As Ricas Horas do Duque de Berry

As Ricas Horas do Duque de Berry
As Ricas Horas do Duque de Berry. Produção dos irmãos Limbourg - séc. XV. Mês de dezembro

segunda-feira, 12 de outubro de 2015

INDEPENDÊNCIA E FORMAÇÃO DOS ESTADOS UNIDOS



A independência das treze colônias inglesas da América do Norte compõe mais um episódio no longo capítulo das chamadas “revoluções burguesas”, que se estendeu até o século XIX com a consolidação do modelo industrial capitalista de produção.
Como já foi visto anteriormente, a Inglaterra desenvolveu em terras americanas uma política diferente de Portugal e Espanha, mandando para o novo mundo grandes contingentes populacionais proibidos de retornar à metrópole. A colônia de povoamento tinha por objetivo garantir a posse das terras, e somente em um momento posterior auferir algum tipo de lucro.
A colonização se deu basicamente durante a Reforma Anglicana e as perseguições religiosas na Inglaterra. Os perseguidos eram forçados a deixar o país sob pena de execução e, dessa forma, mudaram-se com suas famílias, em grupos fechados, sem intenção de retornar.

Com a Guerra dos Sete Anos (1756-1763) entre a França e a Inglaterra, as colônias inglesas ficaram "abandonadas" pela metrópole e foram obrigadas a se autogovernar. Com o fim da guerra, a Inglaterra decidiu aumentar os impostos sobre as colônias como forma de recuperar suas finanças. A Guerra dos Sete Anos também repercutiu na América, gerando as chamadas guerras intercoloniais, nas quais colonos ingleses e franceses lutaram, principalmente, por causa das dificuldades enfrentadas para penetrar no interior, atrás de peles raras de animais. Também havia a necessidade de aumentar a arrecadação para viabilizar a ocupação militar do Canadá, bem como de ilhas no Caribe e de portos na Índia.
Outro fator que obrigou os ingleses a mudar de postura foi a industrialização. Com a Revolução Industrial, a Inglaterra viu-se obrigada a buscar novos mercados, mas isso entrava em contradição com a autonomia econômica que caracterizava a maioria das colônias. Ainda assim, novas taxas foram criadas pelo governo britânico.

A Guerra dos Sete Anos e seus desdobramentos


A primeira delas foi a Lei do açúcar (1764), que fixou taxas elevadas para o açúcar que não viesse das outras colônias britânicas. A lei prejudicou os produtores locais de melado, utilizado na produção de rum. Um ano depois, foi imposta a Lei do selo, que obrigava os colonos a selar certidões, jornais e até baralhos com um selo vendido pela Coroa. Isso elevava o preço final dos produtos, pois era uma cobrança direta de imposto. Tal lei provocou a criação de uma assembleia em Nova York, na qual os presentes decidiram boicotar os produtos ingleses, uma vez que, no Parlamento da Inglaterra, onde eram tomadas as decisões, não havia nenhum representante dos colonos. A lei acabou suspensa diante da defesa dos colonos apresentada pelo advogado Benjamim Franklin.
            
A Lei do chá, criada em 1767 pelo ministro das Finanças, Charles Townshend, concedia o monopólio do comércio de chá, chumbo e vidro a uma companhia inglesa cujo maior acionista era o próprio governo. Em protesto, alguns colonos fantasiados de índios invadiram um navio inglês no porto de Boston e jogaram sua carga de chá ao mar. A Inglaterra reagiu com extremo rigor contra a chamada “Festa do chá de Boston” e outras manifestações antimetropolitanas. Em Boston, que era o principal porto colonial, as tropas inglesas dispararam contra  uma multidão de manifestantes, ocasionando o chamado Massacre de Boston.
As hostilidades se sucederam em outras localidades das colônias, levando o governo britânico a radicalizar. O Parlamento aprovou medidas que impunham severas punições aos colonos. Tais medidas ficaram conhecidas como Leis Intoleráveis e seus principais pontos eram:
- Interdição do porto de Boston até o pagamento dos prejuízos;
- Julgamento dos culpados por tribunais em Londres;
- Aquartelamento de tropas britânicas em Boston, nas casas dos colonos;
- Construção de um forte na cidade às expensas dos colonos.

