dedicada completamente ao presépio natalino.
A cena que representa Herodes e suas dançarinas compreende bonecas de madeira com as quais brincavam as noviças que, no século 18, entravam muito cedo na ordem, segundo explica Lorena Albán, guia da exposição.

"As meninas de 13 ou 15 anos entravam como um dote que a família dava à igreja. Chegavam com suas bonecas de madeira e elas as vestiam", relatou.
No entanto, devido à austeridade exigida nas celas, as noviças não podiam ter consigo suas bonecas, por isso que passaram a fazer parte do presépio.

Além dessas bonecas e das peças em madeira da Escola Quiteña, de alto perfeccionismo, também aparecem figuras doadas de porcelana que destoam do conjunto.

O presépio encena a anunciação do arcanjo Gabriel à Virgem Maria, a visita de Maria a sua prima Isabel, o nascimento de Jesus, sua apresentação no templo e sua perda nesse mesmo templo anos depois.

Todas estas cenas são recriadas em diferentes regiões do Equador e oferecem uma mostra dos diferentes estilos arquitetônicos.
ROTINA DO CONVENTO


"Foi uma oportunidade para poder compartilhar todo este tesouro que nossas irmãs cuidaram em gerações passadas. Enche-nos de alegria que os demais possam apreciar toda esta habilidade", disse Raquel de Santa Teresita, 52, que superou sua timidez perante as câmeras da imprensa.

A religiosa, que passou 33 anos enclausurada, contou que o presépio "sempre esteve bem resguardado", mas a passagem do tempo e as traças o afetaram, e que uma restauração será necessária.



Jose Jácome - 23.dez.11/Efe
























Freiras carmelitas abriram as portas do convento ao público para que aprecie as figuras em sala dedicada ao presépio natalino
A visita de centenas de pessoas alterou a vida das 13 freiras, a mais nova de 18 anos e a mais velha com 91, pois abriram ao público parte do convento, construído no século 18 --embora tenham reservado o claustro para sua vida contemplativa.
Os visitantes podem apreciar o presépio que está em uma sala sobre uma pequena escadaria e coberto por um vidro, mas também puderam descobrir algo sobre o estilo de vida das freiras, graças a um percurso guiado.

Na saída dessa sala, um corredor emoldurado por grossos muros e arcos que deixam ver um pequeno jardim leva a um quarto.

Nessa fria cela se aprecia uma cama pequena, uma mesinha com a bíblia e outros livros, uma pequena jarra para a água do asseio, cilícios pendurados na parede e um manequim com a vestimenta tradicional das freiras carmelitas.
O percurso pelo silencioso convento continua, entre esculturas e quadros também do século 18, rumo ao coro alto.

As cores pastel usadas no mural do coro lembram os artistas do século 19 que pintaram a iniciação da ordem dos carmelos no século 7.
Do coro, que conta com um órgão italiano do século 19, que já não usam, se observa a igreja do Carmen Bajo, situada no centro histórico de Quito, catalogada como Patrimônio Cultural da Humanidade pela Unesco.

As religiosas também abriram ao público seu refeitório despojado de móveis e decorado com outro presépio elaborado há meio século em madeira e papel. Ali as freiras vendem produtos feitos por elas como escapulários, rosários, bolachas, cremes e águas para a limpeza facial.

O percurso também leva à entrada do cemitério onde se enterra as religiosas da ordem. "Cabe a frase que daqui nem morta me tiram", comentou a guia Lorena.


terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Reforma: questões sociais, políticas e econômicas no contexto de uma nova religiosidade que permearam o pensamento religioso



A ideia de “reforma” não era nova na Igreja Católica. Já fora defendida com sucesso pelos monges de Cluny, durante a Baixa Idade Média , culminando com a vitória dos reformistas sobre os simoníacos e a ascensão de Hildebrando, superior de Cluny que assumiu a tiara papal com o nome de Gregório VII.

            Mas a Igreja Católica ainda estava entorpecida pelo poder que dispunha em uma sociedade profundamente arraigada à religião. Cresciam as denúncias de abusos de poder, descaso com o sagrado, da vida mundana que levavam os membros do clero, além da prática de simonia (venda de cargos e de relíquias), levando boa parte da doutrina católica à desmoralização.

             O Cativeiro de Avignon (1377-1417), nome dado ao episódio em que o Papa Bonifácio VII foi aprisionado pelo rei Felipe IV e levado para a França, desmoralizou ainda mais o papado perante o povo, que se afastava cada vez mais da fé católica. Não se pode esquecer de que esses fatos não afastaram a população europeia do Cristianismo, o que pode ser testemunhado pelas numerosas demonstrações de fé nas heresias medievais que serviram de ligação entre Deus e a população abandonada pela Igreja.

