As Ricas Horas do Duque de Berry

As Ricas Horas do Duque de Berry
As Ricas Horas do Duque de Berry. Produção dos irmãos Limbourg - séc. XV. Mês de outubro

sábado, 28 de setembro de 2013

A crise na Síria: heranças de uma geopolítica da Guerra Fria





A situação da Síria tem trazido grande apreensão para a comunidade internacional na atualidade, especialmente desde 21 de agosto, quando um ataque às forças rebeldes com armas químicas ( gás sarín, mostarda e RX) provocou a morte de 1500 pessoas, sendo 400 crianças, mostrando uma faceta ainda mais sórdida do regime ditatorial controlado pela família Assad, desde 1970.



Bashar Al-Assad (despoticamente no poder desde 2000)

Respeito aos Direitos Humanos nunca foi algo importante aos Assad há décadas e assim, sua sangrenta ditadura foi tolerada pela mesma comunidade internacional que , agora, a julga e isso já tem mais de 40 anos, mesmo a França, antiga controladora da região entre 1918 e 1948, não foi tão dura contra o pai de Bashar, o general Hafez Al-Assad, que com um golpe de Estado, assumiu o controle da Síria em 1970, abrindo caminho para a radicalização contra Israel e por sua vez, uma forte oposição aos EUA no Oriente Médio.



Hafez Al-Assad (foto acima) foi apoiado pela URSS, especialmente, com a venda de armamentos, empréstimos e " consultoria" e assim, podemos entender na atualidade, a relação controversa da atual Rússia com o regime dos Assad, ainda mais que foram estes últimos os responsáveis pela autorização para os russos construírem uma base militar em Tartus, uma região portuária arrendada desde 1972 pelos russos e assim constitui uma sensível ameaça à logística de defesa ocidental no Mar Mediterrâneo, que até então, era uma área de maciça presença dos EUA, Grã-Bretanha e França.



O partido Baath, que significa " renascimento " foi uma importante força política responsável por uma aproximação com o socialismo durante a Guerra Fria, mas assim como no bloco comunista, ao se estabelecer no poder, cunhou uma estrutura autoritária e personalista, não conseguindo oferecer uma melhora na condição de vida da população e colaborou para a estagnação das forças populares, já que estas não detinham nenhuma expressão na essência do partido.


Nasser: a voz do mundo árabe

O Baath colaborou para construir uma força de união entre os árabes, possibilitando por exemplo, em 1º de fevereiro de 1958, a formação da República Árabe Unida, fusão temporária com o Egito de Gamal Abdul Nasser, no entanto, os atritos entre este último e a elite política síria favoreceram a instabilidade precoce da recém nascida república, especialmente pelo centralismo de Nasser como o principal agente daquilo que era o pan-arabismo, a ideia de uma integração plena entre os países árabes, fortalecendo-se perante Israel e seus aliados ocidentais, em destaque, os EUA.

Brasão da República Árabe Unida


Em 28 de setembro de 1961, um golpe de Estado tirou a Síria da RAU e levou à brutalização do já bastante autoritário regime sírio. Em 1967, a Síria voltou a apoiar o Egito na chamada Guerra dos Seis Dias contra Israel, sendo que este último saiu vencedor, tomando a Península do Sinai do Egito e as colinas de Golã da Síria e em 1970, sobe ao poder, o general Hafez Al-Assad, um militar alauíta (facção xiita minoritária que representa 10% da população síria).




Podemos comparar a composição religiosa da Síria ao seu característico artesanato de marchetaria com motivos geométricos encaixados, formando desenhos abstratos e geometrizados. Observe o mapa abaixo:


O predomínio populacional é dos Sunitas, sendo os alauítas (xiitas), e pelo fato do clã Assad ser dessa denominação, sua condição e poder estão assegurados, diferentemente dos cristãos ortodoxos e drusos e os curdos, as principais manifestações religiosas, mas que estão dispersas pelo território, desprovidas de uma maior representação política e que buscavam uma convivência pacífica dentro de uma sociedade síria significativamente tolerante.

Na atual brutalidade dos fatos, com mais de 100.000 mortos, pelo menos o sêxtuplo disso em refugiados se espalhando pela região ou buscando refúgio em outros países na Europa e Américas, o regime de Bashar Al-Assad se conserva numa sobrevida bastante particular, a qual se manifesta na inoperância da ONU, já que seu Conselho de Segurança está dividido pela adoção de sanções punitivas e nesse caso, o aval é dado pela China e Rússia, enquanto EUA, França e Grã-Bretanha, defendem uma ação maior, inclusive a intervenção armada, mas como os aliados e interlocutores de Assad (China e Rússia) já manifestaram seu veto às sanções, fica bastante limitada a possibilidade de uma intervenção militar ocidental ou mesmo, um plano de ação que pudesse dar conta da liquidação das armas químicas e a transição política que tirasse os Assad, abrindo caminho para um reestruturação política da Síria, mas nesse caso, os radicais islâmicos almejam entrar em ação, quem sabe estabelecendo um regime guiado pela Sharia (a lei islâmica), fato que agradaria o aliado regional Irã e preocupa os países ocidentais, além de Israel.

Neste complexo tabuleiro, apesar de alguns xeques, o "rei Assad" continua se movendo e o lance final está longe de ocorrer e de um lado, temos um regime autoritário protegido pela ajuda russo-chinesa e de outro, uma facção rebelde que tem recebido dinheiro e armas leves do Ocidente, mas está bem desorganizada para obter o "xeque mate". Empate?
Enquanto isso, o sangue escorre pela Síria....
















quinta-feira, 19 de setembro de 2013

Papa Francisco critica obsessão da Igreja com aborto e casamento gay

Fonte: Portal iG by  Reuters  








Em uma entrevista franca concedida à Civilta Cattolica, publicação mensal dos jesuítas italianos, Francisco não apontou a perspectiva de nenhuma mudança em tais ensinamentos, mas pareceu tentar mudar o tom da Igreja sobre os temas, passando da condenação à compaixão.

Francisco, o primeiro papa não-europeu em 1.300 anos e o primeiro da América Latina, disse que os 1,2 milhão de membros da Igreja se "trancaram em pequenas coisas, em normas mesquinhas".

A Igreja, segundo o pontífice, deveria ser como um "hospital de campanha depois de uma batalha", que tenta curar as maiores feridas da sociedade, e não ficar "obcecada com a transmissão de uma incoerente infinidade de doutrinas a ser insistentemente impostas".

A longa entrevista foi realizada em três sessões, em agosto, e divulgada simultaneamente nesta quinta-feira em publicações dos jesuítas em todo o mundo, traduzida para vários idiomas.

"Não podemos insistir somente em questões relacionadas a aborto, casamento gay e uso de métodos contraceptivos. Isso não é possível. Não tenho falado muito sobre essas coisas, e eu fui repreendido por isso", declarou.

"Mas, quando nós falamos sobre essas coisas, temos de falar delas em um contexto. O ensinamento da Igreja nessa questão é claro e eu sou um filho da Igreja, mas não é necessário falar todo o tempo desses assuntos."

Falando especificamente sobre os homossexuais, ele disse: "Na vida, Deus acompanha as pessoas, e temos de acompanhá-las, a começar dessa situação. É necessário acompanhá-las com compaixão."
O papa também abordou o papel das mulheres na Igreja, dizendo que as "profundas questões delas precisam ser enfocadas".

"Nós temos, portanto, de investigar mais o papel das mulheres na Igreja. Temos de trabalhar duro para desenvolver uma profunda teologia da mulher. Somente com esse passo será possível refletir melhor na sua função dentro da Igreja", disse.

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

11 de setembro de 1973: o golpe de Pinochet

Ter, na América Latina, um governo socialista além de Cuba, era uma ousadia tremenda naqueles tempos quentes da dita "Guerra Fria" e nesse caso, a eleição da coalizão de esquerda que democraticamente levou Salvador Allende ao poder no Chile em 1970, se configurou como uma ameaça à zona de influência dos EUA.