Os colonos reuniram-se, então, no Primeiro Congresso da Filadélfia, em setembro de 1774, de onde enviaram ao rei uma petição à qual deram o nome de Declaração de Direitos. Com ela, pretendiam ter seus direitos igualados aos dos cidadãos moradores da Inglaterra.
O rei inglês, George III, não aceitou os pedidos e ainda impediu que os colonos ocupassem as terras do oeste do Canadá, que ficaram sob a responsabilidade do governador de Quebec.
Com a promulgação do chamado Ato de Quebec, prejudicial aos colonos, foi reunido o Segundo Congresso da Filadélfia, que promulgou a Declaração de Independência (4/7/1776), redigida pelo jovem jurista Thomas Jefferson, profundo conhecedor e admirador de John Locke.


A separação tornou-se um caminho sem volta. Para liderar as tropas rebeldes, foi escolhido o grande proprietário e experiente militar, George Washington. A guerra de independência durou mais de seis anos. A primeira grande vitória foi na Batalha de Saratoga. Posteriormente, os americanos passaram a contar com o apoio de inimigos dos ingleses. Benjamin Franklin foi o responsável pela representação dos colonos em nível internacional, conseguindo milicianos para combater ao lado deles e, principalmente, objetivando o reconhecimento da independência americana.
Os colonos receberam a ajuda da França, principalmente o apoio tático dos generais La Fayette e Rochanbeau, enquanto a Espanha fornecia material bélico. Finalmente, em 1781, os ingleses foram derrotados na Batalha de Yorktown e obrigados a retirar suas tropas da costa oeste dos atuais Estados Unidos. O reconhecimento da independência norte-americana se deu em 1783, pela assinatura do Tratado de Versalhes.




FORMAÇÃO DOS ESTADOS UNIDOS

Uma vez obtida a independência, os políticos americanos passaram a discutir a forma de governo a ser adotada, existindo duas propostas: o centralismo e o federalismo (onde a primeira defendia um poder central forte e a segunda defendia a autonomia do poder local).
A Constituição de 1787, influenciada pelas idéias de Montesquieu, criou a estrutura de uma república federativa presidencialista, sob a liderança do presidente da República como manifestação do poder executivo; o poder legislativo era representado pelo Congresso Nacional, através da Câmara dos Deputados e pelo Senado Federal; por fim o Judiciário era representado pela Suprema Corte de Justiça e pelos tribunais estaduais.
A República dos Estados Unidos da América representou a síntese das duas propostas iniciais, favorecendo a autonomia das províncias e a autoridade concentrada na pessoa do presidente da República, sendo que o primeiro a ser eleito foi o líder das tropas americanas durante a guerra de independência George Washington.

George Washington comandante do Exército dos EUA(1776-83) e presidente dos EUA (1789-1797) representado com os signos da Maçonaria, da qual era integrante.


A formação dos Estados Unidos foi extremamente importante para o processo de independência das colônias latino-americanas ao longo do século XIX.            
Os Estados Unidos eram inicialmente constituídos pelas treze colônias atlânticas até a região dos Apalaches, e em 1783 foi acrescentada a área até o Mississipi. A expansão para o oeste foi vinculada à forte imigração européia, à expulsão dos indígenas e seu conseqüente massacre, ou então ao seu confinamento em reservas.
O território americano foi ampliado também através de ações diplomáticas para a cessão ou compra de novas áreas. Foram comprados os territórios da Louisiana (por 15 milhões de dólares da França), da Flórida (por 5 milhões de dólares da Espanha) e o Alasca (por 7 milhões de dólares da Rússia). Em 1848 a região do Oregon foi cedida pela Inglaterra num tratado de definição de fronteiras entre os Estados Unidos e o Canadá. No entanto, a expansão não foi totalmente pacífica, pois as áreas do Texas, Novo México e Califórnia foram anexados após conflitos com o México em 1845 e 1848.

A expansão territorial representou a formação de uma nova configuração social nas áreas adquiridas, com interesses e dimensões distintas: o sul era conservador, com a aristocracia rural baseada no sistema de plantation; o centro e oeste um grupo emergente de pioneiros na expansão com a criação de gado e lavoura, e ao norte e leste uma burguesia industrial e comercial com grande poder aquisitivo e também com grande número de operários organizados.
As transformações da sociedade americana, no entanto, tinham ainda a presença de uma instituição colonial: a escravidão negra. Dessa forma, a economia sulista estava calcada no trabalho escravo (concentrado na produção agrícola) e livre cambista, com sua economia voltada para a exportação, principalmente comercializando com a Inglaterra, que comprava os produtos sulistas em troca de seus produtos manufaturados.
O norte pretendia expandir o mercado consumidor interno, como também favorecer os produtos nacionais industrializados com o protecionismo alfandegário e produzir com o trabalho assalariado, o que constituía um embate de forças entre os interesses industriais do norte e os interesses agrícolas sulistas.