            John Wiclif, inglês e professor em Oxford, lançou um movimento considerado herético pela cúpula da Igreja Católica, uma vez que combatia a centralização papal e propunha a diminuição da importância do clero. Além disso, defendia o confisco dos bens da Igreja e a adoção de votos de pobreza para todo o clero – prática comum entre os franciscanos. Wicliff foi condenado como herege e só não foi executado devido à proteção que recebeu da monarquia inglesa.

            John Huss, professor da Universidade de Praga, não teve tanta sorte. Iniciou junto aos seus alunos uma série de críticas à estrutura rígida da Igreja e acabou sendo chamado a Roma para retratar-se. Foi acusado de heresia e queimado vivo em 1415, ficando para a posteridade como um herói nacional da região da Boêmia (atual República Tcheca).

            Era nesse ambiente que apareciam diversas propostas que visavam a interpretar de maneira diferenciada o cristianismo. Como já foi dito, tais movimentos imaginavam ser possível reformar o catolicismo. O aparecimento de novas religiões foi fruto da própria intransigência da cúpula clerical e, em grande medida, do fato de existirem grupos políticos e econômicos fortes, dispostos a enfrentar o papado e arcar com as consequências de serem vistos pelos outros como hereges.

REFORMA NO SACRO IMPÉRIO GERMÂNICO

            No início do século XVI, o papado encontrava dificuldades para concluir a construção da Basílica de São Pedro e decidiu ampliar a venda de indulgências, com o objetivo de levantar recursos para a conclusão da obra.

            As Cartas de Indulgências eram documentos que poderiam ser adquiridos mediante um polpudo pagamento. Aquele que estivesse de posse de uma carta como essa estava liberado do cumprimento da confissão quando se apresentasse a um padre. A oficialização do comércio de um dos sacramentos incomodou profundamente os cristãos mais dedicados.
            A crise estourou no Sacro Império Romano Germânico, especificamente na Alemanha, país em que a Igreja Católica possuía nada mais do que um terço das terras férteis, o que despertava imensa insatisfação por parte dos nobres e comerciantes da região.

            Em 1517, Martinho Lutero, que era monge agostiniano e professor de teologia na Universidade de Wüttenberg, revoltou-se contra as indulgências, que, na Alemanha, eram vendidas pelo bispo Tetzel. Afixou na Catedral da cidade as chamadas 95 Teses contra a Igreja contra o papado e os dogmas da Igreja Católica:

Ao dizer: "Fazei penitência", etc. [Mt 4.17], o nosso Senhor e Mestre Jesus Cristo quis que toda a vida dos fiéis fosse penitência.
Esta penitência não pode ser entendida como penitência sacramental (isto é, da confissão e satisfação celebrada pelo ministério dos sacerdotes).
O papa não quer nem pode dispensar de quaisquer penas senão daquelas que impôs por decisão própria ou dos cânones.
O papa não pode remitir culpa alguma senão declarando e confirmando que ela foi perdoada por Deus, ou, sem dúvida, remitindo-a nos casos reservados para si; se estes forem desprezados, a culpa permanecerá por inteiro.
18 Parece não ter sido provado, nem por meio de argumentos racionais nem da Escritura, que elas se encontram fora do estado de mérito ou de crescimento no amor.
19 Também parece não ter sido provado que as almas no purgatório estejam certas de sua bem-aventurança, ao menos não todas, mesmo que nós, de nossa parte, tenhamos plena certeza.
20 Portanto, sob remissão plena de todas as penas, o papa não entende simplesmente todas, mas somente aquelas que ele mesmo impôs.
21 Erram, portanto, os pregadores de indulgências que afirmam que a pessoa é absolvida de toda pena e salva pelas indulgências do papa.
22 Com efeito, ele não dispensa as almas no purgatório de uma única pena que, segundo os cânones, elas deveriam ter pago nesta vida.
23 Se é que se pode dar algum perdão de todas as penas a alguém, ele, certamente, só é dado aos mais perfeitos, isto é, pouquíssimos.
24 Por isso, a maior parte do povo está sendo necessariamente ludibriada por essa magnífica e indistinta promessa de absolvição da pena.

