As Ricas Horas do Duque de Berry

As Ricas Horas do Duque de Berry
As Ricas Horas do Duque de Berry. Produção dos irmãos Limbourg - séc. XV. Mês de dezembro

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

A civilização do açúcar






A economia da colônia nasceu sob o signo do maior lucro possível com o menor investimento. Após o escambo do pau-brasil, surgiu na colônia o desenvolvimento daquilo que Caio Prado Jr. em seu livro Formação do Brasil Contemporâneo (1935) chamou de nosso primeiro "produto rei": a cana-de-açúcar.  A monocultura da cana deu-se em regime de latifúndio (grandes propriedades com baixa produtividade). Porém, em algumas regiões as propriedades puderam ser classificadas como plantations (latifúndio, monocultura e escravismo). O auge do chamado ciclo da cana-de-açúcar durou até fins do séc. XVII entrando em declínio devido à concorrência das colônias holandesas nas Antilhas.

A decadência do açúcar e as fabulosas descobertas espanholas no Peru e no México incentivaram os portugueses a buscar outras fontes de riqueza, enfrentando os perigos do “sertão” (toda área muito adentro do território era assim tratada), sendo importantes nesse processo, as expedições bandeirantes, ávidas pelo ouro e pedras preciosas, além de servirem também para o combate às tribos hostis, escravizando os sobreviventes pelo conceito da “guerra justa” ou ainda, a repressão dos quilombos que começaram a se formar com a introdução da escravidão africana, já que os escravos fugitivos tentavam se reorganizar, longe das fazendas, num modo de vida próximo ao que tiveram na África.

A escravidão: do índio ao africano

Com a necessidade de empreender a plantação em larga escala de cana-de-açúcar, os nativos foram sistematicamente escravizados. Porém, não havia consenso entre os portugueses que viviam no Brasil sobre o emprego de trabalhadores compulsórios locais, sendo que a oposição da Igreja era muito forte, já que se interessava pela evangelização dos nativos e o trabalho destes em suas missões espalhadas pela colônia.
A escravidão dos indígenas foi proibida no Brasil, sendo reforçada pela bula Veritas Ipsa do Papa Paulo III de 1537 que condenava a escravidão dos nativos do Novo Mundo no que foi seguido por numerosas legislações da Coroa portuguesa.

O primeiro caso de escravidão negra de que se tem notícia ocorreu em 1539 quando Duarte Coelho, donatário de Pernambuco, requereu junto ao rei D. João III, uma permissão para trazer "alguns escravos de Guiné". Em virtude do gradativo crescimento da produção da cana, ocorreu um aumento considerável da importação de negros, acabando por tornar-se um monopólio régio. Desde então foram trazidos aos milhares como mão de obra para os mais variados ofícios, sendo que alguns autores estimam que, entre os séculos XVI e XIX, tenham chegado aproximadamente, cerca de 3.500.000 africanos.

A partir de então o tráfico negreiro intensificou-se, transformando-se em uma nova e lucrativa atividade econômica para a Coroa portuguesa. Este fator também pesou muito quando o governo português passou a não mais aceitar a escravidão indígena.

Os negros capturados nas guerras internas e que seriam trocados por mercadorias no comércio interno, passaram a ser encarcerados em cidadelas na costa africana por tribos "amigas dos portugueses" como no Senegal ou Angola, que os trocavam por tabaco, aguardente ou armas. Lá eram embarcados nos navios negreiros, também conhecidos como “tumbeiros”. As mortes devido a fome, sede e doenças chegavam a dizimar a maior parte dos cativos já em alto mar.
Gradativamente os negros tentaram a viver na colônia de acordo com seus costumes ancestrais, adorando os orixás e apesar da perseguição movida pela Igreja Católica, que guardadas as devidas proporções, deram origem posteriormente às variantes do Candomblé e mais recentemente à Umbanda, sendo que a esta foram acrescidos os elementos cristãos e espíritas relacionados ao Kardecismo, que se fundiram e se modificaram, constituindo aquilo que entendemos por sincretismo religioso.

