As Ricas Horas do Duque de Berry

As Ricas Horas do Duque de Berry
As Ricas Horas do Duque de Berry. Produção dos irmãos Limbourg - séc. XV. Mês de dezembro

sexta-feira, 9 de maio de 2014

Resenha crítica: filme "Getúlio", João Jardim 2014

Assisti o filme na sua estreia: o emblemático 1 de Maio, o Dia do Trabalho, data que Getúlio Vargas muito bem usara durante seus governos, seja entre 1930 e 1945, seja entre 1951 e 1954, sempre se colocando dentro daquilo que ficou de sua imagem na memória e inconsciente coletivo - o "pai dos pobres" e por seus inimigos, a "mãe dos ricos".

Getúlio ascendera ao poder dentro de um golpe de Estado, ao qual ele e seus partidários das oligarquias descontentes naqueles idos de 1930, chamaram de "Revolução de 1930", mas na verdade, sabemos que fora apenas uma troca de cenários, porque era deposta a então poderosa oligarquia paulista e em seu lugar, ascendiam os descontentes de Minas Gerais, Paraíba e o Rio Grande do Sul.

A fase do Getúlio ditador e autoritário é assumida pela narrativa do próprio no início do filme, através da voz de Tony Ramos, seu intérprete e que em breves palavras apresenta ao espectador como se numa rápida reflexão interna, aquilo que se passara nos 15 anos da chamada "Era Vargas"(a censura, as prisões e torturas, o fechamento do Congresso) e daí se faz a introdução para o segundo momento, a sua primeira eleição direta como presidente e o conturbado processo que seus adversários construíam para corroer sua imagem e poder.

Justamente nesse ponto o filme, evitando o didatismo monótono, recorre a ideia de se mostrar um thriller de suspense. Mas é possível de se fazer suspense quando se conhece o final da história?
Apesar da perda do fator surpresa, a história vai ganhando corpo a partir do atentado que ocorrera em 5 de agosto de 1954, na rua Tonelero: ao voltar de uma palestra que ministrara no Colégio Anchieta, na cidade do Rio, Lacerda era esperado nas imediações de seu prédio por um pistoleiro chamado Alcino, o qual fora contratado por Climério que era da guarda pessoal de proteção do Presidente e esta era chefiada por Gregório Fortunato, leal empregado de Vargas há mais de 15 anos e por sua vez, compadre de Climério.

No atentado a Lacerda, este saíra vivo, mas ferido (ao que parece por si próprio), enquanto o pistoleiro Alcino alvejara o Major Martim Vaz que tentara deter o assassino. A morte de Vaz, potencializada, pela postura firme e objetiva de Lacerda, de desde o começo acusar Getúlio fizeram do caso, a sensação nacional. Os discursos de Lacerda no rádio e TV, bem como a gradativa aproximação da investigação promovida pela Aeronáutica, cada vez mais, se aproximava de Vargas ou de seu círculo mais íntimo e nessa esfera, Alzira Vargas, braço direito de Getúlio, interpretada por Drica Moraes ganha bastante peso e espaço, enquanto outros como a 1a dama Darci Vargas (Clarice Abujamra) e o filho Lutero (Marcelo Medici) ficam num plano de fundo.



A filmagem foi feita no Palácio do Catete, hoje Museu da República, mas naquela altura, sede do Governo Federal e dessa forma, a luz, a sofisticação dos objetos e decorações vão se engendrando na trama como espectadores e ao mesmo tempo, testemunhas cúmplices daquelas discussões e tensões que se sustentavam numa constante: Getúlio negava seu conhecimento e envolvimento, buscava a apuração do caso, mas ainda assim, dada a proximidade dos envolvidos, a dúvida pairava no ar: na noite do atentado, o telefone toca no Palácio e Getúlio aparentemente, o atende. Não há conversa ou diálogo, mas apenas o silêncio, que aliás, é o que precede um diálogo bastante suspeito entre Gregório Fortunato e Benjamim Vargas (conhecido como "Bejo") num ponto da estrada entre a cidade do Rio e Petrópolis, pois Gregório se volta a Bejo e diz que faria uma confissão, "como se faz a um pai ou a um padre".

A oposição, caracterizada em Carlos Lacerda (Alexandre Borges), pelo deputado Afonso Arinos (Daniel Dantas) e pelo brigadeiro Eduardo Gomes, antigo tenente e sobrevivente do episódio dos "18 do Forte de Copacabana" em 1922, mas naquela altura o candidato que Vargas vencera nas eleições de 1951 e que queria seu lugar, bombardeavam intensamente a imagem de Vargas, buscando pelos atos e gestos possíveis minar o governo que fora rotulado por eles como "um mar de lama".