           
A Igreja reagiu e, em 1520, enviou para Wüttenberg uma bula papal, exigindo a retratação de Lutero, que queimou o documento em praça pública. O reformista alemão foi excomungado pelo Papa Leão X, e foram dados os primeiros passos para que Lutero fosse preso e devidamente executado. Entretanto, a Igreja não conseguiu levar adiante o processo contra Lutero. O monge recebeu abrigo do Duque da Saxônia, que, representando a nobreza alemã, protegeu o professor com objetivos bastante ousados. Sob essa proteção, Lutero começou a elaborar uma nova doutrina religiosa.

            Durante esse período, Lutero lançou as bases de sua doutrina, traduzindo a Bíblia para o alemão e rejeitando a hierarquia religiosa, o culto de imagens e o celibato dos clérigos. Também defendia que a livre interpretação da Bíblia deveria ser o único dogma, enquanto a fé seria considerada a única fonte de salvação. A maioria dos sacramentos católicos foi extinta nessa nova religião, preservando-se apenas o batismo e a eucaristia. Destaca-se o fato de Lutero não aceitar o dogma católico da transubstanciação (transformação do pão e vinho em corpo e sangue de Cristo), defendendo apenas a presença do Espírito Santo no pão, isto é, a consubstanciação.

            Carlos V, imperador do Sacro Império Romano Germânico, convocou a Dieta de Worms , onde tentou convencer os príncipes alemães a condenar Martinho Lutero e obter uma retratação do monge, mas não teve sucesso. Estava decretada oficialmente a divisão da Igreja Cristã Ocidental. Nascia o movimento protestante.
            Em 1522, explodiu uma revolta da baixa nobreza alemã contra a Igreja Católica e os grandes senhores feudais. Lutero condenou o movimento e exortou os príncipes alemães a destruí-los.
Em 1524, o pastor Thomas Münzer, seguidor do luteranismo, sublevou os camponeses alemães. Inspirando-se na ideia de que as Sagradas Escrituras não reservavam as terras para os senhores e a Igreja, procurou organizar os mais pobres para tomar as áreas expropriadas. O movimento liderado por Münzer ficou conhecido como “anabatista”, que acreditava que o pastor seria o responsável por implantar o “reino cristão de mil anos”. Os anabatistas também eram milenaristas, isto é, aguardavam o retorno de Jesus que, estando na terra pela segunda vez, instituiria um reino de dez séculos e uma sociedade igualitária.
            Tal revolta também foi condenada por Lutero, referindo-se aos rebeldes como “cães raivosos” e “saqueadores assassinos”. Isso deixava claro seu compromisso com os príncipes que o salvaram da fogueira. O movimento foi esmagado pela alta nobreza, Münzer foi decapitado e milhares de camponeses morreram massacrados.

            Em 1529, o imperador Carlos V convocou a Dieta de Spira, em que propôs aos luteranos a permanência destes no império, desde que, em troca, prometessem não aceitar novos membros. Os luteranos negaram-se e, a partir de então, foram alcunhados de "protestantes".
            Muitos príncipes alemães viram no luteranismo uma oportunidade de tomar as terras da Igreja e destituir o imperador. Começou, assim, uma guerra civil que só chegou ao fim em 1555, com a Paz de Augsburgo, em que o Imperador delegava aos nobres a escolha da religião de seus súditos.

REFORMA NA SUÍÇA

            João Calvino nasceu na França e foi encaminhado à carreira eclesiástica por seu pai, profundamente influenciado pelos eventos liderados por Martinho Lutero e Ulrich Zwingli, o reformador suíço, seguidor de Erasmo de Roterdam, e que perdeu a vida durante uma guerra civil-religiosa em seu país, a Suíça.

            Calvino publicou a obra Instituição da Religião Cristã (1536), em que expôs os fundamentos de sua doutrina. Fixou-se em Genebra, rica cidade de mercadores, e transformou-a em sua "Jerusalém reconstruída", de onde controlava rigidamente os costumes através de suas Ordenações Eclesiásticas e do Consistório, composto por três sacerdotes da cidade e 12 dos mais respeitados burgueses eleitos por um conselho municipal.

            O Consistório regulava a vida dos habitantes com o mesmo rigor da Santa Inquisição. Inclusive, o sábado foi resgatado como o dia mais sagrado da semana, em oposição a católicos e protestantes, que guardam o domingo.
            A Reforma Calvinista foi mais radical que a Luterana, uma vez que aboliu totalmente os ornamentos e imagens e pregava a salvação pela fé baseada na predestinação. Segundo Calvino, o ser humano é pecador e somente a graça divina, manifestada em favor dos eleitos, pode salvar o fiel do inferno. Esse perdão divino poderia vir na forma de prosperidade econômica, que seria atingida pelo indivíduo em seu ramo de trabalho. Dessa forma, Calvino condenava a miséria e a preguiça, enquanto o trabalho era exaltado como meio de acesso ao paraíso.