As formas de resistência negra variaram tanto quanto as funções desempenhadas por esses escravos. Das formas de resistência, os quilombos parecem ter sido a que atingiu maior notoriedade, e dentre eles o dos Palmares o maior e o que mais resistiu aos ataques dos holandeses e portugueses. Era uma verdadeira confederação de tribos protegidas por um engenhoso sistema de armadilhas; desenvolveu-se no atual estado de Alagoas por volta de 1644 e, beneficiado pela desorganização provocada pelas invasões holandesas, chegou a contar mais de 10.000 negros fugidos das fazendas da região, além de mulatos, mestiços e brancos de origem pobre que lá viviam e faziam o intercâmbio da produção agrícola do quilombo com as vilas e povoados da região.
 Os líderes de maior destaque foram Ganga Zumba e seu filho, Zumbi, este último tem sido recuperado pela atual historiografia como um verdadeiro herói popular. Tal comunidade só foi destruída em 1694, graças à união de esforços do bandeirante paulista Domingos Jorge Velho e de vários governadores da região.

Entretanto não foi essa a única forma de resistência negra à escravidão. Eram comuns o suicídio, as fugas, os assassinatos de senhores, os abortos provocados pelas próprias mães, dentro de um contexto de extrema violência que os escravos estavam submetidos.

A União Ibérica 1580-1640

A vitória na guerra da Reconquista, séculos antes, fez com que o ideal de Cruzada ainda permanecesse vivo na alma dos nobres portugueses, que direcionavam sua atenção para o noroeste da África, um desdobramento do avanço em direção ao Atlântico. Com a morte de D. João III em 1554, o trono passou para seu neto D. Sebastião com apenas 3 anos com a regência de sua mãe Maria d’Áustria e do Cardeal D. Henrique.
Educado dentro de uma visão conservadora e muito religiosa, o jovem rei Dom Sebastião (1565-1578) partiu para uma empreitada militar no Magreb, atual Marrocos.

D. Sebastião I (1565-1578): o desejado príncipe que "sumiu" nas areias de Alcácer-Quibir

Apesar de todos os apelos, o rei não se interessou em recuar, já que os êxitos da batalha de Lepanto em 1571(derrota dos turcos por uma aliança de forças cristãs no Mediterrâneo oriental) ainda estavam vivos entre os cristãos. Porém, o pior se abateu sobre Portugal, com a derrota e morte de D. Sebastião em Alcácer-Quibir (1578). Estabeleceu-se, portanto, uma grave crise dinástica, porque o rei não deixou herdeiros diretos e, como ainda havia laços de parentesco entre a nobreza lusitana e espanhola, os portugueses corriam novamente o risco de perderem a autonomia.


O Inquisidor-mor de Portugal e tio-avô de D.Sebastião

Na sucessão de Dom Sebastião assumiu o trono seu tio-avô, o cardeal D. Henrique (além de cardeal, ocupava o cargo de Inquisidor-Mor de Portugal), que vem a falecer pouco tempo depois, em 1580, e por ser membro do clero católico, também não deixou herdeiros, cabendo a uma junta de juízes estabelecer entre os parentes, quem seria o novo rei. Em virtude das pressões políticas e militares, a escolha recaiu em Felipe II de Habsburgo, rei de Espanha, neto pelo lado materno, do rei português Dom Manuel I.
O rei da Espanha, entretanto, prometeu respeitar a dignidade portuguesa, tratando Portugal como “reino unido” e não como província. Os funcionários do governo português foram mantidos em seus cargos, bem como a estrutura administrativa não foi alterada, o que significou para o Brasil uma transição sem problemas para o controle espanhol. Mas a política externa da Espanha trouxe importantes consequências para a América portuguesa.


Felipe II de Espanha e I de Portugal, o senhor de um império onde o "sol nunca se punha"!

Naquela época, os holandeses ou flamengos mantinham estreitas relações econômicas com Portugal, sendo o principal financiador da produção de açúcar nas colônias portuguesas.
A Espanha, entretanto, era inimiga dos flamengos e estava em guerra com a Holanda desde quando esta luta por sua independência em relação aos nobres Habsburgos, que detinham o controle de Flandres (Países Baixos), que desde sua conversão ao calvinismo, almejam romper com o jugo espanhol. Já no caso de Portugal, a consequência imediata foi a adesão aos interesses de Espanha, a qual proibiu o comércio do açúcar produzido na América portuguesa com os holandeses, ao mesmo tempo que juntava a marinha portuguesa à sua para formar uma frota naval capaz de estabelecer o predomínio espanhol nos mares: a “Invencível Armada”, como diziam as autoridades hispânicas.

