As Ricas Horas do Duque de Berry

As Ricas Horas do Duque de Berry
As Ricas Horas do Duque de Berry. Produção dos irmãos Limbourg - séc. XV. Mês de setembro

segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

EUA e Cuba: relações de tensão e distensão

A ilha de Cuba obteve a independência da Espanha em 1898, contando com apoio norte-americano na guerra. Cuba tornou-se uma república e área de influência estadunidense, principalmente depois de 1901 com a inclusão da Emenda Platt. Esta emenda à Constituição cubana feita pelo Congresso dos EUA tornava legítima a intervenção militar na ilha em casos de desordem pública e econômica, fato que consagrou Cuba como o "bordel" dos Estados Unidos.

O ditador Fulgencio Batista


Até a década de 50, a ilha de Cuba foi governada por políticos vinculados à elite agrícola do açúcar e do tabaco. De  1952 até 1959, o coronel Fulgencio Batista implantara uma ditadura em Cuba. A pesada repressão aos opositores e a crise que assolava a sociedade cubana favoreceu o surgimento de um movimento de guerrilha que a partir da Sierra Maestra (cadeia montanhosa do centro da ilha) começou a luta pela tomada do poder, obtida em 01 de janeiro de 1959, sob a liderança de Fidel Castro e de Ernesto “Che” Guevara.

Inicialmente, o governo de Fidel Castro teve um caráter nacionalista, realizando um processo de reforma agrária e de nacionalização das indústrias estadunidenses na ilha. Em 1961, os Estados Unidos patrocinam uma tentativa de contra-golpe (que ficou conhecida como "episódio da Baía dos Porcos": um esquadrão de cubanos anticastristas treinados pela CIA) para derrubar Fidel do poder, o qual foi duramente rechaçado pelas forças castristas. Em janeiro de 1962, Cuba foi expulsa da OEA (Organização dos Estados Americanos). Fidel declarou em 1º de maio de 1962 a República Socialista de Cuba.

A crise dos Mísseis de Cuba 1962

Khrushchev e Kennedy: o "braço de ferro" na Guerra Fria



No entanto, a crise entre Cuba e os Estados Unidos se agravou em outubro de 1962, com a descoberta de rampas de lançamento de mísseis pelo serviço de inteligência americano (CIA). Neste momento, o dirigente soviético Nikita Khrushchev pretendia instalar mísseis soviéticos em Cuba, deslocando um carregamento dos mesmos em direção a Cuba. O presidente dos EUA, o democrata John F. Kennedy, ordenou que a ilha fosse cercada pela marinha estadunidense e marcou o momento mais delicado da Guerra Fria, quando o "holocausto nuclear" pareceu iminente. Khrushchev deu a ordem de retorno dos mísseis a poucos quilômetros de entrar em choque com o bloqueio naval dos Estados Unidos, evitando portanto, o início da Terceira Guerra Mundial.



A partir de 1962, a ilha de Cuba foi vítima de inúmeras sanções da comunidade internacional, e principalmente de um pesado bloqueio comercial dos países capitalistas em 1964. Contando com apoio soviético, Cuba conseguiu manter-se e implementar um amplo processo de melhoria das condições de vida dos cubanos, alcançando elevados índices de qualidade nas áreas de saúde e educação.

No entanto, o regime monopartidário concentrado na liderança de Fidel Castro não permitiu espaço para a liberdade de expressão ou qualquer tipo de questionamento ao governo implantado pela Revolução de 59 e assim, os dissidentes são tratados com rigor, podendo ser presos (as prisões cubanas são apontadas como ambientes insalubres e não procuram garantir a integridade dos presos, submetendo-os à condições desumanas) ou até fuzilados, dependendo dos “crimes” que tenham cometido.




Fidel Castro governou até 2006, quando por motivos de saúde, foi afastado do poder e o comando da ilha foi transferido ao seu irmão Raul Castro, que já vinha desempenhando o papel de vice-presidente e comandante do exército. Apesar da debilidade de Fidel, o regime ainda se mantém, usando os mesmos instrumentos de coerção e se caracteriza como um dos últimos países, junto com a Coréia do Norte, que seguem a tradição socialista, oriunda da Guerra Fria.

