As Ricas Horas do Duque de Berry

As Ricas Horas do Duque de Berry
As Ricas Horas do Duque de Berry. Produção dos irmãos Limbourg - séc. XV. Mês de outubro

sexta-feira, 27 de junho de 2014

Parte IV - Renascimento: a transição do mundo medieval para o mundo moderno

Durante o Cinquecento, a capital do Renascimento passou a ser a Roma papal, graças ao mecenato de papas como Alexandre VI (1492-1503), Júlio II (1503-1513) e Leão X (1513-1521). Na literatura, ainda em Florença, destacam-se O príncipe, escrito em 1513 por Nicolau Maquiavel; de Baltazar Castiglioni, O cortesão; de Ariosto, Orlando Furioso. Nas artes plásticas destacam-se Rafael Sanzio (1483-1520), pintor famoso por trabalhos como as Madonas, A Escola de Atenas, os afrescos laterais da Capela Sistina; e Michelangelo Buonarrotti (1475-1564), autor das esculturas: Davi, Pietá, Moisés, da planta da Cúpula da Basílica de São Pedro e dos afrescos da Capela Sistina.



Dentro do contexto da produção renascentista encontramos a valorização do retrato e talvez um dos mais emblemáticos seja a Mona Lisa ou La Gioconda, pintura datada entre 1503 e 1506, encomendada por Francesco del Giocondo, na qual está representada sua esposa, Lisa Gherardini.
O retrato, um tema da pintura concebido para guardar a imagem de alguém, no caso da Mona Lisa nos confere um grande desafio, pois Leonardo criou uma atmosfera que mistura beleza e mistério, presentes em inúmeros detalhes: desconhecemos a paisagem de fundo que a ambienta; somos tocados pela delicadeza das cores e tons que parecem estar imersos numa névoa (sfumato), que não esconde a imagem mas ao mesmo tempo lhe confere uma luz que é única, de acordo com os escritos deixados no Tratado de pintura escrito por volta de 1482.

Apesar de todos os questionamentos que envolvem a imagem da Mona Lisa, podemos levar em consideração um elemento vital na compreensão do período renascentista: a valorização do individualismo que ali se manifesta.

Tal fato implica na representação de uma pessoa, identificada em seus mínimos detalhes, tomada como tema central da pintura e trazendo um retorno à tradição clássica da representação dos vultos, porém dotada de uma especificidade: o olhar da Mona Lisa está direcionado ao observador e graças ao jogo de composição de Leonardo, temos a impressão que esse olhar “nos acompanha”.



A Capela Sistina foi pensada pelo papa Sisto IV para servir de espaço para as cerimônias de caráter mais privado da corte papal e também como espaço para a realização do conclave (eleição do papa pelo Colégio dos Cardeais). A decoração interna das paredes laterais foi realizada por vários pintores: Botticelli, Rafael, Cosimo Rosseli, Luca Segnorelli, Perugino, Ghirlandaio e Pinturicchio. Já as pinturas do teto em abóbada (1508-1512) e a parede do altar principal (1535-1541) foram feitas por Michelangelo, retratando os temas bíblicos desde a Criação e terminando no Juízo Final.

A riqueza de detalhes acompanhada de uma manifestação muito clara dos movimentos dos personagens impõem ao observador um desafio gigantesco: a dificuldade de contemplá-la por completo num único olhar, fazendo de sua observação um processo semelhante à leitura, pois o observador avança de uma parte para outra tal qual um leitor que percorre o texto ao longo de seus parágrafos.
Michelangelo dotou suas imagens de cores e gestos de vigorosa intensidade, cuja manifestação confere uma aparência realista aos temas retratados, diferente de uma representação estática e sobrenatural, pois justamente a ideia de naturalidade ou ainda de uma idealização da natureza se colocam presentes na composição, nos traços, cores e volumes.



Ao observarmos, por exemplo, o detalhe da Criação do homem, vemos a materialização de um canto gregoriano Veni Criator, segundo o qual se evoca a presença divina. Diferente do texto bíblico, onde o Criador esculpiu o homem no barro dando-lhe vida, Michelangelo apresenta Deus como um vigoroso ancião que se move em direção ao homem e com o toque lhe concede a vida, evidenciada pela ação divina em relação ao humano.




