As Ricas Horas do Duque de Berry

As Ricas Horas do Duque de Berry
As Ricas Horas do Duque de Berry. Produção dos irmãos Limbourg - séc. XV. Mês de dezembro

segunda-feira, 30 de maio de 2011

Viajando pelo século XIX com Debret

Uma característica muito comum às pessoas de um modo geral é a curiosidade sobre viagens que nossos amigos e conhecidos realizam e nisso, a presença das imagens é inevitável e em nosso caso, máquinas digitais multiplicam aos milhões a quantidade de imagens que podemos produzir, especialmente pelo fato de não custar nada e se for o caso, podemos selecionar algumas e mandando revelar em papel fotográfico para a organização de um álbum mais tradicional, ou então, a pós-modernidade somada às novas tecnologias nos permitem a formulação de "espaços virtuais" de exposição: sites de relacionamento, murais, blogs e uma miríade de possibilidades.

Mas, como seria no século XIX?

Um gênero muito caro aos amantes da história e das ciências humanas de modo geral foi o relato de viajantes: crônicas que buscavam por no papel aquilo que era mais rico e despertava interesse, especialmente, o exótico, ou seja, aquilo que estava distante de nossos olhos e o viajante possibilitava com seu olhar atento, aproximar o leitor de seu diário de bordo, de suas crônicas ou cartas e assim, "viajar virtualmente" para terras distantes e conhecer suas paisagens e povos tão diversos.

Dentro deste referencial podemos colocar o artista francês Jean-Baptiste Debret (1768-1848) que viveu um período significativo aqui no Brasil, chegando em virtude da Restauração Bourbon que reconduziu Luís XVIII ao trono francês depois da derrota final de Napoleão em 1815 e assim, de 1816 a 1831, Debret esteve neste "país tropical, abençoado por Deus e bonito por natureza..." como cantaria Jorge Benjor.

O papel de Debret para a construção do imaginário brasileiro é primordial, seja em sua época ou nos anos posteriores. Nós, desde a mais tenra idade, tivemos contato com obras de Debret reproduzidas em nossos livros didáticos, mostrando cenas do cotidiano (pessoas e costumes), paisagens (urbanas e rurais) além de personalidades anônimas ou não, como as representações da Família Real (1816-1822) e do I Reinado (1822-1831).

Dentre suas principais referências, podemos citar todo o protocolo e cenografia para as coroações de D.João VI, coroado em 1816, depois da morte de sua mãe D.Maria I, a rainha louca afastada do governo desde 1792 e assim, o Príncipe Regente assumiu "de fato e de direito" o trono do Império português, sendo o primeiro monarca luso a ser coroado fora de Portugal. Com a independência, Debret colaborou para a elaboração da coroação do Imperdaor e Defensor Perpétuo do Brasil, D. Pedro I, seja pela concepção da coroa imperial, da simbologia a ser adotada a partir dali e da própria bandeira imperial:
O verde que provém da Casa de Bragança, a dinastia real portuguesa (1640-1910), afinal, D. Pedro I era filho de D. João VI, herdeiro portanto da coroa lusa, vindo com a morte do pai se tornar o D.Pedro IV de Portugal, que logo abdicou em favor de sua filha mais velha, a futura D.Maria II, a qual foi posta sob a regência de seu tio, D.Miguel e este iniciou uma longa crise política, ao usurpar o trono da sobrinha, tomando a Coroa para si, e com certeza, colaborou com isso em muito para a instabilidade do reinado do irmão neste lado do oceano.

D.Pedro acabou abdicando o trono do Brasil em favor de seu filho Pedro de Alcântara, de apenas 5 anos de idade para partir em 1831 para lutar pela herança de sua primogênita, fazendo com que Portugal caísse numa dificil guerra civil que só se concluiu em 1834, com a derrota e exílio de D.Miguel na Alemanha e a recuperação do trono para D.Maria II.

O amarelo é oriundo da Casa de Habsburgo, dinastia austríaca que entregou a mão da arquiduquesa e princesa Leopoldina de Habsburgo-Lorena para ser a esposa do Príncipe herdeiro em 1817, depois tornou a Imperatriz do Brasil. Em sua comitiva vieram artistas e letrados, como por exemplo, o pintor Johann Moritz Rugendas (1802-1858), outro nome responsável pela elaboração de inúmeras imagem do Brasil Imperial.

Ao centro do losango amarelo temos o brasão imperial: um escudo verde, coberto pela coroa imperial e ladeado por duas ramagens que representavam a riqueza da terra (café e o tabaco) e ao centro do escudo a Cruz da Ordem de Cristo (ordem de cavalaria criada em Portugal pelo rei D. Dinis I, que absorveu os templários portugueses a partir de 1321), cujo Grão-Mestre era o rei de Portugal e seus herdeiros.
Sobre a Cruz está a "esfera armilar", símbolo do mundo, presente na bandeira do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves (1815-1822) que foi mantido, mostrando o vínculo da Casa Imperial com a realeza portuguesa.

Além de atender as demandas da Casa Imperial brasileira, Debret fez parte do grupo de pintores oriundos da França (Missão Francesa) que ajudaram a fundar a Academial Imperial de Belas Artes no Rio de Janeiro que a partir de 1826, começou a formar artistas de acordo com so princípios da produção acadêmica europeia, habilitando a Corte joanina com um amplo repertório de pintores e escultores.

Mas voltando a Debret, seu trabalhou foi posteriomente editado na França em  1834 na edição de Firmin Didot: três volumes da Viagem pitoresca e histórica ao Brasil, que com inúmeras imagens e textos, buscava segundo o próprio Debret, uma visualização discritiva do " caráter e dos hábitos brasílicos".

Para a nossa sorte, há uma importante exposição "Debret, Viagem ao sul do Brasil" na Caixa Cultural São Paulo (Avenida Paulista, 2083 - Conjunto Nacional) que começou em 04/05 e vai até 19/06/2011. Maiores informações: www.caixa.gov.br/caixacultural

O repertório da exposição são cerca de 60 aquarelas que fazem parte da coleção Castro Maya (1894-1968) que buscou mundo afora adquirir e assim, "repatriar" as imagens que se encontravam fora do Brasil, resgatando um pouco de nossa história. Coloco abaixo, alguns exemplos para servir de "aperitivo", pois na condição de reprodução, não superam a riqueza da observação ao vivo da obra original.