No seio das Forças Armadas, a "ferida Aeronáutica" recebia apoio da Marinha, enquanto o Exército estava rachado, pois alguns generais achavam o governo Vargas insustentável e queriam forçar a renúncia do presidente e empossar seu vice, Café Filho (Jackson Antunes), mas no início ainda havia a posição Leal do Gal. Zenóbio da Costa (Adriano Garib), como o Ministro da Guerra e do Gal. Caiado (Leonardo Medeiros), chefe do gabinete Militar. Sublinha-se entre os civis, o papel de Tancredo Neves (Michel Bercovitch) enquanto Ministro da Justiça, mas no filme, bem diferentemente que na história real, ocorre uma significativa ausência: a do ministro do Trabalho João Goulart, que entre 1953 e 1954, tivera um papel de vital importância para o governo de Getúlio, sendo seu aliado, conterrâneo e afilhado político, que no exercício do cargo ministerial, com aval de Vargas, aumentara em 100% o valor do salário mínimo e dez anos depois, estaria num turbilhão tão intenso e cruel quanto o de Getúlio, o Golpe de 1964.

Fica difícil pensar que o presente filme seja uma "obra prima", mas ao pensarmos na juventude das produções cinematográficas brasileiras e o tatear que vem se fazendo com a História, o mérito esta em fazer a ponte entre o público e este personagem complexo e de vital condição para entendermos a moldagem da República do Brasil.

Acredito que, Vargas não foi posto num altar por João Jardim, não incensou o mito, mas dadas as condições do recorte feito, buscou explorar as características e dilemas da jovem democracia brasileira, porém nesse processo, entram várias ressalvas.
Cabe dizer que, as falas assumidas sobre a ditadura e o autoritarismo não o isentam de suas responsabilidades anteriores que, não chegaram a ser investigadas por nenhum tipo de "Comissão da Verdade", podendo soar como uma espécie de mea culpa e o fato de Getúlio ter vencido uma eleição direta não significou um "perdão coletivo" da nação brasileira, como se a CLT (Consolidação da Legislação Trabalhista, implantada em 1943 e que estabelecia a carteira de trabalho, férias remuneradas e o FGTS) e o investimento nas indústrias fossem suficientes para encobrir as arbitrariedades e violências do Estado Novo.



A frase de Afonso Arinos, interpretado por Daniel Dantas, é lapidar: "Ditador é como mau caráter. Ele não muda, simplesmente, tira férias" e dessa forma, apesar das posições claramente assumidas e uma aparente defesa da Constituição naquele momento, aqui e ali, alguns de seus íntimos e subalternos, evocavam o uso de medidas de força e Getúlio resistia: "Já rasguei duas constituições (1891 e 1934), não rasgarei uma terceira". Pode até soar bonito, mas não apaga o passado sangrento de seu período como um repressor a frente do país.

Por fim, as falas do filme parecem muito se amparar nos diários de Getúlio, que podem num primeiro momento ser uma ótima fonte para conhecer seu âmago, mas devem ser lidos também no contra-pelo, pois afinal, perpassam pela auto-censura e construção dos fatos pelo autor e não simplesmente, uma representação exata da História.

Muitos acalentam a teoria conspiratória de que ele não se matou, mas sim teria sido "assassinado", porém, mera especulação em brumas que não levam a lugar nenhum fato concreto.

Segue abaixo, a carta-testamento deixada por Getúlio e datilografada por Maciel Filho (Fernando Eiras), seu ghost writer (escritor que trabalha nos bastidores na produção dos discursos) e que teve um papel importante na carreira política de Getúlio, sendo de grande confiança, ao ponto de receber o texto que demonstrava nas entrelinhas, o desejo de Vargas se matar, mas que ficara, encoberto ou pelo menos, não diretamente assumido, na forma de uma citação de "cansaço" ou "vontade de largar tudo" para voltar a sua querida São Borja. O texto de Maciel é diferente do manuscrito, mas preserva a posição de vítima de uma cruel conspiração e foi este o que fora divulgado na imprensa, conferindo-lhe aí, um gesto de heroicidade, tal qual nos antigos códigos de honra, quando esta última era manchada, só havia uma condição: lavá-la com sangue do inimigo ou de si próprio.
Getúlio, imbuindo-se de heroísmo, optou pela segunda.