            Em Genebra, Calvino instalou uma academia destinada à formação de pastores que percorreriam toda a Europa disseminando a nova religião. O alcance foi extraordinário, pois não faltavam cristãos que não viam nenhum mal em acumular capital. Assim, os calvinistas ficaram conhecidos como puritanos na Inglaterra, huguenotes na França, presbiterianos na Escócia, ou simplesmente calvinistas em outras partes do Ocidente. Na França, também eram chamados de protestantes, assim como os luteranos.

REFORMA NA INGLATERRA

            O movimento reformista que ocorreu na Inglaterra precisa ser diferenciado daqueles que o antecederam diretamente. Se antes havia claras divergências doutrinárias entre os preceitos católicos e aqueles pregados por Lutero e Calvino, o caso inglês deve ser visto como um problema no qual os interesses políticos estavam acima dos religiosos.
            O rei inglês, Henrique VIII, era casado com a nobre espanhola Catarina de Aragão, da poderosa Dinastia Habsburgo, cujo sobrinho, Carlos V, era imperador do Sacro Império Romano Germânico. O problema todo se estabeleceu à medida que se constatava a impossibilidade da esposa do monarca em dar à luz um herdeiro masculino. Após seis gestações e uma sucessão de abortos e crianças natimortas, havia apenas uma herdeira, a princesa Mary. Então, o rei decidiu pela separação e pediu ao Papa Clemente VII a anulação de seu casamento.

            Diante da negativa papal a seu pedido de divórcio, Henrique VIII rompeu com a Igreja Católica e fez que o Parlamento aprovasse o Ato de Supremacia (1534), segundo o qual nenhuma lei estabelecida fora da Inglaterra poderia ter validade no reino. Por este ato, o rei seria o chefe supremo da Igreja na Inglaterra, depois batizada com o nome de Anglicana:


Apesar de a Majestade do rei ser e dever ser, devida e legalmente o governo da Igreja da Inglaterra, sendo também reconhecido pelo sacerdócio deste reino em suas convocações, já, todavia, por corroboração e confirmação disso – para o aumento da virtude na religião de Cristo dentro deste reino de Inglaterra e para reprimir e extirpar todos os erros, heresias, e outras atrocidades e abusos até aqui cometidos. Seja promulgado, pela autoridade deste presente Parlamento, que o rei, nosso soberano senhor, seus herdeiros e sucessores; reis deste reino, serão tomados, aceitos, e reputados por única e suprema liderança da Igreja da Inglaterra, em toda a terra, chamada Eclésia (Igreja) Anglicana; e terá e desfrutará – além da coroa imperial do reino – dos títulos  e estilos de todas as honras, dignidades preeminências, jurisdições, privilégios, poderes, imunidades, lucros e mercadorias, que se façam jus a dignidade do supremo líder da dita e referida Igreja. E ainda que nosso soberano senhor, seus herdeiros e sucessores; reis deste reino, deverão ter poder para, de tempos em tempos, averiguar, reprimir, reparar, anotar, ordenar, corrigir, refrear e emendar todos tais erros, já citados a saber heresias, abusos, ofensas, descasos e torpezas quaisquer que sejam; os quais por qualquer razão – seja de autoridade espiritual ou jurisdição – devam ser legalmente reformados, reprimidos, recompostos, reparados, corrigidos, refreados ou emendados, para o deleite do Deus Todo Poderoso, para o aumento da virtude da religião de Cristo e para a conservação da paz, da unidade e tranquilidade deste reino. No mais, qualquer uso, terra estrangeira, autoridade estrangeira, prescrição, ou qualquer coisa contrária a isso não subsistirá.


            Henrique VIII foi excomungado pelo Papa, o que não significou muita coisa, pois o monarca dava demonstrações de ter o pleno controle da situação. O rei inglês, então, casou-se pela segunda vez com uma dama da corte, chamada Ana Bolena, sua amante já de longa data. Além disso,  aproveitou a oportunidade para livrar-se de vez de qualquer tipo de influência externa, principalmente de Roma. Assim, confiscou enorme quantidade de bens e terras da Igreja que estavam na Inglaterra, Escócia e Irlanda.
            Essas medidas fizeram que o Reino Unido tivesse o seguinte panorama religioso: na Inglaterra, a religião oficial era a anglicana, que recebeu o apoio de vários setores da nobreza; a população comerciante inglesa, camponeses e burgueses dividiam-se em calvinistas e uma minoria de católicos. Na Escócia, predominavam presbiterianos (calvinistas), enquanto a Irlanda tornou-se uma ilha católica.

