As Ricas Horas do Duque de Berry

As Ricas Horas do Duque de Berry
As Ricas Horas do Duque de Berry. Produção dos irmãos Limbourg - séc. XV. Mês de julho

sexta-feira, 12 de agosto de 2016

O nascimento do mundo burguês

As terminologias "Alta Idade Média" e "Baixa Idade Média" são expressões criadas a posteriori para se referir ao início "Alto" e ao fim "Baixo" de um período, bem como a própria expressão "Idade Média". De maneira geral, a Baixa Idade Média, que se estende do século XI ao XV, foi o período que deu início a um longo processo de desagregação da sociedade feudal e consequente formação de um novo modo de produção: o capitalismo.
As transformações que movimentaram a sociedade europeia foram profundas, porém só podem ser percebidas a partir de um distanciamento do observador. Para aqueles que viviam naquela época, poucos eram os que se apercebiam das modificações econômicas, sociais e políticas.
Uma prova disso é que o grande evento que inaugurou a Baixa Idade Média, as Cruzadas, era uma clara reprodução de uma já conhecida característica feudal: o poder da Igreja e da nobreza.
Havia também certo prenúncio de aumento das tensões sociais. Muitos trabalhadores não aceitavam mais as condições impostas pelos nobres, sem, entretanto, disporem de uma alternativa real de ocupação.

AS CRUZADAS (1096 a 1291)

Neste contexto, as Cruzadas pregadas pelo papado vieram atender aos anseios de boa parte da população europeia da época, pois carregavam para o Oriente o excedente populacional da Europa, enquanto acenavam com a possibilidade de novos feudos para os grandes senhores e trabalho para a pequena nobreza marginalizada.
A iniciativa do Papa Urbano II tinha ainda a intenção de reforçar a imagem do papado, desgastada diante de tantas querelas, cismas e intrigas. Os mais otimistas chegaram a acreditar na reunificação da Igreja a partir da conquista de Constantinopla, sede da Igreja Católica Ortodoxa. Mas as justificativas oficiais para as Cruzadas eram de que se tratavam de uma ação religiosa e militar dos cristãos na busca de “recuperar o Santo Sepulcro que estava nas mãos dos infiéis”.
Essa soma de interesses materializou-se numa forma de de ação semelhante àquela usada pelos muçulmanos: a guerra santa. A Cruzada Popular comandada por Pedro, o Eremita, arrebanhou populares, camponeses e mendigos em toda a Europa e partiu em direção à Terra Santa. Pedro e seus seguidores, sem nenhum preparo militar, foram facilmente destroçados pelos turcos na Ásia Menor.
Então, desenvolveram-se as expedições oficiais, as quais foram comandadas por nobres. Desta vez, ao contrário do que ocorria nas guerras medievais, centenas de servos estavam prontos para a guerra, não contra a nobreza (como o controvertido William Wallace) mas ao lado dela.
A Primeira Cruzada, celebrizada como Cruzada dos Nobres, foi comandada por Godofredo de Bouillon e contava com o apoio de Roberto de Normandia, Balduíno de Flandres, Tancredo e Boemundo de Tarento. Tomaram Jerusalém em 1099, instalando o Reino de Jerusalém, o Principado de Antioquia e os condados de Trípoli e Edessa.
Diante do perigo de uma retomada de Jerusalém por parte dos turcos, foi organizada a Segunda Cruzada, sob o comando de Luís VII da França e Conrado III da Alemanha. Mas, devido ao desentendimento dos líderes, a cruzada não atingiu seus objetivos e Jerusalém foi retomada pelos muçulmanos de Saladino em 1187, a maior liderança do Islã depois de Maomé.
A Terceira Cruzada, ou Cruzada dos Reis, teve como comandantes Frederico Barba Ruiva, do Sacro Império Romano Germânico, Ricardo Coração de Leão, da Inglaterra, e Felipe Augusto, da França. Com a morte de Barba Ruiva, Felipe se desentendeu com Ricardo e retornou à Europa. Ricardo assinou um pacto com Saladino, sultão do Egito, que permitiu a peregrinação de cristãos a Jerusalém.
A Quarta Cruzada ficou conhecida como Cruzada Comercial, pois atendeu somente aos interesses das cidades italianas, principalmente de Gênova e Veneza. Os combatentes saquearam Zama e tomaram Constantinopla, criando o Reino Latino do Oriente e conquistando para os europeus um importante entreposto comercial.
Após a Quarta Cruzada, surgiu na na Europa a ideia de que somente aqueles que tivessem o coração puro poderiam retomar a Terra Santa. Foi, então, organizada a Quinta Cruzada, ou Cruzada das Crianças, que redundou em enorme fracasso, uma vez que todas as crianças foram vendidas como escravas pelos turcos. As cruzadas posteriores (sexta a oitava) desviaram-se de seu objetivo original e pouco ou nada conseguiram.


Fonte: Bibliothèque Nationale de France


A principal consequência das Cruzadas foi o enriquecimento das cidades italianas de Pisa, Gênova e Veneza, que arrecadaram grandes somas em dinheiro com o transporte de cruzados, com parte dos saques e com o comércio de especiarias com os muçulmanos. Essas cidades  enriquecidas passaram a formar frotas militares que retomaram o Mediterrâneo e estabeleceram rotas regulares entre a Europa e a Ásia. Porém, a abertura do Mediterrâneo em nada ajudou a nobreza, que, desde então, passou a enfrentar um processo ininterrupto de decadência política.
A Cristandade enfrentava não só inimigos externos, mas também inimigos internos que se encontravam entre seus fiéis, os hereges. A palavra heresia vem do grego hairesis e significa escolha, desta forma ser um herege era escolher um caminho diferente do apontado pela ortodoxia da Igreja Católica. Em contrapartida, a Igreja defendia a tese de que a salvação era coletiva, portanto, todos devem obedecer as leis de Deus para obter a salvação. Quando aparecia alguém entre o "rebanho de Deus" que negava algum dogma da Igreja, tal ato representava uma ameaça e a Igreja deveria reconduzir a "ovelha desgarrada" para seu seio, usando se necessário a força.
Para combater as heresias, a Igreja criou a Santa Inquisição em 1162 no intuito de organizar a luta contra os hereges. Muitos movimentos heréticos surgiram na Europa medieval , como por exemplo os valdenses (na Espanha, Lombardia e Alpes franceses), os albigenses e cátaros (Languedoc, sul da França).
O caso dos cátaros (eram contrários a autoridade da Igreja, ao direito de propriedade, aos sacramentos católicos) representava uma ameaça à Igreja e também ao poder real da França, fazendo com  que o papa Inocêncio III e os reis da França, Luís VIII e Luís IX organizassem  uma cruzada(1209-1229) contra estes hereges, culminando com o massacre dos cátaros em várias cidades do sul. Com a vitória dos católicos, a região do Languedoc foi anexado à coroa da França.
As manifestações heréticas , no entanto, continuaram a aparecer em diferentes pontos da Europa e cada vez mais a Igreja procurou reprimir através da Inquisição no objetivo de manter a ordem. Neste contexto, começam a surgir as ordens mendicantes, irmandades religiosas que pregam a pobreza e condenam o luxo e a ostentação de Roma, destacando-se a Ordem dos Irmãos Menores fundada por Francisco de Assis, um  filho de um rico comerciante, que abandonou todos seus bens , pregando voto de pobreza. O movimento foi reconhecido (como outras ordens) pelo papa em 1210 no intuito de trazê-las para o controle da Igreja . Morreu em 1226 e foi canonizado dois anos depois.