Em 2008, Raul Castro foi "eleito" pelo Assembleia Nacional do Poder Popular como presidente de Cuba, numa eleição em que era o único candidato. Desde então, a visão tida sobre a ilha é de que talvez tivesse iniciado uma transição, buscando inicialmente a abertura econômica para a economia de mercado e posteriormente, a abertura política.

Fidel Castro (1959-2006)


A recuperação das relações diplomáticas entre os EUA e Cuba, a partir de 17 de dezembro de 2014, com a interlocução do papa Francisco coloca a questão cubana num ponto de significativa atenção sobre o "futuro da ilha". Barack Obama buscou concretizar uma de suas promessas de campanha, apesar de Guantánamo ainda estar servindo de colônia penal e sem contar o controverso debate sobre a "validade da tortura" quanto às ameaças terroristas e seus eventuais suspeitos.

Da esquerda para direita: Juan Bosque, Raul Castro e Fidel Castro.


Obama encontra-se agora dependente do Congresso dos EUA, no qual não tem situação muito tranquila e espera um debate "maduro" por parte dos congressistas, sendo que estes não pensam em ações de generosidade, caso isto lhes custe votos e portanto, seus cargos.

O encontro de Obama com o Papa Francisco, no Vaticano, em 27/03/2014

A ação de um papa latino-americano num problema tão complexo quanto a questão cubana foi decisiva e, nesse processo, o resultado foi positivo entre ambas as partes, pois os EUA e Cuba soltaram de ambos os lados, presos ligados à operações de espionagem e o próximo passo é a reabertura recíproca das embaixadas.

O futuro, como bem sabemos, é incerto. No entanto, o cenário que se desenha é bastante promissor e assim, uma página a mais se acrescenta nos escritos de Clio.

Aguardemos as seguintes!


quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

A formação do México: de Porfirio Diaz à Revolução

A construção do Estado Nacional mexicano foi resultado de uma longa guerra de independência contra Espanha (1813-1822). A vitória foi liderada pelo general Itúrbide, o qual se sagrou Imperador (Augustin I). Em 1823 é forçado a abdicar, mas tenta recuperar o poder, sendo derrotado e executado no mesmo ano. O México se tornou uma república.
Em 1823 separam-se do México: El Salvador, Guatemala, Honduras, Nicarágua e Costa Rica, que formaram então as Províncias Unidas da América Central.
Mesmo com a independência houve a manutenção da posse da terra pelos criollos, com uma economia de industrialização incipiente, pautada na produção têxtil e alimentícia.

No entanto, a crise interna era muito grave devido às grandes desigualdades sociais (exclusão da maioria indígena), e a preponderância das forças conservadoras (grandes proprietários, Igreja Católica e grandes comerciantes) em detrimento dos liberais (setores médios urbanos mais intelectualizados, pequeno comércio e mineração) tornavam a manutenção do governo muito instável.

A partir da década de 1840 houve um intenso processo de imigração de norte-americanos para a região norte do México, no intuito de formar fazendas de criação de gado e também fazer prospecção de petróleo (na região do Golfo do México). Em 1845, as comunidades americanas nestas regiões declararam independência do governo mexicano e solicitaram anexação pelos Estados Unidos, iniciando uma guerra contra os Estados Unidos (1845-1848), cujos resultados foram a perda de parte significativa do território mexicano para os EUA (Califórnia, Arizona, Novo México e Colorado).

A guerra contra os EUA (1845-48)

Os conservadores controlaram a política até 1854, quando ocorre a Revolução de Ayutla, a qual leva os liberais ao poder com a liderança de Benito Juarez. Têm início as reformas: Lei Juarez (extinção dos tribunais militares e eclesiásticos); a “Lei Lerdo” (desamortização dos bens da Igreja e as terras indígenas coletivas chamadas de ejidos). Em 1857, jurava-se uma nova Constituição (que vigorou até 1917), a partir da qual o México se tornou um Estado Federativo, com representações dos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário.
"Benito Juarez", 


No entanto, os choques entre forças liberais e conservadoras levam o México à guerra civil (1857-1861). Em 1859 os bens da Igreja foram nacionalizados sem indenização, as ordens religiosas foram suprimidas e o casamento civil instituído. Benito Juarez suspendeu o pagamento da dívida externa em 1863, dando o pretexto para os conservadores articularem a invasão do México pela França, com apoio da Espanha e da Inglaterra. O retorno dos conservadores ao poder em 1864 traz a intervenção européia no México, com a vinda do arquiduque Fernando Maximiliano de Habsburgo (irmão do imperador da Áustria, Francisco José), e dessa forma impõem uma monarquia ao México, atendendo aos interesses conservadores de um governo centralizado e controlado pelas elites.

"Fuzilamento de Maximiliano de Habsburgo" Edouard Manet, Óleo sobre tela - 252 x 305 - 1867
Mannheim, Stadtische Kunsthalle, Alemanha.


A guerra civil continuou e os liberais venceram em 1867, quando Benito Juarez manda fuzilar Fernando Maximiliano. Mesmo com a vitória liberal, o México encontrava-se arrasado e a estabilidade não fora alcançada. Com a morte de Juarez em 1872 assume a presidência Sebastián Lerdo, cuja intenção de reeleger-se provocou, em 1876, uma rebelião sob a liderança do general Porfirio Diaz obteve sucesso na luta pelo poder, iniciando-se então um longo período conhecido como Porfiriato (1876-1911).

Porfirio Diaz

Este governo teve um caráter positivista, o qual visava implantar um programa de governo que realizasse o desenvolvimento mexicano. Nas palavras da historiadora Maria Lígia Prado: “Consolidava-se o Estado, terminavam as guerras civis. Isso no entanto era atingido à custa de um regime arbitrário e autoritário, que subjugou pelos meio mais variados (da cooptação à violência) todos os seus adversários políticos e submeteu de forma brutal os dominados. (...) A vitória dos liberais pedia uma ideologia que garantisse a ordem social sempre ameaçada pelos de abajo (camadas populares), e ao mesmo tempo justificasse e sustentasse a ditadura porfiriana. Essas idéias também deveriam dar espaço à existência do anticlericalismo e indicar o lugar subalterno da igreja, vista diante do Estado como uma instituição do passado”.

A Revolução Mexicana de 1910

Apesar de autoritário, o governo de Porfirio Diaz foi marcado pelo intenso desenvolvimento capitalista (construção de ferrovias; agricultura extensiva; mineração, comércio externo e indústria controlados, sobretudo, pelos capitais estrangeiros), e dessa forma os benefícios deste período ficaram restritos à elite mexicana. Em 1910, um levante armado sob a liderança de Francisco Madero tenta derrubar a ditadura. Tal evento foi acompanhado pelos camponeses, liderados por Emiliano Zapata no sul e Pancho Villa no norte.

Sentado no "trono de Porfirio", Pancho Villa e a sua esquerda, Zapata.


A Revolução Mexicana constituiu-se como um movimento de natureza burguesa, nacionalista e anti-latifundiária, com um forte conteúdo popular. Zapata entrou em choque com Madero, pois este não concretizou a reforma agrária prometida. Dessa forma, Zapata o depõe com a ajuda de Pancho Villa, pois conseguem ocupar a cidade do México, anunciando em seguida o “Plano Ayala”: nacionalização das propriedades, a expropriação de um terço das terras e a devolução das terras aos indígenas. 

A Revolução, a partir daí, promoveu mudanças significativas: uma reforma agrária, inspirada por políticos socialistas e anarquistas foi implementada. As terras dos inimigos da revolução tornaram-se propriedades estatais. Fábricas, escolas e um Banco foram criados para viabilizar as reformas. O processo revolucionário só não teve maior continuidade devido à morte de Emiliano Zapata em 1919.
Anos mais tarde, o presidente eleito Lázaro Cárdenas continuou a política agrária e democrática de Zapata. Cárdenas nacionalizou e distribuiu milhares de hectares aos camponeses, retomando o projeto de reforma agrária através do “ejido”: a propriedade era coletiva, ficando restrita a membros da comunidade indígena.

