As Ricas Horas do Duque de Berry

As Ricas Horas do Duque de Berry
As Ricas Horas do Duque de Berry. Produção dos irmãos Limbourg - séc. XV. Mês de setembro

terça-feira, 23 de junho de 2015

Curso de Filosofia no Cursinho da Poli

Caros estudantes e leitores

Estamos com uma novidade que visa prepará-los ainda melhor para os exames: o Cursinho da Poli organizou um curso de Filosofia, que acontecerá nas 3 unidades, conforme as informações abaixo. A idéia é que possamos discutir os principais temas e tópicos, cuja abordagem tem sido mais intensa nos exames como ENEM, Unicamp, Unesp e outros vestibulares a partir da análise de textos de autores e resolução de exercícios.  

Esta atividade é aberta também para aqueles que não são alunos do Cursinho da Poli, mas se interessam em participar. Portanto, não percam!! 


domingo, 21 de junho de 2015

O difícil exercício da laicidade e a intolerância religiosa no Brasil contemporâneo



Desde a implantação da República em 1889, com o golpe de Estado liderado pelo Marechal Deodoro da Fonseca, o Estado brasileiro se apresenta como laico, portanto, sem uma postura confessional (existência de uma religião oficial) e defensor da liberdade religiosa dos cidadãos.

Obviamente, muita “água passou por baixo desta ponte”, pois a laicidade do Estado sempre esteve questionada com certos privilégios que foram concedidos à Igreja Católica Romana, desde a República Velha até o Regime Militar (1964-85), fato que construiu um espaço de significativa proeminência para o clero católico e seus seguidores: os feriados católicos que estão incluídos no calendário civil, enquanto outras datas de diferentes religiões nem sequer são mencionadas.

No entanto, desde 1988, quando foi promulgada nossa atual Constituição, mais uma vez foi assegurado que o Estado brasileiro é laico, mesmo com a controvertida “citação de Deus”, no preâmbulo da mesma Carta Constitucional, da mesma forma que artigo n° 5, VI: “é inviolável a liberdade de consciência e de crença, sendo assegurado o livre exercício dos cultos religiosos e garantida, na forma da lei, a proteção aos locais de culto e suas liturgias”.

Bem, pelo que está posto, qualquer cidadão brasileiro pode, de acordo com suas convicções, ter uma fé e professá-la ou se for o caso, não ter nenhuma crença, gozando das mesmas liberdades. O espaço de culto está assegurado, bem como, o transcurso dos rituais e suas características.
Dentro deste contexto, fica uma questão: o que fazer em relação aos espaços públicos (delegacias, tribunais, hospitais, repartições públicas e escolas)? Seguindo a Carta Constitucional, não deve haver nenhum favorecimento de qualquer manifestação religiosa, pois nem todos os cidadãos serão devidamente contemplados, em virtude da diversidade de crenças e do mesmo modo, aqueles que não tem crença alguma também se sentirão constrangidos.

Mas as contradições são gritantes: os protestos contra a retirada dos crucifixos dos tribunais ou ainda, o momento em que, durante um testemunho num processo, os depoentes devem jurar que dirão “a verdade, nada mais que a verdade”, tendo sua mão imposta sobre uma Bíblia.

Ou ainda: porque nas cédulas de nossa moeda está escrita a frase "Deus seja louvado"?

Em 23/11/2010, na cidade de Cafelândia, oeste do estado de São Paulo, um pai espancou a filha até a morte, obrigando-a seguir as "regras" da igreja por ele frequentada. Quanto à regra descumprida, o problema foi namorar um garoto na praça pública da cidade, já que ele não permitia que ela conversasse com nenhum rapaz. O pai alegou que estava corrigindo os erros de sua filha, conforme sua fé.

