As Ricas Horas do Duque de Berry

As Ricas Horas do Duque de Berry
As Ricas Horas do Duque de Berry. Produção dos irmãos Limbourg - séc. XV. Mês de agosto

domingo, 2 de fevereiro de 2014

Rio de Janeiro em 1914: da "cidade infecciosa" para a "Cidade Maravilhosa"

A indicação do paulista Rodrigues Alves (1902-1906) para a sucessão de Campos Sales na Presidência da República seguiu o rumo normal das articulações da época do "Café com Leite". Uma das grandes marcas de seu governo foi um audacioso projeto de modernização e reurbanização da capital, Rio de Janeiro.

Apesar de ter abrigado a família real portuguesa e ser a capital do Brasil já por quase um século, as ruas ainda eram estreitas numa fase em que já era possível ver carros circulando. E o porto era bastante pequeno para receber as grandes embarcações da época. As epidemias de varíola, febre amarela e peste bubônica tornaram-se corriqueiras, sendo assim, muitos capitães se recusavam em aportar ali. face aos ricos de contaminação às suas tripulações. Era imperativo modernizar a cidade.

Aproveitando-se da inatividade do Legislativo, Rodrigues Alves nomeou o engenheiro Francisco Pereira Passos para o cargo de administrador da cidade(o equivalente a Prefeito). E, investido de plenos poderes pela Presidência, foi iniciada a reforma da capital da Nação. Cortiços vieram a baixo, quarteirões inteiros foram demolidos para dar lugar a largas e belas avenidas, famílias eram despejadas das casas do centro da cidade e, com a carência de casas disponíveis, os aluguéis subiram. Pereira Passos passava a ser na boca do povo como o "Bota abaixo".

 O rápido início das obras atingiu diretamente a população pobre do Rio de Janeiro, o que aumentou o número de pessoas que moravam nas ruas ou nas encostas dos morros, intensificando a expansão das favelas. A violência e o autoritarismo com que tal empreitada foi desenvolvida revoltaram a população, que já estava prestes a sair às ruas e hostilizar o governo.

A cidade precisava, também, de uma nova política de saneamento básico e medidas muito sérias deveriam ser tomadas quanto às epidemias. O diretor da Saúde Pública, Dr. Oswaldo Cruz, recebeu, então, plenos poderes para dar início à campanha de saneamento do Rio de Janeiro. Em novembro de 1904, foi publicado o decreto federal que tornava obrigatória a vacinação contra varíola para todos os que tivessem mais de seis meses de idade. As brigadas de vacinação tinham reforço policial em caso de resistência dos moradores.


Muitos políticos da oposição aproveitaram-se da obrigatoriedade da vacinação antivariólica e da truculência dos "vacinadores" para sublevar a população contra o governo, o que resultou na Revolta da Vacina - em 10 de novembro, que foi reprimida pelo exército e polícia, que conseguiram recuperar o controle da situação, debelando os revoltosos em 16 de novembro de 1904, resultando em dezenas de mortos, centenas de feridos e algumas centenas de deportados para o Acre, território recém incorporado ao Brasil em 1903 pelo Tratado de Petrópolis, que naquele momento servia de espaço para a extração da borracha e de "colônia penal" para os inimigos da República.

Passados alguns anos, o governo brasileiro quis "melhorar" sua imagem internacionalmente e assim, veremos o fomento de publicações estrangeiras que apresentavam o Brasil ao mundo, tendo o Rio como seu "cartão de visitas", conforme nos mostra a reportagem abaixo:

Guia de 1914 já mostrava o 'beautiful' Rio

Há cem anos saía na Inglaterra o 1º livro para turistas sobre a 'magnífica metrópole'

