As Ricas Horas do Duque de Berry

As Ricas Horas do Duque de Berry
As Ricas Horas do Duque de Berry. Produção dos irmãos Limbourg - séc. XV. Mês de setembro

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Maquiando um monstro: boa aparência para uma ditadura!

Uma das principais características da democracia é a existência da liberdade de expressão, que acompanhada de outros direitos, pode vir a construir um governo que respeite e represente seus cidadãos, dando-lhes o devido espaço para criticar, elogiar, protestar, enfim, atuar de forma intensa na construção do que entendemos por coletividade.


Dentro deste processo, o papel das Ciências Humanas é imprescindível e dentre elas, nossa querida História tem o papel capital de ajudar a construir aquilo que entendemos por cidadania, especialmente, quando realizamos a análise crítica do passado, tudo embasado por fontes que, uma vez consultadas, podem colaborar em muito para a compreensão da História e da atuação da sociedade nesta última.


Infelizmente, vez por outra, alguns "bem intencionados" buscam fazer pequenas mudanças impertinentes sobre temas de grande importância e o exemplo mais recente apareceu no Chile, quando o Ministério da Educação chileno estava propondo um "debate" para os alunos do ensino primário: ao invés de denominar o governo cruento de Augusto Pinochet (1973-1990) como ditadura, sugeriu que fosse alterado para "Regime militar".


Nas palavras de Harald Beyer, Ministro da Educação: A mudança seria realizada em livros da educação básica, para crianças entre 6 e 12 anos. A intenção inicial era buscar um termo "mais geral". Começada a polêmica, o conselho afirmou que não percebeu a mudança de "ditadura" para "regime" e pediu a revisão para dar uma melhor "compreensão global ao processo histórico".


Depois de muita polêmica, desconhecimento histórico e desrespeito às mais de 3000 vítimas da truculência de Pinochet, felizmente o governo de Eduardo Piñera resolveu deixar a ideia de lado.


Bem, mas este problema não é um mal isolado. Em 2009, o jornal "Folha de São Paulo" escreveu em seu editorial (espaço onde o jornal enquanto instituição emite opinião sobre determinados temas) um texto crítico à manutenção de Hugo Chavez no governo da Venezuela, após mais uma eleição.


Para a nossa infelicidade, a Folha usou uma imprecisa e insustentável expressão para se referir ao período entre 1964-1985, que em qualquer manual de História (com exceção ainda hoje dos manuais das escolas militares) está denominado como "ditadura militar", mas na busca de uma refinada qualificação literária, os editores optaram pelo desastroso neologismo "ditabranda", dando a entender que as coisas não foram tão difíceis e sangrentas quanto muitos falam por aí.


Abaixo, segue o editorial na íntegra, datado de 17/02/2009: 