Esta temática tem surgido no debate público com certa intensidade e recentemente, casos de desrespeito e abuso tem se manifestado de modo mais ou menos recorrente, como por exemplo, o caso da Escola Estadual Gertrudes Eder, em Itapecerica da Serra, cidade da Grande São Paulo. Neste estabelecimento público de ensino, os estudantes tem sido obrigados a rezar o “Pai Nosso” antes do início das aulas, enfileirados no pátio, sob as ordens de professores que insistem na “obrigatoriedade do evento”, pedem silêncio para os estudantes, inclusive, ameaçando-os com represálias, como a redução do tempo do intervalo entre aulas.

Se esta cena já não fosse dantesca, o pior fica para aqueles que se declaram ateus ou de outra crença, que também devem ali permanecer, “podendo não rezar”, mas de certa forma, ficam expostos sobre os olhares de reprovação dos colegas e professores.

A escandalosa situação desta escola ganhou publicidade nacional numa matéria da Folha de São Paulo (6/04/2012), onde a secretaria de ensino se posicionou oficialmente contra o “evento” e a diretora da escola foi afastada “preventivamente” para a apuração dos fatos. Porém, segundo a reportagem, a diretora não teve autorização da Secretaria para falar sobre o fato.

No mesmo dia, em seu editorial “Religião na escola”, a Folha cita um outro caso, dessa vez ocorrido em Miraí, MG, quando um adolescente de 17 se recusou a rezar o “Pai Nosso” antes de começar a aula de Geografia, ato instituído pela professora responsável pela turma. Em virtude da sua “insubordinação” foi obrigado a ouvir, perante seus colegas, a inquisitorial reprovação da professora: “ele não tinha Deus no coração e nunca seria nada na vida!”, segundo o editorial da Folha.

Em 01/06/2015, a yalorixá Dede de Iansã, de 90 anos, morreu em virtude de um infarto, na cidade de Camaçari, na Bahia. A situação foi causada porque um grupo de cristãos neopentecostais abriu uma igreja em frente ao terreiro de Dede e ficaram realizando um culto que "demonizava" o culto afro, atingindo a yalorixá e seus familiares, sendo que este evento ocorreu praticamente na calçada da casa de Dede, onde também está o seu terreiro, num ato claro de perseguição e intolerância religiosa.

No dia 14/06/2015, uma garota de 11 anos foi atingida por pedras, logo após sair de um terreiro de candomblé na região da Penha, zona norte do Rio de Janeiro. Sob os gritos de "saí demônio! Vão queimar no inferno, macumbeiros!", um grupo de cristãos agiu barbara e covardemente contra uma criança que voltava para casa depois de ter professado sua crença.

Obviamente, não são todos os cristãos que trazem esta cultura de ódio, desrespeito e violência, pois muitos se posicionam contra os abusos que os fundamentalistas tentam colocar como "prática da sua fé". Cabe ao Estado, nas suas diferentes esferas(municipal, estadual e federal), zelar para que os espaços sejam garantidos a todas as crenças, bem como aos não-crentes(agnósticos e ateus), evitando portanto a fermentação do ódio religioso em nossa sociedade. Temos problemas muito maiores a resolver para ver mais este se implantar aqui como uma realidade inquestionável.

Devemos sempre lembrar que, onde o medo e a ignorância se juntam, os resultados são catastróficos e que a bandeira da "moral e dos bons costumes" sempre serviu de cobertura para a prática de atrocidades contra minorias tidas como "ameaças", "desvios" ou "desrespeito" àquilo que seria uma "postura de todos", mas que na verdade não passa do mais raso senso comum sobre o que é a religiosidade e seu espaço no mundo contemporâneo.

Outro exemplo bastante significativo da movimentação de grupos fundamentalistas e intolerantes, num estágio um pouco mais avançado é o caso da "milícia religiosa" chamada de "Gladiadores do Altar", a qual vem sendo criada no seio da Igreja Universal do Reino de Deus, instituição notória pela demonização dos cultos de matriz afro e de usar métodos bastante questionáveis como "indução" e "hipnose" em seus cultos, ao "exorcizar" demônios que são identificados com entidades da umbanda e candomblé.

