As Ricas Horas do Duque de Berry

As Ricas Horas do Duque de Berry
As Ricas Horas do Duque de Berry. Produção dos irmãos Limbourg - séc. XV. Mês de agosto

terça-feira, 19 de junho de 2012

Elementos comuns e contrastes nas tradições gregas e judaico-cristã a partir do Evangelho de São Mateus


" Por isso vos digo: Não vos preocupeis com a vossa vida quanto ao que haveis de comer nem com o vosso corpo ao que haveis de vestir. Não é a vida mais do que o alimento, e o corpo mais do que a roupa?

Olhai as aves do céu: não semeiam, nem colhem, nem ajuntam em celeiros. E, no entanto, vosso Pai celeste as alimenta. Ora, não valeis mais do que elas?

Quem dentre vós, com suas preocupações, pode acrescentar um só côvado à duração da sua vida?

E com a roupa, porque andais preocupados? Aprendei dos lírios do campo, como  crescem, e não trabalham nem fiam.

E, no entanto, eu vos asseguro que nem mesmo Salomão, em toda sua glória, se vestiu como um deles.

Ora, se Deus veste assim a erva do campo, que hoje existe e amanhã será lançada ao forno, não fará Ele muito mais  a vós, homens fracos na fé ?

Por isso, não andeis preocupados, dizendo: Que iremos comer? Ou que iremos beber? Ou, que iremos vestir? De fato, são os gentios que estão à procura  de tudo isso:o vosso Pai celeste sabe que tendes necessidades de todas essas coisas.

Buscai, em primeiro lugar, o Reino de Deus e a sua justiça e todas essas coisas  vos serão acrescentadas.

Não vos preocupeis, portanto, com o dia de amanhã , pois o dia de amanhã preocupará consigo mesmo. A cada dia basta o seu mal."

                                                    
Bíblia de Jerusalém - Mateus 6, 25-34



As tradições grega e a  judaico-cristã apresentam pontos em comum no que diz respeito à temática de suas narrativas e o fim moralizante das mesmas.  Se tomarmos a leitura dos mitos de Belerofonte, Ícaro, Aloídas e Menelau, encontramos várias correspondências com as passagens bíblicas da Torre de Babel e do Evangelho de São Mateus, obviamente, guardando as devidas proporções e especificidades de cada tradição.


A narrativa sobre a Torre de Babel menciona uma época onde os homens "Todo mundo se servia de uma  mesma língua e das mesmas palavras."(Gênesis 11, 1) e tinham por objetivo construir uma cidade e uma torre , cujo cimo tocasse os céus, tornando seu nome célebre antes que se dispersassem. Ao lado, vemos uma representação medieval de um manuscrito francês do século XIII, retratando o episódio da Torre de Babel. Na narrativa bíblica, tal atitude, sinal de orgulho e soberba, faz com que Deus confunda-lhes as línguas, tornando impossível a construção, porque não conseguiriam se entender. A simbologia destes eventos, ou seja, a falta dos homens e o castigo de Deus é uma constante dentro da tradição judaico-cristã, porque Deus é Onisciente, Onipresente e Onipotente. Aos homens é cobrada a fidelidade e obediência a Deus e suas leis. Portanto, alcançar os céus sem a vontade divina é subverter a ordem e desrespeitar a tradição, por conseguinte, a própria divindade.

Ainda no Gênesis,  outra passagem trata especificamente deste tema, o Pecado Original: " A serpente era o mais astuto de todos os animais dos campos, que Yaweh tinha feito. Ela disse à mulher: Certamente não morrereis. Porque Deus sabe que no dia em que dele comerdes se abrirão vossos olhos, e sereis como Deus, sabendo o Bem e o Mal." (Gênesis 3, 4-5). Desde este episódio, o qual simboliza o início de todas as agruras do homem em virtude do desrespeito às leis de Deus, as manifestações da ambição humana foram castigadas.

                                       O Pecado original, gravura de Albrecht Dürer(séc. XVI)

Na tradição grega, no entanto, esta ambição pode ser percebida nas narrativas dos mitos de Belerofonte, Aloídas e Ícaro. O primeiro é um herói que graças a sua excelência e habilidade em combates consegue superar vários desafios que lhe são impostos( a luta com a Quimera, com os guerreiros lídios), obtendo reconhecimento e prestígio. Belerofonte desposa uma princesa e torna-se rei com a morte de seu sogro. Entretanto, segundo as diferentes narrativas, é  tomado por um acesso de orgulho e tenta alcançar o Olimpo com a ajuda de Pégaso. Zeus, ofendido por este ato, derruba-o do cavalo e Belerofonte morre.


Belerofonte ao lado de Pégaso (cavalo alado) combatendo a Quimera - vaso grego séc. V a.C.

O segundo mito, sobre os Aloídas, se refere a semideuses (os irmãos Oto e Efialtes) dois gigantes que também movidos por um acesso de orgulho tentam chegar ao Olimpo, declaram guerra aos deuses e ameaçam secar os Oceanos. Sua ousadia é paga com a vida, sendo numa das versões do mito fulminados por Zeus ou noutra versão , um fere o outro numa tentativa de acertar uma corsa com uma flecha e esta corsa seria a deusa Diana disfarçada.



Nos mitos de Belerofonte e dos Aloídas , a punição ocorreu em virtude da tentativa dos heróis tentarem igualar-se aos deuses ou mesmo superá-los, pois apesar de sua origem divina, não poderiam ascender ao Olimpo por "sua própria vontade", já que tal prerrogativa é de Zeus, ou seja, apenas os eleitos por Zeus podem compartilhar sua morada. Apesar de heróis, portanto com uma origem genealógica relacionada com a divindade, a manifestação do orgulho e da soberba representam os defeitos da condição humana destes personagens.
            O mito de Ícaro também envolve o tema da punição pela ousadia, porém com algumas diferenças: Ícaro era mortal, sem ascendência divina e morre pela sua imprudência, pois desobedece o pai ao voar muito alto, tendo suas asas derretidas e por fim afoga-se no mar.
A morte de Ícaro, no entanto, alude também ao desrespeito, talvez não pela ambição, mas pela imprudência e impulsividade, pois Ícaro desobedeceu seu pai, sendo punido e tal fato alude ao respeito às tradições e costumes, cuja guarda se encontra nos anciões, ou seja, nas figuras mais velhas, depositárias do saber adquirido pela comunidade.

           A releitura do mito de Ícaro no universo cristão do Renascimento pode ser exemplificado pelo quadro “A morte de Ícaro”,  do pintor flamengo Pieter Brueghel, o Velho (1525?-1569) pintado entre 1558 e 1566, retrata de modo muito particular o mito de Ícaro.


Para a composição deste quadro, Brueghel provavelmente baseou-se no texto de poeta romano Ovídio (43 a.C. – 18 d.C.), pois os elementos descritos no quadro - o lavrador, o pastor e o pescador - são mencionados no texto, porém Brueghel faz uma leitura diferenciada: Ovídio descreve a cena comentando a impressão dos três homens ao verem "os homens alados", enquanto Brueghel os retrata com ar de indiferença à cena. Além disto, Ícaro é retratado após sua queda, debatendo-se nas águas, bem próximo do crepúsculo.

Brueghel faz uma leitura muito pessoal e introspectiva do relato mitológico. Em primeiro lugar, o tema principal do quadro aparece num detalhe e praticamente em segundo plano, tendo também uma visão coeva a Brueghel, isto é, o pintor retrata a cena a partir de elementos de seu cotidiano (paisagem e pessoas); em segundo lugar, a narrativa de Ovídio dá a entender  em seu texto que a imprudência de Ícaro deu-se por voar muito próximo do sol, estando este último a pino, portanto, intenso o bastante para derreter a cera das asas de Ícaro. Contudo, por que representar o crepúsculo?

Tal representação  relaciona-se com a morte, pois Brueghel mostra o preço pago por Ícaro pela sua imprudência e coloca o sol como o algoz que se afasta da vítima após a execução. Enfim, o sol (algoz ou juiz) se põe após o triste episódio.

Outra diferença está no fato de que Brueghel inverte a posição de importância do relato: em primeiro plano, dispõe os personagens secundários (o lavrador, o pastor e o pescador) e o tema do próprio quadro é colocado como um pequeno detalhe e quase que inexpressivo, observe o canto inferior direito da imagem e verá um corpo que se debate na água, mas representado numa escala muito pequena face aos outros elementos pintados no quadro.

O tema da ambição humana pode ser também identificado dentro do Evangelho de Mateus 6, 31:

Por isso, não andeis preocupados, dizendo: Que iremos comer? Ou que iremos beber? Ou, que iremos vestir? De fato, são os gentios que estão à procura  de tudo isso:o vosso Pai celeste sabe que tendes necessidades de todas essas coisas.