            O anglicanismo preservou muitas semelhanças com a religião católica, como por exemplo a hierarquia eclesiástica, cujo topo era ocupado pelo rei, seguido pelos bispos e depois os padres, os quais não eram obrigados a cumprir o celibato, podendo, portanto, se casar.
O culto substituiu gradativamente o latim pelo inglês e a eucaristia era vista como a presença espiritual de Cristo, sem a mudança de matéria pregada pelo catolicismo. A salvação estava na fé e a Igreja Anglicana seria útil para alcançar esse caminho, tendo ainda a figura dos santos e mártires como exemplos da conduta cristã, mas sem destinar-lhes um culto especial.  

            Catarina e a pequena princesa Maria foram enviadas para a Espanha, já que Henrique VIII providenciara a anulação do casamento. Com a separação, o próximo passo foi buscar uma nova esposa, a qual pudesse gerar um varão e assim assegurar a sucessão do trono. A escolhida foi uma jovem que fazia parte do círculo da corte inglesa: Ana Bolena, mas, ironicamente, Henrique teve com ela uma outra filha, a futura Elisabeth I.

O casamento malogrou em virtude da acusação sofrida por Ana de ser adúltera e atentar contra a vida do rei. Ela foi presa, julgada e condenada à morte. A princesa Elisabeth foi educada longe da corte e sem sofrer nenhum tipo de pressão, pelo menos enquanto o pai esteve vivo.
Foi em seu terceiro casamento que Henrique conseguiu ter o sonhado filho: a nova esposa, Jane de Seymour, dera a luz em 1536 ao futuro rei Eduardo VI, mas Jane não conseguiu sobreviver às complicações do parto, morrendo alguns dias depois. Henrique ainda se casou mais três vezes, não teve mais filhos e acreditava que com o nascimento do varão, o reino estava salvo.


Fonte: Atlas de História Geral – Hilário Franco Jr; Ruy de O. Andrade, Editora Scipione. 


CONTRARREFORMA
           
            Diante das reformas que se multiplicavam por toda a Europa, a Igreja Católica precisava tomar uma atitude. É bem verdade que uma série de movimentações internas já sinalizava com a possibilidade de transformações, mas não há dúvida de que tais medidas foram aceleradas pela iminência de uma conversão em grande escala de católicos para linhas de pensamento protestantes. Assim, o Papa Paulo III convocou o Concílio de Trento (1545-1563), que estabeleceu uma série de determinações.

            Vários princípios foram mantidos ou confirmados, como a presença de Cristo na Eucaristia, a salvação pela fé e pelas obras, os sete sacramentos (batismo, eucaristia, crisma, penitência, unção dos enfermos, matrimônio e ordem), o culto à Virgem Maria e aos santos. Estabeleceu-se também a confirmação da infalibilidade do papa e sua supremacia sobre toda a cristandade. Foi reafirmada a tradição eclesiástica: as interpretações dos padres, papas e Concílios eram reforçadas como fontes de salvação, bem como a Vulgata, tradução latina do texto em grego feita por São Jerônimo no século IV. O celibato clerical foi mantido, mas, para acabar com a gritante ignorância que tomava conta do clero, foram criados os seminários para a formação de sacerdotes.

            Foi elaborado o Index Librorum Prohibitorum (Lista de Livros Proibidos), que nada mais era do que uma relação dos livros que todos os católicos jamais deveriam ler. Finalmente, foi restaurada a Santa Inquisição ou Tribunal do Santo Ofício, ressuscitando a perseguição aos hereges, bruxos, protestantes, judeus, cientistas e todo aquele que tivesse um comportamento incompatível com aquele pregado pela Igreja.

            Para conter a expansão do protestantismo, a Igreja Católica abriu espaço para uma nova ordem religiosa, a Companhia de Jesus, fundada por Inácio de Loyola, nobre de origem espanhola que trocou o exército pelo serviço a Deus, fazendo voto de pobreza e de castidade. A nova ordem foi reconhecida em 1540 pelo Papa Paulo III. Os jesuítas, ou os “soldados de Cristo”, desenvolveram um trabalho de evangelização no norte da Europa, fundando colégios e atraindo os filhos de famílias abastadas, além de expandirem em direção ao Novo Mundo (América) no intuito de cristianizarem os índios, fortalecendo a posição católica nas novas terras colonizadas.