Do "Big Stick" às ditaduras militares.


Desde o início do século XX, a história da América Latina teve a forte influência dos Estados Unidos em virtude do Corolário Roosevelt conhecido como "Big Stick", ou seja, a intervenção norte-americana na América Central e Caribe, mantendo esta região sobre a égide da economia capitalista no intuito de "preservar a democracia" e os interesses norte-americanos.
A criação de uma área de influência norte-americana na América representava a redução da influência européia e a ascensão dos Estados Unidos como potência, ao ponto de intervir militarmente na defesa de seus objetivos estratégicos. As elites locais foram se aproximando dos Estados Unidos, e estabeleceram uma relação de dependência aos investimentos estrangeiros, os quais foram responsáveis pela formação de pequenos parques industriais (principalmente de produtos vinculados a produção agrícola) Dessa forma, estes países ficaram conhecidos como "Banana’s Republics", isto é, pequenas repúblicas dependentes de capital estrangeiro cuja produção estava centrada na agro-exportação.

Theodore Roosevelt e seu "Big Stick"

A crise do poder das oligarquias ocorreu a partir do "Crack" da Bolsa de Nova York, pois a agro-exportação ficou prejudicada com a retração do mercado americano, obrigando a queima de estoques e a desvalorização da moeda para reter a crise. No entanto, tais medidas só trouxeram aumento do desemprego e da inflação.

No que diz respeito à política, esta era controlada pelos grandes proprietários e industriais, cujos interesses se alinhavam com os Estados Unidos (o "Big Stick" foi substituído pela "Política da Boa Vizinhança") e não tinham espaços para os setores médios urbanos. A partir da década de 30 surgiu uma forma de orientação política denominada populismo, caracterizada pelo controle do poder centralizado por líderes reformistas, com forte tendência autoritária e um culto carismático à personalidade do governante.

No intuito de estabelecer o equilíbrio entre os interesses políticos e a estabilidade social, os líderes populistas buscavam a conciliação entre as classes sociais, e preferencialmente esboçavam a vontade de criar um modelo de desenvolvimento autônomo. O Estado populista investiu em larga escala no setor industrial. No entanto, houve um crescimento da economia acompanhado do aumento do poder aquisitivo do operariado.


Por outro lado, os governos populistas foram responsáveis pela reforma dos velhos Estados oligárquicos, iniciando portanto o processo tardio de industrialização da América e o aumento da participação dos setores médios urbanos na vida política. Entre os principais líderes populistas destacaram-se: 

Lázaro Cárdenas (1934-1940) no México.

Juan Domingos Perón (1946-1955) na Argentina. 

Víctor Paz Estenssoro (1951-1953/1960-1964) na Bolívia.

Getúlio Vargas no Brasil(1930-45 e 1951-54)

A hegemonia norte-americana sobre a América Latina foi abalada pela eclosão da Revolução Cubana em 1959, levantando uma onda de medo entre os setores conservadores dos Estados Unidos e também das elites locais. No intuito de conter a expansão do socialismo, os Estados Unidos começaram a esboçar um plano de ação junto com as elites locais latino-americanas para formar governos autoritários de cunho direitista. Dessa forma, a partir da década de 60, a América Latina foi o cenário de vários golpes de Estado orquestrados por militares, com forte apoio dos conservadores. O primeiro golpe ocorreu em 31 de março de 1964 no Brasil, com a derrubada do governo de João Goulart, seguindo-se pelos golpes na Bolívia, Paraguai, Argentina, Uruguai, Peru e Chile. A “Política da Boa Vizinhança” foi substituída pela “Aliança para o Progresso”.