Os homens sempre buscaram ouro, poder e glória, mas para tanto muitos cometeram atrocidades e desrespeitaram as leis, matando seu semelhante ou o submetendo ao fardo da escravidão. A mensagem desta passagem é o respeito a vida e aos mandamentos de Deus, pois as atitudes e não as riquezas levaram ao reino do céus:

Olhai as aves do céu: não semeiam, nem colhem, nem ajuntam em celeiros. E, no entanto, vosso Pai celeste as alimenta. Ora, não valeis mais do que elas?

Quem dentre vós, com suas preocupações, pode acrescentar um só côvado à duração da sua vida?

E com a roupa, porque andais preocupados? Aprendei dos lírios do campo, como  crescem, e não trabalham nem fiam.



A natureza é obra da divindade e apesar de toda a inteligência do homem, este não conseguiu conceber algo tão belo e harmonioso quanto a natureza, a qual obedece a lei de Deus e nela vive , tendo do Criador o seu sustento e benefício.

E, no entanto, eu vos asseguro que nem mesmo Salomão, em toda sua glória, se vestiu como um deles.


          Quando Jesus se remete a Salomão, tido como um dos homens mais sábios  e poderosos da Terra, jamais ousou se comparar à singeleza e exuberância dos lírios, pois sua beleza está na simplicidade e esta última é a obra do Criador. Tão belo com tão pouco, tão nobre sem luxo.

Outra narrativa   da tradição grega que oferece um contraponto a esta passagem do Evangelho é a vontade de Menelau em construir um palácio tão belo e tão esplendoroso quanto a morada do próprio Zeus na Odisseia IV, 55-59: " E esplende a sala ,em bronze, em prata , em ouro; em electro e marfim! Do interno Olimpo, É tal o adorno imenso: espanta olhá-lo. "

Ao voltarmos para o texto de Mateus, encontramos outra observação contundente:

 Ora, se Deus veste assim a erva do campo, que hoje existe e amanhã será lançada ao forno, não fará Ele muito mais  a vós, homens fracos na fé ?


Jesus ressalta a importância da fé em Deus, pois as angústias humanas são resultado da ganância incessante sobre os bens e os prazeres e sendo o homem também uma criação de Deus, porque Ele o abandonaria? Deus apenas puni aqueles que O desrespeitam , mas é piedoso para provê-los com aquilo que necessitam.

No texto evangélico, a perspectiva da riqueza espiritual é exaltada em detrimento dos problemas materiais, conforme aponta Mateus no versículo 31 a 34:

Por isso, não andeis preocupados, dizendo: Que iremos comer? Ou que iremos beber? Ou, que iremos vestir? De fato, são os gentios que estão à procura  de tudo isso:o vosso Pai celeste sabe que tendes necessidades de todas essas coisas.

Buscai, em primeiro lugar, o Reino de Deus e a sua justiça e todas essas coisas  vos serão acrescentadas.


A glória almejada pelo homem é diferente daquela que Deus propõe, pois no plano terrestre os bens materiais são mais valiosos, no entanto, nada valem no reino do céus . Obediência , Conformidade e Esperança é o que Deus espera dos homens para que estes tenham acesso aos benefícios providos pelo Criador. A ambição, foi a causa da queda do homem, que se privou do Paraíso por buscar algo que estava além de suas perspectivas e dessa forma restaram-lhe as dores e angústias do sofrimento diário para sua sobrevivência.

Não vos preocupeis, portanto, com o dia de amanhã , pois o dia de amanhã preocupará consigo mesmo. A cada dia basta o seu mal."

O ser humano almeja ser mais do que é e ter mais do que tem, mas não percebe que esta postura o distancia da divindade, pois a ambição desmedida não leva à virtude ou a glória. Tanto na tradição grega como na judaico-cristã, a ambição desmedida é exemplarmente castigada e em ambas o mérito humana é a glória, mas na primeira esta é representada pela imortalidade na memória coletiva, pois o nome do heroi se perpetua ao longo das gerações, enquanto na segunda, a glória é vista como a “salvação da alma” e a convivência eterna com Deus no reino dos céus, tendo portanto, uma condição que envolve a espiritualidade e a espera do término da história cristã, através da realização do Juízo Final.

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