Como consequência do domínio espanhol, as cidades de Lisboa e do Porto decaíram em importância, já que o comércio ultramarino passou a ser centralizado nas cidades espanholas. Enquanto isso, enfrentando a poderosíssima marinha inglesa, a frota portuguesa foi destruída juntamente com a Invencível Armada espanhola em 1588, depois da derrota provocada pela fracassada tentativa de invadir a Inglaterra, debilitando-se assim, a proteção ao litoral colonial brasileiro. Dessa forma, em meio à decadência marítima de Portugal e às atitudes titubeantes da Espanha, os holandeses viram uma clara possibilidade de ter acesso direto às terras da América e explorar o açúcar nordestino.

Os holandeses invadiram o nordeste da América Portuguesa primeiramente em Salvador (1624-25), mas foram derrotados em virtude da resistência local e do apoio recebido pelos espanhóis. Já na segunda tentativa, o sucesso foi maior, tendo início em Pernambuco e dali atingiu um arco que se espalhou do Rio Grande do norte até o norte da Bahia, além de ter sido o período de maior ocupação (1630-1654). Nesta segunda invasão, os holandeses encontraram os plantadores de cana ávidos por compradores para seus produtos. Desta forma, grande parte os colonos colaboraram com os invasores para manter viva sua atividade econômica, apesar de alguns terem fugido para as regiões controladas pelos portugueses e outros terem optado pelo retorno ao reino.
No que se refere à dominação  holandesa no nordeste do Brasil, devemos destacar a figura do conde Johan Maurits van Nassau-Siegen (Maurício de Nassau), que  governou  a região de 1637 a 1644 em nome da Companhia da Índias Ocidentais (WIC), empresa holandesa que explorava e financiava a produção de cana.

Johan Maurits van Nassau-Siegen


Nassau acreditava que era fundamental ganhar a confiança dos colonos, pois qualquer atitude repressiva apenas prejudicaria a presença holandesa. Dessa forma, Pernambuco viveu uma fase de prosperidade econômica, liberdade religiosa (os holandeses eram calvinistas, mas não houve sanções aos colonos, que eram na maioria católicos), foi criada a Câmara dos Escabinos, assembléia de representantes das várias Câmaras Municipais da região, e o próprio Nassau desenvolveu uma linha de crédito facilitado para os plantadores de cana, chegando mesmo a perdoar e renegociar dívidas.
Durante o governo de Nassau, as mudanças foram visíveis, especialmente com a  construção de pontes na cidade de Recife, a reforma de Olinda e o planejamento e construção uma cidade nova, denominada Mauritia. Além disso, sendo um nobre de formação erudita, incentivou a vinda de artistas, pintores e cientistas que fundaram inclusive um observatório astronômico na cidade.
Mas qual seria o motivo para tantos especialistas? Conhecer para melhor explorar e dominar, seria um esboço de começo de resposta. E justamente, entre aqueles que estavam colaborando nesse processo, os pintores Frans Post e Albert Eckhout desempenharam um papel importantíssimo, pois construíram uma vasta documentação de imagens que fizeram parte da construção do imaginário sobre o mundo colonial, seja para os europeus daquele contexto que pouco sabiam sobre as terras tropicais, seja para nossa época, que olha para as mesmas telas, tentando recuperam o que teria sido aquele período.
Hoje, estas obras se encontram no Museu Nacional de Arte da Dinamarca, em Kopenhagen, uma vez que Nassau presenteou seu primo e rei da Dinamarca, Frederico III em 1654.

A construção de um olhar

Foi na pintura holandesa do século XVII que se consagrou o tema da natureza-morta como um exercício da pintura e da captação dos elementos visíveis: a composição de uma cena, dotada de vários objetos, dispostos sobre uma determinada estrutura e assim, meticulosamente montados, servem de experiência para a captação do real ou pelo menos, daquilo que seria mais próximo do real, numa exuberância de cores, texturas, entremeadas de luz e sombra.
Eckhout registrou a riqueza das cores e formas da flora colonial com algumas naturezas-mortas, numa disposição muito particular: os frutos estão dispostos sobre uma bancada de madeira, a qual lembra a estrutura de uma janela em imediato contraste com a imensidão do céu com seu vasto azul e nuvens de diferente coloração.


