As Ricas Horas do Duque de Berry

As Ricas Horas do Duque de Berry
As Ricas Horas do Duque de Berry. Produção dos irmãos Limbourg - séc. XV. Mês de agosto

domingo, 12 de janeiro de 2014

Uma visão sobre a Africa durante a expansão imperialista: "O Coração das Trevas", de Joseph Conrad

RESENHA: " O Coração das Trevas" - 1902
Joseph Conrad (1857-1924)
Edição consultada: Editora Iluminuras, 2002. 
Tradução e apresentação de Celso M. Paciornik

                                            Joseph Conrad - créditos: www.wikipedia.org

O romance "O Coração das Trevas"  de Joseph Conrad, escrito em 1902 tem como enredo a viagem de um marinheiro inglês, Charles Marlow, o qual obtém um emprego numa companhia de exploração das colônias africanas, precisamente, na bacia do rio Congo. A narrativa, no entanto, não se atem simplesmente a viagem, mas a todo um processo de auto-análise do protagonista, bem como do seu papel dentro da empreitada que se envolve.

Tâmisa – essa é a palavra-chave que utilizada pelo autor no início de seu discurso, fornece já um dos pontos sobre os quais se sustentará o próprio desenvolvimento do livro. É interessante observar que Conrad se porta aqui, como mais um dos passageiros da escuna Nellie, que ancorada em meio ao referido rio, esperava “a virada das águas”.

O fato da narrativa se desenvolver ao longo de uma viagem que tem início em Londres (centro e berço da civilização) e seu destino é a  inóspita selva africana (periferia  e representação da barbárie) dá a noção de que Conrad cria um alterego (Marlow) e a partir dele começa a fazer uma viagem interna , buscando respostas para suas angústias, ou seja, da mesma forma , deixa-se o conhecido e busca-se o desconhecido, o eu.

Charles Marlow inicia a narrativa quando se encontra em Londres, numa viagem de passeio pelo Tâmisa , depois de ter retornado da África, relatando aos seus amigos os eventos  lá ocorridos. Neste momento, Marlow se descreve como um homem ansioso por uma ocupação, um trabalho e de certa forma uma missão. Quando conversa com uma velha tia , esta bem relacionada, compromete-se a ajudar o sobrinho na obtenção de um bom emprego, pois conhecia pessoas influentes que poderiam ajudá-lo.

Não tarda muito e logo Marlow está empregado e começa a tomar contato com o universo da exploração colonial: a entrevista com o responsável da companhia, o exame médico . Práticas que dentro de seu percurso indicam a Marlow a sua posição, ou seja, elemento participante de um  sistema hierarquizado, no qual é subalterno e ao mesmo tempo peça chave, porque realiza atividades nas " fronteiras da civilização" - o coração das trevas: a África. Um dado marcante deste processo é como o médico o examina (medindo-lhe o crânio) e depois revela seu interesse em saber as mudanças sofridas por aqueles que rumam para as terras desconhecidas.

Neste complexo caminho, Marlow vai presenciando as transformações do ambiente e das pessoas que nele convivem, quanto mais se interioriza, mais vai percebendo o distanciamento existente entre o que se tem por civilização e o que é perpetrado em nome dela.

Aparentemente o ambiente é de tranquilidade, esbarrando por isso, numa certa monotonia. A presença do rio, no entanto, desperta no narrador-personagem uma profunda reflexão, a se confundir com a do único passageiro referido nominalmente – Marlow, uma espécie de homem do mar. Referindo-se aos homens que dali teriam partido “à caça do ouro ou em busca da fama, levando espada e muitas vezes a tocha, mensageiros do poder da terra, portadores de um centelha do fogo sagrado” (p.13), Conrad parece fazer despertar em Marlow, reminiscências de um passado prestes a explodir.

Conrad põe como objetivo a crescente curiosidade de  Marlow encontrar o sr. Kurtz, homem estranho , complexo e de grande notoriedade na companhia, pois era responsável por um importante posto de extração de marfim, localizado na parte mais remota do interior do  continente. No entanto, gradativamente vai percebendo no  "novo mundo" que o cerca , as noções de civilidade e barbárie são controversas e relativas: Marlow vê com quanta crueldade e desdém os negros são tratados, submetidos a todas as formas de violência pelos brancos  e estes se dizem portadores da nobre missão civilizatória. Um ponto relevante deste paradoxo é o contato com o contador de um entreposto da Companhia, o qual representava o poder branco: impecavelmente vestido, com ar tranquilo e soberbo ; no mesmo lugar via-se os negros duramente explorados e tratados como bestas de carga, desprovidas de qualquer  sentimento humano.

As imagens gritantes e o choque causado pela noção de realidade que imposta aos homens que chegam a selva vão instigando Marlow a cada vez mais a tomar contato com o Sr. Kurtz, um homem que estava embrenhado neste mundo insano. A natureza parece ali transformar os homens e ao invés de domarem o desconhecido, são alijados das suas premissas de ordem, cultura e sensatez. A selva tem sua lei. 

Outro dado pertinente além da crueldade, é a apropriação das terras, das pessoas e das riquezas daquela região, pois foi um processo organizado racionalmente dentro de gabinetes e ministérios, visando a extração máxima de riquezas e para tanto utilizou-se todas as formas possíveis de violência , as quais eram legitimadas e revestidas pelo " verniz" civilizatório: a visão pejorativa do outro ( o negro) e a consequente escravização, o aculturamento e a implantação de um modelo estrangeiro de organização que deixou marcar profundas no continente.

