As Ricas Horas do Duque de Berry

As Ricas Horas do Duque de Berry
As Ricas Horas do Duque de Berry. Produção dos irmãos Limbourg - séc. XV. Mês de dezembro

sábado, 30 de julho de 2011

Uma rara reparação da "pirataria cultural" para com o Egito

Fonte Portal Yahoo!

EUA devolvem ao Egito 19 peças arqueológicas da tumba de Tutancâmon



Cairo, 30 jul (EFE).- O Metropolitan Museum of Art de Nova York devolveu ao Egito 19 peças arqueológicas pertencentes à tumba do faraó Tutancâmon (1336-1327 a. C.), informou neste sábado o Conselho Supremo de Antiguidades egípcias (CSA).

Entre as peças, se destacam por seu valor um cachorro de bronze, de apenas dois centímetros de altura, um bracelete de lápis-lazúli, em forma de esfinge, e um colar de contas.

O anúncio foi feito pelo secretário-geral do CSA, Mohammed Abdel Maqsud, em comunicado no qual precisou que o subdiretor do Departamento de Arqueologia Egípcia, Atef Abul Dahab, chegará ao Cairo desde os Estados Unidos com as antiguidades na terça-feira.

O museu de Nova York decidiu entregar esses objetos ao Egito após uma série de negociações entre responsáveis egípcios e americanos.

Os 19 objetos, todos de pequeno tamanho, foram encontrados na tumba de Tutancâmon, descoberta pelo arqueólogo britânico Howard Carter em 1922 na ribeira oeste do rio Nilo, na localidade monumental de Luxor, localizada 700 quilômetros ao sul da capital.

Nessa época, o Governo egípcio permitia que os arqueólogos que trabalhavam com recursos próprios ficassem com uma parte substancial de suas descobertas.

Abdel Maqsud destacou o gesto do museu nova-iorquino, especialmente depois de a instituição ter se transformado em uma grande aliada do CSA para recuperar peças arqueológicas levadas ilegalmente do Egito.

Nesse sentido, o responsável egípcio lembrou que no passado o Metropolitan proporcionou ao Egito informações que ajudaram a recuperar um pedaço de rocha que fazia parte do templo faraônico de Karnak, situado em Luxor.

O CSA adiantou que as 19 peças serão exibidas junto ao restante das antiguidades pertencentes a Tutancâmon no Museu Egípcio do Cairo.

Dicas no UOL

Caros alunos e interessados em geral,

Segue abaixo uma série de dicas, de várias matérias, resultado de algumas entrevistas que eu e outros colegas fizemos para o portal UOL;

Boa leitura e bons estudos!