 Uma cena de caça: a cidade ao fundo, cercada pelo universo rural que se encontra no primeiro plano e assim, vemos o caçador com a arma em punho, acompanhado de seu cão e de seu escravo, que carrega as preciosas presas, enquanto um outro montado à cavalo fica esperando. Os chapéus de abas largas para proteger do sol, as pesadas capas e botas dos senhores contrastam com a crueza dos pés descalsos do escravo, uma marca patente de sua condição.
A paisagem se coloca em larga variedade com árvores, arbustos, ramagens e relvas de variada disposição, ocupando a grande parte do espaço da imagem, sendo os personagens acima citados, um detalhe em movimento ao meio de tamanha estaticidade, seja do mato, seja da cidade, sonolenta e pacata ao fundo.




A cidade vista do mar, especialmente, do convés do navio, tendo a moldura do céu e das montanhas, destacanso-se alguns barcos próximos do cais, o casario aglomerado e a igreja matriz como referência principal, ocupando o alto da pequena colina.



Mais uma vez, a relação senhorial se manifesta no cotidiano, onde o escravo carrega ou descarrega as mercadorias de seu senhor, um tropeiro que aparentemente se prepara para uma nova viagem ou para um descanso, depois da chegada. A dúvida se faz tanto pelo fato do tropeiro trazer nas mãos as esporas e capa, quanto pelo fato dos burros atrás do muro estarem presos no curral, impossibilitando identificar se estão atrelados para sair ou sendo postos em descanso.
Aliás, descansando está o homem de chapelão, acocorado no canto, enquanto a cena de trabalho braçal ali é exercida pelo escravo, sob às vistas de seu dono.

Ficou curioso? Debret está lhe esperando na Avenida Paulista!!

sexta-feira, 27 de maio de 2011

Entrevista sobre a História do Cristianismo

Abaixo segue uma entrevista que eu dei em 18 de outubro de 2009 para um portal de informações chamado JE Informa. Pelo que constatei, infelizmente está fora do ar. O tema foi a história do Cristianismo e serve como um "resumo", abrindo espaço para outras discussões.

Boa leitura!!


DOMINGO, 18 DE OUTUBRO DE 2009


Entrevista - Elias Feitosa de Amorim Jr

Entrevista - Elias Feitosa de Amorim Jr.



Formado pela USP e Coordenador Cultural do Cursinho da Poli, em São Paulo, o historiador Elias Feitosa de Amorim Jr, em entrevista ao JE Informa, conta a história da Igreja Católica Romana.

Por Evelyn Cusnier
evelyn.cusnier@jeinforma.com
do JE em São Paulo


JE Informa- Como e onde surgiu a Igreja Católica Romana?

Elias Feitosa de Amorim Jr - A Igreja Católica Romana tem sua doutrina estruturada a partir dos ensinamentos de Jesus Cristo, os quais se encontram nos Evangelhos e integram junto com outros textos, o Novo Testamento que se somou ao Velho Testamento, este vindo da tradição judaica.

Após a morte de Jesus, por volta do ano 30 da era cristã, seus discípulos (os apóstolos) iniciaram um processo de divulgação da doutrina, seguindo as palavras de Jesus, segundo o Evangelho de Marcos: “Ide por todo o mundo, proclamai o Evangelho a toda criatura.”(Mc 16:15), sendo que aqueles que se converteram começaram a se organizar em pequenas comunidades (eklesia em grego significa assembleia e daí deriva a palavra Igreja), as quais foram perseguidas pelos romanos por mais de trezentos anos e esse momento infeliz gerou inúmeros massacres daqueles que foram se denominando cristãos.

Jesus é a forma latina de Yeshua ben Josef, que em hebraico significa Jesus, filho de José, sendo que Jesus se apresenta como o Messias, palavra que vem do hebraico massiah e significa Salvador. Como os Evangelhos foram escritos em grego, encontraremos a expressão Jesus Cristo, que vem de Christós e significa Salvador nesta língua.

Algumas pessoas acham estranho o fato dos Evangelhos e outros textos do Novo Testamento terem sido escritos em grego e não em hebraico ou aramaico, que eram as línguas faladas entre os habitantes da Judéia naquela época. No entanto, temos que observar a extensão da mensagem, isto é, a língua grega era a língua universal na região do Oriente Próximo em virtude da herança deixada pelo conquistador Alexandre Magno, o qual dominou a região e levou a cultura grega para lá, a qual se manteve mesmo com a dominação romana. Numa visão mais simples, poderíamos dizer que, de certa forma, o grego tinha o mesmo peso que o inglês tem hoje em nossa época, guardado as devidas proporções de cada momento.

Por fim, a origem da expressão Igreja Católica tem seu contexto na palavra grega kathólikos e significa “universal”, isto é, sem limites de fronteiras, domínios ou reinos e está presente onde o fiel estiver presente, proclamando a doutrina de Jesus.

Historicamente, o conceito de universalidade começou a se estruturar no século XI em virtude das disputas entre o poder temporal, representado pelo Sacro Império Germânico que se entendia como herdeiro do extinto Império Romano Ocidental e o poder espiritual representado pelo papa, líder da Igreja Cristã.

Mas, podemos apontar a ruptura entre os cristãos orientais e ocidentais como uma das principais tensões políticas dentro da Igreja Cristã, pois em 1054, os cristãos do oriente romperam com Roma e passaram a seguir o Patriarca de Constantinopla como seu líder, renegando a doutrina romana e a autoridade papal, denominando-se a partir de então Igreja Católica Apostólica Ortodoxa e aqueles que seguiam a doutrina e o papa em Roma ficaram como conhecidos Igreja Católica Apostólica Romana.

JE - No princípio da Igreja quais eram seus dogmas e objetivos?