02 de fevereiro de 2014 | 2h 07


Roberta Pennafort - O Estado de S.Paulo - O Estado de S.Paulo
RIO - Cidade que encabeça listas de destinos de viagem mais atraentes do mundo, o Rio inspira guias turísticos há um século. Desde a década de 1870 os estrangeiros já contavam com publicações para orientá-los, mas as informações eram voltadas a quem vinha a trabalho. Foi em 1914 que saiu, na Inglaterra, The Beautiful Rio de Janeiro, considerado o primeiro guia a "vender" a cidade (que completa 449 anos em 1.º de março) como uma metrópole sem par.
Publicado pela editora londrina William Heinemann, o livro, ilustrado e bastante descritivo, foi iniciativa de um apaixonado pela cidade. O inglês Alured Gray Bell, que conhecera o Rio em 1909 e depois voltou para passar dois anos, já no início de seu texto se derrama: "Já viajei os cinco continentes, mas nunca vi nada como a Baía de Guanabara". A obra foi descoberta pela prefeitura na pesquisa de literatura sobre o Rio motivada pelas comemorações dos 450 anos da cidade, ano que vem.
Bell foi subsidiado pelo governo Hermes da Fonseca (1910-1914) e, talvez por isso, tenha sido prolífico em elogios à "magnífica metrópole brasileira". Quando fala da recém-aberta Avenida Beira-Mar, entre o centro e o Flamengo, diz que "não há igual no mundo". Os cariocas são apresentados como "corteses, generosos e simpáticos". Prédios novos e de arquitetura afrancesada, como o Teatro Municipal (de 1909) e a Biblioteca Nacional (de 1910), são comparados aos de Paris.
O conteúdo remonta à viagem de 14 dias de navio de Southampton, no sul da Inglaterra, até o Brasil, e se demora na nossa história, desde o descobrimento, passando pela fundação da cidade, o período imperial e o advento da República. Aspectos demográficos e econômicos são abordados: ele ensina que o País já tem 20 milhões de habitantes (o Rio, 1 milhão) e que sua dívida com a Inglaterra e a França superava 81 milhões de libras e 299 milhões de francos. 

Bell, declarado "jornalista diletante", se mostra encantado com o chamado "novo Rio", de ruas largas, arquitetura ao estilo parisiense e com menos cortiços e becos insalubres - cidade que resultou da reforma do prefeito Pereira Passos, empreendida entre 1903 e 1906.
Seu xodó era a então arborizada e elegante Avenida Rio Branco, hoje a mais movimentada do centro, que é mostrada em diversas ilustrações. A Enseada de Botafogo aparece com poucas edificações; a Tijuca, como um bairro rural; o Leme é ainda uma praia virgem. Ele convoca seus leitores a pegar o bonde e descobrir as praias do Leme, Copacabana e Ipanema e os principais pontos turísticos do Rio: o Pão de Açúcar (aberto em 1912) e o mirante do Corcovado. A estátua do Cristo Redentor só seria inaugurada em 1931.
Presentes já na literatura de viagem dos europeus que pisaram em solo brasileiro a partir do século 16, as impressões sobre o calor carioca não foram deixadas de lado. Bell se ressentia não só das temperaturas de verão - cerca de 33°C, em média, segundo ele, com pico de 37°C uma única ocasião -, mas principalmente da umidade.
"Vá para as montanhas, se puder, para Petrópolis, Teresópolis, Friburgo. Nos meses de verão, o clima é irritante. Mas não chega a ser insuportável ou opressivo. E o inverno no Rio é muito agradável, como março em Monte Carlo, ou janeiro no Cairo. Pelo menos essa é a impressão de quem agora escreve em novembro em Londres." The Beautiful Rio de Janeiro é raridade em sebos do Rio - um original pode ser encontrado para venda por R$ 600. Na Amazon, uma reedição em capa dura custa US$ 156 (R$ 374); a de bolso, US$ 10 (R$ 24).
Passeios. Estudiosa de guias antigos, a designer Isabella Perrotta explica que só no século 20 as publicações passaram a ser focadas em dicas de passeios. "Os guias do século 19 não mostram uma cidade atraente para férias. Eles se preocupam em apresentar uma cidade civilizada, com potencial de crescimento", conta Isabella, cuja tese de doutorado, defendida na Fundação Getúlio Vargas, se debruçou sobre a construção da imagem do Rio como destino turístico.
"A primeira excursão organizada para turistas chegou em 1907, vinda de Nova York. Foi recepcionada pela imprensa e as grandes personalidades da cidade, que se ocuparam de mostrar o melhor hospital, as escolas." Basicamente um guia de ruas, a primeira publicação que Isabella encontrou em sua pesquisa, Guia do Estrangeiro no Rio de Janeiro, do brasileiro Felix Ferreira, é de 1873. Em 1882, saiu Guia do Viajante no Rio de Janeiro, de Alfredo do Valle Cabral, o mais alentado da época: tinha 600 páginas. 
Sugestões do Gabinete para saber mais:
A Revolta da Vacina. Nicolau Sevcenko. São Paulo: Cosac Naify, 2010.
Filme: "Sonhos tropicais". Direção André Sturm, 2001, 144min.





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