Se os "shows de exorcismo" já seriam bastante questionáveis, a militarização somada a uma intensa lavagem cerebral tornam-se o desenho de uma onda de possível violência e intolerância que em breve arrebentará. Afinal, qual a motivação para esta mobilização militar, ainda mais em termos tão intensos? E lembremos: "Tudo em nome da fé!"

Existe também o outro lado do problema: no dia 30/04/2015, durante o 4o. Encontro Nacional de Ateus, realizado na Universidade Federal do Acre, foi queimada uma Bíblia, com o aval de um dos organizadores, o estudante Felipe Zanon. O ato era uma forma de protesto contra os "males causados pela Igreja quanto aos massacres praticados pelo cristianismo ao longo da História". A cena foi filmada e reproduzida na internet, gerando grande discussão e nesse caso, o problema é o mesmo: se é reprovável a imposição de uma crença, é também reprovável a destruição de símbolos religiosos de qualquer crença. Infelizmente, o gesto intolerante tentou ser amparado por uma "justificativa histórica", mas sabemos que é injustificável, pois por esta linha de raciocínio , alguns sairiam por aí matando o grupo A ou B por crimes e ações que estes grupos praticaram no passado.

Em suma: História não deve servir para justificar crimes e sim para entender porque aconteceram e punir seus responsáveis. Faltou ética, respeito e estudo aos jovens que "questionavam o passado", aliás, agiram do mesmo modo intolerante que o passado  por eles ali questionando.

Intolerância gera intolerância! Seja ela fundamentada por uma crença ou por uma descrença!


O tema da laicidade é muito complexo, mas deve ser enfrentado pelos educadores como um ponto de partida para a discussão de temas como ética, tolerância, exercício da liberdade e da cidadania, buscando sempre, o entendimento, a valorização da pluralidade e de tudo que envolve a construção de uma sociedade mais justa e igualitária para todos, independentemente das crenças que alguns sigam ou não sigam.




domingo, 14 de junho de 2015

Do invisível ao visível: o princípio, o fim e o meio.

Onipresente, onisciente e onipotente são os atributos daquele que, para os judeus, é “O” responsável por tudo e por todos no Universo. Criador de todas as coisas, fez o homem a sua imagem e semelhança, mas não permitiu a sua criatura que lhe venerasse em imagem, qualquer que fosse, dessa forma, seu louvor se daria exclusivamente pela palavra e pelos rituais que ela prescreve, tendo portanto, o “Povo escolhido” uma severa disciplina a seguir, distinguindo-se dos demais povos ao seu redor. Estes últimos fixavam em imagens pintadas ou esculpidas, as inúmeras manifestações de seu universo sagrado que era muito mais plural e rico em variedade, não concebido dentro de parâmetros antagônicos (salvação/danação; Paraíso/Inferno), mas sim na ideia da existência de um transitus, quer dizer, de uma passagem deste mundo visível para um “Além”.

Yaweh escolhera seu povo e lhes prometera uma terra em troca de fidelidade, celebrando uma aliança, marcada com o sangue da circuncisão a partir de Abraão e sua descendência e confirmada com Moisés através da entrega do Decálogo, que logo no seu início diz a Moisés e seu povo: “Não farás para ti imagem esculpida de nada que se assemelhe ao que existe lá em cima nos céus, ou embaixo na terra, ou nas águas que estão debaixo da terra.”

Dentro da trajetória humana, aos olhos da tradição judaico-cristã, a questão da similitude com Deus é vital para a compreensão do papel da imagem dentro da articulação das práticas religiosas do judaísmo e do cristianismo.
A partir da ação deste em “moldar” o Éden e a Humanidade, impondo-lhes obediência, que uma vez quebrada pelo “Pecado Original”, gerando a punição das criaturas, fizeram com que ocorresse a perda.