Kennedy e o combate ao "perigo comunista"


A América Latina ficou sob o controle de grupos autoritários até os meados da década de 1980, quando se iniciaram os primeiros reflexos do fim da Guerra Fria, impondo uma intensa agitação social para a redemocratização (a qual só se concretizaria efetivamente na década de 1990).

Em 1980, Fernando Belaunde Terry foi eleito democraticamente presidente do Peru depois de 12 anos de regime militar. Em 1982, a eleição de Suazo Cordova para presidente de Honduras representou o fim de 18 anos de militarismo, assim como no mesmo ano, Hernan Siles foi eleito presidente da Bolívia.

Em 1983, depois derrota na guerra das Malvinas em 1982, a ditadura militar da Argentina se retirava com a eleição democrática de Raul Alfonsín e o Uruguai veria o retorno à democracia em 1984 com a eleição de Julio Sanguinetti para presidente, sendo que no mesmo momento, no Brasil se clamava pelas eleições diretas, episódio conhecidos como “Diretas Já”, mas as eleições de 1985 ocorreram ainda pelo Colégio Eleitoral, com a vitória de Tancredo Neves, representando o fim de 21 anos de regime militar no Brasil.

O Chile foi um dos últimos países a deixar o regime de exceção, pois um plebiscito disse “não” para um novo mandato do general Pinochet, que se encontrava no poder desde o Golpe de Estado que derrubou o governo de Salvador Allende em setembro de 1973. Em 1989, Patrício Aylwin foi o vencedor da eleição, devolvendo o poder aos civis.

sábado, 15 de novembro de 2014

Há 125 anos, um golpe de Estado proclamava a República no Brasil

O movimento republicano teve seu êxito em 15 de novembro de 1889 e mais uma vez a mudança da ordem política foi desacompanhada de participação popular, uma vez que a população não fora comunicada da mudança: um golpe de Estado que retirava o regime monárquico e criava um novo momento para a nação, a República dos Estados Unidos do Brasil, tendo os militares como os seus principais articuladores naquele momento inicial, a chamada República da Espada (1889-1894).

A mudança de regime político não evitou conflitos, seja entre monarquistas e republicanos ou ainda, entre os próprios republicanos que tanto sonharam para atingir o poder, mas acima de tudo, o Brasil ainda não era uma democracia. 

Da republica militarista passamos à “República dos Bacharéis”, sendo o republicano histórico Prudente de Morais o primeiro presidente civil, de família de fazendeiros de café e formado em Direito pela Faculdade do Largo de São Francisco em São Paulo. Tivemos, portanto, o processo de articulação política que ficou conhecido como “Política Café-com-Leite” , na qual fazendeiros paulistas e mineiros se alternavam na presidência da República. Tal “sistema” garantia também a hegemonia das oligarquias locais em seus “currais eleitorais” e quando o presidente da República solicitasse, estes lhe dariam o apoio necessário, dentro da lógica conhecida como “Política dos Governadores”, ambas só tiveram fim quando ocorreu a Revolução de 1930, um outro golpe de Estado através do qual Getúlio Vargas tornou-se o presidente do País. Começava o período que foi chamado posteriormente de “Era Vargas”.

Vargas governou o Brasil por um longo período (1930-1945), mas ainda era cedo para dizermos que a democracia nascera no Brasil, pois um longo governo Provisório (1930-34) fora seguido por um curto período constitucional (1934-1937) e este acompanhado de uma longa ditadura, mais uma vez sustentada pelos militares que enxergavam em Vargas o homem forte do governo e neste ínterim (1937-1945) vivemos o Estado Novo: censura, ausência de liberdade, prisões e torturas foram as marcas deixadas.

Depois da participação brasileira na Segunda Guerra Mundial, o governo de Vargas entrou em crise, em parte motivada pela incoerência do Exército ter ajudado na derrubada dos regimes ditatoriais na Europa e no campo interno, o mesmo Exército sustentava uma truculenta ditadura. Então, mais um golpe de Estado comandado pelo ministro do Exército, Gois Monteiro, o mesmo que ajudou Getúlio em 1930, o depôs e assim garantiu as eleições presidenciais, nas quais o vencedor foi o ex-ministro de Getúlio, o general Eurico Gaspar Dutra.