A INQUISIÇÃO

"Auto de fé presidido por São Domingos de Gusmán", Pedro Berruguete, c. 1495
Museu do Prado, Madrid, Espanha.
Fonte: Wikipedia


Já no período em que as Cruzadas haviam se desviado de seus objetivos originais, a Igreja viu aumentar o fenômeno das heresias. Hereges eram todos aqueles que, grosso modo, questionavam os dogmas católicos.
Assim, o Papa Gregório IX criou os Tribunais do Santo Ofício em1231. Os tribunais estabeleciam um padrão de ação que começava com o tempo das graças, no qual aqueles que se sentissem à vontade poderiam apresentar-se aos inquisidores quando estes chegavam em uma determinada cidade. Posteriormente, os acusados passavam a ser perseguidos. Uma vez presos, entravam na terrível fase do interrogatório – a tortura era considerada instrumento legítimo de obtenção da confissão.
Por fim, era dada a sentença. Dependendo da gravidade do crime, aquele que não mudasse suas ideias ou não confessasse a culpa poderia ser condenado à prisão, ao confisco de bens ou então à morte na fogueira. Alguns, uma vez se tratando de faltas menos graves, poderiam ser absolvidos e reintegrados à comunidade cristã.

RENASCIMENTO COMERCIAL E URBANO

Com a retomada do Mediterrâneo pelas cidades italianas, o comércio ressurgiu na Europa através das rotas que atravessavam todo o continente. Nos cruzamentos dessas rotas terrestres, surgiram as feiras, que atraíam grandes contingentes populacionais. A mais famosa dessas feiras foi a de Champanhe, no interior da França (século XIV) e, posteriormente, a feira de Flandres (atual Bélgica).
As novas rotas comerciais limparam as estradas e fizeram ressurgir as transações em moeda, enriquecendo os comerciantes. Esse novo grupamento, os burgueses, expandiu as transações comercias e enfraqueceu os nobres. A vida urbana renasceu com as Hansas ou Ligas, que eram associações de mercadores de diversas cidades, principalmente no norte da Europa. Ali se formou as mais poderosas associações de comerciantes da Baixa Idade Média: no norte destacavam-se as cidades da Flandres de Antuérpia, Roterdã, Amsterdã e Bruges; a leste e mais ao norte havia a Liga Hanseática formada por cidades alemãs, escandinavas e russas, destacando-se Lübeck, Hamburg, Bremen, Kopenhagen, Estocolmo, Novgorod entre outras cidades que faziam um forte intercâmbio comercial nos mares do Norte e Báltico.  Seus membros conseguiam trocar produtos do norte da Europa por artigos orientais trazidos por comerciantes italianos, de Gênova, Veneza, Florença e Pisa. Periodicamente, mercadores do norte e sul encontravam-se numa região estratégica para adquirirem produtos diferentes, a região de Champagne na França, principalmente nas cidades de Reims, Troyes, Provins, Lagni.
Nas cidades, também se desenvolveram as corporações de ofício, cujo objetivo era zelar pela qualidade dos produtos, evitar a concorrência nociva entre os membros e estabelecer um justo preço pelas mercadorias. Essa corporações eram associações de oficinas, e cada ofício tinha sua própria norma.
Em uma oficina, havia um mestre artesão, conhecedor do ofício, dono das ferramentas e das matérias primas, e um aprendiz, em geral com pouca idade e que aprendia a arte do ofício enquanto ajudava o mestre. As oficinas maiores tinham um oficial, trabalhador assalariado e que esperava uma oportunidade para se tornar mestre. Já as menores, contratavam um jornaleiro, que trabalhava por jornada em épocas de excesso de trabalho.
Várias outras atividades surgiram em função do crescimento das cidades, como banqueiros, cambistas, entre outros. Por outro lado, com a abertura do Mediterrâneo, uma grande quantidade de produtos chegavam do Oriente, como perfumes, temperos, alimentos e, inclusive, foi a partir daí que os europeus intensificaram a utilização da pólvora.
Assim, pode-se afirmar que, nessa época, a Europa vivia uma significativa prosperidade econômica e um grande afluxo para os centros urbanos, comprometendo toda a estrutura agrícola feudal.
Ao mesmo tempo, o rei via na nobreza feudal um obstáculo às suas pretensões de retomada e centralização do poder. Dessa forma, a aliança do rei com a burguesia foi inevitável. Entre os séculos XII e XIV, a Europa viu a fragmentação feudal dar lugar às monarquias nacionais.
A primeira delas aconteceu em Portugal, que conseguiu centralizar o poder monárquico após a Revolução de Avis(1383-1385), pois com vitória de D. João, mestre da Ordem de Avis sobre as forças castelhanas apoiadas pela rainha D. Leonor,  a tentativa de Castela recuperar o domínio de Portugal foi afastada com o surgimento da Dinastia de Avis .
Com os capitais fornecidos pela burguesia, o rei da França, Hugo Capeto, pôde aparelhar exércitos, retomar as terras dos nobres, cobrar impostos nacionais e criar um tribunal do rei, considerado superior aos tribunais feudais. Através de uma política de casamentos, compras, guerras e anexações, a dinastia capetíngia conseguiu diminuir os particularismos regionais e aumentar a centralização monárquica.
Na Inglaterra, o processo de centralização deveu-se à invasão da ilha pelo duque da Normandia, Guilherme, o Conquistador, que derrotou o último rei anglo-saxônico na Batalha de Hastings (1066). A dinastia normanda impôs-se aos saxões, dividindo a Inglaterra em condados supervisionados por Sheriffs, homens de confiança do rei. A centralização monárquica predominou na Inglaterra até 1215, quando o rei João sem Terra foi obrigado a assinar a Magna Carta, que limitava fortemente o poder real perante a nobreza. A Magna Carta estabeleceu, dentre outras coisas, que:

-       o rei não poderia impor qualquer tipo de tributo sem o consentimento do Grande Conselho do Reino, que seria convocado com, pelo menos, dois dias de antecedência. Décadas depois, o Grande Conselho passou a se chamar Parlamento e reuniria-se três vezes ao ano.

-       nenhum homem livre poderia ser detido, senão em função de uma sentença pré-regulamentada e ditada por seus pares. Dessa forma, a Magna Carta garantia aos ingleses direitos de ordens individual e política, e até mesmo de resistência, a qualquer forma de autoritarismo que partisse do monarca.


