As Ricas Horas do Duque de Berry

As Ricas Horas do Duque de Berry
As Ricas Horas do Duque de Berry. Produção dos irmãos Limbourg - séc. XV. Mês de setembro

segunda-feira, 28 de julho de 2014

28 de julho de 1914: há um século explodia a I Guerra Mundial



A Primeira Guerra Mundial assinalou o fim de uma época de grande efervescência cultural, a chamada Belle Époque. O conflito iniciado em 1914 ainda trazia elementos de um mundo romântico, mas já demonstrava a forte presença da industrialização, como por exemplo o contraste entre o uso da cavalaria e o surgimento da infantaria blindada pelos tanques de guerra.
O conflito pode ser dividido em três fases: a guerra de movimento (1914-1915); a guerra de trincheiras (1915-1917) e o desfecho do conflito entre 1917 e 1918.

A primeira fase da guerra foi marcada pelo rápido deslocamento das tropas alemãs em direção da França através do território belga, cumprindo o plano Schlieffen (idealizado pelo general Alfred von Schlieffen, chefe do Estado-Maior do Império Alemão entre 1892 e 1906), pois visavam vencer a França para depois atacar a Rússia. Tanto a Tríplice Aliança quanto a Tríplice Entente acreditavam num rápido desfecho da guerra, ocasionando uma visão maniqueísta (luta entre um lado que representaria o "Bem" e outro que encarnaria o "Mal") e romântica. Essa visão pode ser exemplificada pelo episódio do dia de Natal de 1914, quando alemães e franceses interromperam os combates, realizando um almoço de confraternização com direto a troca de presentes entre si. No entanto, o conflito não foi tão rápido quanto se acreditava. O processo de avanço dos exércitos tornou-se mais difícil, e a partir daí, a guerra entrou numa nova fase, talvez sua fase mais cruel: a guerra de trincheiras.

A impossibilidade de avanços fez com que os exércitos de ambos os lados cavassem profundas trincheiras com uma vasta rede de túneis interligado-as. O objetivo era defender as posições conquistadas. Para tanto, os recursos utilizados eram largas extensões de arame farpado, campos minados e ações de avanço e recuo entre ambos os lados em combate. O ataque consistia inicialmente num intenso bombardeio com a artilharia pesada, sendo ao término desse ataque dada a ordem de avanço para a infantaria; ou seja, para que os soldados fossem em direção à linha inimiga. O avanço, no entanto, era dificultado pela defesa através do uso das metralhadoras.

Esta forma de guerra tornava-se uma grande máquina de extermínio em proporções inigualáveis, pois milhares de vidas eram ceifadas para conquistar um ou dois quilômetros de território. Enquanto aguardavam as ordens de ataque ou se defendiam, os soldados eram submetidos a uma situação hedionda: frio, lama, piolhos, ratos e corpos em decomposição lhes fazendo companhia. Um exemplo deste morticínio foram as batalhas de Somme e Verdun, na frente ocidental em 1916, as quais consumiram 800.000 soldados alemães e 900.000 soldados ingleses e franceses. Este período também foi marcado pela utilização de armas químicas, como os gases cloro e mostarda por ambos os lados.



Durante a guerra de trincheiras ocorreu uma alteração nas alianças, pois a Itália, até então aliada dos alemães, tornou-se aliada dos ingleses, contribuindo para o desequilíbrio de forças naquele momento (esta mudança ocorreu pela promessa de possessões na África no caso da vitória franco-britânica). O conflito não sofreu grandes alterações até 1917, pois as possibilidades de avanço eram pequenas e a guerra se encaminharia para sua fase final com uma nova alteração das forças envolvidas.


A Rússia se retira em outubro de 1917 em virtude da Revolução Socialista que derrubou o czar (realizando o armistício de Brest-Litowsk formalmente em março de 1918); neste mesmo ano, os Estados Unidos entram na guerra ao lado da Entente para equilibrar as forças desta última, fazendo com que a pressão alemã fosse contida e o deslocamento dos exércitos alemães da frente oriental para a ocidental não causasse um desequilíbrio na região de conflito.