Outra contribuição significativa de Eckhout foi o registro dos diferentes habitantes da colônia (índios, mestiços e negros) numa busca que mesclava a curiosidade inquietante sobre o desconhecido mundo tropical e a população local de um lado e o interesse artístico em representar com elegância e realidade aquilo que era visível de outro, testemunhando de modo ímpar o que era aquela nova terra.
Apesar do realismo das pinturas, questionamentos devem ser feitos sobre estas imagens produzidas: o quão real elas são? O que de fato foi visto pelo próprio pintor e o que foi contado para ele dali desenvolver determinada composição?
Podemos começar este questionamento com a Dança dos Tapuias : 






O grupo de guerreiros nus e pintados dança se preparando para entrar em combate, brandindo seus arcos, flechas e bordunas (bastões de madeira) e num plano secundário, 2 mulheres também nuas cochicham, observando a movimentação dos homens e tudo isso tem como pano de fundo, a floresta emoldurada pelo céu azul.
O papel da dança ritual é importantíssimo para a organização dos ritos e do ciclo das ações cotidianas, quando a celebração de um evento tão importante como a guerra ganha a dimensão estratégica no mundo físico e espiritual, já que se evocava a força dos deuses, dos antepassados para trazer a vitória a tribo, além de prisioneiros que seriam sacrificados e devorados, completando a ponte com o sagrado, pois “a força dos bravos que morreram passaria para aqueles que os devoram”, segundo suas tradições.
Quanto ao sacrifício ritual, este era entendido como um ato de barbárie pelo europeu, sendo assim, um exemplo de “ausência de cultura e de fé”, fatores que justificavam a repressão destes indígenas antropófagos. Porém, entre os cristãos também ocorria a representação do sacrifício ritual: a entrega ao fiéis do corpo e sangue de Cristo no momento da Eucaristia, mas nesse caso, os europeus se colocavam com superiores e seu ritual, “o mais santo e puro” de todos.
Na representação deste “mundo bárbaro”, Eckhout construiu um retrato particular, tendo como personagem uma índia tapuia:



Nua, tendo de modo particular a exaltação de sua condição selvagem, o fato de segurar parte de um braço humano em uma das mãos, enquanto colhe ervas e na cabeça, porta um cesto de palha que traz um pote e outro pedaço de carne humana, representada por um pé.
A cena singular tem como ambiente a Natureza, marcada pela árvore gigante ao seu lado, o curso de água aos seus pés, o cão do mato e o gigantismo do céu, campinas e árvores, numa comunhão direta, colocando-a como parte deste intrigante e misterioso mundo que os europeus estavam se familiarizando e buscando impor suas normas e vontades.

Como um par para a índia tapuia, temos um solitário guerreiro, representando  com seus atributos: 



De corpo nu, usando plumas na cabeça, tendo a borduna e seus dardos nas mãos e mais uma vez, a Natureza cumpre o papel de oferecer abrigo e nas condições de uma “vasta casa”, dotada de imensa extensão que se perde aos olhos no uso da perspectiva.
Ambos os tapuias se encontro nus, mas de modo diferenciado, pois Eckhout se preocupou em esconder a genitália feminina com uma ramagem discretamente amarrada, enquanto o guerreiro aparece naturalmente, exibindo inclusive o estojo de fibra vegetal usado para proteger seu pênis.
Esta Natureza crua e selvagem pode ser contrastada pela manifestação do “processo civilizatório” implementado pelos europeus que buscava pela educação e catequese “levar o selvagem para uma vida mais adequada” dentro dos padrões europeus e nisso temos outro casal de imagens, dois mamelucos (mestiços resultantes da união entre o europeu e o indígena): 



A mulher, coberta com um grande vestido branco, levemente erguido para não sujar sua barra, expondo os pés nus e noutra mão, o cesto, repleto de flores, exercendo um contraste bem grande com a tapuia antropófaga, pois a mestiça vestida procura exaltar a delicadeza e beleza resultantes do contato com os europeus, mas ao mesmo tempo, se ignora a violência vigente nesse processo de aculturação.


