As Ricas Horas do Duque de Berry

As Ricas Horas do Duque de Berry
As Ricas Horas do Duque de Berry. Produção dos irmãos Limbourg - séc. XV. Mês de dezembro

terça-feira, 25 de outubro de 2011

África: dos ecos da Guerra Fria à "Primavera árabe"


De acordo com as mais recentes pesquisas arqueológicas, a origem do Homem está associada ao continente africano, já que os vestígios mais antigos, datados de 4 -3 milhões de anos foram encontrados no Vale de Afar (Etiópia), dando a toda Humanidade o status de filhos da "Mama África".

Da África, numa escala de milhões de anos ocupamos o planeta e hoje temos uma população estimada oficialmente em mais de 7 bilhões de pessoas, infelizmente um terço deste número vive abaixo da chamada "linha da pobreza" com carência absoluta de inúmeros serviços (educação, saúde, transporte e habitação) além de ser vítima de epidemias e ciclos de fome e uma parcela significativa destas pessoas pessoas está na África. No entanto, cabe a pergunta: o que entendemos por África? Lugar "exótico", por sua fauna, flora e habitantes? Lugar de fome e epidemias? Lugar de guerras infinitas?

Seria interessante e importante não pensarmos numa África, mas sim em "Áfricas" pela multiplicidade étnica, linguística e cultural ali presente e ainda ignorada por muitos.


Desde janeiro, temos acompanhado um turbilhão político que sacudiu o mundo árabe, mas seu epicentro foi a Tunísia, ex-colônia francesa, de população árabe, mas encravada no Magreb (significa poente em árabe) ao norte do continente africano. Foi na Tunísia , pela opressão dos corruptos meios de violência do ditador Ben Ali, que um vendedor indignado com as constantes humilhações que vinha passando, no limite de suas forças, se imolou ao atear fogo em seu corpo como protesto. 

Este ato extremo, dotado de profunda coragem, mas ao mesmo tempo desespero, fez com que a convulsão tomasse conta da sociedade tunisiana e explodisse o movimento que findou 30 anos de uma truculenta ditadura encabeçada por Ben Ali, que na sua concepção se via como inatingível. Dali, a "tempestade social" foi varrendo o norte da África, atingindo o também longevo ditador Hosni Mubarak que governava o Egito desde 1981, quando seu antecessor, Anwar Sadat fora assassinado e a Líbia de Muamar Kadhafi, outro antigo ditador, no poder desde 1969 e que fora deposto por um movimento local, auxiliado pela OTAN e finalmente, depois de meses de perseguição e cerco, foi encontrado e assassinado pelos rebeldes em 20 de outubro de 2011.

A onda de protestos percorreu portanto a África saariana e atingiu o Oriente Médio com protestos em diferentes países, os quais acenaram com modestas reformas ou muita repressão, como foi o caso da Síria, já que o regime de Bashar al Assad, despoticamente no poder há 11 anos, não abre mão do controle político herdado de seu pai Hafez al Assad, que também se impusera no poder como déspota e governou de 1971 a 2000, sendo assim, o saldo de manifestantes mortos está em cerca de 3000, segundo ONG's que acompanham as violações dos direitos humanos.

O complexo contexto que envolve a ascensão e queda destes ditadores tem suas teias diretamente relacionadas com o fim do século XIX, desde a expansão europeia sobre a África num movimento conhecido por neocolonialismo.


A relação entre a Europa e a África é antiquíssima, mas foi Revolução Industrial, que se estendeu pela Europa entre os séculos XVIII e XIX,  provocou um descompasso na produção daquele continente, sobretudo no tocante à necessidade de se obter matérias-primas e novos mercados consumidores. A Inglaterra, primeira nação a realizar a Revolução Industrial, foi também a primeira a sentir esses efeitos, partindo, então, atrás de novos mercados para seus produtos.