A cultura medieval

Na Baixa Idade Média, com Tomás de Aquino no século XIII surge o conceito do livre arbítrio e um retorno ao estudo de Aristóteles, como a formação do pensamento escolástico.
As universidades surgem por volta do século XII e XIII, como Paris, Oxford, Salamanca, Bolonha, Coimbra. Tradicionalmente, estudavam-se duas modalidades das chamadas "artes liberais", o trivium e o quadrivium. O primeiro era formado pelas artes da Dialética, Gramática e Retórica e o segundo pelas artes da Aritmética, Geometria, Música e Astronomia.
Na literatura uma das principais manifestações foram as novelas de cavalaria, as canções de gesta e as poesias trovadorescas, que contavam as histórias dos cavaleiros, seus combate s e seus amores, como o ciclo arturiano (O rei Artur e os cavaleiros da Távola Redonda, A Demanda do Santo Graal) do ciclo carolíngio (Carlos Magno e de Rolando em Canção de Rolando). Estes textos eram escritos em latins vulgar e geralmente cantados pelos jograis e trovadores. Dentro da literatura clássica é de grande importância a obra de Dante Alighieri, autor da Divina Comédia e de Giovanni Boccaccio com seu livro Decameron.

GUERRA DOS CEM ANOS (1337-1453)

Batalha de Crécy, 1346. Iluminura do séc. XV. 
Fonte: Fonte: Bibliothèque Nationale de France


Em seu processo de unificação, a monarquia nacional francesa teve que enfrentar o particularismo do Ducado da Normandia, terra natal de Guilherme, o Conquistador, e ancestral do monarca da Inglaterra. A posse de terras na França pelo monarca da Inglaterra, a disputa pela região da Flandres, bem como as disputas pela própria coroa da França, provocaram a guerra.
Com a morte do rei Carlos IV, da Dinastia Capetíngia, a coroa francesa passaria a Eduardo III, rei da Inglaterra. Mas os nobres franceses invocaram uma antiga lei da época dos francos (Lei Sálica), que não permitia que o trono francês fosse transmitido por uma mulher – no caso, o monarca da Inglaterra era neto, por parte de mãe, do rei Felipe Capeto, o Belo. Dessa forma, o trono passaria a Felipe de Valois, nobre sobrinho-neto de Felipe, o Belo, e apoiado pelos adversários dos ingleses. Inconformado, o rei inglês, Eduardo III, declarou guerra à França.
A luta favoreceu os ingleses em sua fase inicial, que chegaram a dominar a maior parte do território francês. Em 1348, a Europa foi atingida pela peste negra, que dizimou cerca de 25 milhões de pessoas (um terço da população do continente) e só foi parcialmente debelada em 1350.
As constantes vitórias inglesas terminaram por encurralar os franceses em um pequeno território no norte do país. Mas a maré da guerra mudou quando o povo francês foi exortado por uma camponesa a cerrar fileiras em torno do rei e libertar o país do jugo inglês. Joana D'Arc afirmava ter tido visões, nas quais a Virgem Maria lhe dizia que os ingleses representavam o demônio na França. Seu fervor religioso contagiou toda a população que se atirou à luta contra os ingleses.
Em 1431, a “A Donzela de Orleans” foi aprisionada pelos borgonheses, aliados dos ingleses, julgada por heresia e queimada como bruxa. Os franceses mantiveram-se firmes na luta e, em 1453, os ingleses são expulsos da França, que se unificou em torno de Carlos VII.
A Guerra dos Cem Anos foi um dos episódios que demarcaram a chamada crise do século XIV. Outro fator importante foi a disseminação da “Peste Negra”. Tal epidemia foi fruto das péssimas condições de habitação da época, além da inexistência de uma política de saneamento básico.

A PESTE NEGRA E REVOLTAS CAMPONESAS

“O triunfo da Morte”, afresco de Buonamico Buffalmacco, 1350, Cemitério de Pisa, Itália.
Fonte: Wikipedia


No início do século XIV, houve uma progressiva crise no sistema feudal, cuja expansão foi mais baseada na incorporação de novas terras para o cultivo do que no desenvolvimento de tecnologia. A exploração predatória das novas terras contribuiu para o desgaste de sua fertilidade, e o desmatamento intenso provocou alterações ecológicas e climáticas. Períodos extremamente chuvosos alternavam-se com épocas de secas, o que fez diminuir a produção agrícola e encarecer os preços dos produtos.
Nessa mesma época, as minas de ouro e prata da Europa esgotavam-se. Com a falta de metais, as moedas em circulação perdiam seu valor e os nobres que podiam entesouravam o máximo possível de dinheiro. Essa situação provocou inquietação entre os mais pobres e falências de bancos e de casas comerciais. Em algumas décadas, a crise atingiu proporções catastróficas, gerando a Grande Fome.
A subnutrição causada pelas crises de fome talvez tenha contribuído para minar a resistência da população. A situação ficou ainda pior quando, a partir de 1348, começaram os surtos da chamada peste negra, que era a Peste Negra, doença transmitida através das pulgas dos ratos contaminados. Esses ratos, provavelmente, tinham vindo nos navios dos comerciantes italianos que chegavam do Oriente.
Muitos pesquisadores acreditam que o fator que favoreceu a disseminação da peste foram as péssimas condições de ocupação que se estabeleceram pela Europa, principalmente durante o renascimento da vida urbana. As casas eram amontoadas, não havia uma eliminação adequada do esgoto doméstico, e os europeus, independentemente da classe social à qual pertenciam, resistiam à ideia de tomar banho com frequência. Todos esses elementos conjugados permitiram a rápida proliferação da doença, que chegou a matar 30% da população do continente.

Avanço da Peste Negra (1348-50)
Fonte: Wikipédia


Nesse período, a situação era de desolação. As condições de vida daqueles que sobreviveram à peste eram péssimas e a mortandade provocou escassez de mão-de-obra. Na Europa Ocidental, alguns senhores feudais passaram a empregar trabalhadores assalariados, trocando as prestações de serviços e as obrigações em espécie por pagamentos em dinheiro, o que permitiu que alguns servos comprassem a própria liberdade. Isso incentivou muitos servos a fugir para as cidades.
Mas muitos nobres tentaram reagir, congelando os salários e aumentando o valor das prestações devidas pelos servos, o que provocou inúmeras insurreições de camponeses na Inglaterra, Portugal, Castela e na França, onde as revoltas camponesas receberam o nome popular de jacqueries. O termo deriva da expressão em francês Jacques Bonhomme , que significa"zé-ninguém, zé povinho", portanto, uma forma depreciativa de lidar com os pobres.  
Milhares de camponeses rebelaram-se contra seus senhores, destruindo castelos e matando nobres. A nobreza contra-atacou com o apoio dos exércitos reais (nessa fase, já existiam algumas tropas profissionais) e a ação dos camponeses foi sufocada, e milhares de pessoas foram mortas.

O levante dos "zé-ninguém" contra a nobreza. Iluminura do séc. XV
Fonte: Fonte: Bibliothèque Nationale de France



Os burgueses (mercadores das cidades) lucravam com a inflação, pois seus produtos, agora, estavam em alta, enquanto salários, aluguéis e arrendamentos tinham seus valores depreciados. Muitos burgueses enriqueceram e casaram-se com filhas de famílias de nobres empobrecidos. Era o sinal claro da ascensão da burguesia e da lenta, mas irreversível, decadência da nobreza.