O objetivo da Igreja Católica Romana é o mesmo até hoje: pregar a doutrina cristã pelo mundo, levando a Salvação a todos os homens. Dogma significa verdade absoluta revelada pelo poder divino e assim é incontestável. Podemos destacar o Dogma da Santíssima Trindade (Pai, Filho e Espírito Santo) e o Dogma da Transubstanciação (no momento da Eucaristia, o pão se transforma em carne e o vinho em sangue).

JE - O Imperador Constantino foi o primeiro imperador romano a se converter ao cristianismo, neste caso o cristianismo é o catolicismo?

O imperador Constantino concedeu liberdade de culto aos cristãos e a todos os demais habitantes do império a partir do Édito de Milão em 313 d.C., garantindo assim a livre escolha da fé aos seus súditos, marcando um momento de paz com o fim das perseguições aos cristãos e a consequente proteção destes pelo poder imperial, mas não quer dizer que o cristianismo havia se tornado a religião oficial do Império, fato que ocorreu depois com o imperador Teodósio através do Édito de Tessalônica em 391 d.C.

Voltando ao Constantino, de fato ele foi o primeiro imperador que se converteu ao cristianismo e naquele momento, não se utilizava a denominação catolicismo. A conversão de Constantino é cercada de lendas, dentre elas, a promessa que teria feito ao “deus cristão” que se vencesse seu rival Maxêmio na Batalha de Ponte Mílvia.

O relato diz que ao se direcionar para o conflito, teria visto no céu uma Cruz, acompanhada da inscrição em latim “In hoc signo vinces”, que quer dizer, “Com este sinal vencerás”. Constantino adotou o símbolo visto para o seu exército, venceu a batalha e se converteu, em seguida, foi tomando medidas que amparavam os cristãos como a devolução de bens confiscados.

JE - Em que momento da história a Igreja Romana tornou-se detentora de bens?

Constantino fez doações à Igreja, mandou construir a 1ª basílica de São Pedro que fora substituída pela atual a partir da sua demolição e reconstrução em 1508. Quanto aos territórios, o rei franco Pepino, o Breve (751-771) venceu a tribo pagã dos lombardos e concedeu os territórios dos vencidos à Igreja e nesse contexto teria gerado uma farsa referente aos outros territórios, em virtude da confirmação de um documento chamado “Doação de Constantino”, o qual garantia a posse de terras na Itália e no Ocidente. Somente no século XV, a falsidade do documento foi descoberta por um letrado italiano chamado Lorenzo Valla, mas mesmo assim, as terras não foram devolvidas.

A mudança mais significativa foi com a Unificação italiana em 1871, quando os territórios da Igreja foram conquistados pelas tropas do rei Vitório Emanuel I, que era o rei do Piemonte e Sardenha e tendo derrubado a ocupação austríaca e francesa da península, se tornou o rei da Itália inteira. O papado formalmente não reconheceu esta situação, sendo que o papa Pio IX se considerava um “prisioneiro em Roma”.

Tal situação só foi resolvida com o Tratado de Latrão que criou o Estado do Vaticano em 1929, quando o ditador fascista Benito Mussolini concedeu o controle do antigo bairro cristão do vaticano, lugar onde estava a basílica de São Pedro e outras importantes construções da Igreja para a exclusiva autoridade do papal, o qual se tornaria o Chefe de Estado deste território, uma monarquia teocrática já que seu governante é visto como o “representante de Deus na Terra”.

JE - Qual foi a primeira aliança feita entre a Igreja e o Estado?

A partir do Édito de Tessalônica, houve uma sensível aproximação dos interesses do Império e da Igreja e mesmo com a divisão do império, as invasões bárbaras e a formação de novos reinos na Idade Média, a presença da Igreja Católica Romana junto aos assuntos políticos de diferentes lugares foi intensa. No entanto, fica difícil precisar qual teria sido a “primeira aliança”.

JE - Quando a Igreja começa a se expandir e se tornar uma religião popular?

A popularização do cristianismo vem desde a figura de Jesus e se expandiu ao longo dos séculos, com mais abertura num lugar, menos noutro, aceitação ou perseguição e várias disputas pelo entendimento do que seria a verdadeira fé ensinada por Jesus e daí, as disputas políticas, doutrinárias e as rupturas que conhecemos ao longo da história.

JE - Na sua opinião o fim do Império Romano e a Igreja assumir o papel das instituições públicas foi o motivo para o surgimento de fortes denúncias de corrupções?

A corrupção é uma falha do ser humano, portanto, qualquer instituição organizada pelo homem, independentemente de sua natureza, pode ter indivíduos que sejam corruptores e outros que por sua vez sejam corruptíveis. Ao analisar as denúncias em relação aos crimes cometidos por membros do clero, os fatores são vários e não podem ser tratados de maneira genérica. Todos os erros e abusos de poder não têm justificativas, mas não se pode criar um rótulo que “100% sejam corruptos e descomprometidos”, pois existiram e existem pessoas compromissadas com a doutrina cristã.

JE - Quem foi o primeiro papa?

Segundo a tradição cristã presente nos Evangelhos: “Tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei minha igreja" (Mt 16:17-19) e assim atribuiu-se a Pedro a condição de 1º bispo de Roma e chefe da Igreja ( Sumo Pontífice) e posteriormente adotou-se o título papa( do latim papam, termo usado pelo imperador Teodósio) , cuja autoridade é respeitada em todo mundo católico romano.

JE - Você acha que a contra-reforma purificou a Igreja?

A Reforma protestante representou uma grande perda de terras, fiéis e impostos para a Igreja Católica, a qual precisou tomar uma série de medidas para a contenção deste processo e de sua recuperação, fenômeno que ficou conhecido como Contra-reforma.

A primeira medida foi a convocação do Concílio de Trento entre 1545 e 1563 com o objetivo de reorganizar a Igreja e estabelecer medidas a serem adotadas naquela situação de “guerra pelos rebanhos”. O concílio reafirmou os dogmas e teve como principais decisões a Reorganização do catecismo para o ensinamento da doutrina católica, a proibição da venda indulgências, a fundação de seminários para a educação e formação dos padres, a criação do Index Librorum prohibitorum [Lista dos livros proibidos] o fortalecimento do Tribunal da Santa Inquisição.

Dentro deste contexto, ocorreu o surgimento da Companhia de Jesus, fundada pelo basco Inácio de Loyola em 1534 , sendo uma organização religiosa de caráter militar com o controle das instituições de ensino na Europa, desempenhando o papel de braço armado da Igreja no Velho e Novo Mundo.

JE - A Idade Média é conhecida por muitos como período das trevas por ter estacionado em algumas áreas, o teocentrismo contribuiu para que não houvesse avanço em algumas partes da ciência?

Foi durante o Renascimento, termo vindo da palavra italiana renascitá, pois acreditava-se que o período anterior, a Idade Média, fora uma " espessa e longa noite gótica" imersa nas trevas e desprovida de cultura. Para os homens do século XV e XVI, a "verdadeira" cultura encontrava-se na Antiguidade, a qual foi banida e em seu lugar a Igreja estabeleceu o teocentrismo. O saber, portanto, encontrava-se nas artes e nos escritos clássicos.

A Igreja Católica deteve o monopólio cultural na Idade Média, tornando-se a guardiã do conhecimento no intuito de preservar seus interesses e garantir sua posição como incontestável. Dessa forma, incentivou a produção cultural que favorecesse seus objetivos, principalmente a reafirmação de seus dogmas e a supremacia do papado.

Um dos principais centros de cultura durante a Alta Idade Média foram os mosteiros e abadias, como os mosteiros de Cluny e Císter, os quais influenciaram muitos outros .Nestes locais realizavam-se estudos sobre a Bíblia, cópia de textos em pergaminhos e livros como também sua decoração com iluminuras. Outro importante trabalho dos monges eram as traduções de textos dos pensadores da Antigüidade, como Aristóteles, Platão, Sócrates, entre outros.

Durante os séculos XVIII e XIX, a imagem da “Idade das Trevas” foi fortalecida e prevaleceu até últimos 30 anos, quando medievalistas de vários países começaram a apresentar um conhecimento menos estigmatizado sobre o período medieval e principalmente, mostrar que houve muita cultura e desenvolvimento, os quais são utilizados até hoje, como por exemplo, as Universidades.

JE - Como eram usadas as indulgências e para que serviam?

As indulgências consistiam na venda de perdão dos pecados, tanto daqueles que estavam vivos como daqueles que estavam mortos e as almas destes “poderiam assim deixar o Purgatório e rumar para o Paraíso”. O objetivo de sua venda era arrecadar recursos para a igreja, como por exemplo, a construção da Basílica de são Pedro a partir de 1508, mas não temos como provar o real direcionamento destes recursos, que podem muitas vezes, terem sidos desviados para outros fins.

JE - Como a Igreja conseguiu restituir a imagem agressiva que deixou no passado voltando a ter credibilidade?

Desde o século XVIII com a Revolução Francesa e sua influência, o sentimento anti-clerical se espalhou por várias partes da Europa, enfraquecendo o poder da Igreja gradativamente. No século XIX, a perda de poder chegou aos países tradicionalmente católicos como Portugal, Espanha e Itália e ao mesmo tempo com as independências das colônias na América, houve também uma gradativa redução do poder que outrora a instituição teve.

Pode-se dizer que depois da II Guerra Mundial (1939-45), o papado procurou assumir uma postura muito mais interessada nos valores cristãos, condenando os abusos e desmandos, mas nem sempre foi uma atitude homogênea, pois o papa Pio XII(1939-59) ainda foi e é muito criticado pelo seu silêncio em relação às atrocidades nazistas. No entanto, outros dirigentes como João XXIII(1959-63), Paulo VI(1963-79) e João Paulo II(1979-2005) procuraram impor em seu discurso uma intensa defesa da cristandade e dos valores humanitários e reduziram em muito a postura intolerante do clero católico quanto às outras crenças, abrindo caminho para uma aproximação com diferentes religiões.

JE - Como você vê a atuação da Igreja no passado, as cruzadas, a inquisição, o index-lista de livros proibidos e pagamentos de indulgências. Existem pontos positivos da Igreja Ancestral que muitos desconhecem?

É inegável que a Igreja Católica cometeu erros, muitos de grande gravidade, porém os erros do passado não podem ser a única e exclusiva referência que devemos ter da instituição. A História serve justamente para tomarmos o conhecimento de tais eventos, dentro de um determinado processo histórico e naquele contexto, buscar a sua compreensão e nem por isso vamos deixar de lado e falar que “mas isso foi no passado e não vamos mais falar no assunto”.

A Igreja Católica Romana foi responsável por uma imensa contribuição artística, basta observarmos seus templos, museus e bibliotecas, bem como a cultura produzida em diferentes campos como a filosofia, pedagogia, música, matemática, entre outras áreas do saber.

A instituição “Igreja Católica Romana” pode ter cometido muitos erros no passado, mas apesar disso, centenas de pessoas ao longo dos séculos, dedicaram sua vida em ajudar o próximo, dentro do exemplo deixado por Jesus, fazendo que pobres tivessem assistência, doentes tivessem cuidado e que o bem fosse preservado, mesmo que representasse entregar a própria vida e não foram poucos que o fizeram.

quinta-feira, 26 de maio de 2011

Cristianismo: da fé dos oprimidos à religião dos opressores

Atualmente é difícil imaginar um mundo sem a existência do cristianismo, uma religião com mais de 1 bilhão de fiéis espalhados pelo mundo, cujos valores ajudaram a formar aquilo que se entende por mundo “ocidental”. No entanto, em seus dois milênios de existência, a história do cristianismo foi marcada por discussões e disputas dos fiéis entre si, destes últimos com os “não-fiéis” (gentios), que tanto de um lado como outro, resultaram em divisões, rupturas, guerras, massacres. Enfim, todos disputavam o controle absoluto sobre a doutrina deixada por um humilde homem, da cidade de Nazaré na Galiléia, tendo como mensagem principal “Amar a Deus sobre todas as coisas e amar o próximo como a ti mesmo”.

O Império Romano no máximo de sua expansão no século II d.C.


Trezentos anos de perseguição se seguiram entre a morte de Jesus e a liberdade de culto concedida pelo imperador romano Constantino com o Édito de Milão no ano de 313, pois os seguidores de Jesus eram vistos como uma ameaça ao Império já que negavam a divindade do imperador e os deuses e se colocavam como seguidores daquele que se apresentou como filho do único Deus.