No Sul, predominavam as grandes propriedades rurais, produtoras de algodão, tabaco e açúcar em regime de plantation, tendo a Inglaterra como seu principal comprador. Essas fazendas dependiam do trabalho escravo e pretendiam tarifas alfandegárias baixas, que lhes permitissem manter estreitos laços comerciais com a antiga metrópole.
As divergências entre o Norte industrializado e o Sul escravocrata puderam ser contornadas durante algum tempo, graças ao sistema federativo, que conferia uma grande autonomia aos Estados, bem como a representação no Senado - que garantia dois votos a cada Estado.
Por volta de 1819, os nortistas tinham 105 deputados contra 81 do Sul. Essa divisão era percebida pela organização partidário-política: o Partido Republicano representava os industriais do Norte, enquanto o Partido Democrata era o porta-voz da aristocracia sulista.
Durante o século XIX, as regiões central  e noroeste, que, durante o período colonial, já possuíam sociedade urbana e economia diversificada, despertavam ainda mais interesse dos industriais do Norte.

A Questão do Missouri quase provocou um conflito entre estados abolicionistas e escravistas, mas foi contornada pelo Compromisso do Missouri (1820), que previa a sua entrada na União como Estado escravista e a incorporação do território do Maine como não-escravista. Entretanto, o rápido crescimento da população do Norte deixava clara a impossibilidade de manter uma igualdade de representação entre o Norte e o Sul. Prevendo uma possível derrota na eleição de 1860, os sulistas passaram a defender a tese de que os Estados poderiam retirar-se da Federação, caso tivessem seus interesses prejudicados.

Fonte: Atlas de História Geral - Editora Scipione, 2002.


GUERRA DE SECESSÃO (1861 – 1865)

A vitória do republicano Abraham Lincoln na eleição presidencial de 1860 provocou a saída da Carolina do Sul da federação, seguida por dez outros Estados. Os "rebeldes" formaram os Estados Confederados da América, tendo Jefferson Davis como presidente, e atacaram um forte do exército da União. Os sulistas contavam com o apoio da Europa, pois esta era dependente de seu algodão, mas não contavam com o bloqueio naval imposto pelo Norte e pelos estoques estratégicos dos industriais ingleses, que haviam previsto o conflito.

Já em 1863, em meio à guerra, Lincoln decretou o fim da escravidão, visando desestabilizar a economia sulista, mas esta medida só teria valor durante o "estado de Guerra" e assim, até 1865, Lincoln buscou obtenção de apoio no Congresso para a aprovação da 13a emenda, em janeiro de 1865, abolindo de vez, a escravidão.

Abraham Lincoln


A guerra prosseguiu sem fatos significativos até a nomeação de Ulisses Grant como comandante do exército nortista  (o quarto em três anos). Alcunhado de "o carniceiro" pelos seus próprios soldados, Grant fez valer a superioridade numérica do Norte, ordenando ataques maciços contra as posições do Sul. Um de seus generais conseguiu furar as defesas sulistas e transformou o Vale do Shanandoa, produtor de alimentos do Sul, em uma imensa fogueira. Estrangulados e sem condições de se defender, os confederados renderam-se ao final da Batalha de Appomatox, em 9 de abril de 1865, pondo fim a uma guerra que custou mais de 600 mil mortos.

Logo depois da guerra, o presidente Lincoln foi assassinado dentro de um teatro por John Wilkes Booth, um fanático sulista. Os estados sulistas foram reincorporados à União e obrigados a reconhecer o fim da escravidão. Como consequência do final da guerra civil e da insatisfação dos brancos ao verem que as famílias negras recebiam ajuda do governo federal, foram criadas sociedades secretas de caráter racista, como a Ku-Klux-Klan, que se empenharam para manter um rígido sistema de segregação racial, que sobreviveu oficialmente até 1961, mas não deixou de gerar vítimas como os assassinatos das lideranças negras como Malcom X(1965) e Matin Luther King(1968).

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