            A busca de matérias-primas estratégicas, como ferro, cobre, carvão, bem como de ouro, prata e demais pedras preciosas, fez que regiões como África e Ásia, até certo ponto ignoradas, apesar da expansão marítima dos séculos XV e XVI, se tornassem presas valiosas para as potências europeias. Havia outros fatores que empurravam os europeus para uma prática colonialista: a possibilidade de transferir colonos para as regiões conquistadas, dando uma solução para o problema de superpopulação na Europa.

            A propaganda em favor do imperialismo baseava-se em teorias que, na época, eram tidas como científicas. Tais teorias, desenvolvidas por acadêmicos como o inglês Chamberlain e o francês Conde  de Gobineau, estabeleciam uma hierarquia entre os povos, classificando os europeus como “os mais civilizados”, influenciados pela leitura deturpada e tendenciosa da nascente teoria evolucionista publicada por Charles Darwin em 1859: A Teoria Geral da evolução das espécies. Tal fenômeno ficou conhecido como “darwinismo social” e fez  com que se difundisse a concepção da superioridade da civilização europeia em relação às demais culturas do planeta. O poeta inglês Rudyard Kipling (1865-1935) sintetizou esta concepção de maneira precisa através da expressão: “o fardo do homem branco”:

Aceitai o fardo do homem branco,
Enviai os melhores de vossos filhos,
Condenai vossos filhos ao exílio,
Para que sejam os servidores de seus cativos.

 Portanto, cabia à sociedade europeia, formada por seres humanos “superiores” e “modelo” para o mundo, dominar outros povos e, assim, “contribuir” para o “progresso” da humanidade.
            Para conquistar tão vastos territórios, os europeus usaram a seu favor as rivalidades locais entre os diversos povos, que impediam estes de se unirem e lutarem contra o invasor. Tais rivalidades são, até hoje, um dos principais obstáculos para a reorganização daquelas áreas, mesmo após a independência obtida no século XX.

PARTILHA DA ÁFRICA
           
Em 1885, Otto von Bismarck, primeiro ministro da Alemanha recém-unificada, pretendendo melhorar a posição de seu país, reuniu representantes de todos os interessados na partilha da África em um importante evento que ficou conhecido como Conferência de Berlim. A reunião foi um fracasso para os alemães, pois eles não conseguiram ampliar seus territórios e, como agravante, os países presentes acirraram ainda mais suas posições, prenunciando uma série de guerras por territórios na África e na Ásia. Essa disputa por colônias e as rivalidades resultantes foram fatores que contribuíram para a eclosão da Primeira Guerra Mundial.

Mapa da divisão africana pelas potências ocidentais em 1914



A África foi totalmente repartida entre as potências europeias que se envolveram em conflitos pelas posse dos melhores territórios. Na Ásia, foram estabelecidos os protetorados que se submetiam aos países europeus. Por vezes, culturas milenares passaram à "proteção" das potências europeias.

            A Inglaterra construiu um império colonial várias vezes maior que o seu território europeu. Os domínios do reino da Rainha Vitória incluíam (denominações atuais) Egito, Nigéria, Sudão, Uganda, Quênia, Zâmbia, Zimbábue, Malauí, Botsuana e África do Sul.    Na Ásia e na Oceania, os britânicos dominaram a Índia, a Austrália, a Nova Guiné e uma infinidade de pequenas ilhas. A Austrália, que inicialmente era uma colônia penal, transformou-se, pois a presença europeia tornou-se majoritária, isso gerou sérias dificuldades para os habitantes “naturais” do território devido aos choques e conseqüentes massacres da população aborígenes. Essa expansão inglesa proporcionou uma era de prosperidade e estabilidade política ao país. A chamada Era Vitoriana, o longo reinado da rainha Vitória entre 1837 e 1901, viu a Inglaterra conquistar para sempre o respeito dos demais europeus como exemplo de organização, desenvolvimento econômico e modernização da democracia no âmbito europeu, mas para as colônias opressão e arbitrariedade.

O Egito se tornou independente em 1953, sob a liderança de Gamal Abdul Nasser, coronel do Exército que assumiu o controle do Egito, sob um governo autoritário de cunho nacionalista, mantendo-se no poder até sua morte em 1970, quando foi sucedido por Anwar al Sadat até o assassinato deste em 1981, sendo sucedido pelo vice-presidente Hosni Mubarak, o qual sobrevivera ao mesmo atentado que foi fatal para Sadat.