Mesmo com as perseguições, o cristianismo não deixou de crescer num processo que começou na base da sociedade romana e gradativamente foi atingindo os mais diferentes grupos sociais. Muitos se diziam praticante do culto aos deuses romanos e ao imperador, mas secretamente em suas casas ou na escuridão das catacumbas (cemitérios subterrâneos) realizavam o culto cristão, procurando escapar dos massacres, crucificações, das arenas para serem queimados vivos ou devorados pelos leões.

Ao longo do século IV, o movimento de difusão do cristianismo foi cada vez maior e sem o temor das perseguições e com a proteção dos imperadores, seja na manutenção da liberdade de culto, seja nas doações para a construção dos primeiros santuários. No ano de 391, o imperador romano Teodósio através do Édito de Tessalônica estabeleceu o Cristianismo como religião oficial de todo o Império Romano e tornou proibido o culto aos deuses de outros povos sob a ameaça de prisão e confisco de bens.

A adoção do cristianismo como religião oficial representou mais um passo importante na construção daquilo que entendemos hoje por “igreja”, uma palavra derivada do termo grego Eclésia e significa assembléia, conjunto, grupo. A evangelização foi um fenômeno muito lento e gradual, da mesma forma que a organização da chamada Igreja Cristã. Cada comunidade tinha um líder, o qual era denominado episcópos (bispo) e tinha a autoridade máxima sobre os fiéis, mas nesse período, além de ser um líder religioso, o bispo era também um conselheiro político e chefe militar preocupado com a manutenção das comunidades cristã e se fosse o caso da defesa das mesmas.

Destacaram-se nesse contexto de formação alguns destes religiosos, tais como: o bispo Ambrósio de Milão (340-397) importante conselheiro e crítico do imperador Teodósio e também comentador dos textos bíblicos; Agostinho de Hipona (395-430) batizado por Ambrósio, responsável por uma vasta obra teológica; Eusébio Sofrônio, dito Jerônimo (340-420) que organizou a Vulgata, traduzindo a Bíblia do hebraico (Antigo Testamento) e grego (Novo Testamento) para o latim por volta do ano 400. Todos foram posteriormente canonizados, sendo considerados santos, além de doutores da Igreja por fundamentarem a doutrina cristã.

Os séculos IV e V foram o momento de desestabilização e crise do Império Romano, dividido em duas partes pelo imperador Teodósio por volta de 395 e pressionado por inúmeras tribos que viviam nas suas fronteiras (não tão sólidas e seguras) como de regiões mais distantes do norte da Europa e da Ásia Central e do Leste. O império ocidental agonizava, seja pela ruralização e crise econômica crescente desde o século III, seja pelos ataques e invasões de povos que os romanos chamavam de “bárbaros”, já que não possuíam aquilo que os romanos entendiam por civilização.

Com a queda do Império Romano ocidental em 476 e sua desorganização, um novo contexto se formou: os territórios foram partilhados (nem sempre de modo pacífico) entre as tribos germânicas, nórdicas e asiáticas que se estabeleceram na Europa Ocidental, dando origem a pequenos reinos.

Mas nem tudo que era romano desapareceu, pelo contrário a Igreja cristã sobreviveu e seria o principal referencial das tradições e costumes romanos, os quais foram agregados em parte pelos novos senhores da Europa ocidental: os bispos atuaram como conselheiros e ministros dos reis convertidos; a tradição oral das tribos foi gradativamente substituída pela escrita e a língua latina como seu principal vetor na organização das leis e com os avanços na evangelização, novas igrejas eram construídas e comunidades eram fundadas como, por exemplo, os mosteiros e abadias, destacando-se nesse processo, Bento de Núrsia (480-547) que organizou a primeira ordem de monges em Monte Cassino no norte da Itália.

O modelo de vida monástica tinha como referência a vida do próprio Cristo, exaltando a pobreza, a castidade e a obediência. Bento de Núrsia estabeleceu esses princípios numa Regra disciplinar, a qual se tornou posteriormente uma referência para outras comunidades e ordens religiosas, que pode ser resumida na expressão “Ora et Labora”, isto é, oração e trabalho.

No entanto, cabe a pergunta: em que termo ocorreu essa evangelização?
Não é possível pensar num processo imediato e rápido, mas como algo lento e gradual que precisou incorporar elementos da cultura tida por bárbara para que os resultados fossem efetivos. Por exemplo, a construção de igrejas sobre antigos lugares de culto não-cristão (templos, árvores ou fontes sagradas) para os diferentes povos, bem como a fusão das festividades ou rituais e nesse caso, a comemoração do nascimento de Cristo é lapidar.

A data de 25 de dezembro foi ajustada para corresponder a festa do solstício de inverno, ou seja, a entrada do inverno no hemisfério norte, na qual se cultuava o sol (Solis Invictus, Sol Invencível em latim). Ao se comemorar conjuntamente a Natividade de Jesus e a festa do Sol, os padres foram criando uma intimidade maior dos chamados pagãos com os costumes cristãos e ao longo de alguns séculos, a cristianização se efetivou. Num lugar onde houvesse o culto de uma deusa Mãe ou da Terra, transformava-se numa igreja dedicada à Virgem Maria, como muitas catedrais em diferentes partes da Europa. Ou então, o calendário que foi organizado pela Igreja em 394, tendo o marco o nascimento de Jesus e não mais a contagem das Olimpíadas ou a fundação de Roma, sendo que os jogos foram banidos pela Igreja por representarem adoração aos deuses pagãos.
Imagem de Cristo relacionado ao Sol


Cristos Hélios: tal qual Apolo aparece guiando o carro solar

Por outro lado, a cristianização construiu uma idéia de “Mal”, influenciada pela cultura judaica a partir do anjo caído Satã e de outros elementos que se faziam presentes como a tentação das fraquezas humanas a partir de um “ser maligno” ardiloso responsável pelos pecados. Nesse contexto, por exemplo, o “deus celta chifrudo Kernunnos” relacionado com a abundância passou a tomar a correspondência do Mal e daí uma possível aproximação com a imagem do diabo: chifrudo, feio, de corpo de bode e fedor de enxofre.