Documentos históricos:

Discurso do Papa Urbano II, em Clermont-Ferrand (1095)

“Deixai os que outrora estavam acostumados a se baterem, impiedosamente contra os fiéis, em guerras particulares, lutarem contra os infiéis... Deixai os que até aqui foram ladrões, tornarem-se soldados. Deixai aqueles que outrora se bateram contra seus irmãos e parentes, lutarem agora contra os bárbaros como devem. Deixai os que outrora foram mercenários, a baixos salários, receberem agora a recompensa eterna.
Uma vez que a terra que vós habitais, fechada de todos os lados pelo mar e circundada por picos de montanhas, é demasiadamente pequena para a vossa grande população; a sua riqueza também não abunda, mal fornece o alimento necessário aos seus cultivadores... tomai o caminho do Santo Sepulcro; arrebatai aquela terra à raça perversa e submetei-a a vós mesmos. Essa terra em que como diz a escritura, jorra leite e mel” foi dada por Deus aos filhos de Israel. Jerusalém é o umbigo do mundo; a terra é mais do que todas frutífera, como um novo paraíso de deleites”.


O saque de Maara

Chega a noite de 11 de dezembro. Está muito escuro, e os franj (como os árabes chamavam os francos) ainda não ousam penetrar na cidade. Os notáveis de Maara entram em contato com Bohémond, novo senhor de Antioquia, que se encontra à frente dos atacantes. O chefe franco promete garantias se cessarem o combate, deixando para trás algumas construções. Agarrando-se desesperadamente à sua palavra, as famílias reúnem-se nas casas e porões da cidade e, a noite toda, esperam tremendo.
Na alvorada, chegam os franj. É uma carnificina. Durante três dias, eles matam mais de cem mil pessoas pela espada e fazem muitos prisioneiros. Os números de Ibn al-Athir são evidentemente fantasiosos, pois a população da cidade, na véspera da queda, era provavelmente inferior a dez mil habitantes. Mas o horror está menos presente no número de vítimas do que no destino quase inimaginável que lhes foi reservado.
“Em Maara, os nossos faziam ferver os pagãos adultos em caldeira, fincavam as crianças em espetos e as devoravam grelhadas.” Essa confissão do cronista franco Raoul de Caen não foi lida pelos habitantes das localidades próximas a Maara, mas até o fim de sua vida eles se lembraram do que viram e ouviram. Pois a lembrança dessas atrocidades propagadas pelos poetas locais, assim como pela tradição oral, fixara nos espíritos uma imagem dos franj difícil de ser apagada. O cronista Ussama Ibn Munqidh, nascidos três anos antes desses acontecimentos, na cidade vizinha de Chayzar, escrevera um dia:
“Todos aqueles que se informaram a respeito dos franj viram neles animais que têm a superioridade da coragem e do ardor no combate, mas nenhuma outra, assim como os animais têm a superioridade da força e agressão.”


sábado, 18 de junho de 2016

Reinos Bárbaros e o Sistema Feudal

REINOS BÁRBAROS

Com a decadência de Roma, as tribos germânicas que viviam além do limites do Império passaram a cruzar as fronteiras em pequenas expedições de saque e pilhagem. O exército romano mostrou-se incapaz de perseguir os bárbaros que se esconderam nas florestas, e passou, então, a contratar chefes de tribos germânicas amigas para patrulhar as fronteiras contra outros povos bárbaros. Esse acordo celebrado entre Roma e as tribos bárbaras recebeu o nome de Foedus e daí as tribos que se associavam aos romanos passavam a ser chamadas de federados.
Originários da Ásia central, os hunos sempre viveram em tribos independentes e em constantes lutas internas. Unificados por Átila, atravessaram boa parte da Ásia e da Europa em busca das riquezas do Império Romano. Chegando aos limites de Roma, provocaram uma debandada geral das tribos germânicas, desorganizando ainda mais o já combalido império.
As tribos bárbaras lutaram incessantemente entre si e devastaram todas as terras. A insegurança fez que a população fugisse das cidades, que eram o alvo preferido dos invasores, e procurasse abrigo no campo, sob a proteção de um patrício ou general poderoso, uma vez que este possuía um exército próprio para proteger-se em sua Villae (o latifúndio romano)
A larga convivência entre bárbaros e romanos fez que os primeiros assimilassem vários costumes dos últimos. A maior prova disso foi o fato de que os bárbaros gradativamente substituíram a tradicional organização tribal por algo que se aproximasse daquilo que viram funcionar no mundo ocidental romanizado.

Mapa das Invasões ao Império Romano entre os séculos III e V d.C. 
Fonte: Wikipédia - https://goo.gl/MYPBdK


Ao longo do século, pode-se assinalar alguns reinos bárbaros com razoável precisão:


  •          Reino dos Francos, na atual França. Foi o mais poderoso de todos os reinos bárbaros, destacando-se as dinastias merovíngia e carolíngia, que serão mais detalhadas adiante.
  •          Reino dos Visigodos, no território da Península Ibérica;
  •          Reino dos Vândalos, que ocupava o norte da África;
  •        Reino dos Lombardos, situado ao norte da Península Itálica.
  •        Reino dos Saxões, na ilha da Bretanha, atual Inglaterra.

A Igreja cristã, cujo poder era hegemônico em Roma, procurou apoio nos chefes bárbaros como forma de conseguir alguma proteção para a outrora capital do mundo. Diante do poder militar conquistado pelos francos frente a outras tribos bárbaras e da conversão ao cristianismo de seu rei, Clóvis, o bispo de Roma foi pessoalmente à Gália batizar o rei dos francos (496). A monarquia franca afirmava ser descendente de um herói mitológico de nome Meroveu, daí, o fato de posteriormente serem chamados de merovíngios.

Durante o governo de Clóvis, o reino franco ampliou suas fronteiras, dominando terras em toda a Gália. Com a morte do líder, ficou colocado o problema da dupla herança cultural dos francos. Enquanto a tradição germânica determinava que todos os bens fossem divididos igualmente entre os herdeiros, a romana entregava toda a herança ao filho mais velho. Clóvis preferiu seguir a tradição germânica, dividindo, assim, o reino entre seus quatro filhos. Entretanto, seus sucessores não tiveram a mesma habilidade e disposição política do pai, e mereceram ficar conhecidos como reis indolentes.

Paulatinamente, os soberanos merovíngios foram perdendo o poder para nobres subalternos, que se aproveitaram da carência de autoridade dos reis para se impor. Esses nobres eram os major domus, também chamados de prefeitos do palácio. Tais prefeitos passaram a governar efetivamente os reinos francos, exercendo o poder de fato, enquanto os reis detinham o poder de direito. Pepino de Heristal conseguiu consolidar a unificação dos reinos francos, entregando-os a seu filho, Carlos Martel. Este último foi o responsável pela interrupção da expansão muçulmana na Europa, vencendo os islâmicos na Batalha de Poitiers (732).

O IMPÉRIO CAROLÍNGIO

Pepino, o Breve, filho de Carlos Martel, depôs Childerico III, o último rei merovíngio e, com o apoio do Papa Zacarias, fez-se coroar novo rei dos francos, dando início a uma nova dinastia.
Pepino confirmou os questionáveis acordos e doações de Constantino à Igreja. Segundo esses acordos, o título de imperador pertenceria ao papado. Por essa proximidade com o cristianismo e por defender a Igreja de um ataque dos lombardos, Pepino recebeu o título de patrício. Também foi o responsável por conceder uma série de terras na Península Itálica que formaram o Patrimônio de São Pedro.
Porém, com a morte de Pepino, ocorreu uma nova disputa pelo trono e consequente divisão das terras entre seus filhos, Carlos e Carlomano, e recomeçaram as lutas internas. Com a morte de Carlomano em 771, Carlos Magno, como ficaria conhecido, reunificou o reino e, atendendo a um pedido do Papa, realizou novos ataques aos lombardos que ameaçavam Roma, entregou a região de Ravena ao Papa e, assim, o Patrimônio de São Pedro estava protegido. Mais uma vez, confirmou as doações de Constantino e de Pepino, O Breve.