Segundo o teólogo Urbano Zilles, professor titular da PUC-RS, “o culto é endereçado não às imagens em si, mas ao próprio Deus, à Santíssima Virgem e aos Santos. O culto das imagens é, portanto, relativo. Diz S. Basílio que ‘a honra prestada a uma imagem se dirige ao modelo original’ (Spir 18, 45) e o Concílio de Nicéia (787) diz que ‘quem venera uma imagem, venera nela a pessoa que nela está pintada’ (DS 601).
Por outro lado, os que rejeitam a veneração de imagens sempre apelam a textos do Antigo Testamento. Geralmente só citam Ex 20, 4-5 e Dt 5, 8-9). Não trouxe o Novo Testamento grandes novidades? São esses os únicos textos pertinentes do Antigo Testamento?

É tão certo que a proibição desses textos se refere às imagens de Javé ou às imagens pagãs ou apenas aos cultos dos cananeus? O que, então, significa o texto de Ex 25, 17-22 e outros?” 

Zilles recupera a contradição do Velho Testamento, pois “o texto de Ex 25, 17-22 diz: ‘Farás também um propiciatório de ouro puro. Farás dois querubins de ouro polido, nas duas extremidades do propiciatório: um de um lado e outro de outro lado, de modo que os querubins estejam nos dois extremos do propiciatório. Os querubins, com as asas estendidas por cima, estão encobrindo o propiciatório, um em frente do outro, voltados para o propiciatório. Porás o propiciatório sobre a arca, e dentro da arca o documento da aliança que te darei. Ali me encontrarei contigo, e de cima do propiciatório, do meio dos dois querubins colocados sobre a arca da aliança, eu te comunicarei tudo o que ordenar aos israelitas’. Não é esta também a palavra de Javé? Ou também se quer manipular a Sagrada Escritura de acordo com ideologias do momento?’.


O cristianismo enquanto doutrina surgiu no seio do Império Romano , sendo tratado como uma seita perigosa, religião de escravos e de provocadores que não aceitavam o poder imperial e sua divindade. Foram três séculos de perseguições, provocando a morte de milhares de pessoas, além da perda de bens, exílios e outros problemas.
Mesmo com as perseguições, o cristianismo não deixou de crescer num processo que começou na base da sociedade romana e gradativamente foi atingindo os mais diferentes grupos sociais. Muitos se diziam praticante do culto aos deuses romanos e ao imperador, mas secretamente em suas casas ou na escuridão das catacumbas (cemitérios subterrâneos) realizavam o culto cristão, procurando escapar dos massacres, crucificações, das arenas para serem queimados vivos ou devorados pelos leões.

Trezentos anos de perseguição se seguiram entre a morte de Jesus e a liberdade de culto concedida pelo imperador romano Constantino (imagem abaixo) com o Édito de Milão no ano de 313, pois os seguidores de Jesus eram vistos como uma ameaça ao Império já que negavam a divindade do imperador e os deuses e se colocavam como seguidores daquele que se apresentou como filho do único Deus.


Ao longo do século IV, o movimento de difusão do cristianismo foi cada vez maior e sem o temor das perseguições e com a proteção dos imperadores, seja na manutenção da liberdade de culto, seja nas doações para a construção dos primeiros santuários. No ano de 391, o imperador romano Teodósio através do Édito de Tessalônica estabeleceu o Cristianismo como religião oficial de todo o Império Romano e tornou proibido o culto aos deuses de outros povos sob a ameaça de prisão e confisco de bens.

Na continuação da análise do cristianismo, Urbano Zilles, aponta que “já no Antigo Testamento a proibição de fazer imagens não era algo tão absoluto como pregadores fundamentalistas pretendem. Há, outrossim, textos que mostram que o próprio Senhor mandou fazer imagens para manter a piedade de Israel. Assim, no mesmo livro do Êxodo, também lemos, como vimos acima, que o Senhor mandou Moisés colocar dois querubins de ouro sobre o propiciatório da arca; era pelo propiciatório assim configurado que Javé falava ao seu povo. Por isso a Bíblia costuma dizer que ‘Javé está sentado sobre os querubins’ (Ex 25, 17-22). Caberia conferir, nesse sentido, outros textos como 1Rs6, 23-28; Nm 21, 4-9; etc. 

Nem todos os judeus interpretaram a proibição do Êxodo e do Deuteronômio como absoluta, porque também introduziram o uso de imagens nas sinagogas, como mostram os numerosos afrescos e mosaicos nas sinagogas de Bet-Alfa, Gérasa, Naara e a famosa sinagoga de Dura-Europos, na Babilônia, na qual Moisés foi representado frente à sarça ardente, o sacrifício de Abraão, etc., e túmulos judaicos em Roma, ornados com representações de animais e homens.
No Novo Testamento só é proibido venerar imagens dos deuses pagãos (1Tes 1, 9; 1Cor 5, 10). As mais antigas catacumbas romanas já eram enfeitadas com representações cristãs, com muitos elementos derivados da arte profana dos pagãos. 

A sinagoga de Dura-Europos, séc. III d.C, Síria.


Nem o Antigo nem o Novo Testamento, bem entendidos, proíbem a arte, a produção de imagens profanas. A imagem religiosa encontrava resistência não só em vista do perigo da idolatria. Eusébio de Cesaréia se opôs ao pedido de Constantino de ter uma imagem de Cristo, dizendo ser impossível representar com cores mortas e sem vida este Jesus que já na terra era irradiação da glória divina (PG 20, 1545). Gregório Magno repele a adoração das imagens, mas aceita seu uso pedagógico: "O que para os leitores a escrita é, para os olhos dos não-instruídos, é a imagem, pois até os ignorantes vêem nela o que devem imitar, lendo nela inclusive os que não sabem ler" (Ep 11, 13). Em outros termos, a imagem adquire valor complementar ao da palavra e dos sacramentos. 

O cristianismo primeiro evitou, em geral, o culto das imagens por causa do perigo da idolatria. Mas cedo introduziu imagens como adorno e ilustrações, passando depois ao seu culto, sobretudo no Oriente. Aparecem, então, símbolos e figuras decorativas que lembram os mistérios da salvação em torno da pessoa de Jesus e dos apóstolos. Em pinturas e esculturas, artistas passaram a representar as imagens de Cristo: Jesus como pastor, Jesus como pescador com seus apóstolos ou Jesus nos diversos relatos evangélicos. As imagens passaram a recordar a imagem original.

Nos séculos IV e V, com o apoio da hierarquia, desenvolveu-se uma iconografia gigantesca, inspirando-se ora no Antigo Testamento, ora no Novo Testamento. Salientou-se o Cristo Pantocrator, a Virgem e os Santos no fundo das ábsides basilicais. No Oriente bizantino, desenvolveu-se a iconografia com excepcional exuberância. 
O culto das imagens exerce grande importância no rito bizantino como entre os cristãos ortodoxos em geral. A grade que fecha o santuário, chamada iconostase, é ornada de imagens. Trata-se de uma reação contra a iconoclastia dos séculos VIII e IX. 

Iconostase de Santa Helena e Constantino, Bruges, Bélgica


A Igreja do Ocidente aceita as imagens nos lugares de culto. Enquanto os calvinistas as rejeitam por contrariarem a Bíblia e alimentarem o perigo da idolatria, os luteranos mais recentemente defendem que o mandato de Cristo aos discípulos de pregar o Evangelho em todas as línguas inclui também o uso da linguagem figurada do artista (pintor ou escultor). Lembram que a Bíblia se serviu de imagens, palavras de sentido metafórico, para expressar verdades divinas. Os luteranos alemães afirmam que quem, como Lutero, reconhece na música o veículo apto da fé e do amor dos cristãos, não pode deixar de reconhecer também nas representações visuais um instrumento apto para proclamar a verdade revelada.

Calvinistas retirando as imagens e destruindo vitrais de uma antiga igreja católica que passou para o  seu controle.


Os ícones ocupam um lugar importante nos países de cristãos ortodoxos. Não só povoam os templos. Encontram-se ao longo das estradas, nos cruzamentos, nos pórticos de entrada dos povoados. Nas residências, o ícone com uma lamparina assemelha-se a um santuário familiar. Em cada residência o ícone ocupa lugar de honra, na entrada, para ser o primeiro a acolher o visitante. 

O ícone acompanha o fiel durante toda a vida. Recebe um ícone ao ser batizado e outro no casamento. Com ele os pais benzem o filho, quando parte em viagem, os circunstantes, e os moribundos. 
Para os cristãos ortodoxos, o ícone por excelência é o rosto de Cristo, cujo primeiro modelo não foi fabricado por mão humana (acheiropoietes em grego, portanto daí, a imagem aqueropita), pintado em pano pelo próprio Cristo, segundo a lenda, que o teria enviado a Abgar, rei de Edessa, e aí teria ficado escondido durante muito tempo. É uma tradição oriental que corresponde ao Santo Sudário (síndone) que hoje se guarda na catedral de Turim.

Cristo Pantocrator (Todo Poderoso), c. séc. XII, catedral de Cefalú, Sicília, Itália


A face humana de Deus "é imagem (eikôn) do Deus invisível" (Cl 1, 15), sua humanidade é o "visível do invisível". Quando o Verbo se fez carne, tornou-se necessário o ícone, que representa Cristo e os santos quase sempre frontalmente, tornando-o transparente, pois conduz do visível de Cristo ao invisível do Espírito. O ícone ensina-nos a descobrir em cada homem a imagem de Deus, pois é uma arte transfigurativa. 

Num ícone a luz não parte de um foco concreto. Os pintores fazem a luz irradiar do próprio fundo do mesmo. O corpo e as vestes são iluminadas com finos traços de ouro. Os animais, as plantas e as paisagens são estilizadas segundo sua essência espiritual. A obra de arte geralmente é abençoada durante a celebração eucarística. 

Para os cristãos orientais, a contemplação das imagens de Cristo, da Virgem e dos santos, não têm apenas valor didático ou comemorativo dos mistérios da Salvação, nem se satisfaz com estimular a devoção. Os ícones possuem valor dogmático verdadeiro e específico, ocupando lugar de destaque na economia eclesial. Diz o Concílio de Constantinopla, em 843: "A arte sagrada do ícone não foi inventada pelos artistas. É instituição que vem dos Santos Padres e da tradição da Igreja".


Para os orientais, o iconoclasmo peca por docetismo (do grego dokeo “para parecer” que entendia que o corpo de Cristo era uma ilusão e que sua crucificação foi apenas aparente), pois não sabe reconhecer a epifania do invisível; mostra-se insensível ao sagrado na história; nega que a santidade seja capaz de transfigurar a natureza. Dessa maneira, atacar os ícones é atacar o estado monástico, o culto dos santos, a própria maternidade de Maria e, em última instância, negar a encarnação de Cristo. 

ícone russo da Virgem Hodighítria: "Aquela que aponta o caminho", onde vemos a mão esquerda de Maria apontar para seu filho Jesus, pois ele é o "caminho da Salvação".


O ícone, na liturgia bizantina, faz com que a visão adquira certa primazia sobre a palavra, já que capta o elemento sensível do Verbo encarnado, sob a forma espiritual e impregnada de santidade, que nos é oferecida pela força do Espírito Santo. Não substitui os sacramentos, mas, de certo modo, permite-nos já agora perceber a glória final, revelando-nos a beleza do reino celestial. O iconógrafo, por isso, deve preparar-se, para a pintura, com orações e jejuns, com ascese e santidade, pois o ícone é feito para contemplação sensível da divindade invisível e santa. Através da percepção da santidade, que transparece na forma sensível, nós ficamos santificados pela força do Espírito Santo. Enquanto a iconografia oriental sempre indica a unidade entre o divino e o humano, a arte ocidental prefere acentuar a diferença.



Ícones são, para os cristãos orientais, mais que simples exercícios estéticos ou meros instrumentos pedagógicos para a educação do povo simples. Para a compreensão ortodoxa, os ícones são, ao lado da proclamação da Palavra e da celebração da Eucaristia, algo como sacramentais, ou seja, uma forma singular da comunicação do crente com Deus. 



Para concluir, é ignorância afirmar que os católicos "adoram" imagens, como é ignorância afirmar que no Antigo Testamento há proibição absoluta do uso de imagens. Os católicos veneram os santos e imagens, tributando culto àqueles que são representados pelas imagens; reconhecem que o Livro do Êxodo proíbe aos judeus a confecção de imagens, porque poderiam oportunizar a que Israel as adorasse como faziam os povos vizinhos. Mas os católicos não se prendem fanaticamente a textos isolados por sua escolha. Sabem que já no Antigo Testamento o Senhor mesmo mandou confeccionar imagens para sustentar a piedade de Israel. No Novo Testamento, pelo mistério da encarnação, o próprio se dirige aos homens por meio da figura humana de Jesus. Este ilustra realidades invisíveis, através das imagens inspiradas pelas coisas visíveis: parábolas e alegorias. 

Capela de "Notre-Dame du Pilier", catedral de Chartres, França. Crédito: Elias Feitosa




Vale citar a palavra de S. João Damasceno: "A beleza e a cor das imagens estimulam a minha oração. É uma festa para os meus olhos, tanto quanto o espetáculo do campo estimula meu coração a dar glória a Deus". Ensina o Catecismo da Igreja Católica: "A contemplação dos ícones santos, associada à meditação da Palavra de Deus ao canto dos hinos litúrgicos, entra na harmonia dos sinais da celebração, para que o mistério celebrado se grave na memória do coração e se exprima em seguida na vida nova dos fiéis" (PG 1162). Portanto, venerar imagens não contraria o Decálogo do Antigo Testamento e muito menos o Evangelho de Jesus Cristo. A agressão grotesca às imagens sagradas, como alguns pastores tem estimulado em diferentes partes do Brasil, mostra não só desconhecimento da Bíblia como um todo e da história do cristianismo, mas desconhece os fundamentos antropológicos da comunicação humana com o divino. 



Se o culto às imagens, às vezes, degenerar em idolatria, não se pode concluir daí que sempre, ou na maioria das vezes o deverá ser, da mesma maneira que, do fato de um pastor agredir a sensibilidade dos fiéis de outra Igreja, não se pode concluir que esta deva sempre ser a atitude de todos os pastores em relação aos fiéis de outras Igrejas. 

O bispo Sérgio von Helder, da Igreja Universal do Reino de Deus, agredindo uma imagem de N. S de Aparecida, em cadeia nacional, durante programa de televisão em 1995.

Ataque à Igreja de N. S. do Carmo, ocorrido em 2014, na cidade de Sacramento, Minas Gerais.


Ataque à Igreja de Santo Afonso, em Carrapateira, Paraíba. 2015.






segunda-feira, 8 de junho de 2015

Jesus e sua luta pelos oprimidos: uma releitura na Parada Gay 2015


A atriz Viviany Beleboni


A eventual “polêmica” que alguns atribuíram à imagem de uma mulher crucificada, imitando Jesus, pode ser interpretada de um modo diferente, alias, qualquer imagem tem mais de uma leitura.

Um convite à reflexão, pensando numa análise mais científica:

Qual é a mensagem transmitida por Jesus?
O Amor incondicional entre nós e na doutrina cristã, Jesus se sacrificou por “nós”, quer dizer, a Humanidade inteira, sem nenhuma distinção (condição socioeconômica, política, religiosa, etc.)

A quem Jesus se colocou como defensor?
Defensor dos humilhados, pobres, perseguidos, doentes e todos aqueles que padeciam das violências do mundo. No entanto, qualquer pessoa, mesmo rica e poderosa, poderia segui-lo, inclusive, Jesus exortava o abandono dos bens materiais em favor de abraçar apenas a salvação da alma, elevando o espírito.
Dinheiro nunca entrou mediando esse processo,  pelo que sabemos, foram os “seguidores” de Jesus que criaram inúmeras distorções posteriormente pelas mais diferentes correntes e instituições, sendo que por outro lado, muitos seguidores fizeram e fazem jus a sua mensagem.

 Ao voltarmos para imagem, da mulher “pregada” na cruz, com os dizeres “basta de Homofobia LGTB” , o que temos?

Não é uma afronta, pelo contrário, foi uma forma de releitura, de apropriação bastante exata da condição de “sofrimento e opressão”, passada constantemente pelos homossexuais e que não tem o interesse de desmerecer Jesus e sim, lembrar o porquê de sua morte na cruz. 

Jesus nunca incentivou o ódio e foi o ódio que o matou.

Dentro do mistério da fé cristã, Jesus sabia do seu destino. Ele tinha uma missão muito difícil e tentou pedir momentaneamente isenção, durante aquela bela e muito sensível passagem de meditação junto ao jardim de Getsêmani: “Afasta de mim este cálice, Pai.” Mas, seguiu em frente !
Afinal, ele precisava “morrer” e “ressuscitar”, cumprindo sua missão. Segundo a doutrina, ele voltará e aí teremos o fim dos tempos, o chamado "Juízo Final".
Muitos o aguardam, outros não, porém, o modo de pensar cristão não pode ser imposto ao mundo e nem de nenhuma outra crença também.

A imagem de Jesus é intocável? Fazer qualquer modificação naquilo que é tido como a tradição é permitido?

Aqui vemos o sentimento de proteção que os seguidores de Jesus possam achar como importante e inquestionável. Porém, agir assim é em certa medida, aproximar-se do discurso fundamentalista.
A imagem causou um certo incômodo por ser uma mulher crucificada, que poderia ser pensada por um lado como blasfêmia, mas por outro poderia ser pensada também como uma representação do que causa a homofobia: dor e sofrimento para qualquer ser humano. 

Apenas que, ali, não estava  “pregado” um homem seminu,  torturado cruelmente.
Portanto, não é um desrespeito à figura de Jesus e sim uma releitura, como tantas que já foram feitas, e muitas vezes, até para incitar o ódio, mas com certeza, não foi o caso desta.


As imagens são poderosas. Sempre foram usadas em diferentes momentos da História para defender ideias, pensamentos, crenças e no caso desta cena, lembrar do sofrimento de Jesus como alguém que buscou a justiça, a dignidade, a honestidade, o respeito irrestrito, a humildade e o Amor entre os homens, sem dúvida, é uma muito feliz e oportuna lembrança.

Jesus em nenhum momento colocou proibição sobre o uso de sua imagem!

Vale lembrar que, todas as imagens que conhecemos sobre Jesus são uma construção cultural, afinal, não sabemos ao certo, como ele era.

Só posso encerrar com a célebre passagem: "Amai-vos uns aos outros como eu vos amei."

Alguns outros exemplos de "apropriações" da imagem de Jesus":

"A entrada de Cristo  em Bruxelas", James Ensor, c. 1888, J.P. Getty Museum, Malibu, EUA

cena do musical "Jesus Cristo Superstar" de 1973, dirigido por Norman Jewinson

Montagem brasileira do Musical no Brasil em 2014


"Jesus" segundo Stephen Swayer

"Santa Ceia", artista brasileiro Valdson Braga

"Asado en Mediolanza", foto do argentino Marcos López, c. 2001


João Batista batizando Jesus no rio Jordão. Imagem copta (cristãos do Egito e Etiópia)

Maurício Gonçalves interpretando Jesus no filme o "Auto da Compadecida"(1999), dirigido por Guel Arraes e inspirado na peça de mesmo nome, escrita por Ariano Suassuna em 1955, falecido em 2014.