Pode-se dizer que o cristianismo não nasceu formado de uma matriz única, mas se constituiu como uma religião agregadora de diferentes elementos culturais para a sua organização e que possibilitou não só sua articulação dentro das novas esferas do poder do Império Romano do Ocidente e depois na Europa feudal, mas também da construção de uma visão de mundo e de uma conduta ética que seria o fio condutor daquilo que entendemos por “civilização ocidental”, sem deixar de lado as disputas de influência e poder sobre os espíritos e corpos, para não dizer, bens materiais dos seus fiéis, dilatando-se junto com a expansão europeia  a partir do século XV para diferentes partes do planeta e infelizmente, servindo de justificativa para ações dominadoras ou ditas civilizatórias, mas que na verdade, apenas serviam de pretexto para formas distintas  e vis de dominação.

O calendário e as heranças pagãs

As denominações dos dias da semana na língua portuguesa remontam à influência da cultura judaico-cristã e em especial à conversão ao cristianismo.
A expressão “feira” tem origem no latim feriae que significa “festa” e daí, feriado (dia de festa). Esta referência vem da Páscoa judaica que comemorava os sete dias da semana, ou seja, sete festas. A palavra Sábado vem shabat, o dia de descanso dos judeus e Domingo tem origem em Dies domini , Dia do Senhor, apesar de que inicialmente os cristãos tinham o sábado como dia sagrado, mas para apresentar um distinção da tradição judaica, elegeram o domingo e assim, quando vemos a nomenclatura dos dias da semana na língua portuguesa, observamos que a conversão foi efetiva, já nas outras línguas latinas (italiano, francês e espanhol) a herança pagã é bem visível, assim como nas línguas anglo-saxãs (alemão e inglês).


Português
Espanhol
Francês
Italiano
Inglês
Alemão

Segunda

Feira

Lunes

Lundi
Lunedi
Monday
Montag
Dia da Lua

Terça

Feira
Martes
Mardi
Martedi
Tuesday

Tiwas

Dienstag
Tiwas
Dia de Marte

Quarta

Feira
Miércoles
Mercredi
Mercoledi

Wednesday

Odin

Mittwoch
Wothan
Dia de Mercúrio
Quinta-Feira
Jueves
Jeudi
Giovedi
Thursday

Thor

Donnerstag
Thor
 Dia de Júpiter

Sexta

Feira
Viernes
Vendredi
Venerdi
Friday

Freya

Freitag
Freya
Dia de
Vênus

Sábado


Sábado
Samedi
Sabato
Saturday
Samstag
Nornes
Dia de Saturno

Domingo

Domingo
Dimanche
Domenica
Sunday
Sonntag

Balder

Dia do Sol

Ócio, cidadania e arte

Nos tempos anuais, a prática da cidadania está associada a uma relação de direitos e deveres que os cidadãos têm dentro de uma comunidade, desde que nela esteja em vigência o Estado de Direito, situação em que o cidadão tem suas liberdades e direitos assegurados pela Constituição, um modelo que tem sua origem nos ideais liberais do século XVIII, dentro do pensamento iluminista que criou as bases para o nosso atual modelo de sociedade.

A inspiração do modelo iluminista foi retirada do mundo antigo, mas com algumas alterações significativas, pois o princípio do igualitarismo era muito restrito na pólis grega ou em Roma e justamente os parâmetros da igualdade foram os responsáveis para a formulação da sociedade liberal que teve a burguesia como sua articuladora e que também ansiava em tomar o poder político.

Dentre os pensadores gregos, Aristóteles (384-322 a.C.) apontou significativas diferenças entre o cidadão e o homem livre que precisava trabalhar:

A perfeição do cidadão não qualifica o homem livre, mas só aquele que é isento das tarefas necessárias das quais se incumbem servos, artesãos e trabalhadores não especializados; estes últimos não serão cidadãos, se a constituição conceder os cargos públicos à virtude e ao mérito, pois não se pode praticar a virtude levando-se uma vida de um trabalhador braçal.

Para Aristóteles, a prática da cidadania estava diretamente relacionada com o ócio, ou seja, a disponibilidade de tempo para se entregar completamente aos negócios públicos, que o filósofo denominou como “virtude”. Dessa forma, o trabalho era visto como indigno, como algo que desmerecia o homem, enquanto o tempo livre daqueles que não precisavam trabalhar era um motivo distinção, de supremacia.

Ao analisarmos as palavras de Aristóteles, percebemos que mesmo entre homens livres, o fato de trabalhar ou não era um dado marcante para a vida social do mundo grego e que no caso dos homens livres mais pobres, a participação política foi mais sustentável durante o contexto do século V a.C., quando Péricles estendeu a participação aos trabalhadores através do pagamento de salário, podendo assim deixar seus afazeres para participarem da Assembleia.

Na época de Aristóteles, a Hélade já era um domínio macedônico, não havia mais a democracia, sendo que as cidades-Estado estavam submetidas ao controle de Alexandre Magno, dessa forma, o poder do cidadão estava limitado, com poucas instâncias de ação, dentre elas, a possibilidade da assembléia reunida exercer o papel de juiz como no documento abaixo, citado por Paul Veyne*, estudioso especializado nos estudos gregos:

Num processo em que era acusado e a multidão ateniense atuava como juiz, Demóstenes [orador político, 384-322 a.C.] jogou na cara do adversário [também um orador político] as seguintes críticas: “Sou melhor que Esquines e mais bem nascido; não gostaria de dar a impressão de insultar a pobreza, mas devo dizer que meu quinhão foi, quando criança, frequentar boas escolas e ter bastante fortuna para que a necessidade não me obrigasse a trabalhos vergonhosos. Tu, Esquines, foi teu destino, quando criança, varreres como um escravo a sala de aula onde teu pai lecionava.” Demóstenes ganhou triunfalmente o processo.

Esquines era um homem livre, de condição humilde, filho de um professor e que segundo aponta o fragmento, ajudou o pai com pequenos serviços, enquanto ele ensinava aos filhos de abastados senhores, fazendo com que o conhecimento se tornasse ainda mais raro e seleto para aqueles que o detinham e muito mais distante para aqueles que não possuíam tempo, ou melhor dizendo, não tinham recursos para se afastar do trabalho e saborear os benefícios de gozar o ócio e de se afirmar enquanto agente influente no sua cidade.