O contato com o sr. Kurtz causa um choque em Marlow, pois aquela figura enigmática torna-se um ser descontrolado, um homem que se distanciou dos padrões estabelecidos como normais, tornando-se perigoso. Toda esta insânia choca Marlow, pois a crueldade dos modos com que Kurtz trata os negros é tão aviltante ou até pior do que os próprios colonizadores e no entanto, os negros se referem a Kurtz como um "deus", uma entidade superior.

Além dos nativos, há um marinheiro russo que segue Kurtz e portanto está sob sua influência, tendo-o como uma espécie de mestre. O fato mais curioso é o desfecho do romance, no qual Kurtz é retirado da selva por Marlow e conforme vai se distanciando da selva , sua vida vai se esvaindo até morrer no barco dizendo: " O horror! O horror". Conrad dá a entender que Kurtz estava intimamente ligado com a selva e sua saída do coração das trevas era como se estivessem arrancando seu coração. O homem que chegara para dominar a natureza foi dominado por ela de tal maneira, que ao serem separados, perde sua fonte de vida.

A vida de Kurtz, no entanto, ainda tinha ligações com a "civilização", pois deixara um antigo amor, sua ex-noiva e pediu a Marlow que entregasse a ela um pacote, o qual não deveria cair nas mãos de ninguém da companhia Ao encontrá-la esta questiona quais teriam sido suas últimas palavras e Marlow percebendo o abalo emocional da moça, diz que tinha sido o nome dela, reduzindo sua dor.

Joseph Conrad propõe uma visão crítica e aguçada do processo de colonização da África, procurando ressaltar a destruição causada pelo homem contra a natureza e contra si mesmo, pois o número de vidas consumidas neste processo, seja de colonizadores ou de colonizados foi elevado. A vaidade e ganância foram os fatores propulsores de uma corrida desenfreada para a dominação daquele mundo que até então era selvagem, mas Conrad procura mostrar que a selvageria esta presente no interior humano e pode facilmente transformar a vivacidade e alegria num coração das trevas.          

Conrad por Coppola

A obra de Joseph Conrad pode ser destacada por sua relevância quanto à qualidade e também à atualidade, pois seu livro Coração das Trevas escrito em 1902 retrata a ganância e o egoísmo presente dentro do processo de exploração das colônias africanas, tendo porém uma amplitude maior, ou seja, sua visão não se restringe apenas a este período, mas serve para entendermos todo o processo de roedura do continente e também para vislumbrarmos  o funcionamento do capitalismo e da crueldade de seu sistema.

A obra de Conrad inspirou em 1979, Francis Ford Coppola a produzir um filme usando como roteiro o livro Coração das Trevas, trata-se de Apocalipse Now, agraciado com a Palma de Ouro no Festival de Cannes em 1979.

Coppola procura utilizar a visão aguçada de Conrad e através de sua atualidade desloca o eixo para a Guerra do Vietnã, fato este que abalou a sociedade estadunidense, visto seu fracasso e dispêndio de forças humanas numa guerra inglória e tão gananciosa quanto o ímpeto colonialista do século XIX. Em 1968, no auge da guerra, os EUA já tinham enviado cerca de 530.000 soldados e tiveram, ao longo do conflito, até sua retirada formal da guerra, entre 1973 e 1975, cerca de 60.000 mortos e 303.000 feridos.

A noções de realidade e loucura,  justiça e arbitrariedade são trabalhadas nas figuras do personagem principal de Conrad,  Marlow e de seu correspondente no filme, Tenente Willard, interpretado por Martin Sheen. Toda a insânia de ambos os processos se encaixam perfeitamente: o branco civilizador levando o progresso para as regiões bárbaras e no entanto, quanto mais  se embrenham na selva, mais iam se desumanizando, perdendo seus referenciais. A natureza e seus habitantes tinham um papel dúbio, pois era ao mesmo tempo inimigos e fonte de renda para os "libertadores"/exploradores.

Em Apocalipse Now a figura do Coronel Kurtz tem a mesma apresentação que na obra de Konrad, no entanto a dramatização e a atuação de Marlon Brando(1924-2004), transformam-lhe num monstro insano ou então como uma antítese ao sistema que até então encontrava-se envolvido. Quando sai do sistema ou seja, quebra a hierarquia, Kurtz torna-se uma ameaça e deve ser eliminado.

A crítica de Coppola ao usar a obra de Conrad era, ainda que passados poucos anos do desonroso fim do conflito para os EUA , alertar a sociedade que o conjunto de valores como "progresso, civilização e cultura" foram deturpados e alterados de acordo com interesses financeiros pelas “potências da vez”: os europeus no século XIX e depois os estadunidenses ao longo do século XX, tendo como “mundo selvagem” as florestas do sudeste asiático e toda a luta ideológica da Guerra Fria. 

Vale lembrar que, todos os expedientes estavam válidos, como prisões arbitrárias, tortura, morte de inocentes, estupros, além do uso de armas químicas, desrespeitando a Convenção de Genebra: como o desfolhante "Agente laranja" que é cancerígeno, tendo o objetivo de abrir espaços nas densas florestas para atacar as forças norte-vietnamitas e assim, contaminaram solo e água e ainda hoje, causam problemas as populações atingidas. Outra arma foi a substância incendiária "Napalm", que podia provocar combustão, atingindo uma temperatura em torno de 1000 graus Celsius.

O Coronel Kurz, vivido por Marlon Brando, sintetiza os patamares mais vis que o abuso do poder e da autoridade, regados e fortalecidos pela ganância desmedida, ainda são capazes de causar. 

Sugestão: Filme - Apocalipse Now, Francis Ford Coppola, 1979, 153min.




















Créditos: http://ia.media-imdb.com/

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