Nunca um chefe bárbaro esteve tão próximo da Igreja. No dia de Natal do ano 800, durante uma missa celebrada pelo próprio Papa Leão III, Carlos Magno foi coroado Imperador Romano dos Francos. Não se pode esquecer de que o Império Bizantino continuava vivo em Constantinopla e seu imperador, Miguel I, não aceitou a ideia de que um bárbaro envergasse a púrpura imperial. Para ser reconhecido pelo soberano oriental, Carlos Magno entregou a ele os domínios da Dalmácia e Ístria.
Para melhor administrar os territórios que compunham o reino dos francos, Carlos Magno dividiu-o em ducados (terras cedidas a um amigo do rei, o Duque), condados (governados por um conde que devia obediência ao rei), marcas (em regiões fronteiriças governadas pelo marquês), e criou os missi dominici (os olhos e ouvidos do rei). Estes últimos fiscalizavam todo o Império Franco e garantiam que os interesses do rei não fossem lesados.

Cabeça relicário de Carlos Magno - Séc. XIV - Tesouro da Catedral de Aachen, Alemanha
Crédito: Elias Feitosa

O sucessor direto de Carlos Magno foi Luís, o Piedoso, que governou até 841 e apenas procurou manter aquilo que seu pai havia conquistado. Luís legou o império a seus três filhos. Lotário, o mais velho, pretendeu ser o único imperador, valendo-se das tradições romanas que garantiam poder ao primogênito, mas teve de enfrentar seus dois irmãos, que reivindicavam os costumes germânicos e lhe impuseram o Tratado de Verdun (ano 843), que dividia o império em três partes:

·        Carlos, o Calvo, ficou com a Francia Ocidental;
·        Luís, o Germânico, ficou com a Francia Oriental;
·        Lotário ficou com uma faixa de terra entre as duas partes (a Lotaríngia) e o título de Imperador. 

Com a morte de Lotário, suas terras foram anexadas por seus irmãos. 
É importante destacar que Tratado de Verdun foi apresentado ao povo em língua romana e, depois, em língua germânica, demonstrando a divisão existente no Império Carolíngio.


Com a partilha do Império, a Francia Ocidental começou um lento processo de fragmentação sob Carlos, o Calvo, e seus descendentes. Luís, o Gago, e Carlos, o Simples, viram o poder passar lentamente às mãos dos condes, que já não prestavam homenagem (fidelidade militar) ao imperador e que, naquele momento, transmitiam a seus filhos o governo dos feudos. O poder real (ou imperial) submergiu na fragmentação do feudalismo.
Na Francia Oriental, Luís, o Germânico, enfrentou forte oposição dos grandes senhores da Saxônia e, em seu leito de morte, recomendou a seu filho que entregasse a coroa ao poderoso Duque de Saxônia, Henrique.
Os descendentes de Henrique governaram a Francia Oriental dando origem à Dinastia Otônida e ao Sacro Império Romano Germânico, fundado por Oto I, denominado Sacro Império Romano Germânico, o I Reich (Império na língua alemã) que existiu até 1806.

O FEUDALISMO

O feudalismo é classicamente definido como um sistema composto de relações econômicas e sociais servis, descentralização administrativa e fidelidade política e militar entre nobres.
Neste sistema de relação homem a homem, um nobre doador de terras (beneficium), que era chamado de Suserano, comprometia-se a dar proteção a um outro nobre, o recebedor de terras, sendo considerado Vassalo do primeiro. Este último, em troca das terras recebidas, comprometia-se a prestar uma série de serviços ao seu suserano, a maior parte deles de caráter militar. Sem dúvida, o mais importante deles era o juramento de fidelidade absoluta e indissolúvel quando houvesse a necessidade de formar um exército.

O feudalismo era um sistema complexo, por vezes conflitante. Formou-se na Europa Ocidental entre os séculos VIII e XI da Era Cristã, como resultado da ruralização e da insegurança provocadas pelas invasões: os normandos (vindos do norte), os muçulmanos (vindos do sul), os húngaros e eslavos (vindos do leste) e pela já existe fusão de costumes romanos e bárbaros (germânicos) desde o século V. A ruralização e a insegurança provocadas por essas invasões terminaram por afastar as comunidades dos centros urbanos, dando origem aos feudos.

A contribuição romana se deu pela prática do trabalho servil. A servidão originou-se do colonato, exercício de trabalho semilivre que se espalhou pela zona rural romana em virtude da crise do escravismo e do encarecimento decorrente da escassez da oferta de escravos. Por outro lado, com a insegurança e as crises sucessivas, muitos romanos poderosos passaram a se refugiar em suas villaes, protegidos por uma guarda pessoal. Plebeus fugidos das cidades ofereciam-se como colonos, na busca da proteção, abrindo mão de sua liberdade em troca da permissão para produzir e viver nas terras daquele senhor. Finalmente, acabavam se transformando em servos da gleba, e é esse processo que aponta no sentido da ruralização da Europa.

Já os bandos guerreiros germânicos introduziram o costume do Comitatus, que era uma relação de amizade e troca de presentes entre um chefe tribal e seus homens de confiança. O maior símbolo dessa relação era a homenagem, na qual os homens juravam fidelidade absoluta ao seu superior.
Uma vez que o suserano era, por definição, aquele que doava terras, evidentemente todo vassalo que doava uma porção de terra tornava-se também suserano. Quanto ao rei, ele era considerado o suserano de todos os suseranos, com o direito de gozar seus privilégios em todos os feudos se assim desejasse. A fragmentação do poder político e a ruralização propiciaram um processo de organização de várias alianças entre os senhores feudais, criando uma teia de vínculos de dependência, que unia os senhores mais poderosos e seus vassalos e dessa forma , o poder local era muito mais forte que o poder central, já que o rei detinha o poder de direito, mas os senhores feudais detinham o poder de fato.

Outro elemento que ajuda a visualizar a autonomia dos feudos é o fato de que as leis escritas da época romana foram, aos poucos, sendo obrigadas a conviver com a tradição oral dos germânicos (direito consuetudinário), isso quando a tradição e os costumes não substituíram completamente o direito escrito.

A investidura de Lancelot - Iluminura do séc. XV Fonte: BNF - Paris.


Essa estrutura nobiliárquica feudal, entretanto, não levou em conta o aumento da população, bem como o número finito de divisões que uma propriedade suportaria, levando em conta a sua capacidade de produção. Dessa forma, a fome era uma dura realidade em grande parte dos feudos e quando havia algum excedente, os senhores procuravam trocar ou comercializar com outros territórios.Os senhores feudais, impossibilitados de dividir suas terras entre seus filhos, passaram a transmitir todos os seus bens ao filho mais velho, dando aos mais novos tão somente as armas para que pudessem exercer a função de cavaleiro. Os demais filhos saíam, então, à procura de guerras que lhes garantiriam um feudo ou mesmo um lugar na corte de um nobre qualquer.