O ócio era a chave para ser considerado um homem na plenitude de suas ações, enquanto o trabalho afastava o homem livre dessa condição, aproximando-o da situação mais vil: a escravidão. A honra e a distinção estavam intimamente ligadas ao poder que o tempo livre concedia àqueles que queriam receber conhecimentos e deles se valer para exercer o poder, algo que foi conservado durante muitos séculos e somente no último século vem sendo modificado, de modo mais ou menos rápido, dependendo da civilização que analisemos.

Um dado de grande importância ao analisarmos o valor do ócio é pensarmos a relação existente entre a produção artística e o tempo que o artista tinha para tanto e nesse caso, no mundo antigo, este artista poderia ser u homem livre que trabalhava com um grupo de homens lhe ajudando, os quais poderiam ser também livres ou escravos e dessa forma, mesmo produzindo aquilo que chamamos hoje de “obras de arte”, sua condição não era vista como positiva.

A arte sempre necessitou do ócio para existir e durante o início do Império Romano, temos a figura de Gaius Maecenas ou Caio Mecenas (74?-8 a.C.), um rico romano amigo e conselheiro do imperador romano Otávio Augusto, que foi responsável pelo patrocínio a vários artistas de sua época, tais como Virgílio e Horácio, que lhe dedicaram vários versos em seus poemas e assim, posteriormente, passou-se a associar a um patrocinador das artes a denominação de “mecenas” e daí derivou a ideia do mecenato, ou seja, a encomenda de obras os artistas, os quais recebiam quantias em dinheiro ao longo da produção do “trabalho encomendado”, podendo portanto, se dedicar exclusivamente às artes, as quais se transformaram num modo de vida, um ofício.

Nos tempos modernos, o artista que não dispunha de um mecenas (fosse um nobre, a Igreja, a Coroa ou alguém abastado) tinha que ter um emprego “mais convencional” que lhe garantisse o sustento e nas horas vagas, buscava dedicar-se às artes. Para aqueles que conseguiam um emprego como artista da Corte a situação era um pouco mais equilibrada, assim, o Estado através dos recursos públicos buscava contratar artistas para exercerem exclusivamente suas atividades na elaboração de monumentos, pinturas, esculturas, músicas e apresentações de concertos, produzindo textos ou até mesmo, atuando nos cerimoniais para a elaboração de festas e eventos governamentais.

Atualmente a produção da arte e a sobrevivência material do artista continuam a ser dilemas para a reflexão da sociedade atual, que ampliou de modo significativo as formas de patrocínio que permitam a dedicação exclusiva para a arte, mas ainda não se garante esta condição a todos, seja em termos de patrocínio governamental (bolsas de estudos, prêmios, isenções fiscais), seja no complexo mercado das artes, onde os critérios de valor aplicados sobre o trabalho de um artista são muitas vezes questionáveis, especialmente por questões subjetivas de galeristas e marchands (negociador de obras de arte), que nem sempre são acompanhadas por valores éticos.

Se o ócio permitiu a elaboração de conhecimento em diferentes áreas, além da própria produção das artes, porque temos que lidar ainda hoje com precárias verbas para os segmentos culturais? Uma questão de difícil resposta que poderia ter como esboço inicial a citação de Sigmund Freud (1856-1939), pois entre seus estudos condicionou de uma maneira muita clara que “o conhecimento traz o poder” e esta frase pode ser levada para as mais diferentes esferas, do homem em relação a si próprio, aos seus semelhantes ou ao mundo de um modo geral.

Hoje, o acesso ao conhecimento está muito mais dinâmico e facilitado, mas a relação com o conhecimento ainda tem características dos tempos remotos: o tempo para estudar continua sendo precioso, mesmo que existam cursos noturnos em escolas e universidades para atender quem trabalha ou ainda, bolsas que permitam o financiamento dos estudos, não há como deixar de dedicar uma parcela de tempo para o desenvolvimento da formação do cidadão, que vem buscando cada vez mais condições para ter uma melhorá-la e assim gozar de uma vida mais estável e mais justa.

(*) Os dois documentos se encontram em VEYNE, Paul (org.). História da vida privada: do Império Romano ao ano mil, v. I. São Paulo: Companhia das Letras, 2007, 19ªedição.

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Areia e sangue: das arenas para o cinema

O cinema é uma forma de arte, alias, é conhecido como a “Sétima Arte”. A arte das imagens em movimento, que, acompanhadas de um trabalho dedicado com som, fotografia, figurino, roteiro e obviamente, a ação dos atores guiados pelo olhar do diretor, a transformam numa forma de expressão própria que dialoga bem com outras estéticas, mas não as substitui.
Existem excelentes adaptações de obras literárias para o cinema, mas que mesmo assim, não substituem o contato do espectador com o texto original ou às vezes, algumas produções cinematográficas que seguem caminhos distintos do texto original, mas aqui, o limite entre a licença poética do roteirista e do diretor com a obra do escritor se estabelece dentro de um universo pantanoso, repleto de brumas, uma vez que não há uma regra, um parâmetro que ofereça sucesso garantido e em alguns casos, sacrifica-se o livro para produzir um filme de "grande sucesso de bilheteria" e nesses casos, a História e a Literatura já foram muitas vezes massacradas.
Dentre os vários períodos históricos, a Antiguidade tem sido bastante explorada, gerando excelentes produções ou então algumas de gosto e qualidade que educadamente podemos chamar de “duvidosos”.
Da literatura o cinema tomou a expressão “épico” que provém da epopéia, que segundo Emil Staiger, em seu trabalho Conceitos Fundamentais da Poética, coloca o leitor como alguém que acompanha o percurso do heroi, com suas aventuras, lutas e tensões e assim, no cinema, o heroi é o protagonista do filme, aquele pelo qual o público acompanhará passo a passo, numa torcida desenfreada pelo seu sucesso, que nem sempre ocorre, dependendo do personagem abordado ou do filem que é produzido, pois alguns diretores preferem retratar um anti-herói ou então, um personagem secundário pode roubar a cena do protagonista e assim, o mais importante é assistir o filme.
Dentre meus preferidos, posso mencionar dois que se colocam em contextos de produção bem distintos: o Spartacus de Stanley Kubrick de 1960 e o Gladiador de Ridley Scott de 2000. Há entre eles um abismo de 40 anos, além de questões históricas distintas, tanto no que diz respeito à época em que foram produzidos, quanto ao período que evocam, mas ambos se unem no empunhar de um gládio por um herói que, nas arenas ou fora, delas buscava defender seus ideais.