Na mesma referência da aculturação temos um mameluco (mestiço do índio e branco) que posa descalço, vestindo uma túnica branca, coberto com colete e armado com um mosquete e espada, semelhante a um soldado holandês, mas sendo diferente pelos traços físicos e pela falta de botas e elmo.
Eckhout construiu dentro das tradições representativas do século XVII um repertório de símbolos que dialogam entre si, já que serviram para a organização de um “imaginário” sobre o que era o Novo Mundo e sua gente, sublinhando as diferenças de vida e organização, construindo também um repertório de informações sobre o que era viver na colônia. 



Outro elemento externo a terra, mas integrado pela força foi o escravo, braço movente da produção açucareira, mas ao mesmo tempo foco de tensão, especialmente com a articulação dos quilombos. O guerreiro negro aparece junto à Natureza, próximo de uma palmeira, trajando uma tanga de panos traçados, mas armado com lanças e uma espada suntuosa, característica dos guerreiros islâmicos, provavelmente um acréscimo que remetesse às origens deste africano, oriundo talvez de uma região islamizada do ocidente africano, além de ter perto de si, uma presa de elefante (marfim) e dessa forma, parece mais livre do que escravo. 



A não menção dos signos da escravidão no guerreiro negro não se manifesta na mulher negra acompanhada de seu filho: seminua, porta um cesto, semelhante à índia de túnica branca, mas ostenta a condição de escrava porque tem sobre seus seios, no lado esquerdo, a marca feita a ferro, sinal de sua condição inferior e ao seu lado, aparece seu filho, o qual brinca inocentemente com um pássaro, mas sendo filho de ventre escravo, escravo também seria.

A mudança das peças no tabuleiro europeu: a ascensão dos Bragança


"Coroação de D.João IV", Veloso Salgado, 1908, Museu Militar de Lisboa, Portugal.

Na década de 1640, uma nova casa da nobreza ocupou o trono de Lisboa, quando D. João , duque de Bragança liderou a guerra de Restauração com a ajuda da monarquia inglesa, expulsando os representantes espanhóis e estabelecendo a independência de Portugal, assim nasceu a dinastia de Bragança, liderada por D. João IV, o Libertador. Apesar da ruptura do domínio espanhol, a Coroa portuguesa estreitou os laços com os ingleses, colocando-se na órbita dos interesses ingleses, situação em que sobreviveu até o século XIX.
Na colônia, Nassau entrou em divergência com os mantenedores da Companhia das Índias Ocidentais, esta, preocupada com a situação financeira de seus acionistas não entendia porque era necessária tanta proximidade entre administradores locais e colonos, além das crescentes despesas com as guerras contra os espanhóis e a demanda de lucros maiores em escala mais rápida.
Com a demissão de Nassau que foi substituído por uma junta governativa em 1644, da Holanda vinham ordens para que fosse dado início a uma política de arrocho fiscal no Nordeste holandês. Tal atitude desagradou os colonos pernambucanos, que a partir de então, estavam cada vez mais interessados no afastamento dos flamengos, o mais rápido possível.


"A batalha de Guararapes", de Vítor Meirelles, 1875-79, Museu Nacional de Belas Artes, Rio de Janeiro, RJ

Com a Restauração portuguesa, na perspectiva dos colonos, a luta pela expulsão dos holandeses ganhara então um novo alento até triunfar em 1654, mas do ponto de vista oficial, a Coroa portuguesa não estava apoiando tal movimento já que havia estabelecido uma trégua com os holandeses para que estes os apoiassem na Europa contra a Espanha e dessa forma, o conjunto de confrontos que opôs os colonos pró-Portugal, liderados por João Fernandes Vieira, Vidal de Negreiros, Felipe Camarão e Henrique Dias e os invasores holandeses ficou conhecido como Insurreição Pernambucana.
Expulsos do Brasil, os holandeses dirigiram-se para as Antilhas, na América Central, onde passaram a desenvolver o plantio de açúcar e entraram em franca concorrência com o produto brasileiro. 
No final do século XVII, os engenhos brasileiros já davam sinais de decadência, momento em que as expedições bandeirantes foram ganhando mais intensidade, adentrando o sertão na busca de ouro, pedras preciosas, índios para escravizar, além de combater os quilombos, favorecendo uma melhor compreensão do território, das suas riquezas, num processo que desbravou trilhas, fundou vilas e povoados, fato que mais tarde, em 1750, colaborou para a expansão dos domínios lusitanos com o Tratado de Madrid, porém já se tratava de um outro contexto: a formação da sociedade das minas, tema para uma próxima postagem.

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

A visita do papa num país majoritariamente ateu

France Presse
22/09/2011 14h30 - Atualizado em 22/09/2011 15h33

Bento XVI pediu a alemães e europeus que retornem origens de sua cultura.

'Respeito os que se manifestam', disse o pontífice.

Da France Presse
O Papa Bento XVI iniciou nesta quinta-feira (22) uma visita de quatro dias à Alemanha dizendo compreender as pessoas que abandonam a Igreja Católica em função dos escândalos de abusos sexuais e pedindo aos alemães e aos europeus que retornem às origens de sua cultura.
"Posso compreender que diante de tais informações, as pessoas, principalmente as que são próximas das vítimas, digam 'esta não é mais a minha Igreja'", declarou aos jornalistas a bordo do avião que o levou a Berlim.

Também fez referência às manifestações de repúdio que o aguardam na Alemanha, explicando não ter nada contra protestos que são organizados de maneira civilizada. "É normal em uma sociedade livre marcada por uma forte secularização", afirmou o pontífice, antes de acrescentar: "Respeito os que se manifestam".

O Papa foi recebido pela chanceler Angela Merkel em Berlim, onde realiza uma visita oficial e pastoral que inclui atividades políticas e ecumênicas, mas também deve enfrentar algumas dificuldades.
A viagem inclui três etapas - Berlim, Erfurt e Freiburg -, com uma agenda pesada para o pontífice de 84 anos. Ele pronunciará 19 discursos, incluindo o que fez nesta quinta-feira no Parlamento alemão, o célebre Bundestag.

Bento XVI chega a estádio para missa no papamóvel, em Berlim  (Foto: Gero Breloer/AP)

Em seu primeiro discurso no país, no castelo Bellevue de Berlim, onde foi recebido pelo presidente da República, Christian Wulff, com honras militares, o Papa afirmou que faz sua primeira visita ao país natal para falar de Deus. "Não vim aqui fundamentalmente por determinados interesses políticos ou econômicos, como fazem outros homens de Estado, e sim para ver as pessoas e falar de Deus", declarou.

O primeiro Papa alemão em 500 anos também fez referência ao passado nazista do país. "Um olhar claro sobre as páginas escuras do passado nos permite aprender e receber impulsos para o presente", declarou.
O presidente alemão pediu à Igreja Católica que viva na realidade e de acordo com sua época. "A Igreja e o Estado estão separados em nosso país, com boas razões. Mas a Igreja não é uma sociedade paralela. Vive nesta sociedade, neste mundo e nesta época. É por isso que ela também deve enfrentar novas questões", disse o católico Wulff.

Manifeastantes carregam bandeira em protesto contra a visita do Papa Bento XVI, em Berlim (Foto: Pawel Kopczynski/Reuters)

Na quarta-feira, Wulff afirmou que a Igreja deveria ser mais compreensiva com os divorciados. O presidente alemão se divorciou em 2007 e voltou a casar no ano seguinte. O Vaticano não reconhece o divórcio.
Por outro lado, em seu discurso aos deputados alemães, o Papa alertou contra as leis contrárias à liberdade e a dignidade humanas, pedindo aos europeus que voltem às origens de sua cultura.

"Em um momento histórico, no qual o homem adquiriu um poder até agora inimaginável (...) tem a capacidade de destruir o mundo. Pode-se manipular a si mesmo. Pode, por assim dizer, fazer seres humanos e privar de sua humanidade outros seres humanos", afirmou, fazendo alusão aparentemente à seleção genética e ao aborto terapêutico.

Segundo o Papa, os Direitos Humanos, a igualdade de todos diante da lei, a inviolabilidade da dignidade humana encontram sua origem na fé em um "Deus criador". "A cultura da Europa nasceu do encontro entre Jerusalém, Atenas e Roma, do encontro entre a fé no Deus de Israel, na razão filosófica dos gregos e o pensamento jurídico de Roma". "Este triplo encontro configura a íntima identidade da Europa", enfatizou.
Esta não é a primeira vez que um Papa fala ante o parlamento de um país europeu, já que João Paulo II discursou na Polônia e na Itália.

Protestos
Uma série de manifestações de protestos, convocadas pelas vítimas de padres pedófilos, foi organizada nas três cidades que o Papa visitará.

Milhares de pessoas se reuniram na Potsdamer Platz, uma das principais praças da capital alemã, para dar início aos protestos no momento em que o Papa iniciava seu discurso no Bundestag.
Exibindo cartazes com a inscrição "Papa go home", os participantes na manifestação fazem parte de associações homossexuais, de ateus ou de vítimas de abusos sexuais por parte de padres.

"Em nossa Constituição está escrito que todas as religiões devem ser tratadas igualmente. Para mim, este convite (para pronunciar um discurso no Bundestag) não respeita esta disposição", declarou o deputado social-democrata (SPD-oposição federal), Rolf Schwanitz, que participa na manifestação.
Apesar de as denúncias contra padres pedófilos serem menor que as registradas em países como Irlanda e Estados Unidos, inúmeros católicos alemães decidiram abandonar a Igreja católica para manifestar sua indignação.

Fontes vaticanas não excluem que o Papa acabe recebendo algumas vítimas dos abusos sexuais cometidos por padres, como já o fez em outras viagens, um gesto que sempre é apreciado.
A associação de vítimas de padres católicos pedófilos, a SNAP, fundada nos Estados Unidos, avivou o tema na semana passada, depois de apresentar uma denúncia contra o Papa e outros três hierarcas da Igreja ante o Tribunal Penal Internacional por "crimes contra a humanidade", uma ação basicamente simbólica, mas que poderá ofuscar a visita papal.

Além dos escândalos de pedofilia, alguns setores católicos alemães pedem reformas mais profundas dentro da Igreja, enquanto outros rejeitam a visita do pontífice alemão por considerá-lo muito retrógrado.
Segundo as pesquisas, a maioria dos alemães é indiferente à chegada do Papa.

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

50 anos da construção do Muro de Berlim

Fonte: Portal Yahoo
Elena Garuz.
Berlim, 16 set (EFE).- O antigo terminal de Friedrichstrasse, conhecido como o "Palácio das lágrimas", recebe uma exposição que pretende recriar as dolorosas despedidas vivenciadas na estação de trem com a construção do Muro de Berlim, há 50 anos.
"Isto é história alemã em seu estado puro para qualquer visitante de Berlim", declarou a chanceler alemã, Angela Merkel, ao inaugurar a mostra. Ao mesmo tempo, Merkel ressaltou o ambiente de intimidação que reinava no antigo terminal, lembrando que ela já experimentou nesse local a dor de se despedir de um ente querido sem a certeza de que voltaria a vê-lo.
Incentivada pela fundação Casa da História da República Federal Alemã, a exposição reúne objetos originais, como uma cabine de controle, documentos, fotos, gravações de áudio e imagens, assim como inúmeros exemplos biográficos e testemunhos da época.
Entre 1962 e 1990, o terminal era o principal lugar no qual os alemães do Leste e do Oeste tinham que se despedir de seus familiares e amigos.
"Apresentar a história em lugares reais é um dos objetivos da fundação. O 'Palácio das Lágrimas' nos traz uma lembrança histórica como nenhum outro lugar da Alemanha", afirma Han Walter Hütter, presidente da fundação.
Segundo o diretor da exposição, Jürgen Reiche, "muitas histórias, tanto dramáticas como cotidianas, entre elas também muitas fugas fracassadas, estão vinculadas com este lugar único situado entre o Leste e o Oeste".
Com uma superfície de 550 metros quadrados e um total de 570 objetos expostos, a Casa da História procura ilustrar o sofrimento tanto para os que saíam como para os que eram obrigados a permanecer em Berlim Oriental.
"Era um lugar triste, onde muitas pessoas traziam a expressão do medo escrita no rosto", declarou a chanceler alemã em uma mensagem por vídeo.
A chefe do Governo federal espera que a exposição atraia "não só visitantes que ainda se lembram do 'Palácio das Lágrimas' e de suas vindas ao Ocidente", mas também jovens que não vivenciaram a experiência do muro e da fronteira entre as duas Alemanhas.
Muitas pessoas, sobretudo cidadãos orientais e idosos, pessoas a quem o regime comunista permitia uma estadia limitada na Alemanha Ocidental, não puderam suportar a carga psíquica e física à qual se viram submetidos por causa dos extremos controles. Assim, entre 1962 e 1990, mais de 200 pessoas morreram ao passar pela estação de Friedrichstrasse.
Ao mesmo tempo, a exposição, intitulada "Experiências fronteiriças: o dia a dia da divisão alemã", reflete a intensidade e a diversidade das relações entre os cidadãos de ambas as Alemanhas durante os quase 30 anos em que o "muro da vergonha" permaneceu de pé.
O processo de reunificação também aparece como um dos focos da exposição, que pretende ressaltar o alcance internacional deste acontecimento. Após a queda do bloco comunista, o terminal da estação de Friedrichstrasse, um moderno pavilhão de vidro e aço, deixou de desempenhar a função de "Palácio das Lágrimas".
Sob ameaça de demolição, o simbólico lugar foi declarado um Patrimônio Nacional em 2003, sendo submetido a reformas para acolher esta exposição permanente, aberta ao público de forma gratuita. 

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Uma possível resposta para nossa origem

Fonte: Jornal Folha de São Paulo 08/09/2011 - 15h59

Espécie africana foi ancestral do gênero humano, dizem pesquisadores.

DE SÃO PAULO

Uma nova análise de um hominídeo sul-africano de 2 milhões de anos reforça, segundo seus autores, a ideia de que a espécie foi mesmo ancestral do gênero humano, o Homo.
A criatura, batizada de Australopithecus sediba, já era conhecida da ciência, mas pesquisadores liderados por Lee Berger, da Universidade de Witwatersrand, na África do Sul, conseguiram fósseis bem preservados de áreas como o crânio, as mãos e a pelve.

O que os cientistas viram é que o cérebro da criatura já estava passando por uma reorganização estrutural que o tornava mais parecido com o humano. Além disso, seus dedos, com polegar comprido, permitiam manipular objetos com precisão, o que favoreceria a criação de instrumentos de pedra.
O estudo está na revista americana "Science" desta semana.

Foto dá uma ideia do tamanho da criatura "Australopithecus sediba" em comparação à de humano da atualidade

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Aqueles que vão morrer vos saudam!!

Folha de São Paulo - 05/09/2011 - 14h30 - Fonte: Associated PRESS

Ruínas de escola de gladiadores são encontradas na Áustria

Arqueólogos anunciaram nesta segunda-feira a descoberta na Áustria de uma escola de treinamento de gladiadores que se encontra em bom estado de conservação.
As ruínas se encontram enterradas debaixo do local conhecido como parque arqueológico de Carnuntum, a aproximadamente 45 km a leste de Viena. Esse complexo foi uma cidade no passado, onde viveram 50 mil pessoas, cerca de 1.700 anos atrás.
Carnuntum tem sido escavado desde 1870, mas somente 1% da cidade é conhecida. A localização da escola de gladiadores só se tornou possível com o uso de radares, que indicaram uma área branca abaixo do solo.
Modelo de como seria a escola de gladiadores que se encontra enterrada em um sítio arqueológico na Áustria
Maquete produzida pelos arqueólogos, recuperando as instalações da escola de gladiadores.


Segundo os descobridores, o local se equipara a Ludus Magnus, que foi a maior escola de treinamento de gladiadores romanos.

As escavações ainda não têm data para começarem, já que os especialistas querem conservar o máximo possível da estrutura antiga e, para isso, precisam de um plano detalhado de trabalho.

Uma escola de gladiadores era uma mistura de quartel e prisão onde prisioneiros de guerra, escravos e criminosos condenados formavam grupos de lutadores, explicou em um comunicado a Roemisch-Germanisches Zentralmuseum, uma das instituições que participa das escavações.

"Se eles fossem bem-sucedidos, tinham a chance de obter uma condição de 'superstar', o que poderia levar à liberdade deles", comentou o diretor de Carnuntum, Franz Humer.

A escola contém cerca de 40 celas estreitas, que eram usadas como dormitório pelos lutadores; uma área de banho; um local de treino e prédios administrativos.

Há ainda um pequeno estádio rodeado por cadeiras de madeira e uma espécie de ala para o treinador-chefe dos gladiadores.

Os radares também indicam que o lugar possui um cemitério, provavelmente para os que foram mortos durante os treinamentos.