Limites a Chávez
Apesar da vitória eleitoral do caudilho venezuelano, oposição ativa e crise do petróleo vão dificultar perpetuação no poder
O ROLO compressor do bonapartismo chavista destruiu mais um pilar do sistema de pesos e contrapesos que caracteriza a democracia. Na Venezuela, os governantes, a começar do presidente da República, estão autorizados a concorrer a quantas reeleições seguidas desejarem.
Hugo Chávez venceu o referendo de domingo, a segunda tentativa de dinamitar os limites a sua permanência no poder. Como na consulta do final de 2007, a votação de anteontem revelou um país dividido. Desta vez, contudo, a discreta maioria (54,9%) favoreceu o projeto presidencial de aproximar-se do recorde de mando do ditador Fidel Castro.
Outra diferença em relação ao referendo de 2007 é que Chávez, agora vitorioso, não está disposto a reapresentar a consulta popular. Agiria desse modo apenas em caso de nova derrota. Tamanha margem de arbítrio para manipular as regras do jogo é típica de regimes autoritários compelidos a satisfazer o público doméstico, e o externo, com certo nível de competição eleitoral.
Mas, se as chamadas “ditabrandas” -caso do Brasil entre 1964 e 1985- partiam de uma ruptura institucional e depois preservavam ou instituíam formas controladas de disputa política e acesso à Justiça-, o novo autoritarismo latino-americano, inaugurado por Alberto Fujimori no Peru, faz o caminho inverso. O líder eleito mina as instituições e os controles democráticos por dentro, paulatinamente.
Em dez anos de poder, Hugo Chávez submeteu, pouco a pouco, o Legislativo e o Judiciário aos desígnios da Presidência. Fechou o círculo de mando ao impor-se à PDVSA, a gigante estatal do petróleo.
A inabilidade inicial da oposição, que em 2002 patrocinou um golpe de Estado fracassado contra Chávez e depois boicotou eleições, abriu caminho para a marcha autoritária; as receitas extraordinárias do petróleo a impulsionaram. Como num populismo de manual, o dinheiro fluiu copiosamente para as ações sociais do presidente, garantindo-lhe a base de sustentação.
Nada de novo, porém, foi produzido na economia da Venezuela, tampouco na sua teia de instituições políticas; Chávez apenas a fragilizou ao concentrar poder. A política e a economia naquele país continuam simplórias -e expostas às oscilações cíclicas do preço do petróleo.
O parasitismo exercido por Chávez nas finanças do petróleo e do Estado foi tão profundo que a inflação disparou na Venezuela antes mesmo da vertiginosa inversão no preço do combustível. Com a reviravolta na cotação, restam ao governo populista poucos recursos para evitar uma queda sensível e rápida no nível de consumo dos venezuelanos.
Nesse contexto, e diante de uma oposição revigorada e ativa, é provável que o conforto de Hugo Chávez diminua bastante daqui para a frente, a despeito da vitória de domingo.
Folha de S. Paulo – 17 de fevereiro de 2009
Se o jornal quis externar a sua desaprovação ao regime chavista, não há problema algum, mas ao colocar a infeliz expressão "ditabranda" deu a entender que existem exageros históricos por aí e que nosso conhecimento sobre o passado deve ser revisto.
Bem, o mais bizarro de tudo isso, o Jornal Folha de São Paulo foi censurado durante o período de 1964-85.
Para aproveitar o gancho do tema, algumas sugestões:
Fonte: www.adorocinema.com.br 
Título original: MACHUCA
Lançamento: 2004 (Chile, Espanha)
Direção: Andrés Wood
Atores: Matías Quer, Ariel Mateluna, Manuela Martelli, Aline Küppenheim.
Duração: 120 min
Gênero: Drama
Status: Arquivado
Machuca - Cartaz

Sinopse

Chile, 1973. Gonzalo Infante (Matías Quer) é um garoto que estuda no Colégio Saint Patrick, o mais conceituado de Santiago. Gonzalo é de uma família de classe alta, morando em um bairro na área nobre da cidade com seus pais e sua irmã. O padre McEnroe (Ernesto Malbran), o diretor do colégio, inspirado no governo de Salvador Allende decide implementar uma política que faça com que alunos pobres também estudem no Saint Patrick. Um deles é Pedro Machuca (Ariel Mateluna) que, assim como os demais, fica deslocado em meio aos antigos alunos da escola. Provocado, Pedro é seguro por trás e um deles manda que Gonzalo o bata, que se recusa a fazer isto e ainda o ajuda a fugir. A partir de então nasce uma amizade entre os dois garotos, apesar do abismo de classe existente entre eles.

Ilha 10 Dawson (2011) - Direção: Miguel Littin (fonte: www.filmow.com)

Sinopse


Dawson, Ilha 10, aborda o golpe militar que em 1973 derrubou o governo democrático de Salvador Allende e vitimou milhares de chilenos, dando início a uma das mais longas e sangrentas ditaduras da América Latina. O filme mostra o sofrimento de ministros do governo Allende que foram aprisionados em uma ilha gelada, de clima antártico, onde funcionou um campo de concentração projetado pelo criminoso nazista Walter Rauff, então refugiado no Chile.
A história é baseada no livro Isla 10, de autoria de Sergio Bitar - então ministro das Minas e Energias do governo Allende e, à época do lançamento do filme, ministro do governo de Michelle Bachelet. O filme utiliza cenas reais e revela os minutos finais do presidente eleito Salvador Allende, entrincheirado e resistindo solitário no Palácio La Moneda, onde foi assassinado pelos militares chilenos.




Um comentário:

  1. Partindo sobre esses fatos, referente ao Chile, dá a entender que a Ditadura lá ..e de certa forma no Brasil também ainda nao está totalmente acabada...só esta "Maquiada" de uma falsa democracia, onde algumas oligarquias (Sarney, Roberto Marinho..Etc") controlam a informação do País. Excelente Post.

    Confira:

    http://www.youtube.com/watch?v=q6rYOTeptPs&feature=g-vrec&

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