25/07/2011 - 09h00 / Atualizada 25/07/2011 - 09h00

Uma viagem pelo subsolo nos estudos de Geografia

Ligia Sanchez
Especial para a Peagina 3 Pedagogia & Comunicação

Neste segundo mês do roteiro de estudos do UOL Vestibular, você já deve ter percebido que os conteúdos se adensaram e que é preciso disposição e ritmo para dar conta de tudo o que temos para trabalhar. No que se refere a Geografia, a tarefa seria bem mais agradável se você pudesse viajar pelo Brasil para estudar as principais áreas de ocorrência e exploração dos minerais metálicos no País.
Os professores Airton Luiz Nago, Rafael Balsalobre, e Bruno Elias, do Colégio Vértice, relacionam as seguintes áreas:
1. Serra do Navio, no Amapá – manganês (quase esgotado);
2. Rondônia – cassiterita;
3. Quadrilátero Ferrífero, em Minas Gerais – ferro e manganês;
4. Santa Catarina e Rio Grande do Sul – região carbonífera;
5. Maciço do Urucum, no Mato Grosso do Sul – manganês e ferro;
6. Grande Carajás (Pará e outros estados) – recursos variados, principalmente ferro;
7. Rio Grande do Norte – região salineira.
Segundo os professores do Vértice, um dos enfoques seria explicar em que eras e províncias geológicas são formados os minerais. Em relação aos minerais metálicos (ferro, manganês, bauxita, etc.) eles existem nos Escudos Cristalinos e se formaram na era Proterozóica.
As provas podem associar as questões a fatos econômicos e geopolíticos relacionados aos recursos minerais. "Com a crise em 2008, houve queda na produção e demanda, que voltaram a crescer nos últimos anos, principalmente minério de ferro", explica Prof. Luiz Carlos de Souza Domingues – conhecido como Panela – do SEB-COC de Ribeirão Preto-SP. “A exploração de minérios no Brasil é associada à voracidade da China no consumo de matérias-primas, um exemplo de pergunta pode incluir a balança comercial Brasil-China.”
Passagem brusca
Não estamos mais em tempos de amenizar o impacto de conteúdos difíceis. Da viagem da Geografia, voltamos a nos concentrar, desta vez novamente nas Leis de Newton, em Física. Como já explicamos na semana passada, continuamos com o assunto, pois é muito importante nas provas da disciplina. Algumas dicas, do prof. Sylvio Carlos Andrade Ferreira, coordenador de física do SEB-COC, valem ser lembradas para sistematizar seu conhecimento:
- a 2ª lei (fundamental), relaciona-se com o teorema do impulso;
- a 1ª lei (inércia), relaciona-se com referenciais cinemáticos e
- a 3ª lei (ação-reação), associa-se ao princípio da conservação da quantidade de movimento. Na verdade, esse princípio de conservação é a junção da 2ª e 3ª leis de Newton.
“O erro mais comum cometido pelos alunos é a conclusão de que o par ação-reação se anula, pois tem a mesma intensidade, mesma direção e sentido oposto. O erro ocorre porque as forças atuam em corpos diferentes”, explica o prof. Alexandre L, do Etapa. Segundo ele, uma maneira de provar que as forças de ação e reação não se anulam é o exemplo clássico de um patinador inicialmente em repouso empurrando outro, também em repouso. “Ambos irão deslocar-se em sentidos opostos, pois a ‘ação’ atua em um e a ‘reação’ no outro.”
Ação e reação, ativa ou não?
Um desafio gostoso no universo do conhecimento é estabelecer relações entre campos científicos aparentemente desconexos. Com a ideia de ação e reação soando na mente, passamos ao estudo das vozes verbais, em Português, última divisão dos verbos de nosso roteiro. “É um assunto extremamente importante no vestibular, afirma o prof. Daniel Perez, conhecido como Dan Dan, do Cursinho Henfil.
“Principalmente nas provas de segunda fase, aparecem questões pedindo para refazer ou reescrever um trecho, no mesmo sentido ou no sentido contrário”, explica. É aí que entra o domínio do estudante sobre as vozes ativa, passiva – sintética ou analítica, reflexiva ou recíproca. “Quase todos os anos caem perguntas do tipo, em que é preciso mudar a voz do verbo. E o aspecto contextual é fundamental para este entendimento”.
Seguindo a trilha de conteúdos que lidam com ideias contrárias, podemos fazer uma pausa no Barroco brasileiro, em Literatura. O principal representante do movimento, Gregório de Matos, é conhecido como “Boca do Inferno”, por sua poesia satírica, em que zomba das pessoas, costumes e organização social de seu tempo, segundo o prof. Perez. No entanto, como o autor não consta da lista de leituras obrigatórias da Fuvest e Unicamp, são remotas as chances de cair na prova. Nos últimos anos esteve ausente e uma possibilidade é a comparação de sua poética, em que aparece a “arte dos contrastes” barroca, com a Antologia Poética de Vinicius de Moraes, esta sim de leitura obrigatória.
Progredindo
Depois desse descanso em Literatura, mudamos a lógica para estudar progressão aritmética e progressão geométrica, em Matemática. Segundo o prof. Roberto Jamal, do Cursinho Anglo, são assuntos que caem relativamente bastante nos vestibulares, pois além de problemas puramente algébricos, podem aparecer aplicadas a outras partes da matemática, como geometria.
"Um ponto importante da PG é a soma dos termos de uma progressão geométrica infinita", afirma Jamal.
O prof. Bonfim Eron, do Cursinho Henfil, ressalta que no ano passado, um dos grandes vestibulares pediu PG associada a logaritmo. A progressão aritmética pode aparecer em questões que pedem para calcular o quanto uma pessoa andou em um mês, tendo aumentado certa quantidade de metros a cada dia de caminhada. "Em cálculos de juros acumulados, caem contas de progressão geométrica", afirma Jamal.
Básicos
Nas duas próximas disciplinas, os conteúdos desta semana são importantes para o entendimento de temas posteriores, portanto estude com máxima atenção e não deixe passar dúvidas. Em Química, os ácidos, bases, sais e óxidos e suas interações e reações precisam ser entendidos em função de suas definições, características e propriedades, para entrarmos nos temas de oxidorreduçao e estequiometria, nas próximas semanas.
"Nos ácidos, é importante diferenciar o número de hidrogênios ionizáveis em cada ácido. Nas bases, o número de OH - hidroxilas - ionizáveis. São conceitos importantes para entender a neutralização”, explica o prof. Christian Carbone, do Cursinho Henfil. Entendidos os conceitos, o estudante tem condições de estudar as reações de dupla-troca, entre elas a neutralização, que pode aparecer em perguntas do tipo “quanto material base é necessário para neutralizar uma determinada quantidade de ácido?”
Em Biologia, o estudo dos tecidos também consiste em conteúdo básico para posterior estudo dos sistemas do corpo humano. Como terminamos a parte das células na semana passada, vamos para a histologia. "Sobre o tecido epitelial, que tem função principal de revestimento, é importante entender sua relação com outros tecidos e a segunda função que desempenha em cada caso: na pele, de proteção, no intestino, de absorção", explica o prof. Tony Manzi, do Cursinho Henfil.
Em relação ao tecido muscular, o prof. Tony afirma que é importante identificar onde se encontra cada tipo: liso, estriado e estriado cardíaco. O tecido nervoso aparece em perguntas relacionadas ao sistema nervoso como um todo (que será estudado no capítulo sobre corpo humano deste roteiro). “Faz um tempo que não cai e estamos apostando neste tema”, diz o prof. Tony.
O tecido conjuntivo é base de sustentação para outros tecidos, e forma os especiais, como o adiposo e ósseo. O prof. Tony destaca a importância do tecido sanguíneo. “Tem sido comum aparecer exame de sangue em questões do vestibular.” Com tantos detalhes, os tecidos vegetais ficam para a próxima semana.
Cuidado com o Código Da Vinci
O estudo do Baixo Império Romano, em História Geral, é importante para a compreensão da formação do feudalismo, tema de alta incidência nos vestibulares. “O sistema feudal não aparece de uma hora para outra, mas resulta do colapso da organização romana, um processo de ruralização e crise político-militar e as pressões dos povos bárbaros na fronteira”, comenta o prof. Elias Feitosa de Amorim Jr, do Cursinho da Poli.
“É muito mais importante entender a conjuntura histórica, o que está mudando e o que não está naquele período, do que saber os nomes dos imperadores e quem fez cada coisa”, recomenda. E faz um alerta sobre os desdobramentos do cristianismo no fim do Império Romano. “O livro O Código Da Vinci traz uma incorreção sobre o Édito de Milão, que conferiu liberdade de culto; mas não foi este ato que tornou o cristianismo a religião oficial de Roma”, alerta.
A abordagem da conjuntura histórica também predomina as questões dos vestibulares sobre a organização administrativa e a economia do sistema colonial, tema desta semana de História do Brasil. “Ninguém vai cobrar nome de donatários e capitanias hereditárias”, afirma o prof. Elias, do Cursinho da Poli. O importante é entender o sistema de capitanias como uma tentativa de desenvolver a colonização portuguesa, mas com a ajuda de terceiros, sem investimento direto da Coroa – o esforço de ocupar o território tem por objetivo não perder as terras para os franceses e holandeses que visitavam nossas costas.
Quanto à economia da colônia, a cana de açúcar era o principal produto e a forma das capitanias foi uma maneira de aumentar a produção, em larga escala. Lembre-se das características: latifúndio, monocultura e trabalho escravo. “A pecuária se desenvolveu junto com a cana como forma de transporte”, destaca o professor.