O Renascimento além da Itália

Conforme apontamos no início dessa aula, as transformações econômicas entre os séculos XV e XVI fizeram com que novos centros comerciais despontassem na Europa, como a região de Flandres e depois a península Ibérica, avançando também no século XVI para a Inglaterra e França. Todas essas regiões vivenciaram também grandes transformações culturais, cada qual ao seu modo, e assim, alguns historiadores cunharam a expressão “Renascimento tardio” em relação à Itália:
Flandres: encontramos na literatura o humanista Erasmo de Roterdã (1466-1536), autor de O elogio da loucura, publicado em 1508 e responsável por uma severa crítica ao desregramento do clero e nobreza que se manifestava de maneira cada vez mais intensa para o assombro de muitos. Erasmo usou a voz da loucura para apontar suas críticas sem se comprometer, escapando das perseguições e censuras movidas por seus inimigos mais poderosos; na pintura flamenga destacamos: Hieronymus Bosch (1450-1516), autor de O jardim das delícias, A pedra da loucura, A nau dos loucos; Pieter Brueghel (1525-1569), autor de O massacre dos inocentes, Torre de Babel; Rogier Van Der Weyden (1399-1464), autor de A deposição da Cruz; Jan Van Eyck com o quadro A virgem, o Menino Jesus e o chanceler Rolin, O homem de turbante vermelho e O casal Arnolfini, que analisaremos logo abaixo.
Portugal: recebeu influências com o retorno de Francisco Sá de Miranda (1495-1558) da Itália em 1527, trazendo o dolce stil nuovo (verso decassílabo e soneto) e mais tardiamente com Camões (1524?-1580) graças à publicação de Os lusíadas em 1572;
Espanha: o maior expoente foi Miguel de Cervantes (1547-1616) com a publicação de D. Quixote de la Mancha em 1605;
França: o principal nome é Rabelais (1483-1553), autor de Gargântua e Pantagruel;
Grã-Bretanha: destacaram-se William Shakespeare (1564-1618), dramaturgo, autor de Romeu e Julieta, Macbeth, Hamlet, Rei Lear, entre outras peças; e Thomas Morus (1478-1535) que escreveu Utopia em 1516, sobre uma ilha fantástica dotada de uma organização muito particular, a qual promovia o pleno equilíbrio entre seus habitantes, que não se envolviam em guerras ou outros problemas.


Dentre vários exemplos sobre o Renascimento além da Itália, escolhemos uma breve apresentação do quadro O casal Arnolfini, pintado em 1434 por Jan Van Eyck no intuito de registrar o casamento do rico banqueiro e comerciante italiano Giovanni Arnolfini com a jovem Giovanna Cenami, assim retratados em sua residência na cidade de Bruges, no Flandres (atual Bélgica).
A cena nos é apresentada com a visão imediata do casal no plano central, tendo ao fundo o leito nupcial, vários objetos em volta (frutos, rosário, tapete e espelho) e ainda contando com a presença de um cão e mais três pessoas: duas que se encontram representadas no espelho (ver detalhe abaixo) e a outra seria o próprio pintor, cuja assinatura e data estão marcadas logo acima do espelho: “Jan Van Eyck esteve aqui, 1434.”


A união dos Arnolfini registrada no interior de sua residência pode ser vista como a manifestação de uma cerimônia privada, no ambiente profano (fora do templo), mas mesmo assim é dotada de uma ligação com o sagrado, que se encontra representado pelas miniaturas da vida de Cristo presentes na moldura do espelho; o rosário dado como presente de noivado para a noiva e por fim, uma única vela acesa no lustre, evocando “os olhos de Deus representados pelo fogo sagrado”.
Por fim, não há como deixar de observar a riqueza e o luxo presente na vida dos noivos, os quais se encontram ricamente trajados, a mobília, o tapete oriental, bem como a presença de frutas estrangeiras, como as laranjas, oriundas de sua terra natal. E dentro do âmbito privado, caberia ainda a pergunta: estaria Giovanna grávida? Seria essa a explicação para uma cerimônia tão importante dentro do ambiente privado? Muitas dúvidas e poucas certezas, mas mesmo assim o quadro não perde a sua importância na história da arte.

O Renascimento e as ciências

Uma importante transformação ocorrida no contexto do Renascimento foi a invenção da imprensa de tipos móveis pelo alemão Johan Gutenberg, que em 1450 na sua oficina em Mongúcia começou a imprimir a Bíblia. Tal fato implicou numa maior agilidade que o método até então utilizado: a cópia manual, feita nos mosteiros e abadias pelos monges copistas, que se responsabilizavam em copiar o texto e produzir também as imagens que o acompanhavam, as iluminuras.