O Brasil se aproximou da organização democrática com mais intensidade no período entre 1946 e 1964, dentro do contexto conhecido como “República Liberal” ou “República Populista”, marcado pelo vigor de uma nova Constituição e pelo maior respeito às instituições políticas e foi nesse contexto que a nação brasileira elegeu quatro presidentes: Getúlio Vargas, Juscelino Kubistschek, Jânio Quadros e João Goulart. Nacionalistas, demagógicos e com grande apoio popular, os cinco presidentes do período estabeleceram uma política desenvolvimentista repleta de slogans e medidas transformadoras. No entanto, as crises políticas também se manifestaram como, por exemplo, o escândalo que levou Vargas ao suicídio em 1954.

A polarização ideológica que transpirava durante a Guerra Fria não deixou de influenciar a política brasileira, especialmente depois do sucesso da Revolução Cubana em 1959 e a crise dos mísseis em 1962, fazendo com que os setores conservadores da sociedade brasileira vissem a necessidade de um novo ato de força para a salvação da nação daquilo que era visto como demoníaco: a ameaça comunista. Em 31 de março de 1964, os militares davam mais um golpe de Estado e depunham o presidente democraticamente eleito, João Goulart e assim, se manifestou o Regime Militar(1964-1985).
             
Assim como as fardas haviam mudado pouco, o repertório não foi diferente: suspensão dos direitos políticos, civis e constitucionais, prisões, censura, tortura e execuções daqueles que eram vistos como “terroristas” , “subversivos” ou ousassem a desafiar o poder instituído. Seus defensores, com as mãos sujas de sangue chamaram de “Revolução de 1964”, mas não passava de mais um golpe de Estado.
A violência foi grande, mas a resistência também, com movimentos políticos clandestinos, ações de guerrilha nos grandes centros e no campo e mesmo assim, o regime militar foi mais forte. De outro lado, era alardeado o “Milagre Econômico”: o desenvolvimento da nação com obras faraônicas, crescimento econômico nunca antes visto e a tese de que o futuro teria chegado para o Brasil, mas o engodo foi sendo passado a diante.

Depois de uma abertura “lenta, gradual e segura”, a partir de 1979 com a Lei de Anistia, voltamos à democracia, não tão rápido como desejávamos, mas os sinais de esgotamento do regime militar eram visíveis, a crise crescente, a inflação galopante e os clamores pelo fim da ditadura foram num processo crescente: manifestações de estudantes e as greves de metalúrgicos do ABC paulista.
Em 1982 ocorreram as primeiras eleições diretas e democráticas, as quais foram acompanhadas pelo restabelecimento do pluripartidarismo, proveram a intensificação do processo de transformação que trouxe o país novamente para a democracia, pois as forças de oposição ao regime conseguiram eleger vários e deputados e assim se criou o ambiente para a discussão da eleição direta para presidente, movimento conhecido com “Diretas Já” em 1984, mas os militares ainda detinham o controle do Congresso nacional e conseguiram derrotar a Emenda “Dante de Oliveira”, fato que marcou a eleição presidencial para presidente ainda pela via indireta em 1985.

A oposição foi representada pela chapa Aliança Democrática, formada por Tancredo e José Sarney, venceu a eleição indireta, derrotando o candidato do regime Paulo Maluf. No entanto, em virtude de um quadro de saúde muito complexo, Tancredo Neves morreu antes de sua posse e dessa forma, foi empossado o vice-presidente José Sarney: o primeiro civil eleito depois de 21 anos do regime autoritário dos militares, que assumiu a presidência da República.

Em 1986, foi eleita uma Assembleia Constituinte para redigir uma nova Constituição, que foi promulgada em 05 de outubro de 1988, ficando conhecida como a “Constituição Cidadã”.
O governo Sarney foi marcado pela tentativa de recuperação econômica do País, mas não obteve um sucesso significativo, já que a “herança” deixada pelos militares era muito grave para ser resolvida num curto espaço de tempo. Porém, Sarney foi o primeiro civil desde JK a transmitir o cargo de presidente para outro civil democraticamente eleito: Fernando Collor de Mello (PRN).

Em meio a um governo tumultuado, Collor que buscou ser uma força acima das demais “forças políticas” se viu envolvido num grande escândalo político e sofreu o processo de  impeachment, fato que empossou seu vice Itamar Franco. Apesar das tensões, o Brasil caminhou lentamente para a maturidade das instituições democráticas e conseguiu se consolidar como uma democracia ao longo da década de 1990, durante os governos do sociólogo Fernando Henrique Cardoso (1995-2002) e do metalúrgico Luís Inácio Lula da Silva (2003-2010).

Apesar das mudanças provocadas pelo Plano Real, o Brasil ainda não estava imune aos ataques especulativos, pois o último ano do governo FHC foi marcado pela estagnação econômica e pela nova “decolagem” da cotação do dólar que alcançou a casa de R$ 4,00 e o “índice de risco” relacionado à economia brasileira atingiu patamares imensos.
Todo este quadro foi fruto da incerteza do campo eleitoral ali desenhado: representando a situação o candidato do PSDB José Serra (ex- ministro da Saúde de FHC) e pela oposição, o candidato do PT, Luís Inácio Lula da Silva, que buscava a sua eleição para presidente depois de três derrotas desde 1989.

Depois de uma longa campanha, Lula foi eleito presidente com 61,3% dos votos, sendo protagonista de um momento de grande significado histórico: o sociólogo Fernando Henrique passava a faixa presidencial ao retirante nordestino e metalúrgico, Luís Inácio Lula da Silva, que de líder sindical, agora atingia o mais alto cargo de comando da nação brasileira, ao lado do vice-presidente José Alencar, empresário mineiro do setor têxtil. Nas palavras do novo presidente eleito: “A esperança venceu o medo”.

Durante a campanha eleitoral, Lula assinou um documento chamado de “Carta ao Povo Brasileiro” onde afirmava seu compromisso com a manutenção da estabilidade econômica que fora atingida a
partir do Plano Real durante a gestão FHC, postura que representava a sinalização clara aos setores conservadores da sociedade que o rigor fiscal, os contratos assinados por FHC e a manutenção do superávit primário seriam respeitados dentro da gestão Lula.

No entanto, os avanços sociais que se manifestavam foram ofuscados por um grande escândalo político que envolveu os principais nomes do governo numa rede de corrupção associada à aprovação de projetos no Congresso, episódio conhecido como “Mensalão” em 2005. José Dirceu, o ministro da Casa Civil, tido como o “homem forte” do governo e naquele contexto, apontado por muitos como o natural sucessor de Lula, foi derrubado em virtude das denúncias que o envolviam entre outros políticos, tendo o peso no processo as denúncias do deputado federal do PTB, Roberto Jefferson, também envolvido no contexto. Dirceu e Jefferson tiveram seus mandatos cassados, bem como perderam os direitos políticos. Antonio Palocci (Ministro da Fazenda), Luiz Gushiken (ministro das Comunicações), José Genoíno (presidente do PT) foram retirados de suas funções.

Toda a crise que o governo Lula passou significou por um lado, a quebra da imagem do Partido dos Trabalhadores, até então defensor aguerrido de uma moral e conduta ilibadas, mas por outro, não atingiram a imagem do presidente Lula, o qual não chegou a ser envolvido diretamente ou mesmo acusado formalmente com a apresentação de provas que em algum momento apontassem sua ligação com o esquema de corrupção. Para o espanto de seus inimigos políticos, opositores, críticos da imprensa e academia, Lula saiu ileso da situação e conseguiu a reeleição em 2006 com 60,83% dos votos válidos.

Em relação à sua popularidade, Lula não viu um viés de baixa significativo, pelo contrário, preservou índices elevados, atingindo 76% de aprovação, segundo o Instituto Vox Populi e a grande questão era se os resultados angariados por sua gestão, bem como o seu evidente carisma, seriam transformados em votos para a candidata à presidência pelo PT, Dilma Rousseff, que enfrentou José Serra como candidato do PSDB na eleição de outubro de 2010.