quarta-feira, 27 de julho de 2011

Ditadura militar brasileira revisitada

Fonte Portal UOL


27/07/2011 - 18h25
Guilherme Balza
Do UOL Notícias
Em São Paulo




Seis testemunhas relataram nesta quarta-feira (27), no fórum João Mendes, centro de São Paulo, as torturas que Carlos Alberto Brilhante Ustra, coronel reformado do Exército, teria cometido durante a ditadura militar. Os depoimentos foram colhidos durante audiência sobre a morte do jornalista Luiz Eduardo Merlino, em processo movido pela família da vítima contra Ustra.
Merlino morreu em julho de 1971, quando estava com 23 anos. Na época, o jornalista trabalhava no "Jornal da Tarde" e militava no POC (Partido Operário Comunista). A versão dos militares para sua morte foi de que ele teria cometido suicídio, ao se jogar contra um caminhão na BR-116, no município de Jacupiranga (SP).
As testemunhas foram arroladas pela família Merlino para provar que Ustra pessoalmente torturou e matou o jornalista no Destacamento de Operações de Informações do Centro de Operação de Defesa Interna (Doi-Codi) do 2º Exército, na capital paulista, onde centenas de militantes foram presos e dezenas, mortos --Ustra comandou o Doi-Codi entre 1969 e 1973.
A ação, movida pela irmã do jornalista, Regina Maria Merlino Dias de Almeida, e sua ex-companheira, Angela Mendes de Almeida, tem como objetivo o reconhecimento, pelo Estado brasileiro, de que o coronel foi torturador, assim como já ocorreu no Tribunal de Justiça de São Paulo em 2008, após ação da família Teles. No mesmo ano, a defesa do TJ-SP conseguiu extinguir uma ação de mesmo caráter movida pela família Merlino. A ação atual prevê o pagamento de indenização por danos morais.
A audiência de hoje foi fechada para a imprensa. Somente os familiares da vítima e os advogados das partes presenciaram os depoimentos. Foram ouvidos o ex-ministro da Secretaria Especial de Direitos Humanos Paulo Vanucchi, o escritor e jornalista Joel Rufino dos Santos e os companheiros de partido de Merlino, Otacílio Cecchini, Eleonora Menicucci de Oliveira, Laurindo Junqueira Filho e Leane de Almeida.

Depoimentos

Segundo a jornalista Tatiana Merlino, sobrinha de Luiz Eduardo e filha de Regina, que acompanhou a audiência, Vanucchi relatou que viu o momento em que Merlino foi colocado, todo machucado, em uma escrivaninha, que estava em frente às celas do Doi-Codi, com a perna azulada, aparentando estar gangrenada. O ex-ministro afirmou que foi torturado pelo próprio Ustra alguns vezes.
De acordo com Tatiana, Leane de Almeida disse que também foi torturada pessoalmente por Ustra e que as sessões de espancamento contra ela só terminaram com a chegada de Merlino, que passou a ser o alvo dos militares. A militante afirmou ainda que viu o momento em que Merlino, aparentemente morto, foi colocado dentro do porta mala de um carro dos militares.
Eleonora de Oliveira contou na sessão que foi torturada junto com Merlino, ela na cadeira do dragão (cadeira elétrica), ele no pau de arara (barra de ferro em que o torturado fica pendurado e é submetido a outras agressões). Os militares teriam cometido as torturas simultaneamente para cruzar as informações arrancadas das vítimas. Ainda segundo a jornalista, o militante Laurindo Junqueira relatou que foi submetido ao mesmo método.
Otacílio Cecchini afirmou ter visto a mesma cena que Vanucchi, quando Merlino apareceu com a perna azulada. Segundo Tatiana Merlino, Cecchini contou, em seu depoimento, que estava sendo torturado por Ustra quando o coronel recebeu uma ligação do Exército, dizendo que a perna de Merlino teria que ser amputada e perguntando se a família do jornalista deveria ser avisada. O militar teria dito que não.
Por fim, Joel Rufino dos Santos disse ter ouvido de um torturador que não amputaram a perna de Merlino e deixaram o jornalista morrer, informou Tatiana. Ricardo Prata Soares, a última testemunha de acusação, mora no Rio Grande do Norte e será ouvido por carta precatória –quando um juiz do local colhe o depoimento e envia a transcrição para o tribunal onde o processo está sendo julgado.
As testemunhas arroladas pela defesa de Ustra, que também serão ouvidas por carta precatória, são o presidente do Senado, José Sarney, o ex-ministro Jarbas Passarinho, um coronel e três generais da reserva do Exército brasileiro, Gélio Augusto Barbosa Fregapani Paulo Chagas, Raymundo Maximiano Negrão Torres e Valter Bischoff.
Em reportagem publicada hoje pelo jornal “O Estado de S. Paulo”, o advogado Paulo Esteves disse que Sarney foi arrolado para falar da Lei da Anistia, que ele ajudou a aprovar em 1979, e não sobre as acusações contra Ustra. Na mesma reportagem, a assessoria do senador disse que ele não irá depor e que o convite é uma estratégia da defesa para protelar uma definição sobre o caso.
Tatiana Merlino afirmou que a estratégia da defesa é equivocada, já que a Lei da Anistia ---que isenta presos políticos e militares de crimes cometidos durante a ditadura --só se aplica à esfera penal, e não na cível. “Queremos que ele seja reconhecido como torturador. A ação é indenizatória, mas se a gente ganhar, não queremos nenhum tostão. Vamos doar o dinheiro para uma entidade de direitos humanos”, diz.

Versão de Ustra

Apontando pelos perseguidos políticos como uma das figuras mais cruéis dos anos de chumbo, Ustra já se defendeu publicamente das acusações em várias ocasiões. Em 2009, o coronel divulgou uma carta intitulada “O Bode Expiatório”, que foi reeditada no início deste mês. No documento (que pode ser acessado aqui), Ustra nega as torturas e diz que agiu dentro da lei.
Sobre Merlino, o coronel diz que a morte foi fruto de um suicídio. “[Merlino] foi transportado em um automóvel para o Rio Grande do Sul, a fim de ali proceder ao reconhecimento de alguns contatos que mantinha com militantes. Na rodovia BR-116, na altura da cidade de Jacupiranga, a equipe de agentes que o transportava parou para um lanche ou um café. Aproveitando uma distração da equipe, Merlino, na tentativa de fuga, lançou-se na frente de um veículo que trafegava pela rodovia. Se bem me lembro, não foi possível a identificação do veículo que o atropelou. Faleceu no dia 19.jul.1971, às 19h30, na rodovia BR-116, vítima de atropelamento.”

quarta-feira, 20 de julho de 2011

Cinema pré-vestibular

Caros alunos e interessados em geral,

No domingo passado (17/07) saiu uma matéria no jornal Agora, da qual fui um dos colaboradores, sobre sugestões de filmes que possam ajudar nos estudos e também servir como um momento para relaxar.

Caso a letra da matéria fique muito pequena, recomendo que salvem a "imagem" da página do jornal e ampliem em separado.

Obrigado pela atenção, boa leitura e bons filmes!

Aí vão as sugestões:

terça-feira, 19 de julho de 2011

Peste Negra: um flagelo varre a Europa

“Quantos homens valentes, quantas damas graciosas, tomavam o desjejum com a família e naquela noite jantavam com os seus ancestrais no outro mundo”. Essas palavras, escritas pelo poeta italiano Giovanni Boccaccio no seu livro Decameron, em 1348, expressavam a gravidade e o pânico que assolou a cidade de Florença, assim como a maior parte da Europa, durante a epidemia da chamada Peste Negra.

         Foi mais um dos flagelos dentre os que marcaram o século XIV – fome, guerra, morte–, resultantes de uma grave crise que se abateu sobre a Europa. Um momento tenso e tumultuado que sucedia um período de intensa expansão entre os séculos XI e XIII. Quais os motivos dessa retração? Na visão daqueles que vivenciaram o período, tudo seria um severo castigo Divino, punindo o desregramento moral dos homens que se encontravam envolvidos com os prazeres mundanos e as questões materiais. No entanto, outros elementos podem nos oferecer algumas explicações mais claras sobre essa crise, cuja superação se esboçou na expansão marítima e na conquista de novas terras: a conquista do Novo Mundo e uma nova fase de intensa prosperidade.

         Durante o processo de expansão, entre os séculos XI e XIII, a Europa passou por grandes mudanças: redução das invasões “bárbaras”, aumento populacional, ocupação de novas áreas para as cidades e plantações. O comércio e a riqueza grassavam nas cidades, os mercadores e suas companhias de comércio prosperavam. A Igreja buscava nesse momento de abundância angariar recursos para enaltecer a fé católica, cujo símbolo maior foi a catedral, igreja sede do bispado que deveria ser grande o bastante para acolher todos seus fiéis, visível à longa distância como um símbolo da cidade, bela e suntuosa para talvez apresentar aos fiéis uma idéia da Jerusalém Celeste.

         Todo este esplendor foi abatido logo no começo dos anos de 1300 por uma gradativa redução das colheitas, um resultado misto de mudanças climáticas (secas, nevascas, chuvas excessivas) e pelo esgotamento do solo. Com a falta de alimentos e os preços elevados, a fome se tornou constante e crescente, seguida pela desnutrição e o aumento da mortalidade. A população que inchava as cidades começava a definhar, criando problemas como crise financeira (aumento dos gastos) e econômica (queda na produção). Além da fome, a guerra se tornaria um complemento ao caos já existente.

A guerra como pano de fundo
      
A Guerra medieval. séc. XIV. Bibliothèque Nationale Française, Paris 

   A Peste Negra chegou acompanhada de três outros flagelos: a fome, a guerra e a morte. Em 1337, explodiu a Guerra dos Cem Anos, entre  Inglaterra e França, que só terminaria em 1453. O território francês foi o palco exclusivo deste sangrento conflito movido pela disputa do controle da região de Flandres, rica pelo comércio de tecido, e da sucessão da Coroa francesa. A dinastia reinante, dos Capetos, havia chegado ao fim com a morte de Carlos IV, e assim abriu-se espaço para a reivindicação dos Plantageneta, por parte do rei Eduardo III (primo do rei francês falecido), e da nobreza francesa, através do apoio a Felipe de Valois, primo do rei falecido e descendente da linhagem masculina, conforme o antigo costume franco (a lei sálica).


Valas comuns
         Foi neste cenário já tão complexo que, em 1348. o quarto flagelo aportou na Europa ocidental. A peste chegara ao Ocidente através de navios genoveses oriundos do Mar Negro, que trouxeram em seus porões ratos contaminados pela doença que já havia varrido populações de inúmeras regiões do extremo oriente, como China, Índia e Ásia Central.
         A “morte negra” como também era conhecida, não se tratava de uma doença de manifestação única. Tinha duas formas: a peste bubônica e a pneumônica. A primeira era transmitida através da picada da pulga do rato que se encontrava contaminada com a bactéria Yersina pestis (bacilo identificado em 1894 pelo médico Alexandre Yersin). Quando picado pela pulga, o homem desenvolvia um quadro de infecção generalizada muito rapidamente, que poderia levá-lo a morte por septicemia. A principal evidência da contaminação era a inflamação dos gânglios linfáticos, chamados de bubões. Eles chegavam a atingir o tamanho de um ovo de galinha. Havia ainda dores, febres constantes e hemorragias subcutâneas que formavam manchas escuras sob a pele. Daí o nome Peste Negra.

         Já a segunda variante, a peste pneumônica, era provavelmente mais contagiosa, pois era transmitida a partir do contato com os doentes, ou seja, de homem para homem. Provocava febres, suor constante, dores, tosse com a liberação de catarro e sangue. O doente poderia viver entre 24 e 72 horas e depois de tanto sofrimento, morria, deixando um cadáver esquelético e mal-cheiroso cujo destino era uma vala comum no prazo mais rápido possível.

Ratos e pulgas
         O desconhecimento efetivo das formas de transmissão e de cura serviu para tornar a epidemia ainda mais mortal, pois as cidades medievais não possuíam sistemas de água e esgotos. Os dejetos eram espalhados em valas e latrinas a céu aberto. Muitas casas comportavam mais de 10 pessoas e algumas chegavam até ao dobro, sem que houvesse condições mínimas de higiene. Era o ambiente ideal para a proliferação de ratos, pulgas e a transmissão direta da doença.

         A medicina, naquele contexto, especulava entre inúmeras hipóteses. Muitas ainda se prendiam às causas sobrenaturais como uma conjunção de planetas que teria  afetado os homens, trazendo-lhes o flagelo da peste. Detalhe: os conhecimentos de astrologia faziam parte do saber médico(veja a iluminura abaixo, datada do século XIV e arquivada no acervo da Bibliothèque Nationale Française, Paris ). Havia também a tese do castigo divino, em virtude dos pecados cometidos pelos homens. Alguns médicos como Gentile de Foligno, doutor em medicina pelas universidades de Pádua e Bologna, supunham outras causas. Gentile  acreditava na transmissão pelo ar, o que não estava errado, apesar de não conhecerem a existência dos microorganismos.





         O avanço do saber médico esbarrava nas interdições religiosas como a proibição da dissecação de cadáveres, tanto no cristianismo quanto no islamismo. Dessa forma, o conhecimento sobre anatomia e fisiologia estava embasado nos estudos de Cláudio Galeno, médico romano do século I da era cristã. Os remédios conhecidos eram muitas vezes ineficazes para a doença e nocivos ao organismo, matando ao invés de curar. Fórmulas com vísceras de animais, ervas, raspas de ossos, metais em pó como ouro e mercúrio entre outras substâncias compunham o receituário. O número de mortos e a gravidade da epidemia acabaram mudando essa situação. Em virtude das circunstâncias, as autoridades de Florença, Avignon e Montpellier autorizaram dissecações de cadáveres.
        
Fim do mundo

Fonte: Atlas de História Geral. Hilário Franco Jr. e Ruy Andrade, Ed. Scipione.

         A peste teria chegado à Europa ocidental por volta de outubro de 1347, no sul do Mediterrâneo, espalhando-se rapidamente pela península Itálica e Ibérica em 1348. Já no fim desse ano, alcançou o norte do continente, chegando à Inglaterra, a Flandres e à Escandinávia. Entre 1349 e 1351, varreu o norte e leste europeu, atingindo o Sacro Império Germânico, a Prússia, o Reino da Polônia, a Lituânia e a Rússia.


         O número de mortos é difícil precisar. Na época, era muito usada a expressão “um terço da humanidade pereceu”. A estimativa dos historiadores aponta para algo em torno de 20 milhões de mortos, sendo que em algumas regiões chegou-se à taxa de 400 a 800 mortos por dia, enquanto em outras o número era bem menor. Em alguns lugares, a propagação da doença e sua mortandade foram insignificantes, como na planície lituano-polonesa, nos Pirineus e no Piemonte itálico, assim como algumas áreas no interior do Sacro Império e Flandres.

         Na busca pela sobrevivência, o isolamento era uma tentativa. Doentes não entravam nas cidades, que tinham a circulação vigiada. Os conventos e abadias procuravam restringir ao máximo o contato com o mundo exterior, pois um monge contaminado poderia exterminar todo o mosteiro. Foi numa circunstância dessas que Boccaccio colocou as sete mulheres e três homens de ricas famílias florentinas em sua obra Decameron. Eles se refugiam em uma casa de campo na Toscana.

 Ofício dos Mortos, British Library, séc. XIV, Londres.

         O medo da cólera de Deus também provocou reações nos fiéis, receosos da aproximação do fim dos tempos. Eles buscavam redimir-se através de procissões, orações e súplicas pela cura da peste. Outros, buscavam no martírio de seus próprios corpos a salvação destes e de suas almas, flagelando-se em longas e tormentosas procissões. Elas acabaram sendo debeladas pela Igreja por colaborarem para a disseminação da doença e criarem uma tensão perigosa naquele momento crítico: apesar da peste, ainda se tentava manter a ordem política controlada pelos senhores feudais e a ordem religiosa sob o comando da Igreja. Além dos flagelantes, a Igreja teve que conter os massacres e perseguições contra os judeus, acusados de espalhar a peste.

O bode expiatório
                                 Judeus ultrajam Cristo. Kremsmünster, séc. XIV
        
Foi durante o período medieval que se constituiu a idéia da “culpa” dos judeus pela morte de Cristo e assim eles se tornaram elementos excluídos da sociedade medieval em vários momentos, sendo proibidos de exercer determinados ofícios, obrigados a morar em bairros específicos (guetos) e quando ocorria alguma catástrofe eram os primeiros suspeitos. Não foi diferente durante a epidemia de Peste entre 1348-50. Acusados de “envenenar as águas dos poços” alguns milhares de judeus foram mortos ou expulsos de suas casas. O papa Clemente VI foi obrigado a expedir uma Bula condenando tais atitudes, mas não foi suficiente. As perseguições se tornariam mais frequentes, assim como as expulsões. Mas nada comparado ao regime nazista no século XX.

Aquela que a todos iguala

“O triunfo da Morte”, afresco de Buonamico Buffalmacco, 1350, Cemitério de Pisa, Itália.
        


 A proximidade com a morte foi uma influência na mentalidade da época, tornando-se um tema muito presente nas artes. Um exemplo é o tema da dança macabra, no qual a Morte levava os espíritos para uma grande festa em direção ao “outro mundo”. A imagem da morte como aquela que todos aguarda vai se constituindo como o emblema de um momento de tão grande tensão. Uma imagem muito expressiva é o Triunfo da Morte, afresco pintado no cemitério de Pisa pelo pintor Buonamico Buffalmacco por volta de 1350. 

Detalhe do afresco: "Triunfo da morte"

No detalhe da pintura acima, vemos três cavaleiros jovens e ricos cavalgam pelo campo e se deparam com três corpos em diferentes estágios de putrefação. A imagem sintetiza o horror e a tensão do encontro através dos gestos e dos semblantes dos cavaleiros. Ao alto, um eremita desenrola um pergaminho que contém os dizeres: “Nós fomos o que vocês são e vocês serão o que nós somos”.



         Da mesma forma que apareceu, a peste desapareceu, provocando uma significativa redução na população e uma crise nos mais diferentes setores da sociedade européia. Mas, ao mesmo tempo foi, de certa forma, o evento propulsor de uma nova onda de prosperidade que daria origem às grandes navegações e, conseqüentemente, ao mercantilismo e seus comerciantes. A chamada Idade Moderna nasceria dos estertores de um mundo em crise. A peste ainda retornaria muitas vezes, matando milhares, mas nunca como no século XIV. 

segunda-feira, 11 de julho de 2011

Escultura do século XVI é encontrada no México

México, 11 jul (EFE).-
EFE – 2 horas 34 minutos atrás

 Uma escultura de bronze de mais de 430 anos de antiguidade foi encontrada no litoral do Oceano Pacífico, no estado mexicano da Baixa Califórnia (noroeste), informou nesta segunda-feira o Instituto Nacional de Antropologia e História (INAH) do México.
A descoberta, realizada por membros do INAH e instituições americanas, ocorreu há duas semanas e representa uma peça única dentro do conjunto de materiais resgatados ao longo de 12 anos pelo Projeto Galeão de Manila na Baixa Califórnia.
O artefato, de 12 centímetros de altura e outros 12 de largura, representa um leão chinês. As primeiras análises detalham que se trata da tampa de um incensório ou um castiçal.
De acordo com o arqueólogo Roberto Junco, da subdireção de Arqueologia Subaquática (SAS) do INAH, a descoberta provém de um dos primeiros galeões do século XVI que zarparam de Manila, Filipinas, com destino ao porto de Acapulco, na Nova Espanha.
Essa rota "era a de maior trajeto em alto-mar", destacou o especialistas. "Neste caso, a embarcação foi arrastada em uma área das Califórnias onde confluíam várias correntes, sem que restassem sobreviventes para continuar a travessia".
O historiador náutico Edward von der Porten comentou que os restos materiais encontrados provavelmente pertenceram ao galeão "San Felipe", que zarpou levando consigo uma grande carga de porcelana chinesa da dinastia Ming e que desapareceu sem deixar rastros em 1576.

sábado, 9 de julho de 2011

Vaticano excomunga novo bispo chinês

Fonte: Portal UOL

09/07/2011 - 00h01

Vaticano excomunga novo bispo chinês

Andrew Jacobs 
Em Pequim (China) 
The New York Times

O Vaticano excomungou um bisbo chinês recentemente ordenado, em uma medida que provavelmente fará com que piorem as já precárias relações entre a Santa Sé e o Partido Comunista que governa a China.

A decisão de anunciar formalmente a excomunhão do bispo, o reverendo Paul Lei Shiyin, da província de Sichuan, foi tomada uma semana depois que a Igreja Católica da China, que é controlada pelo Estado, ignorou as objeções feitas pelo Vaticano e conduziu a cerimônia de ordenação, da qual participaram sete outros bispos anteriormente reconhecidos por Roma.
Falando por telefone, uma autoridade do Vaticano recusou-se a discutir o caso, mas em uma declaração divulgada na quarta-feira, representantes da igreja afirmaram que o papa Bento 16 ficou profundamente entristecido com a medida, que “semeia a divisão e infelizmente cria fissuras e tensões na comunidade católica na China”.

O Vaticano afirmou que os sete bispos que participaram da ordenação “expuseram-se a graves sanções canônicas” e poderão ser excomungados.
Um porta-voz da Associação Católica Patriótica Chinesa, o órgão do governo que fiscaliza as igrejas católicas administradas pelo governo, não quis falar sobre o confronto com o Vaticano. Mas, em uma declaração enviada por e-mail, a associação lamentou a decisão do Vaticano, afirmando que ela vai se revelar divisiva.

“Isso trará mais disputas para todas as igrejas e afetará a difusão do Evangelho e o desenvolvimento da igreja”, disse a declaração.
Francesco Sisci, um correspondente de notícias de Pequim e ex-diplomata italiano que é especialista em relações entre a China e o Vaticano, afirmou que todos os bispos ordenados que não forem aprovados pelo papa são automaticamente excomungados, de forma que o anúncio feito pelo Vaticano -- e a ameaça àqueles que participaram do ritual -- foi especialmente significante.

“Quando o papa decide anunciar tal coisa e deixa isso bem claro, temos uma situação bastante séria”, disse Sisci. “O mecanismo de comunicação entre os dois lados está se desfazendo. Se existe um certo número de bispos que não foram ordenados pelo Vaticano, essa igreja poderia tornar-se cismática”.

A China rompeu relações com o Vaticano em 1951, pouco depois que os comunistas tomaram o poder. Embora a perseguição à Igreja Católica e a outras religiões famosas pertença ao passado, o Estado ainda mantém um controle rígido sobre a prática religiosa organizada, e é especialmente vigilante em relação ao desafio representado pela autoridade papal.
Existem quase seis milhões de seguidores da Igreja Católica Patriótica Chinesa. Alguns especialistas afirmam que é quase o dobro o número de indivíduos que praticam a religião em igrejas não oficiais e cujos membros são leais ao papa – e cujos clérigos arriscam-se a sofrer assédio e a ser presos pelas autoridades chinesas devido ao seu desafio ao governo.

Apesar das décadas de animosidade e desconfiança, as relações entre Pequim e o Vaticano melhoraram nos últimos anos, mas a ordenação de bispos continua sendo um grande ponto de discórdia. No ano passado, os dois lados pareciam estar próximos a chegar a um acordo quanto a essa questão, mas após um impasse prolongado, a associação patriótica decidiu em novembro ordenar um bispo, que não havia sido aprovado pelo Vaticano, na cidade de Chengde, no norte do país. No mês passado, a associação mostrou que continuava disposta a desrespeitar o mandato papal ao sugerir que poderia ordenar mais 40 bispos “sem demora”.
Embora as autoridades do Vaticano não tenham detalhado publicamente as suas objeções específicas à escolha do bispo Lei, elas afirmaram que ele foi rejeitado por “motivos comprovados e muito graves” dos quais tanto ele quanto os outros bispos estão bem conscientes. Ao serem ouvidos por telefone na sexta-feira (08/07), vários membros e líderes religiosos da diocese de Lei em Leshan, uma cidade famosa pela sua estátua em pedra gigante do Buda, disseram não ter ouvido falar da declaração do Vaticano. O reverendo Zhang Mingzhong, um padre da Igreja Católica Wotongquiao, disse que o bispo é muito respeitado em Leshan e nos arredores.