A cavalaria desenvolveu um código de ética profundamente rígido, no qual eram intocáveis princípios como a honra, a lealdade e o da defesa incondicional do cristianismo. Como cavaleiros andantes, esses nobres vagavam por toda a Europa, oferecendo seus serviços a todos os reis, condes, duques e marqueses envolvidos em disputas locais. Tais disputas tornaram-se tão frequentes e sangrentas que a Igreja foi obrigada a impor a Trégua de Deus, limitando os dias da semana em que poderia haver combates.
A sociedade feudal era estamental, ou seja, não havia mobilidade social, salvo em situações muito particulares. De maneira geral, pode-se dizer que as camadas sociais resumiam-se da seguinte forma: clero, nobreza e servos.

Sustentando praticamente todos os demais segmentos sociais, estavam os servos, famílias inteiras de pequenos agricultores que pagavam uma infinidade de contribuições para que o nobre lhes permitisse continuar no feudo.
Não se deve esquecer de que a moeda raramente era utilizada na Idade Média e, portanto, essas obrigações eram pagas com gêneros alimentícios ou trabalhos no castelo do senhor feudal. Entre as obrigações servis, pode-se destacar:

·        Corveia : trabalho compulsório nas terras do senhor. Além desse, havia os dias trabalhados na terra do senhor de forma gratuita;
·        Capitação: taxa paga pelo servo que correspondia a cada membro da família;
·        Talha: pagamento de parte da produção do servo e do vilão aos nobres;
·        Banalidades: pagamento de presentes obrigatórios ao senhor e taxas diversas pelo uso das instalações do senhor;
·        Formariage: pagamento ao senhor pela permissão de casar, em alguns lugares envolvia a entrega da noiva para passar as núpcias com o senhor . 
·        Mão morta: para entrar em posse de heranças, ou ainda para permanecer no feudo em caso de morte do chefe da família;
·        Tostão de Pedro: pago à Igreja.
           
A economia feudal baseava-se na agricultura, sempre voltada para a subsistência. Na maioria dos casos, não havia produção de excedente e o comércio de longa distância praticamente desapareceu, existindo, porém, um sistema de trocas comerciais diretamente com os próprios produtos, quanto às técnicas de cultivo e produção, estas permaneceram inalteradas, com processos extremamente rudimentares.
Apenas na virada do primeiro milênio algumas modificações significativas foram introduzidas. Uma delas foi a substituição do rodízio de cultivo bienal (a cada dois anos) pelo plantio trienal (a cada três anos), com a adoção do campo de pousio, permitindo o descanso da área cultivável, além do uso do arado de metal e do estribo e a mudança dos arreios na montaria, instrumentos que favoreceram uma melhor aragem do solo, bem como uma melhor condição para o desempenho da tração pelo animal, pois com os arreios ajustados no dorso, a divisão de peso era mais eficiente, favorecendo uma melhor utilização do animal durante o trabalho.
A maioria dos feudos europeus era semelhante no que se refere aos aspectos físicos. Havia um castelo, residência do nobre e seus familiares – geralmente, a única casa de pedra de grandes proporções em todo o feudo. Com o aumento da ameaça de invasões, o século XI produziu os primeiros castelos medievais fortificados, construídos integralmente de pedra.
Próxima ao castelo, estava a igreja, estabelecendo a presença do poder papal no feudo. Os padres eram filhos de servos que foram entregues à Igreja para seguir a vida religiosa, comumente, tinham uma precária formação religiosa e intelectual.
Um pouco mais adiante, estava a aldeia, onde havia as cabanas das famílias de servos, bem como o forno e o moinho, pertencentes ao senhor, mas que poderiam ser utilizados desde que uma taxa especial fosse paga (banalidade).

Abadia de San Miniato al Monte, datada do século XI,  nas montanhas de Florença, Itália.
Crédito: Elias Feitosa


Não muito distante estava a área cultivável, chamada de domínios. Os servos deveriam trabalhar no manso senhorial como pagamento da corveia e, ainda, deveriam trabalhar no manso servil e entregar parte da produção, respeitando a taxa da talha. O manso servil era fracionado em lotes menores, chamados tenências, cada uma cuidada por uma família.Como os nobres poderiam possuir vários feudos, a administração só era possível com a presença local de um ministerial, vilão funcionário do senhor feudal e responsável por tudo, até a passagem deste. Ao contrário do que podemos imaginar, tal função não atraía o interesse dos moradores do feudo.

A Igreja Cristã sempre foi muito poderosa durante a predominância do feudalismo na Europa. O cristianismo era professado por todos os feudos. Mas é importante frisar que a reprodução desta religião misturava-se a uma infinidade de antigos costumes bárbaros.
A religião era utilizada como mecanismo de harmonização entre o poder dos nobres e a submissão forçada dos servos. Estes últimos deveriam acreditar que Deus teria estabelecido a função de cada um nessa vida e que não haveria mais diferenças sociais quando chegassem ao Paraíso. Por outro lado, os nobres acolhiam os servos em seus domínios partindo da ideia de que realizavam um ato divino: “uns rezam, outros lutam e os demais trabalham”.

A "Fortaleza de Deus": a igreja românica
Igreja da Sé Patriarcal de Lisboa - Séc. XII - Crédito: Elias Feitosa


A Igreja era a detinha o monopólio do saber, tornando-se a guardiã do conhecimento no intuito de preservar seus interesses e garantir sua posição como incontestável. Dessa forma, incentivou a produção cultural que favorecesse seus objetivos, principalmente a reafirmação de seus dogmas e a supremacia do papado.
Um dos principais centros de cultura durante a Alta Idade Média foram os mosteiros e abadias, como os mosteiros de Cluny e Císter, ambos localizados na França, os quais influenciaram  muitos outros. Nestes  locais realizavam-se estudos sobre a Bíblia, copia de textos em pergaminhos e livros como também sua decoração com iluminuras. Outro importante trabalho dos monges eram as traduções de textos dos pensadores da Antiguidade, como Aristóteles, Platão, Sócrates, entre outros.
A produção intelectual foi marcada inicialmente pela influência de Santo Agostinho (395-430), defensor da predestinação e das idéias de Platão, tendo originado o neoplatonismo (a fusão de valores cristãos com a doutrina platônica).