Dilma venceu Serra com 55,06% dos votos válidos, realizando dois fatos inéditos: a continuidade do Partido dos Trabalhadores no Governo Federal numa 3a gestão e se tornou a primeira "Presidenta" da República.

Agora em 2014, Dilma concluiu seu 1o mandato, sendo reeleita por uma estreita margem(51,64%), ao vencer o candidato Aécio Neves do PSDB(48,36%), depois de uma acirrada e tensa campanha(a imprensa conservadora abrindo fogo pesado, como por exemplo, a reportagem da "Veja" na sexta-feira, antevéspera do 2o turno), onde no 1o turno esteve, mais uma vez, Marina Silva que era inicialmente candidata a vice na chapa do ex-governador de Pernambuco Eduardo Campos (PSB), mas em virtude da morte deste num acidente de avião em agosto deste ano, Marina se tornou a cabeça de chapa e se bateu com Aécio pela representação de uma candidatura da "mudança" e da "nova política", porém, fora insuficiente para vencer Aécio e ir ao segundo turno com Dilma na disputa final.

O governo Dilma viu a condenação dos envolvidos no "Mensalão", apareceram outras questões duvidosas envolvendo a gestão da Petrobras e desvio de verbas, que ainda estão sendo investigadas e podem vir a comprometer ainda mais a imagem de seu governo. Com base numa tese "a la UDN na década de 1960", as candidaturas de Marina e Aécio se colocaram como "bastiões do combate à corrupção e ao aparelhamento do Estado em benefício de particulares", atraindo os votos e "militância" dos setores conservadores.

A derrota de Aécio foi tão frustrante que chegaram ao ponto de manifestar, apesar de não passarem de 2000 pessoas, em atos e passeatas, a intervenção das Forças Armadas nesta "perdida e corrupta" República, coisa tão bizarra, que as lideranças do PSDB tiveram que vir a público e repudiar tamanha bizarria, uma vez que FHC, Serra, Aécio, Aloysio Nunes, os já falecidos Franco Montoro e Mário Covas, entre outros, lutaram contra a ditadura militar.

Vale lembrar que, durante o Regime Militar, qualquer manifestação contrária ao governo era duramente reprimida. Coisa que não acontece na democracia, apesar de muitas vezes, os órgãos de segurança, como por exemplo a Polícia Militar, ainda receber um treinamento que é condizente com o contexto autoritário, abusando do uso da força na contenção de massas como ocorreu em junho de 2013.

Mesmo com os excessos, a democracia respeita o direito de manifestação até daqueles que lhes são contrários, mas isto não ocorre com o tão solicitado "autoritarismo".

O saldo desse processo ainda está em curso, não sabemos se será positivo ou negativo, mas indubitavelmente, devemos defender a democracia, as instituições amparadas na Constituição de 1988 e evitar que nossas liberdades sejam mais uma vez solapadas pelo conservadorismo órfão do autoritarismo, afinal, se atual República que vivemos tem problemas, eles são de nossa responsabilidade, uma vez que, depois das eleições, cabe o acompanhamento dos representantes, a análise de suas gestões e as cobranças para a melhoria do bem-estar coletivo, encerrando a exclusão social e os privilégios tão comuns na visão elitista, mas que hoje, não nos servem mais.

A democracia se corrige no exercício da liberdade e não na sua perda e se olharmos na História, a nossa democracia ainda é muito jovem, mas encontra-se em amadurecimento, fruto das ações e responsabilidades de todos os brasileiros, fazendo valer o sentido original da palavra, o "governo do povo" e sendo o regime republicano, que também se faça valer o seu significado, a valorização do "bem comum", independentemente, de sua condição social, origem étnica, gênero, idade e crença.

Voltar ao passado só é interessante enquanto "objeto de reflexão intelectual", pois a História avança sempre para frente!