Spartacus existiu, viveu no fim da República romana e se trata de um dos maiores inimigos que Roma tinha até então enfrentado dentro de seu território, pois sua revolta, acompanhada pela libertação de outros escravos numa proporção sem precedentes (falamos em 20.000 escravos) que chegou a ameaçar de modo consistente o poder romano e teve que ser sufocado, alias, com muita dificuldade em 71 a.C. pelas tropas do general Crasso, responsável pela sua crucificação (morte cruel e lenta destinada aos ladrões e subversivos) e de seus 4.000 companheiros ao longo da Via Ápia (estrada que ligava Roma ao sul da península, passando pela Campânia, foco inicial da revolta junto à cidade de Cápua).
A imagem dos oprimidos se erguendo contra os opressores, sintetizada não só na atuação de Kirk Douglas atuando no papel de Spartacus numa tentativa de resgatar a sua altivez e romper a ordem imposta aos escravos ou ainda a fala final do líder escravo, ao se referir ao companheiro Antonius, o qual acabara de matar: “ele voltará e na forma de milhões”, uma defesa clara da liberdade que ecoava na década de 1960 dentro da Guerra Fria que estava em franca atividade.

Já o general Maximus Décimus Meridius é um personagem fictício, interpretado por Russell Crowe, como o mais destacado militar do reinado de Marco Aurélio (ficou conhecido como o “imperador filósofo” em virtude do gosto que tinha pelos estudos e pela esmerada formação, sendo autor de um conjunto de pensamentos escritos em grego e influenciado pelo estoicismo) que governou entre 161 e 180 d.C., representando o auge do Império Romano e assim, dominava da atual Grã-Bretanha até o norte da África, da península Ibérica à Mesopotâmia, significando controlar cerca de um quarto da humanidade.
Num caminho distinto de Kubrick, Ridley Scott construiu uma narrativa fictícia com personagens reais ou não, conduzindo o espectador por um ciclo de ações que unem a primeira cena do heroi com seu último momento. Marco Aurélio nunca pensou em transformar Roma novamente numa República e muito menos foi assassinado por seu filho Cômodo, tal qual aparece no filme. Marco Aurélio morreu de tifo, legando o Império a Cômodo, o qual condizia com a interpretação de Joaquin Phoenix no filme, mostrando um imperador cruel, completamente instável e sem escrúpulos ou mesmo virtudes, que costumava descer às arenas para cumprimentar os gladiadores, cujo final foi a morte decorrente de uma conspiração, levando Roma para o início de uma longa crise militar que colaborou para a destruição do Império.
Scott conseguiu com os requintes técnicos recuperar a força do espetáculo, usando os efeitos especiais para reconstruir o esplendor das arenas, especialmente o Coliseu, que na fala do senador Gracus: “Roma é a plebe! O coração pulsante de Roma não é o mármore do Senado, mas sim a areia do Coliseu”. A primeira frase aparece em Spartacus, mas ganha uma dimensão própria na descrição da política do Panis et circensis, ou seja, o Pão e Circo oferecidos à plebe, que controlada e manipulada, que assim abria caminho para que a política fosse conduzida pela elite patrícia, mas é importante lembrar que tal circunstância já era bem comum à época de Spartacus.
O gosto pelos espetáculos sangrentos era algo muito forte na cultura romana, sendo as arenas um ponto de convergência entre os diferentes segmentos da sociedade romana, independentemente da sua condição econômica, pois para as famílias abastadas, patrocinar jogos era algo de grande prestígio entre os poderosos, da mesma forma que assisti-los, era um momento sublime, um exercício de poder que pairava sobre o sentimento de “ser romano” e poder decidir se o agonizante derrotado seria morto pelo “golpe de misericórdia” ou não, situação condensada no gesto do polegar apontando para baixo ou para cima, respectivamente.
O gosto pelo sangue derramado dos inimigos e escravos nas areias, acompanhado dos gritos em êxtase da multidão aproximam a Antiguidade dos tempos atuais, guardadas as devidas proporções, pois os espetáculos de massa ainda tem um grande apelo entre a população ocidental ou entre aqueles que convivem com o “modo ocidental” de viver numa visão mais “globalizada” : a sociedade de consumo, de massa e de espetáculo. Mas diferentemente do mundo antigo, hoje já não há morte ou sangue abundante e os espetáculos e o pão são pagos, diga-se de passagem, bem caro e ainda assim, conseguem seduzir milhões que projetam nesses “novos herois ou pseudo-herois” da atualidade seus desejos e vontades, tudo delimitado de maneira muito clara pelos índices de audiência, os quais geram pesados patrocínios e infinitos dividendos aos investidores.
Encerro este tópico com uma reflexão sobre a fala do general Maximus, elevando o moral de suas tropas antes de enfrentar os resistentes germânicos: “Aquilo que fazemos em vida ecoa na Eternidade”. Este ideal que os antigos buscavam não pode ser visto como mero desejo de fama, mas sim um sentimento de poder que faria daquele que fosse consagrado pela glória um “imortal”, mas em nosso tempo cabe a pergunta: a glória é alcançada por mérito, como uma conseqüência e reconhecimento ou glória por si só? Numa posição mais afinada com nossa época, o artista plástico Andy Warhol (1931-1987) profetizou a busca pelos holofotes se resumiria a “15 minutos de fama”, portanto, cada época e cultura vêem a notoriedade de um modo diferente, dentro de seus conceitos e valores, mas infelizmente, em nossos tempos, os valores que falam mais alto são os financeiros...
Ave Spartacus! Ave Warhol!