    
            A França dominou (atuais) Mauritânia, Mali, Niger, Argélia, Congo, Chade e Gabão, formando a África Ocidental Francesa. Já na segunda metade do século XIX, o sudeste asiático foi reduzido à condição de colônia francesa, englobando Vietnã e Camboja. Na África, principalmente na Argélia, a conquista fez-se com o auxílio da legião estrangeira, corpo expedicionário criado pelo governo francês composto por criminosos, desertores, imigrados políticos e aventureiros.
            França e Inglaterra disputavam o título de maior conquistador de colônias. O projeto colonial inglês, batizado de “Do Cairo ao Cabo”, pretendia unificar em uma única colônia os territórios compreendidos entre o Egito e a África do Sul. A construção do Canal de Suez impulsionou a Inglaterra no Oriente Médio, apesar da presença francesa na região.
A Tunísia foi protetorado francês de 1881 a 1956, quando se tornou independente sob o governo do presidente eleito Habib Bourghiba, o qual se declarou vitalício em 1959, sendo só substituído em 1987, quando foi declarado oficialmente "incapaz para governar" em virtude de gravíssimos problemas de saúde e o poder passara para seu primeiro-ministro Zine Abidine Ben Ali, deposto neste ano de 2011 por convulsivos movimentos populares.

            A Itália e a Alemanha não conseguiram construir grandes impérios coloniais devido à sua unificação tardia, muito embora os italianos tenham conquistado a Líbia e a Somália e tenham tentado fixar-se na Abissínia (Etiópia), enquanto a Alemanha apossou-se dos Camarões, Togo e da Namíbia, além da África oriental alemã, depois de 1918, passou ao controle inglês, dando origem à Tanzânia.
No caso do território da Líbia, uma região ocupada por mais de 100 tribos diferentes, a ocupação italiana se manteve até 1951, quando o país se declarou independente, tornando-se uma monarquia encabeçada pelo rei Idris, título dado ao líder da etnia dos sanusis, o emir Sayyid Idris al-Sanusi. 
O reinado de Idris I (1951-1969) foi deposto por um golpe de Estado liderado pelo Exército, tendo por inspiração o processo que ocorrera no Egito, sendo encabeçado pelo jovem coronel de 27 anos, Muammar al-Khadafi e assim, se implantava a ditadura que se findou de modo sangrento em 20 de outubro de 2011, depois de também derramar tanto sangue dos líbios por mais de 40 anos.

O final da Segunda Guerra Mundial em 1945 refletiu também nos vastos impérios coloniais que alguns países possuíam, como era o caso da Inglaterra, França, Bélgica e Portugal. Com a nova conjuntura internacional (o mundo bipolar), a manutenção de colônias tornava-se muito difícil, principalmente depois da Declaração Universal dos Direitos do Homem em 1948 pela ONU, que condenava a dominação e a exploração estrangeiras.

Outra conseqüência da guerra foi o desenvolvimento de manifestações nacionalistas em favor da independência, pois muitas colônias haviam participado diretamente da guerra e achavam mais do que justo receber de suas metrópoles a independência. No entanto, as elites coloniais preferiram realizar um longo processo de transição, ainda mantendo o controle sobre suas possessões.
O enfraquecimento das potências européias e a ascensão dos Estados Unidos e da URSS como superpotências transformou os movimentos de emancipação em uma grande disputa de áreas de influência por ambos os lados.

O processo de descolonização ocorreu em geral sob duas formas: a negociação pacífica da independência ou então a guerra com as metrópoles. No primeiro caso, as elites coloniais passaram por intensas negociações com as metrópoles, realizando portanto a transmissão do poder sobre os territórios para as elites locais. No segundo caso, a guerra de independência foi a movimentação de grupos nacionalistas que pretendiam obter a autonomia à força, mas a união durante a guerra não representava um mesmo conjunto de interesses.

            

Nenhum comentário:

Postar um comentário