“Todas as igrejas estão na rota certa do desenvolvimento sob a liderança do bispo Lei”, disse ele. “Ele é bastante amado por todos os membros da congregação”.
Quando autoridades da igreja chinesa reuniram-se em Leshan na semana passada para a ordenação do bispo, a planejada ordenação de um outro bispo na província setentrional de Hebei terminou de forma bem diferente.
O bispo eleito Joseph Sun Jigen, cuja ordenação havia sido aprovada pelo papa, teria sido obrigado a entrar em um carro da polícia três dias antes da cerimônia prevista. A cerimônia foi cancelada e, até o início desta semana, segundo os membros da paróquia, o candidato a bispo ainda estava detido.

sexta-feira, 8 de julho de 2011

Notre-Dame de Chartres: o esplendor em pedra e luz

Quando ouvimos a expressão “gótico”, geralmente nos lembramos de alguns jovens que são aficionados por roupas pretas, caveiras e cemitérios. Algo que remete aos filmes de terror com seus monstros e mortos-vivos. De certa forma, não é de todo errado pensar assim, mas ao pensarmos a expressão “arte gótica”, nós temos que voltar no tempo e localizar o fenômeno do qual estamos falando. Há uma relação entre o “gótico pós-moderno” de hoje e a “ arte gótica medieval”??

A resposta é sim e não. Esta relação gótico/horror é um desdobramento de algumas expressões artísticas  do século XIX, relacionadas ainda com o Romantismo, cujos escritores tentaram resgatar a Idade Média “idealizada” e que entre suas várias tendências, houve a manifestação da busca do locus horrendus, um interesse pela morte e seus domínios. Esta tendência influenciou alguns escritores como Mary Shelley (1797-1851), autora de Frankenstein ou Bram Stoker (1847-1912) com Drácula e com o advento do cinema, o filme Nosferatu de Friedrich Wilhelm Murnau (1888-1931), abrindo caminho para o chamado gênero de horror, tão bem representado no cinema por Béla Lugosi no papel de Drácula e Bóris Karloff como Frankenstein ainda nos anos de 1930 e 1940. 

Nosferatu: a adaptação de Murnau (1922) da obra de Bram Stocker

Béla Lugosi (1882-1956): ator romeno que "imortalizou" o personagem de Bram Stocker.

Bóris Karloff (1867-1969) aqui personificado na criação de Mary Shelley, de 1831.

Agora, ao pensarmos na expressão “arte gótica”, estamos falando de uma manifestação artística produzida entre o fim do século XII e o século XV, mais tardiamente. No entanto, o termo gótico é pejorativo, pois foi uma denominação à posteriori e pejorativa dada pelos renascentistas, como Giorgio Vasari (1511-1574), Leone Battista Alberti (1404-1472) ou Rafael Sanzio (1483-1520) ao se referir à arte medieval como uma “arte bárbara”, ou seja, dos godos (visigodos, ostrogodos). Esta visão, portanto, entendia a Idade Média como uma “ Idade de Trevas”, a qual deveria ser esquecida e a cultura que desapareceu(greco-romana) deveria ser restaurada.

A Igreja Cristã por volta do século XI havia se tornado uma instituição poderosa e universal, ou seja, católica (do grego katholikos) e neste momento floresceu um padrão estético chamado a posteriori  de românico, segundo Ernst Gombrich (1909-2001): "Nas igrejas românicas encontramos geralmente arcos redondos assentes em maciços pés-direitos. A sensação causada por estas igrejas, interna e externamente, é de uma robustez compacta. Há poucas decorações, as janelas são poucas, mas as paredes e torres inteiriças lembram-nos as fortalezas medievais".

Catedral da Sé de Lisboa(1147): com ares de castelo, uma fortaleza de Deus.

Contudo, não podemos dizer que a "pouca decoração" que se referiu o prof. Gombrich, não significa uma ausência de criatividade ou parâmetro comum de elementos estilísticos em toda Europa ocidental, pois existem notáveis diferenças entre as construções românicas, seja entre as abadias e mosteiros que fazem parte do Caminho de Santiago de Compostela ou das igrejas da Península Itálica do mesmo período.

Rotas de Caminho de Santiago de Compostela (séc.XI-XIII)

Elemento que pode ser destacado é uma hierarquização das partes : a arquitetura do prédio, a qual  sustenta e se complementa com as esculturas e por fim a pintura dos afrescos. A Igreja é a "fortaleza de Deus", uma massa compacta de pedras que protege o corpo e alma dos fiéis, dando a idéia de que cada cristão é uma pedra da própria igreja e esta é formada por capelas irradiantes juntas da nave principal, cujos volumes se aglutinam numa expressão plástica da idéia de coletividade presente no medievo. Escura como a própria terra,  fonte da vida que abrigou seus filhos em seu ventre durante a gestação dos tempos e que depois do nascimento, mantém seus filhos junto de seu seio , provendo-os com o pão celestial: a palavra de Deus.

Sob as ruínas de um templo pagão remanescente do período galo-romano(período da conquista dos gauleses pelos romanos) na cidade de Autricum, atual Chartres, foi erguida uma igreja dedicada a Virgem Maria (Notre-Dame em francês significa Nossa Senhora), prédio que passou por várias intervenções, pois sofrera um desmoronamento em 743 e foi reconstruído tornando-se a sede do bispado (catedral). A fachada românica da catedral foi construída por volta de 1024, mas sofreu um incêndio em 1134 , sendo reconstruída e destruída novamente em 1194 por outro incêndio e mais uma vez reconstruída, percebendo-se por exemplo a manutenção do pórtico original de 1134, mas com um plano uniforme das torres, pois a torre esquerda corresponde ao estilo românico, enquanto a direita é mais alta e tem como padrão estético o gótico flamboyant (flamejante). 

Fachada ocidental da Catedral de Chartres (séc. XII-XV)

Como  muitas catedrais românicas, Chartres apresenta uma planta na forma de cruz e seu interior já se nota as modificações do estilo gótico: paredes mais finas, abóbodas ogivais mais altas e muitas janelas e vitrais que inundam a nave principal com uma luz multicolorida, que  nas palavras de Georges Duby: "Deus é Luz"  e a catedral um relicário delicado que buscava  aproximar os fiéis do Inefável, ou seja, do intocável.

A planta da própria igreja faz uma alusão ao corpo do Cristo crucificado: a entrada representa os pés; o caminhar , pela nave principal, em direção do altar as pernas e o tronco, cujos braços se constituem pelo transepto e a cabeceira iluminada pelos vitrais, cuja direção é alinhada para o leste(direção de Jerusalém e do nascer do Sol) constitui a cabeça do Salvador. (Veja a planta abaixo)

Planta cronológica da construção da Catedral de Chartres

A catedral, portanto, constitui-se num ponto de encontro com o divino, sendo assim, os fiéis durante várias gerações se esforçaram para a construção do templo, uma ação conjunta das diferentes corporações de ofícios da cidade num esforço coletivo de elevar as alturas a grandeza de Deus e de sua rainha , a Virgem Maria. Cada homem era uma pedra e todos eram a catedral, ou mesmo, a própria Igreja.

Chartres, como outras catedrais góticas, foi construída num período de crescimento populacional e dessa forma, suas dimensões (137m de comprimento e 64,30m de extensão no transepto) eram bem maiores que as catedrais românicas, pois era preciso comportar um número maior de fiéis. Para tanto, além de uma grande nave principal, as naves laterais também maiores e um grande deambulatório que servia de corredor para a contemplação das relíquias expostas nas capelas radiais junto a cabeceira da Igreja. Neste percurso pelo interior do templo, ou também, pelo caminhar simbólico sobre o corpo do próprio Cristo, os homens encontravam uma extensa narrativa em delicado vidro colorido, ou seja, os vitrais.

No intuito de ensinar a palavra de Deus e mostrar sua grandeza, os vitrais forneciam um elemento mágico e transcendente, banhando de luz o interior do templo e nas diferentes nuances de luminosidade , mostravam da Criação ao Juízo Final, da história de Israel a da França e também passagens da vida de santos, profetas e da Virgem.

Porém, cabe ressaltar que a utilização dos vitrais nas igrejas a partir dos fins do século XII é um resultado de um conjunto de fatores: a intensificação das práticas comerciais e o renascimento das cidades, havendo portanto, excedentes que pudessem ser aplicados nas doações para a igreja; uma transformação nas técnicas de construção graças a utilização de cálculos mais precisos e o domínio mais aprofundado da geometria, podendo calcular com razoável variabilidade os arcos ogivais que constituem um dos elementos do gótico e também o manuseio do vidro (material caro e escasso). 

Arcos ogivais da catedral de Chartres

Para incluir os vitrais, as paredes foram se tornando mais finas e vazadas, necessitando portanto, de um reforço externo para mantê-las em pé e ao mesmo tempo, não comprometer a visão dos vitrais. Estes reforços são denominados arcobotantes e se constituem de verdadeiros andaimes de pedra que sustentam a caixa de vidro formada pela catedral.

A estrutura do vitral é feita em metal, chumbo principalmente, o qual forma uma malha rígida e nesta se encaixam os pedaços de vidro colorido , os quais reproduzem as imagens. Algumas tonalidades como o vermelho e o azul eram resultantes da fabricação do vidro, enquanto outras eram acrescentadas sobre o vidro branco numa técnica denominada grisalha. 

Notre-Dame de la Belle Verrière (1145-1150)

Ao observarmos esta baia, no sentido ascendente, encontramos três momentos: o primeiro na base, onde a Fé do próprio Cristo é posta em teste pelo demônio durante as Três Tentações no deserto; o segundo momento durante o primeiro milagre e, portanto, início da vida pública de Jesus nas Bodas de Caná e o terceiro que domina o restante da baia, onde vemos Maria e Jesus sentados num trono rodeados de anjos, sob a Luz do Espírito Santo.
Jesus, num primeiro momento, encontra-se observando o banquete na companhia de dois de seus discípulos, tendo as mãos sobrepostas e apoiadas sobre o corpo. Maria conversa com Jesus e apresenta um semblante tenso, diferente de seu filho, o qual tem um livro numa mão e a outra se encontra aberta, voltada para sua mãe, acatando o pedido desta.
Maria aparece numa outra cena em ação, conversando com um dos criados que serviam a mesa do banquete: Maria tem a postura semelhante à de Jesus, apresentando um livro na mão esquerda e a mão direita aberta, gesto correspondido pelo criado tem um jarro numa mão e a outra livre e aberta, voltada na direção da Virgem.
O desdobramento da ação se dá na cena seguinte, quando os criados enchem os jarros apontados por Jesus com água e os transforma em jarros de vinho, o qual foi levado à mesa do banquete pelo mesmo criado que presenciou o milagre.
Aqui a relação mãe / filho se manifesta e também a transubstanciação que estaria presente numa outra ceia, naquilo que se consagraria como a Eucaristia.
O terceiro e culminante momento seria a metade restante da baia, onde vemos a corte angelical sustentando o trono divino, iluminando e incensando a excelsa condição do Cristo que se encontra no centro e sentado no trono, tendo sua mãe atrás. Maria aparece como a Theotókos, Mãe e guardiã do Filho de Deus, numa postura hierática e soberana, coroada e iluminada pelo Espírito Santo.
A imagem de Maria é aqui elevada a uma dignidade sublime, uma hierofania, uma aparição de uma mulher resplandecente, coroada com 12 estrelas como no Apocalipse, trajando um manto azul de extrema beleza e delicadeza, a cabeça antes coberta com um véu (relíquia que se encontra em Chartres) e depois a Coroa.
Nesse vitral, encontramos elementos muito próximos da tradição bizantina no que diz respeito à composição e ornamentação, mas a matriz de vidro, transpassada pela luz, configura esta imagem uma dimensão tão sublime quanto os fundos dourados de Bizâncio.
Nela podemos ver a idéia da representação da Máter Ecclesiae (Mãe Igreja), a Igreja triunfante e soberana, guardiã da Boa Nova (da ortodoxia na interpretação dos Evangelhos e da doutrina cristã). É também a metáfora da Arca da Aliança que trás a palavra de salvação entre o povo de Deus.
A manifestação dos símbolos de poder (trono, coroa, lei) lhe conferem também o status de Auctoritas e Sedes Sapientiae (Sabedoria Divina) e, portanto, repositório de sua Autoridade, assegurando a concepção medieval de que a Salvação só estaria exclusivamente dentro da Igreja Católica Apostólica Romana.