A arquitetura entre os séculos IX e XII , denominada posteriormente ,de românica representou o retrato daquele período, ou seja, de uma Europa rural, fechada e buscando proteção, pois as abadias, igrejas e mosteiros eram construídos como a "Fortaleza de Deus" , isto é, paredes espessas, janelas pequenas, ambiente escuro, seguindo os padrões de construção das antigas basílicas romanas, com a presença de arcos e colunas de inspiração greco-romana.

quarta-feira, 8 de junho de 2016

Bizâncio e o Islã - o Oriente como protagonista

BIZÂNCIO

Com a decadência do Império Romano do Ocidente, Constantinopla permaneceu como último reduto da cultura romana. Construída sobre a colônia grega chamada de Bizâncio, localizada em uma posição estratégica, entre a Ásia e a Europa, próxima aos estreitos de Bósforo e Dardanelos, essa cidade dominava as rotas marítimas entre o Mar Egeu e o Mar Negro, bem como as rotas terrestres daquela região. Foi esse conjunto de fatores que incentivou o imperador romano Constantino a reforma-la em 330, rebatizando-a e depois se tornou a capital do Império Oriental: “a Roma do Oriente”.
A proximidade com a Grécia fez que Constantinopla recebesse forte influência da cultura helenística, tornando o grego sua segunda língua. Ao longo dos séculos V e VI, a cidade foi um movimentado entreposto comercial de lã, linho, seda, objetos de cobre, ouro e prata vindos da África, Pérsia, China e Índia, conferindo a Constantinopla o cognome de “Porta do Oriente” ou "Porta Dourada".
As principais atividades econômicas eram: comércio, devido à localização geográfica, ponto de convergência de várias rotas de comércio e agricultura, praticada com o trabalho escravo, mas também com a produção de pequenos proprietários livres. Apesar de existir a possibilidade de tais atividades serem desenvolvidas por particulares, toda a economia era fortemente controlada pelo Estado, dando a esse setor uma característica marcadamente intervencionista.

Justiniano, coroado ao centro, acompanhado do bispo Maximianus.
Mosaico do séc. VI, Basílica de San Vitale, Ravena Itália.
Fonte: Wikipédia


Sob o governo de Justiniano (527-565), o Império Bizantino viveu a sua fase mais grandiosa. Ele estabeleceu a paz com o Império Persa e procurou reconstruir o antigo Império Romano do Ocidente, retomando as terras que estavam nas mãos dos bárbaros germânicos.
No plano interno, Justiniano mandou construir hospitais, novos muros para aumentar a segurança da cidade, e numerosas igrejas, dentre as quais se destaca Hagia Sophia, que significa Divina Sabedoria em grego, uma das  marcas da arquitetura e da arte bizantina.

Outras questões, estas de caráter religioso, movimentaram a população bizantina, que se envolvia em profundos debates entre os membros do clero oriental. As mais famosas foram o monofosismo (crença apenas na natureza divina de Cristo, negando sua natureza humana) que foi combatida e definitivamente negada com o concílio de Calcedônia em 451, quando foi estabelecido que Jesus é detentor das duas naturezas (divina e humana) e a questão iconoclasta, que abertamente defendia a destruição de imagens, provocando vários conflitos que destruíram templos e também provocaram muitas mortes e somente no II Concílio de Nicéia em 787 a resolução definitiva foi tomada: as imagens seriam utilizadas em caráter pedagógico e doutrinal, assumindo a dimensão de “Bíblia dos Pobres”, pois o importante é a mensagem que trazem e não o objeto religioso em si, mas isso não evitou que muitos fiéis se comportassem como idólatras ou preservassem superstições que vinham das tradições pagãs.

Também por ordem de Justiniano, os juristas bizantinos compilaram toda a legislação romana, bem como toda a jurisprudência dos seus tribunais em uma obra que ficou conhecida como Corpus Juris Civilis (Corpo do Direito Civil) ou Código Justiniano.
Com o crescimento do cristianismo, as igrejas das grandes cidades passaram a organizar-se em torno de um padre denominado Bispo. Com o passar do tempo, estes bispos começaram a estender seu poder muito além dos limites de suas cidades, rivalizando-se. Por volta do século V, os bispos de Jerusalém, Alexandria, Antioquia, Constantinopla e Roma firmaram-se como os mais poderosos entre os cristãos.
Outro grande feito de Justiniano foi a tentativa de reconquistar o Império do Ocidente, recuperando o litoral do norte da África, a península Itálica e a porção sul da península Ibérica. Justiniano também conseguiu conter os ataques na porção oriental do império, principalmente, dos persas sassânidas e dos búlgaros nos Balcãs.

A sustentação deste império, no entanto, foi mantida através de um grande exército e de uma extensa burocracia, sendo ambos sustentados pelos inúmeros impostos pagos pela população.
Por volta do século VII, com o advento do Império Islâmico, as cidades de Jerusalém, Alexandria e Antioquia foram dominadas pelos muçulmanos. O mundo cristão viu-se ameaçado e, como campos sólidos dessa religião, restaram tão somente os bispos de Constantinopla e Roma. Entretanto, a figura do papa incomodava os imperadores bizantinos, que se sentiam coagidos pelo líder cristão. Crescia, então, a força do cesaropapismo, ou seja, a submissão da Igreja ao Estado.

As divergências teológicas e doutrinais, a influência da cultura grega e a pressão exercida pelo poder imperial bizantino prolongaram os conflitos entre Roma e Constantinopla, os quais continuaram até 1054, quando ocorreu o Cisma do Oriente, que acabou dividindo o cristianismo da seguinte forma:

  • Igreja Católica Apostólica Romana - sob a hegemonia do Bispo de Roma, que assumiu os títulos de Papa e Sumo Pontífice, dominando a Europa Ocidental.
  • Igreja Católica Apostólica Ortodoxa  - sob a hegemonia do Bispo de Constantinopla, que assumiu o título de Patriarca , porém era claramente sem autonomia e submisso ao imperador.


O Auge sob Justiniano - Fonte: Wikipédia


Os muros da cidade garantiram a paz e a prosperidade durante um longo período. Mas os sucessores de Justiniano sequer tentaram assemelhar-se ao grande imperador, permitindo avanços de povos estrangeiros, fazendo com que no século XII, o Império tivesse menos da metade do seu período de expansão no séc. VI. Os muçulmanos, árabes de um lado e turcos de outro,  conquistaram grande parte dos territórios pertencentes ao Império Romano do Oriente. As Cruzadas conclamadas por Roma deveriam "ajudar" os irmãos cristãos do Oriente, não promoveram a recuperação de espaço e poder esperados, aliás, foram até contrárias, como o caso da IV Cruzada, que patrocinada por Veneza, invadiu e saqueou Constantinopla, impondo um período de dominação latina (governo favorável aos interesses venezianos) no Império Oriental (1204-1261). 

A longa agonia - Fonte: Wikipédia


Apesar da retomada do Império por Miguel VII Paleólogo, descendente da dinastia destronada pelos Cruzados, o vigor e força não voltaram a Constantinopla, que lentamente se enfraqueceu até sua queda definitiva em 1453, quando a "Roma do Oriente" foi invadida pelos turcos otomanos, liderados pelo sultão Mehmet II. Sob domínio muçulmano, a cidade de Constantinopla passou a chamar-se Istambul, capital do Império Turco.

A queda de Constantinopla - Fausto Zanaro, Istambul - Fonte: Wikipédia



Nesse momento de tensão, vários estudiosos da cultura clássica (greco-romana) abandonaram a capital bizantina. Muitos deles dirigiram-se para o Ocidente, na busca de refúgio. Um dos locais escolhidos foi a Península Itálica, onde a cultura da Antiguidade seria relida séculos depois, na forma de movimento renascentista.
            
O ISLÃ

Maomé em ascensão glorificado pelos anjos. Miniatura turca, c. 1539-43, British Library, Londres, Reino Unido da Grã-Bretanha. Fonte: Wikipédia.


O Islamismo surgiu primeiramente entre os árabes que habitavam a atual Arábia Saudita. Antes do advento de Maomé, esse povo vivia em tribos nômades, governadas por um patriarca, vagando de oásis em oásis conduzindo rebanhos de ovelhas e cabras. Eram politeístas e idólatras, e cada tribo adorava vários deuses e objetos sagrados.
A fome e as guerras por disputas políticas ou por motivos religiosos eram constantes. A expectativa de vida era bastante baixa e a poligamia surgia como forma de compensar os homens mortos nas guerras.
Em meio a essa realidade, nasceu Maomé, na cidade de Meca, no ano 570. Este homem trabalhou como caravaneiro, e tal atividade lhe permitiu conhecer a cidade de Jerusalém, onde entrou em contato com cristãos e judeus.
Quando tinha cerca de 40 anos, Maomé afirmou ter tido uma visão, na qual o anjo Gabriel, mensageiro de Allah, lhe transmitira as bases da religião islâmica. Os homens deveriam abandonar os cultos idólatras e reconhecer que Allah era o único e verdadeiro deus.
Tal proposta não foi bem aceita inicialmente. Em 622, Maomé foi perseguido pelos comerciantes da cidade de Meca, que temiam perder os lucros obtidos com as vendas de artigos ligados às religiões pagãs. O pregador foi obrigado a fugir para a cidade de Yatrib, que, posteriormente, recebeu o nome de Medina (Madina al Nabi) - “cidade do profeta”.
A fuga de Maomé de Meca para Medina passou posteriormente a ser o marco inicial do calendário muçulmano, recebendo o nome de Hégira. Em Medina, Maomé conseguiu reunir grande número de seguidores que poderiam formar uma espécie de exército com profundas motivações religiosas. As tropas comandadas pelo novo profeta invadiram a cidade de Meca, destruindo todos os símbolos pagãos, poupando apenas a Caaba (uma pedra negra que, segundo a lenda, fora enviada por Deus aos homens). Todos os que se opuseram à nova religião foram mortos.

Página do Alcorão, c. séc. XII, Al-Andaluz - Fonte: Wikipédia


Maomé reuniu os princípios de sua religião em um livro sagrado, denominado Alcorão. Nele, estão os Cinco Pilares do Islã:

  • Crença em Allah
  • Oração: cinco vezes ao dia, com a face voltada para Meca;
  • Purificação: jejuar durante o mês do Ramadã;
  • Caridade: ajudar aos pobres;
  • Peregrinação: visitar a cidade de Meca pelo menos uma vez na vida.


A expansão árabe: época de Maomé 622-32(em marrom); seguidores de Maomé 632-661(em laranja) e 661-750 (em amarelo). Fonte: Wikipédia


Existem outros costumes que também são observados pelos seguidores do Islã, como por exemplo, abster-se de álcool e de carne de porco.
O Islã tem entre seus conceitos importantes a Jihad, palavra árabe que significa “esforço, empenho” em relação à palavra de Allah, podendo no entanto, se converter numa ação militar de caráter defensivo ou ofensivo, dependendo do contexto e nesse caso, ganha a dimensão de “Guerra Santa”.
Aqueles que morressem na Guerra Santa teriam todos os seus pecados perdoados e direito ao Paraíso, onde haveria fartura de comida, bebida e mulheres. O fanatismo resultante dessa pregação levou os muçulmanos a conquistar um imenso império, tomando todo o Império Persa, bem como o Egito, a Palestina e a Síria, que estavam sob o domínio Bizantino.
De 661 a 750, os muçulmanos foram governados pela Dinastia Omíada, que transferiu sua capital para Damasco, na Síria. Essa dinastia conquistou a Índia, o norte da África e a Península Ibérica. Tentou tomar também a Gália, em poder do Reino dos Francos, mas foram derrotados na Batalha de Poitiers (732), sendo obrigados a recuar.
A Dinastia Abássida (750 - 1258) não conseguiu manter a unidade dos islâmicos e assistiu à fragmentação do Império em numerosos Califados independentes. Também nessa época, os abássidas sofreram novas derrotas, como as invasões mongóis e turcas a leste e a vitória dos cristãos na Guerra da Reconquista da Península Ibérica.

Assim como qualquer outra religião, o islamismo não suportou o próprio crescimento, o que provocou a divisão entre os seguidores. Existem dois grupos que dividem o islamismo mundialmente:

·       Sunitas: surgiram após a morte de Maomé. Além de seguirem os ensinamentos de Alcorão, aceitam os ensinamentos contidos no Suna (significa costume), espécie de biografia de Maomé, que mescla eventos da vida do Profeta aos costumes do povo árabe. Defendem a separação entre o poder laico e o religioso. Para eles, os chefes de Estado não precisam ser sacerdotes, considerados infalíveis, mas reunir sólidas virtudes. Representam a grande maioria dos muçulmanos até hoje.
·       Xiitas: acreditam que os chefes de Estado deveriam ser da linhagem de Maomé, isto é, descendentes de Fátima (filha de Maomé) e de Ali (genro). Portanto, a palavra xiita significa shi’ at’ Ali: partidários de Ali. O governante deve ser também um guia espiritual (imã). Para os xiitas, o Corão é a única fonte de ensinamento da verdade.

Nos povos islâmicos, a grande atividade econômica era o comércio, já bastante característico das populações de origem árabe. Porém, também as manufaturas e a agricultura tiveram extraordinário desenvolvimento .
A influência árabe foi marcante dentro da Europa Ocidental em virtude da grande sofisticação desta civilização, responsável pela introdução do cultivo da cana-de-açúcar, laranja, algodão e arroz; pelas técnicas de fabricação do vidro e do aço ( técnica vinda de Damasco e instalada na cidade de Toledo).
Do ponto de vista intelectual, os árabes tinham profundos conhecimentos em Medicina, Física, Astronomia, Matemática (desenvolvimento da aritmética e utilização dos algarismos hindus, depois denominados arábicos) e Química. Ademais, os árabes já possuíam várias universidades, destacando-se nas cidades de Bagdá, Cairo, Isfahan e Córdoba e podiam estudar Medicina, Teologia, Direito, Matemática e Filosofia.

"Fonte dos Doze Leões, séc. XIV,  pátio do Palácio Alhambra, Granada, Espanha.
Crédito: Elias Feitosa

Na cultura, os árabes desenvolveram grandes conhecimentos em matemática, astronomia, medicina (destacando-se o persa Ibn Sina, conhecido no Ocidente como Avicena) e filosofia, com o médico e filósofo Ibn Roshd (Averróes), tradutor e comentarista de Aristóteles. Na literatura, destacam-se obras conhecidíssimas até hoje, como As Mil e Uma Noites , tradição oral, posteriormente registrada em vários manuscritos e Rubayat, versos do poeta persa Omar Khayan.

A escultura e a pintura figurativas receberam pouca atenção, uma vez que eram interpretadas como produção de caráter idólatra. Em relação a escultura e arquitetura, os árabes construíram mesquitas grandiosas(como a  de Córdova), ricamente decoradas, utilizando a técnica dos arabescos(cúpulas e rendilhados esculpidos em pedra) e faianças, como também de palácios, destacando-se o Palácio Alhambra em Granada. Percebemos que a tradição figurativa não teve um grande desenvolvimento na cultura islâmica em virtude da condenação às imagens existentes no Islã, sendo predominante a utilização de motivos geométricos ou abstratos, associados à caligrafia árabe, denominados como arabescos.