A tradição política chilena, ao longo do pós-45, fora de uma constante valorização da direita conservadora, ciosa pelos valores cristãos e pelo resguardo das posturas liberais ( economia de mercado e propriedade privada), fazendo com que os clamores por melhoras no âmbito social fossem postos de lado, já que a valorização da iniciativa privada e do capital eram a via tida por " segura" naqueles tempos polarizados.


Allende aparecera num tour de force que vinha da violenta pressão sobre a Cuba de Fidel Castro, desde 1961 e a execução do guerrilheiro argentino Che Guevara, nas montanhas da Bolívia em 1969.


O Cone Sul estava infestado de regimes autoritários, as eleições daquele ano de 1970 bastante disputadas e acompanhadas com muita atenção pelos EUA , governados por Richard Nixon, através de seus agentes da CIA, que estavam articulados com os segmentos conservadores, buscando atingir Allende.
A figura de Allende era bastante forte na política nacional (desde 1945 era senador, sendo que de 1939 a 1942 fora ministro da Saúde),  sendo que já tinha sido derrotado anteriormente em 3 eleições ( 1952, 1958 e 1964).




Manifestações de apoio a Allende 1970.

Allende se elegera com 36,2% dos votos pela União Popular, derrotando o conservador Jorge Aleksandri com 34,9% dos votos na candidatura que representava os setores da direita.

A oposição a Allende tinha grande apoio de segmentos da mídia e com isso, uma franca campanha de desestabilização foi iniciada, provocando o acirramento das diferentes correntes pró e contra Allende.

A nacionalização dos bancos e das minas de cobre , de reforma agrária , gerara apreensão no setor privado, a classe média encontrava-se pressionada pela estagnação da economia, perda do poder de consumo, alta da inflação e desemprego e ainda se sentiam aterrorizados pelas ações do grupo terrorista " Pátria y Libertad", grupo radical de direita que contava com apoio dos EUA.

Demonstrar que a instabilidade crescente era fruto da incompetência de Allende e da chamada " via chilena ao socialismo" foi o objetivo principal dos setores conservadores, especialmente a elite, a Igreja chilena, os industriais, agro-exportadores e começava a minar a lealdade das Forças Armadas.

No intuito de estrangular a economia chilena, os EUA incitaram suas empresas a deixarem de negociar com o Chile e se possível, aquelas que ainda tivessem representação lá, deixassem o país, colaborando em muito para o desabastecimento, favorecendo a alta inflacionária e o descredito em relação a Allende.

Salvador Allende em discurso durante a campanha eleitoral

A extrema esquerda, por sua vez, tinha o grupo "MIR" (Movimento de Esquerda Revolucionário) que buscava se colocar como uma defesa ao projeto de Allende e nesse contexto, os enfrentamentos foram crescentes com os críticos ao governo.

Nixon fora taxativo: "Salvem o Chile!". Dessa forma, o processo de estrangulamento econômico, acompanhado da injeção de recursos para a oposição visava construir o caos.

A primeira tentativa de golpe contra Allende foi detida em 29 de junho de 1973, quando um grupo de tanques dirigia-se ao Palácio de La Moneda e fora detido pelo general Carlos Prats, que sufocando o golpe, buscara Allende para que fosse feita a declaração de Estado de Sítio, que fora solicitada ao Congresso, mas negada, já que Allende não tinha a maioria ali e Allende discursara dizendo que não fecharia o Congresso por sua própria conta

Desde 1972, o general Augusto Pinochet, tornara-se general-chefe do Exército, fazia parte do gabinete militar de Allende, parecia ser apolítico e completamente leal ao governo, portanto, naquela altura trata-se de " lobo em pele de cordeiro".



Dessa forma, pela tensão e polarização interna do Chile, atingido pela escassez de alimentos, alta dos preços e um riquíssimo " mercado negro" que não parava de enriquecer uma minoria de privilegiados, colocava a população nas ruas, clamando a favor e contra o governo, somando as pressões da imprensa controlada pela oposição e as ações subterrâneas da CIA, com o total aval de Nixon, um golpe de Estado era questão de tempo.


Na manhã de 11 de setembro de 1973, começou o levante contra Allende que estava na sede do governo e precisara ali se defender do cerco feito. O general Carlos Prats preservara sua lealdade a Allende, uma minoria tivera a mesma posição, mas o grosso das Forças Armadas se encontrava sob a liderança de Pinochet, o qual ordenara o bombardeio aéreo do Palácio de La Moneda, já cercado pelas tropas golpistas.



Allende tentou resistir, mas perante sua inevitável prisão ou possível execução, suicidou-se por volta das 14:15, sendo assim, uma junta militar assumiu o poder, liderada por Pinochet e ali começou o processo repressivo:  prisões dos opositores, execução dos resistentes, censura com direito a queima de livros, além da reorganização de todas as instituições (privadas ou públicas) que tiveram qualquer atitude de apoio a Allende.

A ditadura de Pinochet se estendeu até 1989 e estima-se que tenha deixado cerca de 50.000 mortos, sendo aí computados chilenos e estrangeiros considerados subversivos.

Pinochet e a Junta Militar golpista de 1973


O general Pinochet , pela defesa de seus ideais, ingressou na seleta lista de " criminosos contra a Humanidade", pois seu governo promovera inúmeras ações de perseguição e extermínio como as " Caravanas da morte", responsáveis pela execução de milhares de opositores, muitos por exemplo no famoso Estádio Nacional de Santiago, além de colaborar com as outras ditaduras do Cone Sul na famosa " Operação Condor", que integrou os serviços de inteligência dos regimes militares do Brasil, Argentina, Uruguai, Paraguai e Chile, para a troca de informações sobre subversivos em seus respectivos territórios, bem como a comum autorização para ações de sequestro e execução dos mesmos, como por exemplo, a morte do general Prats, exilado em Buenos Aires, num atentado à bomba em 30 de setembro de 1974.

Apesar da tentativa do juiz espanhol Baltazar Garzon no ano de 1998,  em expedir um mandato internacional de prisão, visando extraditá-lo da Inglaterra para a Espanha, para julgá-lo pela morte de cinco cidadãos espanhóis no Chile durante seu governo, Pinochet, em virtude de seu estado de saúde debilitado, conseguiu escapar do julgamento, mas ficara detido em prisão domiciliar por 503 dias na Inglaterra. Pinochet teve que abdicar do mandato de senador vitalício em virtude da sua declaração de "insanidade" pelo seu advogado de defesa.
Morreu em 2006, ironicamente no dia 10 de dezembro que é dedicado pela ONU como o Dia Internacional para os Direitos Humanos e dos Povos Indígenas.
Pinochet

Sugestões de filmes:

 
Machuca. Direção: Andrés Wood, 2004: um poético depoimento cinematográfico sobre a perda da inocência de um jovem pré-adolescente que vê sua vida, família e país mudarem naqueles conturbados momentos de 1973, onde Gonzalo Infante, aluno do prestigiado colégio St-Patrick começa aprender sobre a convivência e as diferenças entre os modos de vida de sua família e de um novo colega Pedro Machuca, um espelho das tensões do seu pais.

Dawson, ilha 10. Direção: Miguel Littin, 2012: No início do golpe, os ministros e autoridades depostas tornam-se presos políticos dos militares e são levados para a gelada ilha Dawson, no extremo sul do país, utilizada como campo de concentração da ditadura chilena. Os presos políticos foram submetidos a violentos interrogatórios, trabalhos forçados, constantes torturas ísicas e psicológicas.


Salvador Allende, Direção: Patrício Guzman, 2004: Em 11 de setembro de 1973, um golpe militar de Estado abate a revolução do Chile eliminando o presidente eleito Salvador Allende. O diretor Patricio Guzmán ressuscita o presidente deposto, figura carismática levada ao suicídio e cuja ditadura tratou de apagar a memória. Como é recordado nos primeiros momentos do filme, já não ''resta nada, ou quase nada, de Salvador Allende''. Somente um pedaço de óculos quebrado e alguns papéis encontrados sobre seu corpo sem vida. Em uma homenagem emocionante, Guzmán rende a esta personalidade farol do século 20 uma homenagem ao mesmo tempo íntima e distante, propondo uma reflexão sincera sobre certo ideal político.