1917: o socialismo atinge o poder na Rússia.


O desfecho da guerra deu-se através do início de uma série de negociações diplomáticas entre ambas as partes. Uma das principais tendências era estabelecer a "paz sem vencedores", proposta defendida pelo presidente norte-americano Woodrow Wilson, que propôs um acordo conhecido como "Os 14 Pontos de Wilson", que foram impressos em panfletos e jogados por aviões para os soldados e civis alemães. No final de 1917 os alemães tentaram o último ataque contra os franceses, mas foram detidos recebendo um pesado contra-ataque. Os austríacos, demonstrando sinais de esgotamento, também pediram por um acordo de paz.

Devido à eclosão de uma grande greve nas indústrias alemãs e um motim em Kiel, bem como a irredutível posição do kaiser em manter a Alemanha em guerra, o Alto Comando do Exército Alemão  (encabeçado pelos marechais Hindenburg e Ludendorf) forçou a abdicação de Guilherme II, que se exilou na Holanda e assim, teve início a República na Alemanha.

O tão esperado armistício foi assinado pelo novo governo em 11 de novembro de 1918, deixando um saldo de destruição e morte nunca antes visto: cerca de 18 milhões de mortos, que eram militares e também civis de várias regiões atingidas direta ou indiretamente pelo conflito, como por exemplo, o massacre de aproximadamente 1,2 milhão de armênios pelo exército turco em 1917.

Tratados de Paz

Com o término dos conflitos, os países em guerra se reuniram no Palácio de Versalhes para a realização dos acordos de paz. Participavam como representantes dos países da Intente o primeiro-ministro inglês Lloyd George, o primeiro-ministro francês Clemenceau, o presidente norte-americano Wilson e representantes dos demais países envolvidos. Nesta conferência foi elaborado um acordo de paz mais radical visando enfraquecer os alemães (como um armistício alemão foi assinado num momento em que havia muitas de suas tropas em território francês, criou-se o mito da invencibilidade alemã, ou seja, o alto oficialato alemão dizia-se vencedor do conflito).

"Assinatura da Paz no Salão dos Espelhos"William Orpen, 1919, Imperial Museum of War, Londres, Grã-Bretanha. 
No mesmo Salão dos Espelhos, no Palácio de Versalhes, onde os alemães fundaram o II Reich humilhando os franceses em 1870, os vencedores da Tríplice Entente humilharam os alemães com a Paz dos Vencedores em 1918-19.


Da proposta de Wilson foram aproveitados dois pontos: a criação da liga das nações e a devolução da Alsácia e Lorena para a França. Dessa forma foi imposta aos alemães a "paz dos vencedores", com o Tratado de Versalhes de 1919: pagamento de uma indenização de 133 bilhões de libras-ouro para os países vencedores, redução do exército alemão a 10% do montante do início da guerra (100.000 homens), proibição de presença militar na região da Renânia, limitação da indústria bélica alemã, perda de 1/7 de seu território com a criação da Polônia e do corredor polonês com o porto livre de Dantzig.


A Conferência de Versalhes serviu para dar origem à Liga das Nações, uma instituição internacional que deveria zelar pelo equilíbrio dos países. No entanto, não participavam dela a Alemanha e a Rússia Socialista. Em 1919 foi assinado o Tratado de Saint-Germain, que fundava o Império Austríaco, criando a Áustria, a Hungria, a Tchecoslováquia e a Iugoslávia, e também passava para o controle italiano as regiões de Trieste, sul do Tirol, Trentino e Ístria. Em 1920 foi assinado o Tratado de Sèvres, que extinguia o Império Turco, reduzindo seu território e assim passava suas possessões na Mesopotâmia (Iraque e Síria) e Palestina para o controle franco-britânico.



quarta-feira, 23 de julho de 2014

Conflitos árabes-israelenses: do plano da ONU ao atual massacre

A Palestina estava sob o domínio do Império Turco-Otomano, que, ao ser derrotado na Primeira Guerra Mundial, em 1918, perdeu o controle da região para a Grã-Bretanha, na Declaração de Balfour, que se comprometeu a criar um “lar nacional” para os judeus na Palestina e abriu o acesso à imigração judaica articulada pelo movimento sionista, liderado, entre outros, pelo escritor e jornalista Theodor Herzl (1860-1904).

