As Ricas Horas do Duque de Berry

As Ricas Horas do Duque de Berry
As Ricas Horas do Duque de Berry. Produção dos irmãos Limbourg - séc. XV. Mês de agosto

terça-feira, 16 de agosto de 2011

RENASCIMENTO: apropriações e transformações da cultura greco-romana

O homem de Vitrúvio - Leonardo da Vinci

É   muito comum ouvirmos ou lermos nos meios de comunicação que hoje somos a “geração das imagens”, bombardeados diariamente com uma infinidade de cartazes, outdoors, jornais, revistas , televisão e mais recentemente, a Internet: uma das bases da intensa circulação de informações. Ficamos na mira de publicitários e anunciantes que buscam vender o seu produto, a sua idéia ou simplesmente, passar a sua mensagem. Nesse processo de comunicação, devemos também incluir os meios mais informais como pinturas em muros, grafites ou até as “pixações” que tomam conta das  grandes cidades, apesar de todas as críticas, estão sendo vistas, de certa forma , por  alguns especialistas como um “tipo de linguagem” ou “ forma de expressão” de determinados grupos urbanos.

Palavra versus Imagem. Ambas detêm um grande alcance e podem se tornar elementos poderosos de acordo com quem os manipule. Atualmente, o homem contemporâneo sofre uma avalanche de informações a uma velocidade jamais vista, a qual alguns rotulam como "globalização", a circulação de palavras e imagens tem se tornado tão importante quanto a de capitais voláteis de especulação no mercado financeiro, estando estes últimos inseridos no contexto econômico deste processo.

No entanto, hoje é comum  para a maior parte das pessoas, o domínio total ou parcial dos códigos de escrita adquirido  através do sistema de educação, cuja  qualidade  não representa  uma eficácia plena em todos os seus níveis, como infelizmente é o caso do Brasil.

Estas inquietações estão longe de ser resolvidas, mas apresentam uma série de pontos em comum, numa razão inversamente proporcional, com o período embrionário deste mesmo sistema, ou seja, os primórdios do pré-capitalismo durante o século XIV.

As relações se dão através da razão oposta, pois durante a Idade Média, a escrita sempre foi monopólio de um grupo restrito da sociedade: o clero. Tal fato implicava na necessidade do domínio da palavra para exercer o ofício sacerdotal da religião cristã, a qual é sustentada pelos textos contidos na Bíblia Mas, a partir da invenção da imprensa de tipos móveis por Gutenberg em 1450, o monopólio foi gradativamente rompido.

A transição do medievo para o mundo moderno não foi um processo homogêneo, sendo lenta e portadora de uma forte herança cultural, a qual teve vida longa em alguns pontos e noutros foi enfraquecida até a exaustão em diferentes países da Europa.

O conceito de Renascimento vem da palavra italiana renascitá, pois acreditava-se que o período anterior, a Idade Média, fora uma "espessa e longa noite gótica" imersa nas trevas e desprovida de cultura. Para os homens deste período, a "verdadeira" cultura encontrava-se na Antigüidade, a qual foi banida e em seu lugar a Igreja estabeleceu o teocentrismo. O saber, portanto, encontrava-se nas artes e nos escritos clássicos.

Dessa forma, os artistas e intelectuais buscavam uma concepção de cultura diferente da medieval e que tinha suas raízes no mundo greco-romano. A proposta central era afastar-se do teocentrismo, buscando o antropocentrismo, ou seja, o homem como o centro do Universo.

Apesar desta repulsa à Idade Média, é importante perceber que as transformações sofridas durante o Renascimento foram resultados de um processo de continuidade que perpassou o medievo e atingiu seu esplendor no momento seguinte, portanto, não se pode considerar a Renascença como uma ruptura total como propôs Jacob Burckhardt(1818-97), mas a mudança de um largo processo de experimentação e aprimoramento.

Uma das formas mais interessantes e mais ricas de se entender o Renascimento é olhar sua produção artística, hoje patrimônio inestimável da Humanidade, mas que em sua época foi exclusividade de ricos mercadores, nobres e dos papas. Quanto às camadas mais pobres( il popolo minuto: povo miúdo), estas tiveram acesso à produção que fora executada para os espaços públicos como estátuas e fontes nas praças , nas igrejas e nas confrarias de artesãos.

Cabe também a ressalva de que o Renascimento não foi a “recuperação integral” da Antigüidade, mas a sua releitura, sujeita aos valores e modismos do período entre os séculos XIV e XVI.

A estética renascentista propôs o retorno aos valores clássicos: arte mimética (a imitação da realidade com o objetivo de buscar a perfeição, segundo Aristóteles, forjando a idéia de respeitar o modelo adotado e dentro dele a busca da superação, com o auxílio da criatividade); a harmonia, a sobriedade (contenção dos sentimentos) e além desta recuperação da Antigüidade, o tema central foi o antropocentrismo (o homem como medida de todas as coisas) em detrimento do teocentrismo, favorecendo o surgimento de uma forma de cultura laica (não religiosa), a qual valorizava o individualismo. 

"O nascimento da Vênus" - Sandro Botticelli, Galleria degli Uffizi, Florença, 1485.

Tomemos um primeiro exemplo, o quadro “O nascimento da Vênus” obra do pintor florentino Sandro Botticelli(1445-1510), cujo próprio nome já identifica sua temática, a representação do nascimento da deusa romana do Amor, Vênus(Afrodite para os gregos) e, encomendada por Lorenzo di Pierfrancesco, primo de Lorenzo de Médici, o Magnífico.

Na pintura, a Vênus ocupa a posição central do quadro, dividindo de forma harmoniosa o espaço da composição: na sua direita se encontram a personificação dos ventos, os quais sopram e assim forma as ondas e as espumas do mar, das quais nasce a Vênus, sendo que esta está  em pé sobre uma concha e encobrindo-se com suas mãos e cabelos; a sua esquerda, vindo ao seu encontro, a personificação da Flora que lhe traz suas vestes.

Apesar do tema ser uma narrativa mitológica greco-romana, o cristianismo se faz presente através do pensamento neoplatônico de Botticelli, influenciado pelo filósofo Marsílio Ficino, o qual encorporou o pensamento de Platão a partir de uma visão cristã.

Dessa forma,  Botticelli representou a concha como uma alusão ao batismo, primeiro sacramento recebido, significado da inclusão na comunidade cristã e um contra-ponto ao paganismo e ao Pecado Original, pois só nas águas do batismo se encontra a Salvação. O pudor da Vênus é também outra referência greco-romana, o texto “O Banquete” de Platão, no qual aparecem duas imagens da Vênus: a Venus Vulgaris(Vênus Vulgar) representada nua, relação com o mundo material e a Venus Coelestis(Vênus Celestial), a qual representa a essência espiritual.

Outro ponto importante a ser notado é a idéia da mimesis, pois a natureza é o modelo e assim, se observamos a posição dos Ventos e a direção que eles sopram, notamos claramente o acompanhamento dos cabelos da Vênus, assim como o movimento dos tecidos segurados por Flora, que tem o panejamento empurrado próximo ao seu corpo. Estes movimentos ficam acentuados pela predominância das linhas curvas sobre as linhas retas que delimitam o horizonte. A simplicidade é vitoriosa e o espírito se eleva com beleza e equilíbrio.

Analisemos agora,  a pintura de Leonardo da Vinci (1452-1519) “A Última Ceia” encomendada pelo duque de Milão, Ludovico Sforza e pintada na parede do refeitório do convento dos dominicanos de Santa Maria delle Grazie em Milão ,entre 1495 e 1497.


A obra de Leonardo, assim como sua pessoa, foram objeto de inúmeras especulações desde a sua própria época aos nossos dias e ainda assim, preserva o encantamento , seja pela excelência de seu trabalho, seja pela diversidade de obras artísticas e de engenharia, sendo portanto, Leonardo da Vinci, o símbolo do conceito de Homem Universal (l’uomo universale) , signo das múltiplas potencialidades nos diferentes campos do conhecimento.
"A Última Ceia"


O tema desta obra é o momento da última ceia de Cristo e seus apóstolos, cuja importância é vital no culto cristão, uma vez que se manifesta  o dogma da transubstanciação (o pão se transforma em carne e vinho em sangue) e ao longo de dois mil anos se tornou o momento mais importante da liturgia cristã: a Eucaristia.

Sendo uma cena, presente no imaginário cristão , seja pelo texto bíblico, seja pela sua constante repetição na liturgia ao longo da trajetória do cristianismo, a pintura de Leonardo traz uma série de elementos de representação, compondo a imagem como uma peça teatral: num grande e suntuoso salão, Cristo e seus apóstolos estão reunidos.

Jesus ocupa o centro da grande mesa, típica de banquetes medievais, tendo a cada um dos lados dois grupos de três apóstolos, logo, uma composição harmoniosa e equilibrada. O ponto central da imagem se encontra atrás da cabeça do próprio Cristo, a qual junto com a moldura da janela imediatamente posterior compõe uma circunferência, pólo irradiador das linhas de perspectiva da composição, um das principais contribuições do Renascimento.

A atenção do Cristo está para o pão e o vinho, alimentos e metáfora de seu futuro destino, o sacrifício na cruz pela Humanidade. A posição de seus braços em relação à sua cabeça formam uma imagem triangular. Hipóteses para tal composição são inúmeras, destacando-se entre elas , as de caráter esotérico e místico, uma vez que os estudos herméticos e de alquimia foram muito comuns à época de Leonardo.

Não há como saber quais teriam sido as referências que guiaram a mão e a cabeça do pintor. Mesmo as referências presentes nos Evangelhos não oferecem muitos dados para uma resposta precisa. Talvez , uma questão possa ser levantada a partir das palavras imagem e representação.

A primeira tem origem na palavra latina imitago (imitação) que formou a palavra imago (imagem) e dela toda uma imensa família, como por exemplo, imaginação e imaginário. O conceito de imago vai muito além do “desenhar uma figura”, pois a idéia apreender o sentido de algo, transmitir um conhecimento. Enquanto, a segunda tem origem também no latim repraesentatio (representação) que significa “colocar algo no lugar daquilo que não está visível”, uma sugestão “daquilo que pode vir a ser”.

À guisa de conclusão, podemos entender que seja qual for a obra de arte observada, não é possível entendê-la como algo isolado, sem olhar seu autor ou autores e a sociedade que a produziu, sendo esta última a responsável pela elaboração de seus significados, que não podem ser limitados a um “código secreto” a ser decifrado ou escondido. Cada observador, pode atribuir uma imensa gama de significações, mas olhando para o passado nem sempre é possível recuperar na integra ou mesmo parcialmente todas as referências, uma vez que a sociedade que as criou não existe mais.

Se  nos compararmos com o Renascimento, também nos encontramos numa fase de transição e intensa efervescência cultural, mas talvez tenhamos modificado muito a nossa relação com as imagens, pois em muitos casos fomos educados para “só pensar” e deixamos assim de educar o nosso olhar de uma maneira mais completa, um pouco mais ampla do que o mero ato de identificar objetos, porque fomos esquecendo a importância dos gestos, dos símbolos, do “saber” e do poder que as imagens portam. Olhamos tudo muito rápido e enxergamos muito pouco.

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