A divulgação e ampliação do uso da imprensa tiveram um grande impacto na sociedade ocidental, favorecendo a divulgação do conhecimento numa escala muito maior que antes, bem como tornando o livro mais acessível, muito embora ainda não houvesse uma democratização do conhecimento e cultura, algo que talvez estejamos vivenciando agora em nossa época, guardadas as devidas proporções, porque o analfabetismo e a educação de qualidade ainda travam uma batalha constante.
Durante a Idade Média, um dos principais temas defendidos pela Igreja era o geocentrismo, teoria pautada no pensamento de Cláudio Ptolomeu (100?-170?), o qual concebia a Terra como estática, tendo o Sol e os planetas girando ao seu redor.

Sistema Geocêntrico

Tal pensamento começou a ser questionado pelo astrônomo polonês Nicolau Copérnico (1473-1543), ao publicar, um pouco antes de morrer, o tratado De revolutionibus orbium celestium, defendendo o heliocentrismo (a Terra e os planetas giram em torno do Sol, que é estático).

Sistema heliocêntrico

A teoria heliocêntrica foi levada adiante por Galileu Galilei (1564-1642), físico e matemático florentino, responsável pelo aprimoramento do telescópio em 1609 e também pelo furor causado quando desafiou a Igreja ao defender intensamente os estudos de Copérnico. Devido a suas ideias acabou acusado de “inimigo da fé” e foi duas vezes processado pela Inquisição. Apesar de não ter sido condenado à morte, recebeu um castigo de maior crueldade para quem vive daquilo que estuda e ensina: foi obrigado a retratar-se publicamente, renegando suas pesquisas e acabou seus dias em prisão domiciliar. Os estudos de Galileu foram importantes para os trabalhos de Johann Kepler (1571-1630), que analisou o movimento dos planetas, elaborando a teoria das órbitas elípticas, vigente até os dias de hoje. Os estudos de Galileu também colaboraram para o aprofundamento do assunto com os trabalho de Isaac Newton (1642-1727), físico inglês que consolidou a posição de seus antecessores e publicou trabalhos sobre a chamada lei de gravitação universal, conhecidas por nós hoje como leis de Newton, as quais não só explicam uma série de eventos físicos que vivenciamos, como também acabaram por confirmar o heliocentrismo.
Somente em 1992, a Igreja Católica, então chefiada pelo papa João Paulo II, perdoou Galileu, reconhecendo o valor de suas pesquisas e a gravidade do erro que a instituição cometeu com o estudioso florentino.



Na medicina destacou-se André Vesálio (1514-1564) na área da anatomia ao publicar o tratado Sobre a estrutura do corpo humano(imagem acima), trabalho realizado pela experiência na dissecação de cadáveres; Miguel de Servet (1511-1553), médico espanhol responsável pela descoberta da circulação do sangue ou circulação pulmonar pelas artérias; William Harvey (1578-1657) estudou medicina em Pádua, onde Vesálio fora professor e deixou um grande número de discípulos. Harvey aprimorou as pesquisas de Servet sobre o sistema circulatório e publicou em 1628 o tratado Estudos anatômicos dos movimentos do coração e do sangue dos animais, considerado uma das mais importantes obras da sua época, tendo apenas omitido a existência dos vasos capilares, pois ainda não tinha sido inventado o microscópio. A descoberta dos capilares ficou por conta dos trabalhos do médico italiano Marcelo Malpighi (1628-1694), já que o microscópio foi inventado na Holanda em 1657.

Obras em destaque:

Rafael Sanzio: "Escola de Atenas", afresco, c. 1506-1510 - Museus do Vaticano, Roma, Itália.

Michelangelo Buonarroti "Cúpula da Basílica de São Pedro"

Michelangelo Buonarroti "David", c. 1501-1504, Academia de Florença, Itália.

Rogier van der Weyden "A deposição da cruz" óleo sobre madeira, c.1435, Museo del Prado, Madrid, Espanha.


Pieter Brueghel "O Casamento camponês"c. 1567, Kunsthistorisches Museum, Viena, Áustria.

Mathias Grünewald "Retábulo de Isenheim" c. 1510-12, Unterderliden Museum, Colmar, França.

Albrecht Dürer "Autorretrato", c.1500, óleo sobre madeira, Alte Pinakothek, Munique, Alemanha.

Albrecht Dürer "Rhinocerus", gravura, c. 1515, British Museum, Londres, Inglaterra.

Albrecht Dürer "Os quatro cavaleiros do Apocalipse" c.1501-1502, coleção particular. 

Hieronymus Bosch "O jardim das Deícias", óleo sobre madeira, c.1490-1510, Museo del Prado, Madrid, Espanha.









Nenhum comentário:

Postar um comentário