Em 1947, a ONU decidiu repartir a Palestina entre os 1 milhão e 300 mil palestinos que viviam na região e os 600 mil judeus emigrados da Europa. O plano previa a criação de dois Estados, um judeu e um palestino, com 57% e 43%, respectivamente. Os árabes recusaram a proposta de partilha aprovada pela ONU.



Quando, em 1948, acabou o mandato britânico na Palestina, assim que as tropas britânicas deixaram a região, Davi Ben-Guiron leu a Declaração de Independência em 14 de maio, encerrando a dominação estrangeira na região e criando formalmente o Estado de Israel. Em virtude do não reconhecimento do novo Estado pela Liga Árabe (Egito, Síria, Líbano, Transjordânia e Iraque), desencadeou-se a Primeira Guerra Árabe-Israelense (1948-1949), vencida por Israel, que expandiu seus domínios para 75% do território da Palestina. O resto foi anexado pelos países vizinhos: a Transjordânia anexou a Cisjordânia, e o Egito, a Faixa de Gaza.

A consequência imediata foi a expulsão de cerca de 900 mil palestinos, que ficaram dispersos nas regiões fronteiriças, onde se formaram campos de refugiados sem nenhuma infraestrutura.
A tensão continuou latente e levou a um novo enfrentamento, em 1956, a Segunda Guerra Árabe-Israelense, que ficou conhecida como Guerra de Suez. Vencida mais uma vez por Israel, que contou com o apoio da Grã-Bretanha e da França, implicou a derrota do Egito e a conquista da península do Sinai. A pressão conjunta da URSS e dos EUA obrigou Israel a recuar para a fronteira vigente em 1949, e o Sinai foi ocupado por um contingente militar da ONU, os “boinas azuis”.


Em 1964, organizou-se a OLP (Organização para a Libertação da Palestina), cujo objetivo era agir em sistema de guerrilha contra as forças israelenses, mas, em 1967, com a retirada das tropas da ONU, eclodiu um novo conflito, a Terceira Guerra Árabe-Israelense, ou Guerra dos Seis Dias, quando Israel enfrentou as tropas da Liga Árabe (Egito, Síria e Jordânia) e, contando com apoio estadunidense, mais uma vez venceu, ampliando ainda mais seu território. Dessa vez, ocupou a Faixa de Gaza, a península do Sinai, a Cisjordânia e as colinas de Golan, provocando um novo êxodo e elevando o número de refugiados a cerca de 1 milhão e 600 mil.



Numa nova ação militar, aproveitando o feriado religioso judaico do Yom Kippur (Dia do Perdão), os países árabes tentaram um ataque-surpresa na primavera de 1973, conhecida como Quarta Guerra Árabe-Israelense: Egito e Síria atacaram simultaneamente Israel, que reagiu imediatamente, rechaçando as forças árabes; ao mesmo tempo, a ONU começou intermediar um cessar-fogo.

Em 1977, o presidente egípcio Anwar al-Sadat fez uma visita oficial ao Estado de Israel e começou a articular um processo de apaziguamento que culminou com o acordo de paz de Camp David, assinado em 1979, com a intermediação do presidente estadunidense Jimmy Carter, firmado entre o Egito e Israel, representada pelo primeiro-ministro Menahen Begin, que devolveu a península do Sinai ao controle egípcio. Sadat, por sua vez, se tornou inimigo dos setores mais radicais do movimento palestino e foi assassinado em 1981 por militares das Forças Armadas do Egito.
Alguns palestinos no exílio adotaram a guerra terrorista como forma de luta. O líder do grupo Al-Fatah (a conquista), Yasser Arafat, tornou-se mais tarde líder da OLP, que pretendia a criação de um Estado laico na região, englobando judeus, cristãos e muçulmanos.

A partir de 1973, a OLP decidiu dar mais ênfase à luta no campo diplomático, discursando na ONU, onde foi reconhecida como representante do povo palestino. Mas isso não foi suficiente para reduzir os problemas, pois, em 1975, o Líbano foi palco de disputa entre as forças árabes e as tropas israelenses, que se associaram às falanges militares cristãs, formadas por libaneses que se opunham aos muçulmanos e à causa palestina.
Entre 1975 e 1990, o Líbano foi dilacerado por constantes ações militares. Forças militares israelenses ocuparam uma faixa ao sul da fronteira libanesa – uma “faixa de segurança” para deter ações de grupos palestinos – e, ao mesmo tempo, forças militares sírias ocuparam o resto do território, para conter o avanço de Israel.

Em 1992, com a intermediação do presidente estadunidense Bill Clinton, foram firmados os acordos de paz de Washington, entre o líder palestino Yasser Arafat e o primeiro-ministro israelense Yitzhak Rabin, em 13 de setembro de 1993, abrindo caminho para o reconhecimento da autoridade palestina, a qual assumiria o controle dos territórios palestinos, forjando-se o processo para a formação do Estado palestino. No entanto, a posição de Rabin desagradou os setores conservadores israelenses, e, em 1995, Yigal Amir, radical da extrema direita israelense o assassinou em 4 de novembro quando discursava sobre a importância da paz para a boa convivência entre judeus e árabes, na então Praça dos Reis, hoje Praça Yitzhak Rabin, em Tel Aviv.



A Autoridade Nacional Palestiniana surgiu como resultado dos Acordos de Oslo, assinados em setembro de 1993 por Israel e a Organização para a Libertação da Palestina. Nos termos estabelecidos, a autoridade deveria existir até maio de 1999. No fim deste período, esperava-se ter resolvido o estatuto final dos territórios da Faixa de Gaza e da Cisjordânia, ocupados por Israel após a vitória na Guerra dos Seis Dias de 1967. A Autoridade Nacional Palestiniana deveria administrar parte significativa destes territórios, assegurando através de forças policiais próprias a segurança dos territórios.
Em maio de 1994, Israel retirou-se de partes da Faixa de Gaza e da cidade de Jericó na Cisjordânia e em pouco tempo a autoridade entrou em funções. Os seus primeiros membros não foram eleitos, sendo membros da OLP. A autoridade assumiu o controlo da educação, da saúde, turismo e finanças.
Apesar da oposição a este processo, oriunda quer do lado palestiniano, quer do lado israelita, a 28 de setembro de 1995 Arafat e o primeiro-ministro israelense Rabin assinaram um acordo em Washington no qual se previa a expansão do controlo da ANP na Cisjordânia, assim como a realização de eleições para a presidência da ANP e para o Conselho Legislativo da Palestina. As cidades de Jenin, Nablus, Tulkarm, Belém, Qalqilyah e Ramallah, todas situadas na Cisjordânia, passaram para o controlo da ANP. Em outubro de 1995, Israel entregou pequenas aldeias da Cisjordânia à ANP.

Em janeiro de 1996, tiveram lugar as primeiras eleições para a presidência da Autoridade Nacional Palestiniana e para o Conselho Legislativo da Palestina. Yasser Arafat foi eleito presidente com 87,1% dos votos, ocupando o cargo até à sua morte em dezembro de 2004. O seu partido, o Fatah, ganhou 55 dos 88 lugares do conselho.
O cargo de primeiro-ministro da ANP foi criado em 2003 pelo Conselho Legislativo da Palestina, em larga medida por sugestão dos Estados Unidos, tendo sido Mahmoud Abbas (eleito presidente da ANP em janeiro de 2005) o primeiro a ocupar o cargo.
Em fevereiro de 2005, o primeiro-ministro de Israel Ariel Sharon e Mahmoud Abbas encontraram-se numa cimeira em Sharm al-Sheikh e declararam uma trégua que terminou com a Intifada de Al-Aqsa. Em setembro do mesmo ano, Israel deu por terminada a retirada dos seus colonatos da Faixa de Gaza e, a partir de então, a ANP passou a assumir o controlo daquele território.
Em janeiro de 2006, o Hamas, grupo considerado terrorista pelo governo de Israel, venceu as eleições parlamentares e formou governo com Ismail Haniya como primeiro-ministro. Analistas políticos consideraram a derrota do partido moderado Fatah nas eleições resultado da insatisfação da população palestina com a incompetência e corrupção do partido Fatah, que detinha o poder da Autoridade Palestina. Entre 2006 e 2010, Fatah e Hamas estiveram rompidos, porém, se reconciliaram em 2011, apesar dos protestos de Israel, sob o governo conservador do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, responsável por mais este conjunto de ações brutais(bombardeio aéreo e de artilharia terrestre, além de ações com blindados em território palestino), com uso desmedido de força, caracterizando basicamente terrorismo de Estado, se não for crime de guerra e contra a Humanidade, nestas últimas três semanas, tendo até o presente momento (26/07) mais de 1000 mortos e mais de 6000 feridos (segundo fontes de Gaza), grande partes civis, enquanto Israel acumula 42 mortos (40 soldados e 2 civis), fruto dos foguetes lançados pelo Hamas contra o território israelense.





sexta-feira, 4 de julho de 2014

Iraque: tensões e conflitos que se arrastam há um século

A Revolução Industrial, que se estendeu pela Europa entre os séculos XVIII e XIX,  provocou um descompasso na produção daquele continente, sobretudo no tocante à necessidade de se obter matérias-primas e novos mercados consumidores. A Inglaterra, primeira nação a realizar a Revolução Industrial, foi também a primeira a sentir esses efeitos, partindo, então, atrás de novos mercados para seus produtos.

A busca de matérias-primas estratégicas, como ferro, cobre, carvão, bem como de ouro, prata e demais pedras preciosas, fez que regiões como África e Ásia, até certo ponto ignoradas, apesar da expansão marítima dos séculos XV e XVI, se tornassem presas valiosas para as potências europeias. Havia outros fatores que empurravam os europeus para uma prática colonialista: a possibilidade de transferir colonos para as regiões conquistadas, dando uma solução para o problema de superpopulação na Europa, dentro de determinados contextos, mas este fato não excluiu a exploração da mão de obra local.

A Primeira Guerra Mundial foi um conflito em larga escala marcado pelo acirramento das tensões econômicas, políticas e sociais na Europa durante o final do século XIX e início do século XX, consagrando-se portanto, num choque de imperialismos. Tal fato estava diretamente relacionado com a "corrida colonial" provocada neste período pelas potências capitalistas com o objetivo de obter fontes de matérias-primas e mercados consumidores.

Tratado de Versalhes de 1919 foi elaborado como um acordo de paz mais radical visando enfraquecer os alemães (como um armistício alemão foi assinado num momento em que haviam muitas de suas tropas em território francês, criou-se o mito da invencibilidade alemã, ou seja, o alto oficialato alemão dizia-se vencedor do conflito).

Redefinir as fronteiras europeias e a conjuntura de seus envolvidos na "Grande Guerra" foi um dos principais objetivos da Conferência de Versalhes, a qual também serviu para dar origem à Liga das Nações, uma instituição internacional que deveria zelar pelo equilíbrio dos países. No entanto, não participavam dela a Alemanha e a Rússia Socialista. 

Versalhes foi a porta de entrada de uma sequência de outros tratados que tinha "objetos" mais específicos: 

  • 1919 foi assinado o Tratado de Saint-Germain, que fundava o Império Austríaco, criando a Áustria, a Hungria, a Tcheco-Eslováquia e a Iugoslávia, e também passava para o controle italiano as regiões de Trieste, sul do Tirol, Trentino e Ístria. 
  • 1920 foi assinado o Tratado de Sèvres (França), que extinguia o Império Turco, reduzindo seu território e assim passava suas possessões na Mesopotâmia (Iraque e Jordânia) e Palestina para o controle britânico e a Síria e o Líbano para o controle francês.


Quero me deter neste último tratado que, na verdade, não é "filho de Versalhes", mas sim de um outro acordo, assinado ainda durante o contexto da guerra, quando as tribos árabes se levantavam contra o Império Turco: os governos da França (representado por François Georges-Picot) e da Grã-Bretanha (representado por Mark Sykes) selaram um acordo secreto em 1916, posteriormente conhecido como acordo Sykes-Picot, o qual determinava a partilha da região entre franceses e britânicos e o estabelecimento de um controle político (“Mandato”) com duração de 30 anos. Dessa forma, o desejo de independência dos árabes e dos judeus foi submetido aos interesses das potências europeias, que julgavam importantíssimo ocupar o vácuo político deixado pelo Império Turco no Oriente Médio.

Em azul e vermelho escuro(domínio direto) e nas áreas listradas(zona de influência).
Observar a "Palestina" marcada como "zona internacional".

Dessa forma, as atuais fronteiras do Oriente Médio começaram a ser construídas durante e pós-guerra, obedecendo os interesses das potências europeias em detrimento das necessidades e interesses locais e neste caso, o Tratado de Sèvres de 1920 serviu para materializar as sigilosas discussões feitas num contexto onde não se sabia ainda quais os desdobramentos sobre a guerra.


Em 1920 a Conferência de San Remo levou à imposição de um mandato da Liga das Nações para a Inglaterra administrar o Iraque, onde indicaram a britânica Gertrude Bell (1920-26) como governadora daquela região. O Rei Faiçal I foi coroado pelos britânicos como chefe de Estado, embora tivesse um poder meramente simbólico perante o domínio inglês. Isto fez eclodir uma nova rebelião separatista. Para dominar o Iraque, as tropas britânicas realizaram uma verdadeira guerra colonial, utilizando-se de forças blindadas e bombardeios aéreos contra vilas e cidades iraquianas durante toda a década de 1920, que incluíram o uso de armas químicas como o gás mostarda lançado de aviões.
Em 1932 o Iraque teve sua independência formalizada, embora continuasse sob forte influência inglesa, já que o Reino Unido conseguiu manter membros do antigo governo colonial (1920-1932) durante o curto período de independência do Iraque governado pelo Rei Faiçal (1932-1933) e na sequência, em governos dos seus descendentes da dinastia hachemita.
Após a morte do rei Gazi, filho de Faiçal, em 1939, foi instituído um período de regência, pois o rei Faiçal II tinha apenas 4 anos. Na maior parte do período de regência, o tio do rei, Abdulillah (Abdel Ila), governou o Iraque.
Este era um governo pró-britânico até o início da II Guerra Mundial. Em Março de 1940, o Primeiro-Ministro e General Nuri as-Said foi substituído por Rashid Ali al-Gailani, um nacionalista radical, que adotou uma política de não-cooperação com os britânicos. A pressão britânica que se seguiu levou a uma revolta militar nacionalista em 30 de Abril de 1941, quando foi formado um novo governo, pró-Alemanha, encabeçado por Gailani. Os britânicos desembarcaram tropas em Basra e ocorreu uma rápida guerra entre os dois países em Maio, quando os ingleses restabeleceram o controle sobre o Iraque e Faiçal II foi reconduzido ao poder. 
Em 17 de Janeiro de 1943 o Iraque declarou Guerra à Alemanha. A Grã-Bretanha ocupou o Iraque até 1945 e dividiu a ocupação do vizinho Irã com as forças da URSS. Durante a guerra o Iraque foi um importante centro de suprimento para as forças dos Estados Unidos e da Grã-Bretanha que operavam no Oriente Médio e de transbordo de armas para a URSS. Após a II Guerra Mundial, o Iraque se tornou área de influência dos EUA, assinando o Pacto de Bagdá em 1955 com EUA e Turquia.
O Iraque participou da guerra árabe-israelense de 1947-1949 (Ver: Guerra árabe-israelense de 1948), e apoiou os países árabes em guerra contra Israel na Guerra dos Seis Dias (1967) e na Guerra do Yom Kippur (1973).
Com a crise política dos anos 1950, o Iraque chegou a formar uma confederação com a Jordânia em 1958, que dissolveu-se com o fim da monarquia e o início da república no mesmo ano. O período 1959-1979 foi bastante conturbado na história iraquiana, com diversos golpes de Estado e participação em duas guerras.
Em 17 de julho de 1968, Ahmed Hassan al-Bakr deu um golpe de estado que derrubou a república e o presidente Abdul Rahman Arif, colocando os baathistas no poder. Onze anos depois, em 15 de julho de 1979, o sunita Saddam Hussein (até então vice de al-Bakr) assumiu a liderança do país, iniciando um governo que duraria até a Invasão Americana ao Iraque em 2003. Saddam lideraria o Iraque contra o Irã, na longa e sangrenta Guerra Irã-Iraque, apoiado pelos EUA. Entretanto, após invadir o Kuwait em 1990, o país foi duramente atacado pela coalizão de países liderada pelos EUA na Guerra do Golfo, em 1991.
O governo de Saddam foi marcado por avanços econômicos e desenvolvimento do país, sem paralelo com história anterior da nação. Contudo, após a guerra contra o Irã e contra as potências ocidentais pelo Kuwait, a economia do Iraque entrou em colapso. A corrupção no seio do regime e o encolhimento econômico foi seguido por anos de tensão sectária, entre sunitas, xiitas e curdos. Para reprimir uma rebelião deste último, perto do fim da guerra com o Irã, as forças de Hussein lançaram a chamada Operação Anfal, que resultou em mais de 180 000 mortes. Os xiitas também se rebelaram, em 1991, mas sua revolta foi igualmente sufocada, com um saldo de mais de 230 000 pessoas mortas. 
Durante a década de 1990, o país foi assolado com tensão sectária e pobreza extrema (especialmente entre a população xiita), decorrente da má gestão, da infra-estrutura precária e da corrupção do regime sunita de Saddam. Os Estados Unidos e seus aliados realizaram bombardeios esporádicos pelo país (como em 1996 e 1998). 
Duas zonas de exclusão aérea (as operações Northern Watch e Southern Watch) sobre o Iraque foram impostas pela OTAN, com o objetivo de limitar a capacidade do exército iraquiano de usar violência exagerada contra as minorias e tentar impedir repressões étnicas, ao mesmo tempo que tentava enfraquecer o regime baathista. Isso acabou por deteriorar ainda mais a infra-estrutura civil e militar do país.
As "Zonas de Exclusão Aérea": ao norte do paralelo 36 (Northern Watch) e ao sul do paralelo 33 (Southern Watch)

Após usar armas químicas e biológicas na guerra contra o Irã e na repressão dos xiitas e curdos, o regime de Saddam Hussein começou a sofrer pressão internacional para que ele abrisse mão de tais armamentos. Sanções econômicas foram então impostas pela comunidade internacional e pela ONU, devido a falta de colaboração das autoridades iraquianas. O resultado foi em uma acentuação da pobreza e deterioração da infra-estrutura interna. Contudo, apesar de tudo, o regime de Saddam permaneceu firme até 2003, quando uma coalizão ocidental dos Estados Unidos o derrubou do poder, ainda alegando a posse de "armas de destruição em massa" químicas e biológicas, tendo toda uma teia de relatório forjados pela CIA, que dessa forma, deu condições para a pressão encabeçada por George W. Bush dos EUA e Tony Blair pela Grã-Bretanha. Vale lembrar que, ambos, sustentaram a ação no Iraque até o fim, sempre dando como verdadeiras as "informações dos relatórios de inteligência".
Apesar da vitória sobre Saddam, a questão da falsidade das informações e sua manipulação, levaram ao desgaste tanto o governo de Blair, que renunciou ao terceiro mandato como primeiro-ministro em 2007 quanto Bush e os republicanos que foram derrotados em 2008 com a eleição de Barack Obama para a presidência dos EUA. Ficou cada vez mais evidente que, apesar da retórica forjada nos relatórios faciosos, o interesse maior era o acesso às reservas iraquianas de petróleo.
Apesar da rápida vitória e deposição do regime de Saddam Hussein, a ocupação acabou sendo desastrosa. Grupos xiitas e sunitas armaram-se e começaram um movimento de resistência contra as forças da coalizão ocidental. Os rebeldes também começaram a combater não só os americanos mas uns aos outros, dando início a um sangrento conflito de caráter sectário e religioso. Diversas facções como o chamado "Exército Mahdi", uma milícia xiita, e a Al-Qaeda, primordialmente sunita, começaram, a partir de 2004, sangrentos embates por todo o país. Entre 2004 e 2007, o Iraque viveu uma guerra civil que acabou ceifando centenas de milhares de vidas. Nesse meio tempo, em 2006, Saddam Hussein foi levado a julgamento por crimes contra a humanidade e enforcado. 
Para sucede-lo no poder, foi instituído um governo (formado por autoridades estrangeiras) chamado Autoridade Provisória da Coalizão, chefiado pelo americano Paul Bremer. Contudo, tanto a execução de Saddam quanto a formação do governo provisório, não conseguiu trazer um fim na violência que assolava a nação. A dissolução do exército baathista e da antiga infra-estrutura governamental pelas potências ocidentais acabou levando o país ao caos, virando o Iraque numa zona de guerra sangrenta e brutal.
Estima-se que mais de 500 000 pessoas tenham morrido no conflito no Iraque entre 2003 e 2011.Nem mesmo a instalação de um parlamento democraticamente eleito em 2005 (o primeiro em décadas) conseguiu por um fim na violência sectária e religiosa que assolava o Iraque. Ibrahim al-Jaafari, nomeado primeiro-ministro, não conseguiu trazer o país a estabilidade esperada. Seu sucessor, Nouri al-Maliki, também falhou no propósito de trazer um fim a guerra. Em 2007, o presidente americano George W. Bush ordenou o envio de 20 000 novos soldados americanos, elevando o total de forças estrangeiras no Iraque para 176 000 combatentes (incluindo 148 000 estadunidenses). Após o envio destes reforços, aparentemente, a violência no país começou a cair. Com a situação de segurança melhorando e a economia do país começando a estabilizar, o Parlamento iraquiano pediu formalmente para que os Estados Unidos que retirassem suas tropas.  
No ano seguinte, forças dinamarquesas, australianas e de outros países começaram a retirar suas forças do Iraque. Ainda em 2008, o Reino Unido, principal parceiro dos americanos na região, também deram início a sua retirada do território iraquiano. No mesmo ano, o governo Bush e o primeiro-ministro do Iraque firmaram um acordo para a retirada completa dos soldados dos Estados Unidos do país, encerrando as atividades da coalizão por lá. Generais americanos criticaram o plano, afirmando que sua saída de lá poderia reascender o conflito. Porém, a administração do presidente Barack Obama, que sucedeu Bush, estava determinada a encerrar a guerra do Iraque de uma vez por todas. Em 2009, o exército dos Estados Unidos começou a passar a responsabilidade de defesa do país para as forças de segurança iraquianas (armadas e financiadas pelos americanos). 

Fonte: Jornal "O Estado de São Paulo"





Fonte: Jornal "Folha de São Paulo"

Fonte: Jornal "O Estado de São Paulo"