O texto datilografado: 

“Mais uma vez as forças e os interesses contra o povo coordenaram-se e se desencadeiam sobre mim. Não me acusam, insultam; não me combatem, caluniam; e não me dão o direito de defesa. Precisam sufocar a minha voz e impedir a minha ação, para que eu não continue a defender, como sempre defendi, o povo e principalmente os humildes.
Sigo o destino que me é imposto. Depois de decênios de domínio e espoliação dos grupos econômicos e financeiros internacionais, fiz-me chefe de uma revolução e venci.
Iniciei o trabalho de libertação e instaurei o regime de liberdade social. Tive de renunciar. Voltei ao governo nos braços do povo.
A campanha subterrânea dos grupos internacionais aliou-se à dos grupos nacionais revoltados contra o regime de garantia do trabalho. A lei de lucros extraordinários foi detida no Congresso. Contra a Justiça da revisão do salário mínimo se desencadearam os ódios.
Quis criar a liberdade nacional na potencialização das nossas riquezas através da Petrobras, mal começa esta a funcionar a onda de agitação se avoluma. A Eletrobrás foi obstaculada até o desespero. Não querem que o povo seja independente.
Assumi o governo dentro da espiral inflacionária que destruía os valores do trabalho. Os lucros das empresas estrangeiras alcançavam até 500% ao ano. Nas declarações de valores do que importávamos existiam fraudes constatadas de mais de 100 milhões de dólares por ano. Veio a crise do café, valorizou-se nosso principal produto. Tentamos defender seu preço e a resposta foi uma violenta pressão sobre a nossa economia a ponto de sermos obrigados a ceder.
Tenho lutado mês a mês, dia a dia, hora a hora, resistindo a uma pressão constante, incessante, tudo suportando em silêncio, tudo esquecendo e renunciando a mim mesmo, para defender o povo que agora se queda desamparado. Nada mais vos posso dar a não ser o meu sangue. Se as aves de rapina querem o sangue de alguém, querem continuar sugando o povo brasileiro, eu ofereço em holocausto a minha vida.
Escolho este meio de estar sempre convosco. Quando vos humilharem, sentireis minha alma sofrendo ao vosso lado. Quando a fome bater à vossa porta, sentireis em vosso peito a energia para a luta por vós e vossos filhos.
Quando vos vilipendiarem, sentireis no meu pensamento a força para a reação.
Meu sacrifício vos manterá unidos e meu nome será a vossa bandeira de luta. Cada gota de meu sangue será uma chama imortal na vossa consciência e manterá a vibração sagrada para a resistência. Ao ódio respondo com perdão. E aos que pensam que me derrotam respondo com a minha vitória. Era escravo do povo e hoje me liberto para a vida eterna. Mas esse povo, de quem fui escravo, não mais será escravo de ninguém.
Meu sacrifício ficará para sempre em sua alma e meu sangue terá o preço do seu resgate.
Lutei contra a espoliação do Brasil. Lutei contra a espoliação do povo. Tenho lutado de peito aberto. O ódio, as infâmias, a calúnia não abateram meu ânimo. Eu vos dei a minha vida. Agora ofereço a minha morte. Nada receio. Serenamente dou o primeiro passo no caminho da eternidade e saio da vida para entrar na história.”



O texto manuscrito: 

“Deixo à sanha dos meus inimigos, o legado da minha morte. Levo o pesar de não ter podido fazer, por este bom e generoso povo brasileiro e principalmente pelos mais necessitados, todo o bem que pretendia. A mentira, a calúnia, as mais torpes invencionices foram geradas pela malignidade de rancorosos e gratuitos inimigos numa publicidade dirigida, sistemática e escandalosa.
Acrescente-se a fraqueza de amigos que não defenderam nas posições que ocupavam à felonia de hipócritas e traidores a quem beneficiei com honras e mercês, à insensibilidade moral de sicários que entreguei à Justiça, contribuindo todos para criar um falso ambiente na opinião pública do país contra a minha pessoa.
Se a simples renúncia ao posto a que fui levado pelo sufrágio do povo me permitisse viver esquecido e tranqüilo no chão da pátria, de bom grado renunciaria.
Mas tal renúncia daria apenas ensejo para, com mais fúria, perseguirem-me e humilharem-me.
Querem destruir-me a qualquer preço. Tornei-me perigoso aos poderosos do dia e às castas privilegiadas.
Velho e cansado, preferi ir prestar contas ao Senhor, não dos crimes que não cometi, mas de poderosos interesses que contrariei, ora porque se opunham aos próprios interesses nacionais, ora porque exploravam, impiedosamente, aos pobres e aos humildes.
Só Deus sabe das minhas amarguras e sofrimentos.
Que o sangue dum inocente sirva para aplacar a ira dos fariseus.
Agradeço aos que de perto ou de longe me trouxeram o conforto de sua amizade.
A resposta do povo virá mais tarde...”


Sugestões do Gabinete:

"Getúlio", João Lira, Companhia das Letras (Volumes I e II)















Volume I




Volume II

Um comentário: