As Ricas Horas do Duque de Berry

As Ricas Horas do Duque de Berry
As Ricas Horas do Duque de Berry. Produção dos irmãos Limbourg - séc. XV. Mês de novembro

quarta-feira, 10 de maio de 2017

Idade Média: Idade das trevas?

Vitrais da ábside da Abadia de Saint-Denis, norte de Paris.
Créditos: Elias Feitosa


Tomando como base as aulas desta semana sobre Filosofia medieval, gostaria de discutir o conceito de Idade Média e seu entendimento como a Idade das Trevas,
Essa visão é resultado de uma leitura que valoriza a Antiguidade clássica como a “Idade de Ouro”, rica em saberes e arte e detentora de um ambiente de relativa liberdade, que primava pela valorização da razão como a melhor e mais importante característica da Humanidade.
Tal pensamento era muito presente entre os letrados que buscavam com ansiedade localizar os antigos textos que se encontravam em bibliotecas de mosteiros e abadias ou nas universidades que se tornaram o polo da produção do conhecimento no período.

O conceito foi uma construção a posteriori, isto é, feito depois, e dessa forma aqueles que a viveram não se entendiam ou se chamavam de medievais, termo que deriva de médium aevum, médium aetas , daí, medievo.

Os letrados dos séculos XV e XVI chamavam a sua época de Moderna e reconheciam nela semelhanças com o mundo antigo, criando por oposição ao passado recente a ideia de tenebrae como, por exemplo, o poeta Francesco Petrarca (1304-74). Nascia assim a visão de um período de estagnação e de vazio, que foi reafirmada por outros pensadores: Giorgio Vasari (1511-74) foi responsável por popularizar o conceito de renascitá, renascimento em italiano. Mas se renasceu deveria estar morta, esquecida nos séculos, para novamente estar presente entre os homens. E quem seria o ilustre defunto? A cultura greco-romana.

A reafirmação desse conceito era fruto da mentalidade daquele momento, que, em diferentes campos do saber e por diferentes autores, teve seus contornos e pressupostos consolidados e difundidos. O pintor Rafael Sanzio (1483-1520) se referia à arte medieval como “gótica”, isto é, dos godos, bárbaros invasores que não tinham cultura, segundo a visão romana; François Rabelais (1483-1553) tratava o período medieval como a “espessa noite gótica”, dessa forma, podemos então extrair outra informação importante: o termo gótico, usado para a produção artística entre o fim do século XII e o século XV, foi uma construção posterior e pejorativa. Portanto, seus realizadores não tinham a dimensão de que “eram góticos ou produziam arte em estilo gótico”.
Se o conceito negativo da chamada Idade Média como “Idade das Trevas” nasceu entre os séculos XIV e XVI, a ampliação dessa visão e sua difusão foram desdobramentos de outros períodos históricos tais como: o Iluminismo no século XVIII (época de intensa valorização da razão e de um questionamento dos poderes absolutos do rei e do clero); o Cientificismo do século XIX (contexto de maior ampliação do racionalismo e de valorização da ciência em detrimento da fé), que por sua vez foi contemporâneo ao Romantismo (movimento artístico responsável por tentar resgatar e redefinir o período medieval).


Cabe pensarmos uma outra questão: existiria um grande abismo separando “os mil anos medievo” e o Renascimento? Muitos defenderam que isso seria verdadeiro, tentando reafirmar os elementos negativos do medievo e uma “ruptura, quebra ou distância” com o período de grande transformação que seria o Renascimento. Neste caso, podemos destacar o trabalho de Jacob Burckhardt (1818-1897), um renomado erudito suíço nascido em Basileia que se tornou uma das principais referências para o estudo do Renascimento, tendo entre outras obras o livro A cultura do Renascimento da Itália, obra publicada em 1860 que sustenta a tese da ruptura com o período medieval.

Atualmente a abordagem é distinta, procurando observar que as transformações sofridas durante o Renascimento foram resultados de um processo de continuidade que perpassou o medievo e atingiu seu esplendor no momento seguinte, guardadas as devidas proporções. No entanto, precisamos analisar a complexidade das transformações e das permanências dentro de seu próprio contexto, facilitando a identificação daquilo que de fato foi inovação ou que já era pensado pelas gerações anteriores.

Segue abaixo uma bibliografia, bastante sintética, que pode ajudar em muito a revisão desta concepção defasada e superada sobre a Idade Média, que apesar de existirem pelo menos 40 anos de pesquisas acumuladas, ainda existem "ecos" que repetem o preconceito contra o medievo, mas devemos lembrar que esta crítica não significa apoiar os abusos e violências praticados no contexto medieval ou noutro por qualquer instituição, seja o Estado, seja Igreja.

Boas leituras e muitas reflexões !!

Bibliografia introdutória sobre a Idade Média


BASCHET, Jérôme. A civilização feudal: Do ano mil à colonização da América. São Paulo: Editora Globo, 2006.

DUBY, Georges. História Artistica da Europa: A Idade Média, Vol. I e II,  Rio de Janeiro, Editora Paz e Terra, 2002, 2ª ed.

FRANCO JUNIOR, Hilário. Idade Média: O nascimento do Ocidente, São Paulo, Editora Brasiliense, 1986.

LE GOFF, Jacques. Os intelectuais na Idade Média. São Paulo, Editora Brasiliense, 1988.

LE GOFF, Jacques & SCHMITT, Jean-Claude. Dicionário Temático do Ocidente Medieval, Bauru/ EDUSC; São Paulo/Imprensa Oficial do Estado, 2002.

LE GOFF, Jacques. A Civilização do Ocidente Medieval. BauruEDUSC, 2002, 1ª edição.

RIBEIRO, Daniel Valle. A Igreja e o Estado na Idade Média. São Paulo: Editora Lê, 1995.

RIBEIRO, Daniel Valle. A Cristandade do Ocidente Medieval. São Paulo: Editora Atual, 1998.

VERGER, Jacques. Cultura, ensino e sociedade no Ocidente nos séculos XII-XIII. BauruEDUSC, 2001, 1ª edição.




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